O termo “comunidade” é usado cotidianamente, entretanto, na maioria das vezes de forma pouco rigorosa. Podendo significar coisas bastante distintas, de forma geral está relacionado ao lugar em que grande parte da vida cotidiana é vivida.
Autora que analisa este conceito com afinco é Bader B. Sawaia, trazendo alguns elementos bastante significativos, que serão expostos a seguir.
Para Sawaia (2008), o conceito de comunidade por muito tempo não fez parte do arcabouço teórico da Psicologia. Passou a fazer parte apenas nos anos 70, quando um ramo da Psicologia social se autoqualificou de comunitária. A descoberta da comunidade não foi algo exclusivo da Psicologia social. Fez parte de um movimento mais amplo que avaliou criticamente o papel social das ciências. No caso da Psicologia social, trouxe ganhos enormes, sobretudo no
de transformá-lo. Vale lembrarmos que é rotineiro o uso deste conceito de forma demagógica, significando compromisso com o povo e/ou união com o mesmo.
Dada a diversidade de significados e o uso demagógico citado há pouco, é importante, primeiramente, se discutir este conceito, suas múltiplas significações e o enfoque privilegiado. É na Sociologia, ciência emergente no início do século XIX, que este conceito ganha destaque, onde principalmente o foco está em diferenciar comunidade de sociedade.
NOTA
Karl Marx difere de forma significativa com os teóricos da sua época que traziam as diferenças entre comunidade e sociedade. Segundo ele, a sociedade é conflitiva, dado o que ele chama de luta de classes. No modo de produção vigente, o capitalista, o individualismo seria exacerbado e se demonstrando inimigo das relações comunitárias.
Na Psicologia, mais especificamente, este conceito aparece de forma bastante vaga entre os pioneiros, significando na maioria das vezes o elo entre o homem e a sociedade, ou então como sinônimo de sociedade. Wilhelm Wund, em 1904, no seu estudo sobre psicologia dos povos, apresenta o termo como sinônimo de interação coletiva. O fato é que nem mesmo na Psicologia social, que se volta à análise da relação homem/sociedade, o conceito de comunidade aparece como central. Em lugar dele, o conceito de grupo e interação social aparece de forma bem mais significativa.
Segundo Nisbet (apud SAWAIA, 2008, p. 50):
Comunidade abrange todas as formas de relacionamento caracterizado por um grau elevado de intimidade pessoal, profundeza emocional, engajamento moral [...] e continuado no tempo. O elemento que lhe dá vida e movimento é a dialética da individualidade e da coletividade.
Nesta tentativa de conceituação se percebe um aspecto fundamental, que é a relação face a face. É este um espaço não antagônico à individualidade, mas aquele que permite o amadurecimento e o desenvolvimento do ser humano no seu cotidiano.
De acordo com Oliveira (2003), existem algumas características que contribuem para a definição de comunidade, dentre elas a nitidez, ou seja, sabe-se onde ela começa e onde termina (limite territorial, claro). Cita ainda a homogeneidade, tendência para que o curso de uma geração é semelhante ao
percebe-se duas grandes categorias conceituais. A primeira está relacionada a uma noção territorial ou geográfica. Nesse sentido, comunidade pode ser entendida como um prédio, a vizinhança, um bairro, uma cidade. Pertencer a uma comunidade implica em um senso de pertencimento a uma determinada região. A segunda diz respeito à qualidade das relações humanas dentro de um determinado espaço. Nesta perspectiva, o lugar ou o espaço não garante a existência de uma comunidade e, sim, o processo interativo, o alto grau de intimidade pessoal, o compromisso moral e o alto grau de coesão social. Esta perspectiva parece ser a mais adequada.
O conceito de comunidade passa a ser introduzido de forma mais clara na área clínica, a partir da bandeira de humanização do atendimento ao doente mental e através das políticas propagadas por vários organismos internacionais, como ONU, BID etc. A intenção primordial era promover ações educativas e preventivas. A comunidade passa a ser tida como lugar de gerenciamento de conflito e de mudanças de atitude.
Na Psicologia, o trabalho com comunidades se revela bastante diferente, a partir da concepção adotada. O termo mudança social revela a diferença fundamental entre as duas vertentes principais da Psicologia social apresentadas nos tópicos 3 e 4 da Unidade 1. Na Psicologia comunitária de base norte-americana a mudança está atrelada à adequação dos setores atrasados e pobres, visando adaptá-los ao modo de produção atual. Já para a Psicologia sócio-histórica, a mudança social está embasada no ideal revolucionário, o de construir uma nova ordem dando fim à exploração.
Atualmente, tomados pelo processo de globalização, que de forma bastante simplificada pode ser conceituado como a eminência de uma “aldeia global”, surge inclusive um novo tipo de comunidade, chamada de comunidade virtual. A partir do avanço da informática e da internet, as relações passam a se dar também no espaço virtual. Grupos dos mais diversos, com interesses comuns, passam a trocar experiências e informações no ambiente virtual. A dispersão geográfica dos membros é uma característica dessas comunidades, bem como o uso de tecnologias de informação e comunicação que minimizam as dificuldades espaciais e temporais.
Está na pauta da discussão hoje a repercussão das chamadas redes sociais.
Quem já não ouviu falar em Orkut, Facebook? A grande questão que se coloca em relação ao uso exacerbado desse novo formato de relacionamento contemporâneo é a tendência descrita por vários estudiosos da área. Ao mesmo tempo em que estas tecnologias aproximam pessoas distantes, elas acabam distanciando pessoas próximas. Esta acaba sendo a tônica do nosso tempo, onde o anonimato, de vilão, passa a ser herói.
Para saber mais sobre o tema, consulte as seguintes obras abaixo listadas:
FORTIM, I.; FARAH, R. M. (orgs). Relacionamentos na era digital. São Paulo: Giz Editorial, 2007.
RECUERO, R. Redes sociais na internet. Porto Alegre: Sulina, 2010.