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IDEOLOGIA E ALIENAÇÃO

NOVELA E IDEOLOGIA

M. L. Aranha M. H. P. Martins Embora a escolha de um ou outro tema dependa do momento histórico, uma vez que é a importância de um assunto em determinado momento que vai possibilitar o envolvimento do espectador (resultando em bom índice de audiência que, por sua vez, eleva o preço da publicidade inserida naquele horário), os valores propostos não são muito diferentes ao longo do tempo. E isto se dá porque o discurso da telenovela é um discurso altamente ideológico.

O que isso quer dizer? Que a telenovela universaliza os valores de uma determinada classe, fazendo com que pareçam ser válidos para todos. Ao proceder assim, faz desaparecer os confrontos de valores das diversas classes, bem como os conflitos de interesses, apresentando uma visão homogênea da sociedade.

Considerando-se a diversidade cultural da população, a diversidade de interesses e de valores existentes no Brasil, a telenovela, ao propor os valores da classe média alta do Rio de Janeiro e de São Paulo para todo o país, está fazendo, nada mais, nada menos, propaganda ideológica, numa tentativa de construir a “massa” homogênea nacional, de gosto médio, para a qual é produzida. Vejamos alguns exemplos.

Apesar de retratar o cotidiano dos personagens, o trabalho, que em nossas vidas ocupa pelo menos metade do tempo em que estamos acordados, quase não aparece. Presidentes de firmas e altos funcionários são mostrados em umas poucas reuniões-chave, nas quais há sempre disputa de poder, assinando alguns papéis ou dando ordens a subalternos. Talvez seja por isso que garotos de vinte anos, que jamais trabalharam antes nem completaram sua educação, possam assumir as companhias herdadas e ter enorme sucesso. As secretárias, por sua vez, limitam-se a atender telefonemas, a evitar que pessoas indesejadas visitem seus chefes e que passem informações secretas aos inimigos. Além de muita fofoca, é claro. As empregadas domésticas servem para atender à campainha ou passar pela sala, de uniforme engomado, com um espanador na mão. Às vezes, são confidentes da patroa. Perguntamos: de onde vem o dinheiro? Como os personagens mantêm o padrão de vida mostrado pelas roupas, pelo tamanho das casas, pelos móveis e objetos de decoração? Mesmo quando, teoricamente, a casa é de um personagem pobre, não faltam a cristaleira, o sofá da moda coberto de tecido, adornos variados. O próprio padrão da casa é o mesmo da classe

dominante: quartos individuais, banheiro, sala, cozinha, cada cômodo com sua finalidade específica. Isso se estende, também, aos hábitos: até o café da manhã é tomado sentado, com a mesa posta segundo padrões da classe média alta.

Ninguém toma café no copo de geleia!

Desse modo, a pobreza, na televisão, é saneada, limpa, esterelizada. Ficamos com a pobreza idealizada que não faz ninguém perder o sono, embora saibamos da desigualdade da distribuição de renda no Brasil, onde 50% da população precisa sobreviver com apenas 10% da renda nacional. Não precisamos pensar no que seria preciso para que todos os brasileiros levassem uma vida digna.

Os conflitos que aparecem nas novelas se dão entre os representantes do Bem e os do Mal. Não há conflitos de classe ou de interesses sem que, necessariamente, alguém seja mau. Além disso, Bem e Mal são reduzidos à dimensão moral individual, jamais sendo levado em conta o social ou o político. Problemas sociais e políticos só são tratados em tom de farsa (como em “O Bem Amado”, “Roque Santeiro” ou “Que rei sou eu”?). As pessoas riem, reconhecem que é assim mesmo, mas acabam achando que o país não tem jeito, que nada pode ser feito. E, desse modo, jogando a culpa num passado histórico, o discurso ideológico mantém o mesmo estado de coisas, as mesmas pessoas ou classe de pessoas no poder, sem que sejam feitas mudanças sociais que beneficiem a maioria da população.

FONTE: Aranha; Martins (1998, p. 235-236).

Uma outra questão pertinente nesse momento é: qual a relação do conceito de ideologia com o de representação social? Em seu sentido positivo, ou seja, a

“boa ideologia” tem relação direta com o conceito de representação social, ou seja, são praticamente sinônimos, embora a teoria das representações sociais faça questão de ressaltar que busca compreender como se constrói o pensamento social, representações socialmente compartilhadas.

Em se tratando da ideologia no seu sentido negativo, ou da “má ideologia”, para Sawaia (1995) é inegável que a teoria das representações sociais é extremamente relevante e pertinente, no entanto, essa não se atém e não explica por que se tornam hegemônicos os conhecimentos que favorecem a servidão do ser humano.

Nesse sentido, o conceito marxista de ideologia desmistifica a ingenuidade do processo cognitivo, colocando-o como mediação nas relações de dominação e exploração socioeconômica. Essa parece ser a maior diferença em relacão às duas teorias.

Para concluir mais essa etapa, é importante destacarmos a contribuição do conceito de ideologia ao estudo da consciência pelo viés da ética, do juízo de valor e criticidade. Essas preocupações denotam uma preocupacão e a esperança de emancipação dos seres humanos e na melhoria das condições de vida da

abrir os olhos dos que, como fala Platão, vivem no mundo das sombras: vivem em um mundo enganoso. Trazendo as pessoas para o mundo das ideias, esses conseguirão enxergar o mundo o mais próximo possível do que ele realmente é, assim estarão essas emancipadas, mais livres e aptas a fazerem suas escolhas.

DICAS

Filme que trata com primor o conceito de ideologia no seu sentido negativo é o documentário “Muito além do cidadão Kane”. Produzido pela BBC de Londres, em 1993, e proibido de ser vinculado no Brasil, revela a história de uma das principais, se não a principal emissora de televisão do Brasil, a Rede Globo, mostrando o quanto que em determinados momentos da história ela foi tendenciosa e contribuiu para ocultar informações e direcionar os telespectadores a comportamentos de seu interesse e/ou de grupos específicos. Esse documentário pode ser encontrado na rede mundial de computadores.

DICAS

m estudo abrangente e bastante completo a respeito do conceito e da teoria da ideologia pode ser encontrado no livro “Ideologia e cultura moderna” de John B. Thompson (Petrópolis: Vozes, 1995). Já para uma leitura mais simples e introdutória, uma boa leitura é o livro “O que é ideologia” de Marilena Chauí (São Paulo: Brasiliense, 1983).

Ao nos referirmos aos conceitos de ideologia e alienação é importante termos claro que:

• Em se tratando de ideologia é importante a peculiaridade do termo. O mesmo apresenta dois sentidos, o que justifica falar-se em uma “boa” e uma “má”

ideologia.

• No seu sentido positivo, ideologia significa o conjunto de ideias a respeito de algo.

Em seu sentido negativo, trata-se do conhecimento utilizado interesseiramente e com a intenção de falsear a realidade. A maioria dos estudos em relação a esse tema se voltam à ideologia em seu sentido negativo.

• A ideologia, em seu sentido negativo, tem evidência com Marx, entendida como um instrumento de dominação.

• Apesar de utilizado indescriminadamente, o termo alienação refere-se ao mistério de ser e não ser ao mesmo tempo, sobretudo quando o trabalhador não se enxerga no produto produzido por ele ao vender sua força de trabalho aos proprietários dos meios de produção.

RESUMO DO TÓPICO 4

AUTOATIVIDADE

1 Você tem ideologia? A respeito dessa pergunta, defina ideologia a partir das duas grandes formas de compreendê-la. Feito isso, responda também: Você é alienado? Caso sim, acha justo isso?

TÓPICO 5