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3 AÇÃO, DISCURSO, PODER, AUTORIDADES E IGUALDADE NO

3.3 CONCEITO DE AUTORIDADE

“Visto que a autoridade sempre exige obediência, ela é comumente confundida como alguma forma de poder ou violência. Contudo, a autoridade exclui a utilização de meios externos de coerção; onde a força é usada, a autoridade em si mesmo fracassou.” (H. ARENDT. Entre o Passado e o Futuro, 2007, p.129)

A autora busca na definição romana de agir seu conceito sobre autoridade, visando encontrar explicação para o encantamento do povo alemão com Hitler e a falta de mecanismos intermediários entre a sociedade e o Estado para essa relação submissa e passiva sem reação ou defesa do contraditório. O vocábulo autoridade deriva do verbo latino augere, que significa aumentar, acrescentar, e sua origem advém da experiência política dos romanos quando da fundação das cidades.

Para Arendt, autoridade faz parte da teoria política e, no mundo moderno, principalmente no século XX, o que se identifica é uma constante crise de falta de autoridade. Essa crise, como ela fez questão de ressaltar é política em sua origem e natureza e se apresenta desde o início do século passado, quando, segundo ela, os movimentos políticos procuravam substituir os partidos políticos contribuindo, desse modo, para a quebra da autoridade tradicional, que se encontra espraiada em todos os níveis de relacionamento da sociedade, desde a família, onde os filhos não mais admitem a autoridade dos pais, até as salas de aula, recinto em que os professores não têm mais autoridade junto aos alunos. Além disso, também repercute no âmbito profissional das relações entre patrão e empregados, “onde a autoridade no sentido mais lato sempre fora aceita como uma necessidade natural”. (Idem, ibidem, p. 222)

Na visão da autora, contribuíram para o agravamento da crise, por um lado, a renúncia dos pais e dos professores a seus papéis legados pela sociedade – o de socializar as crianças – e, por outro lado, o abandono da autoridade no exercício da vida pública e política, que significou a renúncia, por parte do homem, ao exercício de seu direito de cidadão. Foi a partir desse contexto de crise que Arendt se propôs a discutir o conceito tradicional de autoridade, sua força e significado, enfocando, para tanto, a distinção entre autoridade, poder e violência.

Segundo a filósofa, seria primordial reconhecer, primeiramente, que além da autoridade, a tradição e a religião também alicerçaram a estabilidade e a solidez do mundo Ocidental. Quando a autoridade desapareceu, consumou-se o solapamento desconsumou-ses alicerces, e essa constatação a fez direcionar um olhar crítico e político para compreender a abrangência dessas perdas. (Idem, ibidem, p. 131)

Por um lado, a tradição, diz a autora, sempre foi o passaporte para se compreender o passado e ou presente, pela lente da memória. A perda da tradição significa uma crise da metafísica, pois o que se perde de fato são aqueles ideais transcendentes que permitem a compreensão do passado e que dotam o presente de significado. A perda da tradição, no entanto, não significa a perda do passado, mas o risco iminente de se perder o conhecimento da profundidade da existência humana, mesmo se admitindo que, por vezes, sem a tradição, o passado poderia nos revelar novidades. Entretanto, como diz Arendt, “a memória e a profundidade são o mesmo”. (Idem, ibidem, p. 130)

Por outro lado, a perda religiosa deve ser entendida não como uma perda de fé, e sim de confiança nas instituições religiosas, que passaram a ser vistas como enclaves de hipocrisia, corrupção, mentira, atraso e obscurantismo.

A fé não é passível de dúvida, ao contrário do que ocorre com a crença.

Contudo, prevalece a dúvida se a fé não foi atingida pela crise de suas instituições. (Idem, ibidem, p. 131)

A autoridade, por sua vez, deve ser considerada como o fundamento de permanência e durabilidade necessárias ao homem, devido a sua característica de mortal e passível de mudanças e futilidades. Com a sua perda, perde-se o fundamento do mundo político, mas não as capacidades do homem de criar, construir, renovar, alterá-lo, não só para si, como, também para os que virão. Com o seu desaparecimento elimina-se o mais importante no agir do homem, ou seja, a espontaneidade, pois que o homem, sem autoridade, se converte em um ser condicionado. Essa perda da autoridade representa a restrição da liberdade, em regimes autoritários, e a perda da liberdade, em tiranias e ditaduras. O afloramento de tais regimes no século XX explica-se, em parte, devido à crise (perda) da autoridade, da qual tiraram partido.

Em razão dessa crise e do oportunismo que determinados sistemas políticos viram nela, o homem contemporâneo não chegou a experimentar o que a autoridade realmente fora. Por isso sua afirmação – “tanto prática como teoricamente, não estamos mais em posição de saber o que a autoridade realmente é” – e proposta – “proponho-me, portanto, a reconsiderar o que a autoridade foi historicamente”. (Idem, ibidem, p. 129)

Nesse seu processo de recuperação da autoridade, Arendt traça uma de suas principais características, qual seja, a autoridade “exige obediência”, pois a “ordem autoritária (...) é sempre hierárquica” (Idem, ibidem, p. 129) Tal obediência não se estabelece nem via a “coerção pela força” nem pela

“persuasão através de argumentos”, (Idem, ibidem, p. 129), porque “a autoridade implica uma obediência na qual os homens retém sua liberdade”

(Idem, ibidem, p. 144). Em outros termos, “sua insígnia é o reconhecimento inquestionável por aqueles a quem se pede que obedeçam; nem a coerção nem a persuasão são necessárias” (Idem, ibidem, p. 129). Ou ainda,

A relação de autoridade entre o que manda e o que obedece não se assentam nem na razão comum nem no poder que manda; o que eles possuem em comum é a própria hierarquia, cujo direito e legitimidade ambos reconhecem e na qual ambos têm lugar estável predeterminado.(Idem, ibidem, p. 129)

Para Arendt, o fundamental da autoridade é sua legitimidade, que conduz os indivíduos a aceitá-la como um meio de justiça e segurança: ”sua garantia é o reconhecimento incondicional daqueles que devem obedecer”.

(Idem, ibidem, p. 129)

Insatisfeita com a resposta que tanto Platão quanto Aristóteles, melhor dizendo, que a Polis tinha para lhe oferecer, Arendt, em sua busca dessa obediência incondicional que subjaz à noção de autoridade, distancia-se dos pensadores gregos e aproxima-se dos pensadores romanos. Assim, ao analisar o âmago da política romana desde o início da República até o fim da era imperial em Roma, percebe ela que a atividade política tinha na “fundação”

o caráter sagrado e intrínseco de um poder coercivo. Nesse contexto, ela percebe também que a atividade política e a religião eram idênticas, pois gozavam da mesma base de poder. Conforme Arendt, “o poder coercitivo

[político] da fundação era ele mesmo religioso, pois a cidade oferecia também aos deuses do povo um lar permanente”, duradouro e eterno. (Idem, ibidem, p.

163)

Arendt reafirma a concepção inicial de que o poder só existe na participação plural dos homens na esfera pública reunidos para tratar e solucionar problemas coletivos. Portanto, diz: “A autoridade, em contraposição ao poder (potestas), tinha suas raízes no passado, mas esse passado não era menos presente na vida real da cidade que o poder e a força dos vivos” (Idem, ibidem, p. 164). Na época atual, são as ideologias modernas, independente se são políticas, culturais ou educacionais, que exercem no homem um poder imunizador contra a realidade mais do que qualquer religião ou filosofia. Isso sinaliza que a religião perdeu o elemento político e a vida pública perdeu a sanção da autoridade transcendente. (Idem, ibidem, p. 180)

Arendt afirma que a experiência romana da fundação parece ter sido esquecida e, com ela, o conceito de autoridade ficou perdido numa rede de emaranhados sem história, sem realidade e sem extrair nada da experiência diária. No entendimento da autora, o significado de todo esse processo é que os romanos, após terem santificado os conceitos gregos de tradição e autoridade, eliminaram historicamente a experiência política que não se encaixava nos seus parâmetros.

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