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3 AÇÃO, DISCURSO, PODER, AUTORIDADES E IGUALDADE NO

3.2 CONCEITO DE PODER

“o poder preserva a esfera pública e o espaço da aparência e, como tal, é também princípio essencial ao artifício humano, que perderia sua suprema raison d’etre se deixasse de ser o palco da ação e do discurso, da teia dos negócios e relações humanos e das histórias por eles engendradas.” (H. ARENDT, A Condição Humana, p.216)

A forma de organização política se dá por livre iniciativa entre os homens, semelhante, para Arendt, à experiência da polis grega: “o homem surge na esfera pública na presença de outros que vêem e ouvem o que ouvimos, isto nos garante a realidade do mundo e de nós mesmos”. (Idem, ibidem, p. 60) É nesse espaço público que podemos agir e vivenciar a verdade do outro, pois, por ser “assinalado pela diversidade e pela pluralidade e vivificado pela criatividade do novo,” ele “deriva do exercício da liberdade” dos seus membros constituintes. (LAFER, 2003, p. 20)

A polis grega traz consigo o princípio da pluralidade entre os homens, constituída que pelas palavras e ações destes, em suma, do exercício da liberdade. Nesse ponto reside a diferença cardinal que autora estabelece entre a polis e a casa: “[...] a capacidade humana de organização política não apenas difere, mas é diretamente oposta a essa associação natural cujo centro é constituído pela casa (oikia) e pela família”. (Idem, ibidem, p. 33)

O que Arendt revela é que o homem, para se relacionar com os outros, necessita aparecer, se tornar conhecido, participar, estar presente, mostrar sua capacidade, interagir, discutir, buscar o consenso. Esse aparecimento só se dá no espaço público e corresponde a uma espécie de segundo nascimento:

O surgimento da cidade-estado significa que o homem recebera além de sua vida privada, uma espécie de segunda vida, o seu bios politikos. Agora cada cidadão pertence a duas ordens de existência, e há uma grande diferença em sua vida entre aquilo que lhe é próprio (idion) e que lhe é comum. (Idem, ibidem, p.33)

A efetivação do poder só se dá através da palavra (léksis) – “na medida em que não são vazias e nem ocultam intenções” - e da ação (práksis) –

“quando não são brutais, violentas ou destrutivas”. O poder mantém a existência da esfera pública como o espaço potencial da aparência entre os homens que falam e agem. A palavra “poder” deriva de potência, ou seja, possibilidade não atualizada.

É da reunião entre os homens que nasce o poder como fruto de uma ação plural em que os mesmos converterão seus atos e palavras na essência de sua permanência, como destaca a pensadora:

O poder só é efetivado enquanto a palavra e o ato não se divorciam, quando as palavras não são vazias e os atos não são brutais, quando as palavras não são empregadas para velar intenções, mas para revelar realidades, e os atos não são usados para violar e destruir, mas para criar relações e novas realidades.(Idem, ibidem, p. 212)

O poder não é individual, portanto não é propriedade de um só homem.

Na verdade, ele existe quando pertence a um grupo, e sua permanência está condicionada à manutenção dessa união. Enquanto assim permanecer, o poder existirá independente de fatos materiais, existe apenas entre os homens e se manterá através da organização política, que é a forma desses homens se unirem e materializarem a ação. A condição fundamental para a manutenção do poder é a convivência, o agir e o discurso, cuja função é traduzir as vontades e as intenções do acordo celebrado no grupo, no seu entender, é a verdadeira condição humana da pluralidade. Essa condição preserva o poder na esfera pública e no estado de aparência, desde que as condições de diálogo e de ação contemplem o conflito, os interesses e as opiniões divergentes (Idem, ibidem, p. 213). Seu enriquecimento se dará sempre pelo uso dos atos

para manter o mundo em movimento e dar vazão à capacidade que o homem tem de realizar um novo começo e o discurso serve para celebrar e materializar as coisas novas originárias desse começo. O resultado disso é uma ação equilibrada e harmônica, constantemente reenergizada pela manutenção do poder.

O poder deve ser visto como um potencial de poder, assim como indicam as palavras gregas dynamis e potentia. Deve ser descaracterizado como um atributo ou qualidade de um único homem ou bem material do qual se pode dispor conforme a vontade do momento, seja intencional, seja fortuito.

Com isso a autora está se referindo

ao poder que passa a existir, quando as pessoas se reúnem e agem em concerto, e que desaparece assim que elas se separam. A força que as mantém unidas – que não é o espaço de aparência no qual se reúnem e nem o poder que conserva a existência desse espaço público - é a força da promessa ou do contrato mútuo. (Idem, ibidem, p. 212)

Arendt compreende o poder como sendo um fim em si mesmo, passível de ser dividido e equilibrado sem que isto possa caracterizar redução ou enfraquecimento. Dessa forma afirma, “a interação de poderes, com seus controles e equilíbrios pode, inclusive, gerar mais poder, pelos menos enquanto a interação seja dinâmica e não o resultado de um impasse” (Idem, ibidem, p.

214). É essencial para o poder contar com o apoio dos que lhe outorgam consentimento e não pelo uso dos meios de violência de que dispõe, porque, nesse caso, converte-se em tirania, isolando pelo medo e pela desconfiança os líderes e os subordinados.

A tirania é diametralmente a forma oposta à pluralidade em que os homens agem e falam em conjunto, considerando esta ultima como a condição única de todas as formas de organização política, independentemente de onde ocorra, seja no público, seja no privado (Idem, ibidem, p. 214). A tirania por si só cria as próprias forças para sua destruição e não gera poder suficiente para sua autossustentabilidade no espaço de aparência, a esfera pública. É dessa

análise que, para Arendt, o poder se legitima pelos atos e pelo discurso não violento. (Idem, ibidem, p. 214)

Segundo a autora, as realizações do homem correspondem à noção aristotélica de energeia (efetividade), ou seja, trata-se das ações que não têm um fim em si mesmo e não são obras acabadas. Toda atividade que tenha como preceito o desempenho é uma degradação da ação e do discurso como elementos basilares do pensamento político (Idem, ibidem, p. 219). Deve-se ressaltar que, para a autora, o fato de homens estarem trabalhando juntos não significa que haja, ali um espaço público e que a pluralidade exista. Pelo contrário, isso evidencia uma perda de identidade e de consciência, equiparando o trabalho a uma atividade social, da mesma forma como quando um grupo de indivíduos se reúne em uma festa ou em um restaurante. Por isso, a autora destaca que: “a sociabilidade que há nessas atividades, resultante do metabolismo do corpo humano com a natureza, não se baseia em igualdade, mas em uniformidade”. (Idem, ibidem, p. 215)

Esses grupos de trabalhadores que parecem agir como um só são a plena demonstração da ação antipolítica, dado haver apenas uma igualdade de desiguais. Como comenta Arendt, os trabalhadores precisam ser “igualados sob certos aspectos e por motivos específicos”, por exemplo, o salário. (Idem, ibidem, p. 227)

Poder e autoridade são dois fenômenos distintos, porém, geralmente, confundidos e Arendt alerta para a transcendência dessa distinção, uma vez que é muito fácil se detectar o cruzamento de ambos os fenômenos na vida diária, em virtude das ações e condutas abusivas originarias das relações de poder interpessoais. Autoridade, para Arendt, é um dos mais enganosos fenômenos políticos e diz respeito a uma relação hierárquica de mando e obediência. Quando a persuasão ou a violência são utilizadas, inexiste o respeito na relação entre quem manda e quem obedece.

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