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Conceito de causa decidida

2 VISÃO PANORÂMICA DOS INSTRUMENTOS PROCESSUAIS TENDENTES À

3.8 Recurso contra o julgamento do IRDR

3.8.1 Generalidades

3.8.2.4 Conceito de causa decidida

Nos termos constantes do art. 102, III, e do art. 105, III, ambos da Constituição Federal, a interposição dos recursos excepcionais pressupõe que exista uma causa decidida em única ou última instância. Tais disposições consagram a necessidade de esgotamento das vias ordinárias para que seja possível a apresentação do recurso especial ou extraordinário.

149 ARE 1.307.386 RG/RS, Rel. Min. Presidente Luiz Fux, Tribunal Pleno, STF, julgado em 06/05/2021.

Nesse sentido, o enunciado 281 de súmula do Supremo Tribunal Federal preceitua que “é inadmissível o recurso extraordinário, quando couber na justiça de origem, recurso ordinário da decisão impugnada”.

Conquanto o verbete tenha surgido em 1963, quando estavam em vigor uma Constituição e um Código de Processo Civil anteriores aos atuais, a exigência se mantém hígida e de todo aplicável não apenas ao recurso extremo como também ao recurso especial150.

Por conta da exigência de que exista uma causa decidida, o Supremo Tribunal Federal já foi chamado a se manifestar sobre o preenchimento desse requisito nos casos em que por força de uma arguição de inconstitucionalidade ocorre a cisão do julgamento do processo entre o plenário ou órgão especial do Tribunal responsável pela análise da validade do ato normativo e o órgão fracionário responsável pelo julgamento da lide propriamente dita.

O posicionamento que prevaleceu no âmbito da Corte de vértice foi o de que nesses casos o julgamento da causa apenas ocorre quando o órgão fracionário aprecia o caso que lhe foi submetido, e não quando o órgão especial se pronuncia sobre a constitucionalidade do ato normativo, como se infere da leitura do enunciado 513 da súmula do Tribunal.151

A par do entendimento em tela, convém analisar se o julgamento do IRDR satisfaz a exigência da “causa decidida”, ou se, tal qual a manifestação do órgão especial em sede de arguição de inconstitucionalidade, ele não basta para autorizar a interposição dos recursos de direito estrito.

Para parcela da doutrina, como o julgamento do IRDR se limitaria à fixação de uma tese jurídica em abstrato seria inadequado se falar em uma causa decidida, eis que no incidente não se julgaria concretamente uma lide. Segundo esse posicionamento seria inconstitucional admitir a interposição de recurso excepcional em face do julgamento do incidente152.

Em sentido contrário, há entendimento doutrinário no sentido de que o julgamento do IRDR caracterizaria sim o julgamento de uma causa, seja porque o

150 ALVIM, Arruda. Manual de direito processual civil. 19. ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2020, p. 1.500.

151 Súmula 513: A decisão que enseja a interposição de recurso ordinário ou extraordinário não é a do plenário, que resolve o incidente de inconstitucionalidade, mas a do órgão (câmaras, grupos ou turmas) que completa o julgamento do feito.

152 CAVALCANTI, Marcos de Araújo. Incidente de resolução de demandas repetitivas (IRDR), São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2016, p. 396-397.

papel contemporâneo da jurisdição não se limita ao de pacificar uma lide seja porque não se justifica a adoção de uma concepção restrita para o termo “causa decidida”

quando se admite a interposição de recurso excepcional contra decisões que não dizem respeito ao mérito da causa153.

Com todo o respeito que merece a primeira corrente, a segunda aparenta melhor se alinhar ao ordenamento jurídico brasileiro.

O raciocínio por trás da exigência de esgotamento da instância é o de que os recursos excepcionais não são cabíveis quando for possível a interposição de recursos ordinários, hipótese que se verifica quando do julgamento do IRDR.

Já há muito se admite que o objeto do recurso não seja propriamente o julgamento definitivo do mérito da causa154, sendo possível sua apresentação em face de decisão terminativa ou proferida no bojo de agravo de instrumento (enunciado 86 da súmula do Superior Tribunal de Justiça155) ou em fase de cumprimento de sentença.

Ademais, caso prevaleça o entendimento da primeira corrente, na hipótese de ocorrer a desistência do recurso admitido como causa-piloto a decisão do IRDR se tornaria virtualmente irrecorrível, pois desapareceria a lide do caso concreto que deu ensejo ao incidente, em prejuízo do bom funcionamento do sistema de formação de precedentes obrigatórios como um todo.

Não obstante as ponderações apresentadas, curial se revela apontar que no âmbito jurisprudencial a primeira corrente aparenta gozar de maior prestígio.

Isso porque a Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça já teve a oportunidade de externar entendimento restritivo sobre o conceito de causa decidida ao apreciar um recurso especial156 interposto em face de acórdão proferido em sede de IRDR que havia sido intentado pela Defensoria Pública com o intuito de revisar tese jurídica firmada em outro IRDR que havia sido anteriormente apreciado por Tribunal de Justiça.

153 TEMER, Sofia. Incidente de resolução de demandas repetitivas. 5. ed., rev., ampl. e atual. Salvador: JusPodivm, 2022, p, 279-282.

154 MEDINA, José Miguel Garcia. Curso de direito processual civil moderno. 3. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2017, p. 414, versão digital.

155 Súmula 86: Cabe recurso especial contra acordão proferido no julgamento de agravo de instrumento.

156 REsp 1.798.374/DF, rel. Min. Mauro Campbell Marques, Corte Especial, STJ, julgado em 18/05/2022.

No caso, no que interessa ao tema, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios ao julgar o primeiro IRDR157 fixou tese158 jurídica no sentido de que a incapacidade temporária de uma pessoa não impede que ela seja parte em processo que tramita perante o Juizado Especial da Fazenda Pública.

Decorrido algum tempo a Defensoria Pública apresentou pedido de revisão da tese, sem indicar uma lide que tenha concretamente levado ao Tribunal de Justiça a apreciação da matéria em recurso, remessa necessária ou ação originária, sustentando que a tese deveria ser mais abrangente para que não apenas pessoas temporariamente incapazes pudessem litigar no Juizado Especial da Fazenda Pública, mas também pessoas com incapacidade não transitória.

O pedido de revisão foi recebido como IRDR pela Corte local, que no mérito rejeitou o pleito. Registra-se, por oportuno, que como o incidente foi conhecido a despeito de não haver um caso concreto em julgamento pode-se inferir que o Tribunal de origem prestigiou a adoção do procedimento-modelo ao analisar os requisitos de admissibilidade do IRDR.

Contra tal decisão foi interposto o recurso que levou a Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça a se debruçar sobre a viabilidade de conhecimento de recurso especial que desafia acórdão em que não houve o julgamento de um caso concreto.

Ao se debruçar sobre a admissibilidade recursal do apelo nobre a Corte Especial concluiu que o recurso não poderia ser conhecido, pois a fixação de tese jurídica em abstrato pelo Tribunal de Justiça não atenderia ao requisito constitucional da causa decidida previsto no art. 105, III, da Constituição Federal.