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2 Factores psicossociais

Capítulo 3 Estratégias de coping

2. Conceito de coping

Lazarus e Folkman (1984) definiram coping como o conjunto de comportamentos de base cognitiva, em mudança constante, que se destinam a responder a exigências internas ou externas que excedem os recursos da pessoa. Segundo Tap et al. (2005) o termo coping é usado para especificar os comportamento da pessoa face ao stresse, ou seja, o esforço desenvolvido para gerir as situações de stresse. Para Lazarus et al. (1985) quando o coping é ajustado a determinada situação conduz a uma situação de bem-estar e de saúde. Os esforços de coping podem ser direccionados para o problema em si ou para as reacções emocionais por ele desencadeadas. Na maior parte dos casos de coping há uma tentativa de lidar com o problema e com a resposta emocional. Se a pessoa sente que as suas capacidades de lidar com o problema são fracas, face às exigências, o nível de stresse aumenta. Se a capacidade de coping for sentida como alta, face às exigências, pode surgir desinteresse e tédio. A situação ideal surge quando existe um equilíbrio entre as

capacidades de coping e as exigências ambientais. Segundo Bishop (2005) o ser humano tem uma tendência natural para procurar a saúde, evitar a doença e a dor, pelo que, perante acontecimentos causadores de stresse, o organismo tentar ajustar-se aos mesmos da melhor forma.

As pessoas lutam contra o stresse de várias formas. O mais importante são as estratégias de coping activas que revelam um esforço para continuar activo e enfrentar o stresse. Pelo contrário, o coping passivo implica uma dependência de terceiros ou de substância para lidar com a situação (Turk & Okifuji, 2002). Nele se inclui o apoio dado por familiares, amigos e instituições a nível emocional, material e social. Este apoio social pode contribuir para a resolução de problemas que estão na origem do stresse. Pode também evitar o aparecimento ou combater hábitos prejudiciais adquiridos para evitar o stresse. Segundo Nunes (2001), praticamente todos os autores consideram que as estratégias de coping têm um número limitado de dimensões. Folkman e Lazarus (1980) descreveram duas estratégias de coping: uma determinada pela emoção e outra pelos problemas. No coping focado para a emoção existem estratégias para se distanciar do problema tentando evitar que haja uma resposta emocional. Não são tomadas atitudes para resolver o problema ou para evitar a sua repetição. Há uma associação entre o coping emocional e problemas de saúde dado que normalmente são adoptados hábitos e estilos de vida pouco saudáveis. No coping orientado para o problema há uma tentativa de resolver a situação tentando escolher a solução que apresenta maiores benefícios e menores inconvenientes. Pode haver um coping misto centrado na a emoção e no problema. Na reapreciação positiva a pessoa concentra-se nas eventuais coisas boas da situação que está a atravessar.

Tap et al. (2005) consideram que as estratégias de coping envolvem o campo comportamental, o campo cognitivo e o campo afectivo. O campo comportamental está

relacionado com os processos usados pela pessoa para preparar e gerir a acção, o campo cognitivo trata a informação relativa ao acontecimento e o campo afectivo orienta as emoções e os sentimentos da pessoa. Da conjugação destes três campos podem surgir seis estratégias de coping que incluem: focalização, suporte social, retraimento, conversão, controlo e recusa.

A estratégia de focalização implica uma concentração no problema que pode ser cognitiva, activa ou emocional. A estratégia cognitiva implica uma análise da situação e no controlo activo há uma concentração no problema e na sua solução. Na estratégia emocional podem surgir sinais de irritação, agressividade e culpabilidade condicionados pelas emoções.

A estratégia de suporte social caracteriza-se pela necessidade de ajuda podendo incluir cooperação, suporte social informativo e suporte social emocional. Na cooperação há uma tentativa de resolver a situação através de um trabalho colectivo. No suporte social informativo a pessoa sente necessidade de compreensão do ponto de vista cognitivo e pede conselhos. O suporte social emocional implica necessidades afectivas que incluem ser ouvido e reconfortado. Goldberg (1993) considera que o suporte social pode ser uma estratégia para compensar a restrição de actividade imposta pela doença. Na mesma linha Feldman (1999) verificou que a intensidade da dor crónica estava associada ao suporte social sentido pelo doente no dia anterior à avaliação. Donelson (1999) pensa que a religião, ao proporcionar uma oportunidade de convívio social, contribui para as estratégias de coping de suporte social.

Na estratégia de retraimento pode existir retraimento social e comportamental, retraimento mental e adictividade. No retraimento social e comportamental a pessoa afasta- se dos outros o que conduz a uma rotura das interacções sociais. Keef (1986) considera que a dor crónica leva ao aparecimento de problemas familiares, assim como a um

crescente isolamento social. O retraimento mental acompanha-se de uma tentativa de esquecer o problema. A adictividade é uma forma defensiva de compensação com a ingestão de medicamentos, comida e droga. Estudos de imagem cerebral em que se verifica uma alteração do córtex cerebral em doentes com dor crónica podem ajudar a compreender este comportamento. Apkarian et al. (2004 a) estudaram o cérebro de doentes com dor crónica através de Ressonância Magnética e verificaram que havia alterações a nível do córtex frontal tendo relacionado estas alterações com distúrbios emocionais e dificuldade em tomar decisões. Nos doentes com lombalgia crónica as alterações dos lobos frontais podem levar a uma estratégia de refúgio na medicação não tentando ultrapassar a doença.

A estratégia de conversão pode incluir conversão comportamental, aceitação e conversão pelos valores. Na conversão comportamental há uma mudança do comportamento. A aceitação implica uma anuência ao problema qualquer que ele seja. Na conversão pelos valores a pessoa entrega o problema a Deus e adopta uma ideologia religiosa ou uma filosofia de vida. A procura da religião para lidar com o stresse dá origem ao coping religioso (Panzini & Bandeira, 2005). Este responde a uma procura de: conforto espiritual e de um significado para a vida. As estratégias de coping religioso têm sido encontradas em situações de doença, incapacidades, morte e guerras. Em relação aos doentes com cancro, Dunkel-Schetter et al. (1992) verificaram, numa amostra de 603 doentes, que o coping religioso desempenhou um papel importante na forma de lidarem com a sua doença. Lago–Rizzardi (2010) refere que as actividades religiosas podem desencadear um aumento da activação do córtex pré-frontal levando a uma maior eficiência do eixo hipotálamo e hipofisário. Nos indivíduos mais espirituais ocorre uma elevação de neurotransmissores envolvidos na dor: GABA, serotonina e dopamina. Este pode ser um dos mecanismos envolvidos no controlo da dor.

Quanto à estratégia de controlo, ela pode implicar regulação das actividades, controlo cognitivo e planificação e controlo emocional. Na regulação das actividades a pessoa procura tempo para reflectir evitando juízos e decisões precipitadas. No controlo cognitivo e planificação há uma tentativa de resolver o problema de forma lógica. O controlo emocional implica uma dissimulação das emoções para que os outros não se apercebam. Fawzy (1990) considera que as estratégias de coping cognitivo em que a pessoa aceita a doença e tenta analisar a melhor forma de lutar contra ela, evidenciam maior sucesso.

A estratégia de recusa exprime uma incapacidade de perceber e aceitar o problema e pode incluir a distracção, a denegação e alexitimia. Na distracção a pessoa tenta fazer qualquer coisa agradável fingindo que o problema não existe, na denegação há uma tentativa de esquecimento do problema e na alexitimia há uma dificuldade em assumir e exprimir as emoções.

As estratégias de coping descritas são orientadas para uma acção activa ou passiva. Não se trata de acções automáticas porque exigem um esforço. Brennan (2001) salienta a importância das estratégias de coping no doente com cancro. Estes doentes têm de enfrentar uma alteração da sua envolvente social, uma mudança do estilo de vida e tratamentos muito agressivos. As estratégias de coping podem contribuir para uma melhor adaptação a todos os problemas e contribuir para o sucesso do tratamento.

A literatura científica sobre estratégias de coping e lombalgia é escassa. Contudo Shaw (1993) verificou que os níveis de coping estavam relacionados com a incidência de lesões musculo-esqueléticas. Feuerstein (1995) acentua a importância da avaliação das estratégias de coping nos doentes com lombalgia de forma a conduzir o tratamento de fisiatria da forma mais eficaz possível. Larsen (2006) verificou uma relação clara entre o

coping e a lombalgia numa amostra de 40.095 recrutas na Suécia. Nesta amostra a queixa

mais frequente, a nível de saúde, eram os problemas musculo-esqueléticos (21%).