• Nenhum resultado encontrado

4 Valores humanos

2. Espiritualidade e religião

A religião sempre foi universal não havendo memória de povo que não tenha possuído alguma forma de religião (Burket, 1996). A ubiquidade da religião é a prova da

sua resistência às mais drásticas mudanças sociais e económicas tendo sido transmitida de geração em geração desde tempos imemoriais. Durante parte do século XX as ciências sociais enunciaram a teoria da secularização que implicava o desaparecimento da religião face aos avanços tecnológicos. Nas últimas duas décadas esta teoria tem sofrido um grave revés com o enfraquecimento das ideologias e fortalecimento da religião. Contudo, Morris e Ingelehart (2004) afirmam que ainda é cedo para dizer que Comte, Durkheim, Marx e Weber se enganaram sobre o declínio religioso.

A religião ao contrário da espiritualidade pode ter facetas violentas. Na última década morreram mais pessoas por motivos religiosos do que em qualquer outra época (O’Brien, 2007). Passou-se da fase em que as sociedades seculares atacavam a religião para uma era de violência dos grupos religiosos contra as sociedades seculares. A secularização não deve ser vista como um processo de degenerescência do fenómeno religioso mas como uma reconfiguração de algo omnipresente (Mourão, 1998).

Embora haja quem não distinga espiritualidade e religião estas duas palavras têm significados diferentes. A religião inclui uma tradição legitimada por uma memória colectiva e uma pessoa espiritual pode não estar afiliada a uma religião. Esta memória colectiva é uma das causas que nos leva a pensar que sabemos o que é religião até ter de a definir. A dificuldade na definição resulta também de a religião lidar com o não óbvio, com o invisível e como tal não estar sujeita a uma verificação empírica. Religião (do Lat.

Religio) significa ligação, um relacionamento com Deus. Durkheim (2000) considerava

que uma das características do religioso é o sobrenatural. O conceito de sobrenatural inclui o misterioso, o incompreensível, o incognoscível, ou seja, tudo que ultrapassa o alcance do entendimento. Para Ambrósio (2004) a religião pode ser definida como um conjunto de crenças, práticas, rituais e éticas que exprimem e manifestam o relacionamento com o Divino ou o Sagrado. Otto (2005) introduziu o conceito de numinoso relacionando-o com

o sagrado e o divino e considerou que o numinoso existe em todas as religiões. Segundo Usarki (2004) a palavra numinoso vem do latim e significa divindade representando a forma mais abstracta do sagrado e de acordo com uma visão dualista o complemento do profano. O sagrado produz um sentimento de mistério e de fascínio que é fruto da religião. Eliade (1999) considerou que as revelações do sagrado são um elemento chave na história humana. O ser humano alcança na relação com o sagrado a essência da religião através de formas culturalmente estruturadas e que incluem símbolos, rituais e expressões estéticas (Eliade, 1969). Em todas as épocas a humanidade tem desejado ultrapassar as fronteiras dos sentidos e ir ao encontro do Divino (Bancroft, 1991). Todas as religiões são uma mensagem e um caminho para a salvação entendida como libertação de uma situação de ameaça, sofrimento ou morte. Na demanda da salvação a pessoa procura os meios que assumem características próprias em cada religião. Segundo Küng (2004), a religião, por meio da fé, transmite uma visão da vida, uma atitude perante a vida e uma norma para viver bem. Em todas as culturas os homens que querem viver bem confrontam-se com as mesmas grandes questões. Por um lado, qual a sua origem e qual o seu destino e, por outro, como superar o sofrimento e a culpa. Na verdade, embora inseridos em culturas distintas e praticando religiões diferentes, os homens obtém respostas semelhantes. Durkheim (2000) considerava que não existia nenhuma religião falsa, porque todas elas respondem, de formas diferentes, a determinadas condições e necessidades da existência humana. Há pessoas que não pertencendo a nenhuma religião ou movimento se afirmam espirituais porque têm pensamentos ou experiências de carácter sagrado. O sagrado é a forma visível do fenómeno religioso e encerra uma ambivalência ao dar, ao mesmo tempo, segurança e bênção e constituir uma intimidação e uma maldição (Citrini, 2004).

Ao contrário da espiritualidade, a religião professada relaciona-se com os níveis de literacia e riqueza. Segundo Cabral (2001) o inquérito permanente às Atitudes Sociais dos

Portugueses (ASP) revelou uma religiosidade católica tradicional muito difundida em

Portugal. A maioria dos Portugueses identifica-se com um universo cultural católico e 90% da população portuguesa é baptizada na Igreja Católica (Gonzaga, 2001). Através destes inquéritos, noutros países, foi possível estabelecer comparações. O número elevado de analfabetos entre os católicos portugueses contrasta com o elevado nível de literacia dos protestantes na Noruega. Zingales (2004) refere que os países mais desenvolvidos economicamente, do Norte da Europa à América do Norte passando pela Austrália, têm religiões protestantes. Ao contrário os muçulmanos estão na cauda do desenvolvimento económico excepto quando têm petróleo. Weber (2006) desenvolveu um estudo comparativo das várias religiões mundiais e das suas relações com o desenvolvimento económico tendo verificado que a maioria dos detentores do capital, dos dirigentes de empresas, e dos trabalhadores qualificados eram protestantes. Ao analisar este facto Weber (1930) concluiu que o protestantismo não estava na origem do capitalismo mas que os protestantes encaravam o sucesso económico como uma graça divina e que trabalhavam como vocação e não para acumular riqueza.

O conceito de transcendência é importante devido às suas relações com espiritualidade e religião. A dimensão espiritual é necessariamente inconsciente dirigindo o homem para fora de si mesmo e conduzindo-o à transcendência (Frankl, 1993). Para Zeki (2009) a religião é mais do que uma simples manifestação de espiritualidade, passando mais por um conhecimento interior do que por um conhecimento exterior. A espiritualidade, por seu lado, é muito mais ampla do que qualquer tentativa de enquadramento numa determinada prática religiosa (Correia, 1998). O sagrado e o profano estão intimamente ligados à religião: de um lado temos o profano que inclui o vulgar, o homem e o terrestre do outro lado está o mundo sagrado que corresponde ao transcendente,

ao divino e ao sobrenatural (Graça, 2000). Torna-se necessário clarificar as relações entre espiritualidade e transcendência.