1.5 A ALTERIDADE SOB CONCEITOS
1.5.3 Conceito de cultura
Qualquer tentativa que se empreenda no intuito de definir a palavra cultura nos remeterá ao campo da suscetibilidade, uma vez que, desde o seu surgimento no século XVIII, o termo sempre esteve envolvido em desacordos inerentes à ordem simbólica que o atravessa, interferindo no sentido de sua aplicação a esta ou àquela
11 A invenção da noção de cultura tem sua gênese na sociedade ocidental. Embora os estudos
etnográficos afirmem que toda sociedade possui a sua cultura, foi aquela sociedade que primeiramente se colocou a questão, definindo e conceituando aquela noção. Conforme Couche (2002), para compreender o conceito do termo e seu uso nas Ciências Sociais, necessário se faz constituir sua genealogia, seu conceito científico e sua evolução semântica.
realidade. Entretanto, atualmente, se aceita, mesmo que sob ambiguidades, a noção de cultura, definida em seu sentido amplo, como modos de vida e de pensamento. No campo das Ciências Sociais, a noção de cultura tem sido apreendida como o instrumento adequado para se interpretar as diferenças entre os povos, visto que as explicações naturalizantes não dão conta da complexidade humana, pois que mesmo as funções ligadas às necessidades fisiológicas do homem são informadas pela cultura. As respostas dadas a essas necessidades variam de uma sociedade para a outra, conforme assinala Cuche (2002).
Em defesa da visão das práticas comunicativas numa abrangência interdisciplinar inerente à LA, Benke (2003) analisa a aproximação entre os Estudos Culturais e a LA. Os dois campos do conhecimento estão envolvidos com questões da configuração social e dos problemas sociais do nosso tempo, buscando entender a modernidade e os problemas da vida numa sociedade heterogênea e complexa. Ambos podem possuir suas diferenças, entretanto essas não os incompatibilizam, pois possuem a tendência de transgredir, cada um, os territórios socialmente e institucionalmente definidos, com a LA teorizando a cultura e os Estudos Culturais avançando nos textos culturais com métodos linguísticos.
De acordo com Benke (2003), os Estudos Culturais percebem, como “cultura”, a complexa configuração histórica de uma rede social de relações, obrigações, expectativas, normas e tradições. Esse campo do conhecimento busca aproximar-se de um entendimento da interface entre a sociedade e o individual, localizando o individual no social como um todo, fazendo uso das teorias da identidade pessoal e identidade de formação nas quais os humanos são vistos como produtos, simbólicos, históricos e regionalmente contextualizados e simbolicamente estruturados.
Acrescenta ainda que a ciência cultural tenta entender o “universo social” como a configuração de uma construção simbolicamente mediada, uma realidade simbólica, que é dada por um universo simbólico através da mass media, filmes, etc. Assim, a ciência cultural, de certa forma, tenta mapear o espaço entre o individual e a sociedade, como um campo estruturado simbolicamente, e, com isso, suas pesquisas contribuem para o nosso entendimento da relação entre o individual e a sociedade, assim como um campo simbolicamente estruturado pode ser compreendido como a contribuição da pesquisa para a ciência cultural.
no uso simbólico, entendimento e produção, que está preocupado com o instante processual de toda situação concreta em instituições, no terreno público ou na esfera privada. A LA aborda as questões da condição de ser moderno, começando de um entendimento das circunstâncias, do aspecto discursivo textual, de narrativas de vida. Em suma, se os Estudos Culturais contribuem para um entendimento mais complexo daquelas narrativas de vida, as pesquisas em LA podem colaborar para que se entenda o que está acontecendo para além da situação social imediata, na leitura e interpretação dos dados.
Entretanto, dentro do campo epistemológico, o próprio termo “cultura” não está destituído de conflitos (SANTOS, 2006), ao se pensar o seu conteúdo histórico e em seus aspectos científico, sociológico e semântico quando, através de um processo de aculturação, as hierarquias sociais buscam determinar as hierarquias culturais, são desconsideradas, desse modo, a autonomia e a capacidade de resistência das classes populares; ou quando o próprio campo teórico onde as noções de cultura, natureza e sociedade se inserem, é abalado por uma crise, como é o caso das teorias sociais clássicas diante do processo de globalização.
De acordo com Santos (2006), a globalização é um processo ambivalente na sua tentativa de homogeneização, pois atinge os indivíduos de maneiras diferentes, encontrando obstáculos nas diversidades de pessoas e lugares; mas tem atuação direta ou indireta sobre todos os aspectos da existência de uma grande parte da humanidade, interferindo nos comportamentos ligados à economia, à política, às relações interpessoais e à própria subjetividade.
Em relação àquele processo de aculturação, pode-se observar a imposição de uma cultura de massa aliada ao mercado voraz em seu empenho por uma verticalização unificada dos lugares e sociedades. Uma conquista que não consegue celebrar sua eficácia, visto que encontra obstáculos provenientes da resistência da cultura popular. Essas culturas convivem em seu sincretismo e, nessa configuração, a cultura popular assume a forma de espetáculo genuíno e exótico dentro dessas novas técnicas do poder.
Os “de baixo” não dispõem de meios (materiais e outros) para participar plenamente da cultura moderna de massas. Mas sua cultura, por ser baseada no território, no trabalho e no cotidiano, ganha a força necessária para deformar ali mesmo, o impacto da cultura de massa [...] gerada de dentro, essa cultura endógena
impõe-se como um alimento da política dos pobres, que se dá independentemente e acima dos partidos e das organizações. (SANTOS, 2006, p.144-145).
2 A ESCOLA COMO O ESPAÇO DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES EM EJA: UMA UTOPIA POSSÍVEL?