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1.5 A ALTERIDADE SOB CONCEITOS

1.5.1 O conceito de ideologia

Na perspectiva de uma formação docente “descolonizadora” e pela necessidade apontada na minha trajetória pessoal e profissional de se entender os conceitos de raça, racismo, preconceito de cor ou de raça, preconceito linguístico, creio que seria relevante trazer as leituras que fiz acerca do que se entende por Ideologia, nos estudos de Bakhtin (1999) e de Thompson (1990). Interessado em esclarecer contradições entre a filosofia da linguagem e a teoria marxista da criação ideológica, Bakhtin (1999) nos diz que não pode existir ideologia sem signos. Na realidade natural e social, existem corpos físicos, instrumento de produção ou produto de consumo. Tais elementos não estão dissociados de outra realidade que lhe é externa e podem se transformar em signos quando lhe imputamos um valor simbólico, fazendo com que o objeto/signo adquira um sentido que ultrapasse as suas propriedades, dentro da esfera ideológica, ao refletir e refratar fenômenos do mundo exterior.

Dentro do campo da criatividade ideológica, o autor traz os exemplos do pão e o vinho, como produtos de consumo e como símbolos religiosos no Cristianismo, o martelo e a foice como instrumentos de produção e como emblemas políticos na União Soviética. O universo de signos é regido pelo domínio do ideológico no sentido de uma correspondência mútua na associação do universo particular ao

simbólico, sem que suas particularidades sejam apagadas nesse processo de clivagem.

De acordo do Bakhtin (1999), se a palavra é o signo mais puro e o mais indicado em sua representação do fenômeno ideológico, é a palavra também um signo neutro e pode preencher qualquer função ideológica específica. O caráter semiótico é a marca fundamental dos fenômenos ideológicos e cada campo de criatividade ideológica é autônoma, no sentido de possuir seu próprio modo de orientação a depender da conveniência, da intencionalidade no conjunto da vida social.

É consenso na ciência social que o termo ideologia configura-se como um dos mais matizados por uma abundância de significados contraditórios, arbitrários, ambíguos, o que torna complexa a tentativa de conceituá-lo (THOMPSON, 1995; LÖWY, 2002). Esse último autor, seguindo o percurso histórico do termo, nos diz que este foi “literalmente inventado” (p.11), em 1801, por um filósofo francês chamado Destutt de Tracy como um subcapítulo da zoologia, isto é, o estudo do comportamento dos seres vivos. Nesse sentido, ideologia é o estudo científico das ideias e estas são o resultado da interação entre o organismo vivo, a natureza e o meio ambiente.

Anos mais tarde, Napoleão retoma a palavra, agora com um sentido pejorativo, para criticar os filósofos franceses, visto por aquele como “ideólogos”, ou seja, “[...] metafísicos que fazem abstração da realidade, que vivem em um mundo especulativo” (LÖWY 2002, p.11). Por sua vez, Marx e Engels, a exemplo de Napoleão, utilizam o termo para criticar os filósofos alemães pela maneira abstrata e ideológica com a qual tratavam a filosofia e a realidade alemã, sem procurar criticamente o laço entre a produção das ideias e as condições sociais (BRANDÃO, 2004; CHAUÍ, 2004).

Em 1846, em seu livro Ideologia Alemã, Marx reler o termo sob o conceito de “ilusão, falsa consciência, concepção idealista na qual a realidade é invertida e as idéias aparecem como motor da vida real” Löwy (2002, p.12). Sabe-se que as classes dominantes produzem as ideias, e estas são as ideologias dominantes da sociedade. As classes dominantes podem ser compreendidas pelos teóricos, os ideólogos, os intelectuais. A separação entre o trabalho intelectual e o trabalho material configura uma aparente autonomia aos que “pensam”, e o resultado dessa produção mental passa a ser a expressão das ideias da classe dominante e, por

conseguinte, deve ser a ideia de todos. Para que esse objetivo seja alcançado, é preciso eliminar “[...] as contradições entre força de produção, relações sociais e consciência, resultantes da divisão social do trabalho material e intelectual” (BRANDÃO, 2004, p.21).

A ideologia, nesse sentido, deve criar na consciência dos homens outra realidade como se fosse a realidade, e, para que essa visão ilusória do real tenha efeito, aquela organiza-se em um sistema de ideias e valores, condutas prescritivas aos membros da sociedade, orientando-os no que pensar, como devem pensar, o que valorizar, o que devem e como devem fazer. É esse sistema lógico e coerente de representações, de normas e regras, criado pela ideologia, que se apresenta como explicação teórica e prática das relações sociais, mesmo que, paradoxalmente, nada possa ser explicado para que se preserve intacto aquele mundo fictício, recoberto estrategicamente por “lacunas”, “silêncios”, “brancos” (BRANDÃO, 2004, p.22).

Althusser (1970) entende a ideologia como uma relação imaginária que os homens mantêm com as suas condições reais de existência. Em seu ensaio

Ideologia e aparelhos ideológicos do Estado, o pensador expõe de que forma

funciona o sistema organizado pela classe dominante, na difusão de suas ideias. Com essa finalidade, entra em cena o Estado, através de seus Aparelhos Repressores – ARE, representados por: governo, administração, Exército, polícia, tribunais, prisões, etc.; e Aparelhos Ideológicos – AIE, representados por instituições tais como: religião, escola, família, direito, política, sindicato, cultura, informação, etc. Em síntese, o que se percebe é que, entre os conceitos de Napoleão, Marx e Althusser, até aqui ensejados, perpassa uma leitura da ideologia em seus traços que vão da negatividade, ilusão, à expressão de ideias da classe dominante. É nesse último enfoque marxista que Thompson (1995) assenta o seu olhar crítico, visando elaborar um enfoque alternativo à análise do termo. De uma forma geral, Marx atribui às relações de dominação e subordinação de classe os eixos principais da desigualdade e exploração social, nas sociedades capitalistas, ou não. De acordo com Thompson (1995), essa seria apenas uma forma, visto que as relações de classe não se constituem na única forma de relação subalternizada.

Ele pareceu negligenciar, ou menosprezar, a importância das relações entre os sexos, entre os grupos étnicos, entre os indivíduos e o estado, entre estado-nação e blocos de estado-nação; ele tendeu a pressupor que relações de classe formam o eixo estrutural das

sociedades modernas e que sua transformação era a chave para um futuro livre de dominação. (THOMPSON, 1995, p.77).

Nos seus estudos sobre alguns autores modernos9, esse autor percebe que a ideologia, de uma maneira geral, é concebida como “[...] um sistema de crenças, ou formas e práticas simbólicas” (THOMPSON, 1995, p.75). No seu ponto de vista, as formas simbólicas são “[...] um amplo espectro de ações e falas, imagens e textos que são produzidos por sujeitos e reconhecidos por eles e outros como construtos significativos” (p.79). A linguagem10, falada ou escrita, assim como as expressões ‘não-linguísticas’ ou ‘quase-linguísticas’ como uma imagem visual, ou uma forma textual que combine imagens e palavras, são formas simbólicas relevantes, nesse estudo. É do seu interesse uma análise da ideologia, buscando compreender as maneiras como as formas simbólicas se interseccionam com as relações de poder. Sendo assim, busca estudar as maneiras como o sentido está a serviço do estabelecimento e sustentação das relações de dominação.

Thompson (1995) ressalta os teóricos sociais e políticos que chamaram a atenção para o lugar de destaque dos meios de comunicação no mundo moderno, mas critica a visão pessimista daqueles que percebem esses meios como um novo mecanismo de controle. Na opinião do autor, necessário se faz repensar um referencial teórico que aborde de maneira diferente a relação entre ideologia e os meios de comunicação, para que possamos compreender as características que distinguem aqueles meios e a especificidade do curso do seu desenvolvimento.

Sua proposta, denominada midiação da cultura moderna, constitui-se na chave desse marco referencial com o qual ele busca analisar. Em suma, não interessa ao autor se as formas simbólicas, em circunstâncias específicas, sustentam e estabelecem relações de dominação porque são ideológicas, ou vice- versa. Seu objetivo é compreender as maneiras como elas servem àquele propósito, ciente de que as relações de dominação são sustentadas de maneiras variadas e através de diversos fatores, colaborando para isso, em alguns casos, “[...] a apatia, a

9 Ele se refere a alguns autores que escrevem sobre ideologia citando Martin Siegler, Clifford Geerts,

Alvin Gouldner, Louis Althusser.

10 A dissimulação é um dos modus operandi da ideologia, e a linguagem fornece elementos estratégicos

nesse sentido, através do uso figurativo da linguagem, ou o tropo, a exemplo da sinédoque, metonímia e metáfora. O eufemismo é, também, uma das estratégias sutis que facilitam a dissimulação. Há uma diferença receptiva quando se diz “restauração da ordem” em vez de “supressão violenta do protesto” (THOMPSON, 1995, p.84).

indiferença das pessoas e grupos subordinados, ou mesmo sua disposição e vontade em se submeter à servidão” (THOMPSON, 1995, p.91).