3 MULTIPARENTALIDADE E SEUS PRINCIPIOS EMBASADORES
3.1 CONCEITO DE MULTIPARENTALIDADE
A multiparentalidade surge no momento em que a concepção do Direito de Família se desprende da proteção ao patrimônio e passa a proteger as pessoas, com todas as suas especificidades, mesmo quando não formam uma família tradicionalmente conhecida108, ou seja, esse instituto nasce através do reconhecimento e aceitação dos novos arranjos familiares na sociedade, tendo em vista que atualmente se admite a filiação socioafetiva, a qual não se verifica o vinculo sanguíneo, mas sim o vinculo afetivo. 109
Com todas as mudanças que ocorreram no direito de família, o divórcio tornou-se uma coisa comum entre casais, bem como o prosseguimento de suas vidas, com um novo casamento, mesmo tendo filhos menores oriundos do relacionamento anterior, surgindo assim os vínculos afetivos entre o menor e o padrasto ou madrasta, sendo que estes passam a tratar o enteado como se fosse seu filho, tratando-o com zelo, dedicação, educando-o e proporcionando-o tudo que é necessário para que tenha uma vida saudável e digna. 110
108 KIRCH, Aline Taiane; COPATTI, Livia Copelli. O reconhecimento da multiparentalidade e seus efeitos
jurídicos. Disponível em:
<http://www.ambitojuridico.com.br/site/?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=12754>. Acesso em: 04 set. 2017.
109 SILVA, Bruna Mara Britez Da. Multiparentalidade. Disponível em:
<https://drabritez.jusbrasil.com.br/artigos/423836650/multiparentalidade>. Acesso em: 04 set. 2017.
110 GUASSÚ, Rivadavio; COVA, Jéssica. Multiparentalidade - dupla paternidade/maternidade. Disponível em: <http://www.migalhas.com.br/depeso/16,mi217945,11049-
Dessa forma, considerando que o novo conceito de família tem origem no afeto, essa modalidade de filiação merece ter total proteção perante a sociedade, possibilitando que a família cumpra seu objetivo perante todos, promovendo o bem estar do menor, a sua dignidade, preservando ainda, os seus interesses. 111
Assim, a multiparentalidade, também conhecida como dupla paternidade, consiste no fato de uma criança ter dois pais ou duas mães reconhecidos pelo direito112, buscando proteger não só o direito da criança, mas também o direito da pessoa que cuidou, zelou e desenvolveu uma relação socioafetiva com o menor, tratando ele como se fosse seu próprio filho. 113
Conceituando o termo Multiparentalidade, Arnaldo Rizzardo afirma:
Acontece essa viabilidade quando uma criança, embora com registro do pai biológico, desde a mais tenra idade está na guarda da mãe, a qual casa ou se une a outro homem. Este passa a criar a criança, dando-lhe um tratamento próprio de pai, isto é, com amor, carinho, acompanhamento diuturno, e assim seguindo ao longo dos anos, de modo a se criar uma relação socioafetiva de pai e filho. É o que se denomina de paternidade socioafetiva. 114
Ainda, definindo a multiparentalidade, Carlos Alberto Dabus Maluf e Adriana Caldas do Maluf afirmam “entende-se por multiparentalidade a possibilidade de o filho possuir dois pais ou duas mães reconhecidos pelo direito, o biol gico e o socioafetivo, tendo em vista a valorização da filiação socioafetiva [...]”. 115
Dessa forma, atualmente os Tribunais decidem que o vinculo biológico não é o fundamento da filiação mais importante, reconhecendo em vários casos a multiparentalidade, alterando o registro civil de uma pessoa, fazendo a inclusão de mais de um pai e mãe e,
111GUASSÚ, Rivadavio; COVA, Jéssica. Multiparentalidade - dupla paternidade/maternidade. Disponível em: <http://www.migalhas.com.br/depeso/16,mi217945,11049-
multiparentalidade+dupla+paternidadematernidade>. Acesso em: 04 set. 2017.
112 GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito Civil Brasileiro. 14. ed. São Paulo: Saraiva, 2016. p 305. Disponível em: <https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788547213060/cfi/306!/4/[email protected]:0.00>. Acesso em: 04 set. 2017. Acesso restrito via minha biblioteca.
113 GUASSÚ, Rivadavio; COVA, Jéssica. Multiparentalidade - dupla paternidade/maternidade. Disponível em: <http://www.migalhas.com.br/depeso/16,mi217945,11049-
multiparentalidade+dupla+paternidadematernidade>. Acesso em: 04 set. 2017.
114 RIZZARDO, Arnaldo. Direito de Família. 9. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2014. Disponível em:
<https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/978-85-309-5837-4/cfi/6/22!/4@0:0.129>. Acesso em: 04 set. 2017. Acesso restrito via minha biblioteca.
115 MALUF, Carlos Alberto Dabus; MALUF, Adriana Caldas do Rego Freitas Dabus. Curso de Direito de
família. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2016. p 532. Disponível em:
<https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788502627949/cfi/2!/4/[email protected]:13.8>. Acesso em: 04 set. 2017. Acesso restrito via minha biblioteca.
consequentemente, incluindo todos os avós, buscando principalmente proteger o menor envolvido, bem como preservando o principio da dignidade da pessoa humana. 116
Assim, demonstrando o que foi descrito acima, expõem o julgado a seguir:
CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. AÇÃO DE RECONHECIMENTO DE PATERNIDADE. SENTENÇA EXTRA PETITA. INOCORRÊNCIA. PATERNIDADE BIOLÓGICA. EXAME DE DNA. PATERNIDADE REGISTRAL E AFETIVA. MELHOR INTERESSE DO MENOR. MULTIPARENTALIDADE. 1. O decisum configura o corolário da exordial; a correlação entre pedido e sentença é medida que se impõe, mostrando-se vedado ao julgador decidir aquém (citra ou infra petita), fora (extra petita), ou além (ultra petita) do requerido na inicial. Eis o porquê de a decisão vincular-se à causa de pedir e ao pedido. 2. O direito de família deve ser sempre regulamentado em face dos
interesses do menor, vulnerável na relação familiar, a fim de lhe propiciar bem- estar e bom desenvolvimento não somente físico, mas moral e psicológico, elementos integrantes da dignidade da pessoa humana, princípio fundamental do ordenamento jurídico pátrio. 3. O mero vínculo genético, por si só, não é
suficiente para afastar a paternidade de cunho afetiva. Em algumas situações, a filiação afetiva pode-se sobrelevar à filiação biológica, em razão da relação de carinho e afetividade construída com o decorrer do tempo entre pai e filho. 4. Há que se enaltecer a importância da convivência tanto materna quanto paterna, ao passo em que o direito do menor de conviver com seu pai afetivo mostra-se de fundamental relevância para o desenvolvimento e formação da criança, máxime quando inexiste qualquer motivo que não a recomende. 5. O reconhecimento da paternidade biológica fundamentado em exame de DNA, sobretudo, em caso de o pai biológico haver incidido em erro quanto à verdadeira paternidade biológica da criança, merece ser reconhecida quando o pai demonstra interesse em exercer o seu papel em relação ao filho, dispensando-lhe cuidado, sustento e afeto. 6. O conceito de
multiparentalidade exsurge, pois, como uma opção intermediária em favor do filho que ostenta vínculo de afetividade com o pai afetivo e com o pai registral, sem que se tenha de sobrepor uma paternidade à outra. Não há critério que possa definir preferência entre as duas formas de paternidade, sobretudo, quando há vínculo afetivo do menor tanto com o pai registral, como em relação ao pai biológico. 7. Rejeitou-se a preliminar. Negou-se provimento aos apelos. 117 Outra decisão semelhante, sendo proferida pelo Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina:
APELAÇÃO CÍVEL. FAMÍLIA. AÇÃO DE INVESTIGAÇÃO DE PATERNIDADE C/C ALIMENTOS. - PROCEDÊNCIA NA ORIGEM. RECURSO DO RÉU. EXAME GENÉTICO. LAUDO POSITIVO. PAI REGISTRAL. PATERNIDADE SOCIOAFETIVA. VÍNCULO DIVERSO. CONCOMITÂNCIA. IRRELEVÂNCIA. MULTIPARENTALIDADE. MELHOR INTERESSE DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE. PATERNIDADE RESPONSÁVEL. STF. REPERCUSSÃO GERAL. - "A paternidade responsável, enunciada expressamente no art. 226, § 7º, da Constituição, na perspectiva da
116 SILVA, Bruna Mara Britez Da. Multiparentalidade. Disponível em:
<https://drabritez.jusbrasil.com.br/artigos/423836650/multiparentalidade>. Acesso em: 04 set. 2017.
117 DISTRITO FEDERAL. Tribunal de Justiça. Acórdão em Apelação Cível n. 20130610055492. Relator Des. Flávio Rostirola. Brasília, 03 de fevereiro de 2016. Disponível em:
dignidade humana e da busca pela felicidade, impõe o acolhimento, no espectro legal, tanto dos vínculos de filiação construídos pela relação afetiva entre os envolvidos, quanto daqueles originados da ascendência biológica, sem que seja necessário decidir entre um ou outro vínculo quando o melhor interesse do descendente for o reconhecimento jurídico de ambos". 118
No entanto, cumpre salientar que a paternidade socioafetiva não afasta a responsabilidade da paternidade biológica, conforme já fora decidido pelo Supremo Tribunal Federal em setembro de 2016:
RECURSO EXTRAORDINÁRIO. REPERCUSSÃO GERAL RECONHECIDA. DIREITO CIVIL E CONSTITUCIONAL. CONFLITO ENTRE PATERNIDADES SOCIOAFETIVA E BIOLÓGICA. PARADIGMA DO CASAMENTO. SUPERAÇÃO PELA CONSTITUIÇÃO DE 1988. [...] MULTIPLICIDADE DE
VÍNCULOS PARENTAIS. RECONHECIMENTO CONCOMITANTE. POSSIBILIDADE. PLURIPARENTALIDADE. PRINCÍPIO DA PATERNIDADE
RESPONSÁVEL (ART. 226, § 7º, CRFB). RECURSO A QUE SE NEGA PROVIMENTO. FIXAÇÃO DE TESE PARA APLICAÇÃO A CASOS SEMELHANTES. [...] 16. Recurso Extraordinário a que se nega provimento, fixando-se a seguinte tese jurídica para aplicação a casos semelhantes: “A
paternidade socioafetiva, declarada ou não em registro público, não impede o reconhecimento do vínculo de filiação concomitante baseado na origem biológica, com todas as suas consequências patrimoniais e extrapatrimoniais”.
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Dessa forma, com base no julgado supramencionado, embora se aceite o reconhecimento da parentalidade socioafetiva, esta não afasta os direitos e deveres do pai/mãe biológico, sendo que as duas modalidades de pais devem assumir todas as responsabilidades do menor, devendo sempre ser respeitado o principio da paternidade responsável, prevista na Carta Magma.