Quando observo uma imagem humana impressa numa gravura, incido apenas na parte física, faço uma apreciação ao rosto, ao corpo, aos cabelos, entre muitas outras partes constituintes do corpo. No entanto, ao focalizar melhor a imagem, a parte que transmite mais sensações sobre aquela pessoa sem dúvida que é o rosto. Através do rosto, em especial o olhar, percepciono o tipo de pessoa que poderá ser. Claro está que sem certezas, apenas aparências, tento construir o perfil daquela pessoa. As experiências passadas intervêm neste processo e guia a mente para atribuir classificações sensitivas sobre aquela pessoa. De outra maneira se observo alguém “ao vivo” (mesmo sem se manifestar verbalmente) também faço as minhas interpretações, mesmo que superficiais, dando quase o mesmo seguimento que estivesse a observar uma imagem humana. A diferença poderia se opor apenas porque, nesse momento, estaria a efectuar uma relação interpessoal, mesmo com a ausência de elementos verbais da comunicação. Para Allport (1974)
O dom da sensibilidade interpessoal parece estar correlacionado com a experiência e maturidade, com inteligência, complexidade cognitiva e autoconhecimento (p. 639). Com este pensamento gostaria de realçar que o olhar entre uma gravura humana e a pessoa “ao vivo”, oferece-nos imediatamente primeiras impressões. Mas após o convívio e as conversas tidas, essas impressões alteram-se muitas vezes drasticamente. Esta alteração ocorre porque surgem novos elementos manifestos no comportamento da pessoa mediante várias situações. Por conseguinte, se o relacionamento perdurar iremos fazer sucessivas interpretações dessa pessoa, criando um registo do que ela é e, geralmente, modificámos a opinião desde as primeiras impressões. Todo este processo de perceber as pessoas envolve vários atributos que dizem respeito à construção de ser pessoa. Retomaremos mais adiante sobre este assunto.
Fazendo uma retrospectiva histórica do conceito de pessoa, importa salientar que existe reflexões filosóficas acerca deste aspecto, mas com teor indefinido. De qualquer forma, passarei a esboçar algumas considerações relevantes para uma compreensão de ser pessoa.
31 Para Magalhães (1996) o conceito de pessoa é um termo indefinido e é algo efectivamente em construção. Para além disso, esta condição de pessoa não tem uma origem segura.
Parece ter nascido ligado ao teatro grego com o significado de “máscara”, algo que se enverga “para se fazer ouvir” (= personare) e desempenhar um papel, uma função própria, construir um personagem. Assim cada um terá o seu papel, será um alguém individual no palco e no “teatro do mundo (p. 59).
Este autor aborda esta definição de pessoa, ressaltando que a Filosofia Moderna se encarregou de indicar três grandes elementos: o primeiro apontado como psicológico onde refere que “… o cartesianismo toma consciência como característica definitória de pessoa”. (p. 60); o segundo elemento constituído pela ética, na qual salienta a liberdade de Kant. Por último, o social abordado por Martim Buber, o qual salienta o termo pessoa pela relação ao outro e às suas inter-relações. Estas três características não podem ser analisados individualmente, porque elas se complementam entre si.
Magalhães (op. cit.) reforça a ideia de que o conceito de pessoa está associado à complexidade do ser humano e, por isso mesmo, a inexistência de uma definição concluída de ser pessoa. Neste âmbito o mesmo autor realça que:
O caminho traça-se na própria acção do ser humano que não se faz apenas com coisas, mas se faz a si mesmo. E ao agir segundo o seu (ser pessoal) adquire personalidade, estrutura-se de determinada maneira (p. 62).
O ser humano apresenta uma capacidade enorme para ajuizar, mas só o pode fazer dentro daquilo que conhece. Parafraseando Saint-Exupéry (1996) “Só se conhece aquilo com que se tem intimidade” (p. 60). São muitas as razões para crermos que necessitámos de conhecer com alguma profundidade para percebermos o funcionamento das coisas. As inúmeras combinações de atributos que compõem a pessoa são vastas. Desta forma podem surgir novos elementos desconhecidos que aumentam o leque de possibilidades. Esta é uma ideia muito básica ou superficial, mas sabemos de antemão que, às vezes, encontrámos pessoas completamente diferentes do que é considerado comum. À partida somos todos diferentes e essa diversidade gera uma complexidade humana enorme que é difícil apadrinhar neste somatório de atributos. É claro que nesta soma, as parcelas também são desiguais, perfazendo uma infinidade de possibilidades humanas. Estas parcelas com pesos díspares podem fazer a diferença na educação, ou
32 seja, a personalidade, a experiência, a dotação biológica entre outros e poderão sortir um efeito comunicativo eficaz ou não. Para Heidegger (1987) “Conhecemos o agir apenas como produzir de um efeito” (p.31). Portanto, o fundamental da essência do agir é o consumar e só se pode consumar os aspectos que são. Ou seja, antes de tudo é denominado o ser. Logo o ser possui o acesso à linguagem. O mesmo autor refere que “A linguagem é a casa do ser.” (op cit, p.31). Dentro dessa casa do ser habita o Homem, uma vez que através do pensar funda-se toda a eficácia postulada pelo ser. O que significa que o ser atrai a eficácia na linguagem. A linguagem atrai a eficácia para comunicar. A comunicação atrai os seus ouvintes. Perante esta metáfora da linguagem e a casa, Enes (s/d) complementa “…que a linguagem serve de casa para o ser e de abrigo para a existência.” (p. 50). Notoriamente esta casa (linguagem) cria uma existência humana única com que cada um se identifica e estrutura à sua vontade e medida.
Ainda segundo Heidegger (1987) entende-se o humanismo como “…o empenho para que o homem se torne livre para a sua humanidade, para nela encontrar a sua dignidade…” (p. 40).
Assim, será que uma pessoa incorporada no seu humanismo capacita-a eficazmente no seu desempenho docente? Contudo o que difere de professores para professores? Porque é que há professores com certas características naturais e/ou construídas que agradam os alunos? Este é um assunto muito sinuoso, mas no meu entender possui uma relevância significativa, devido à tentativa de perceber porque alguns professores são mais eficazes na comunicação do que outros. Numa tentativa de prolongar o sentimento humano, invoco o existencialismo de Sartre. Ao estabelecer a versão do professor na sua relação construída ao longo da sua carreira, importa relevar, efectivamente, este aspecto.
…o homem está constantemente fora de si mesmo, é projectando-se e perdendo-se fora de si que ele faz existir o homem e, por outro lado, é perseguindo fins transcendentes que ele pode existir; sendo o homem esta superação e não se apoderando dos objectos senão em referência a esta superação, ele vive no coração, no centro desta superação. Não há outro senão o universo humano, o universo da subjectividade humana. É a esta ligação da transcendência, como estimulante ao homem… (O existencialismo é um humanismo, s/d, p. 268).
Por esta trajectória confino porém que, o professor considerado menos ou mais comunicativo na sua eficácia, se estiver no seu horizonte mais próximo (transcendência)
33 o querer superar-se no resultado mais produtivo, passará pela sua entrega para atingir os seus objectivos. Na generalidade, o homem realizar-se-á, como ser humano, libertando- se dos seus limites, procurando fora de si, para si, um fim muito desejado.
No tópico seguinte irei focar alguns aspectos relacionados com a personalidade do ser humano e a sua importância.