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1 APORTE TEÓRICO-METODOLÓGICO

2.1 O CONCEITO DE SAÚDE DO PONTO DE VISTA DE CANGUILHEM

No que diz respeito ao marco teórico eleito, muito tem sido dito acerca do conceito20 de saúde, inclusive na tentativa de produção de uma definição ampliada desse conceito e de suas relações com o mundo do trabalho nas diferentes organizações que lhe têm dado corpo.

Durante muito tempo, a concepção de saúde esteve limitada a um estado estável de bem-estar físico e mental, o que negligenciava a sua dimensão coletiva e política. Canguilhem (1990) colocou em xeque essa perspectiva ao postular que a saúde está ligada à abertura ao risco, a colocar o estabelecido que faz sofrer em questão, a problematizar a vida. Isso implica considerar a capacidade de ultrapassar as crises orgânicas para instituir uma nova ordem que permita enfrentar as infidelidades do meio (BARROS DE BARROS, 2005), de modo a encontrar e maquinar21 saídas do estado patológico que imobiliza e provoca sofrimento.

Ao criticar o conceito de saúde como perfeito estado de bem-estar, Caponi (2003, p. 67-68) argumenta:

20 Começa a tomar consistência na área da EF, debates que, guardadas as diferenças epistemológicas de seus protagonistas, apontam a necessidade de revisão do conceito de saúde, bem como apresentam projetos de intervenção de EF pautados na perspectiva da Saúde Coletiva. Para isso, conferir os três volumes da produção Saúde em debate na Educação Física, respectivamente organizados pelos autores Bagrichevsky, Palma e Estevão (2003, 2006, 2007) e, o livro intitulado Educação Física e Saúde Coletiva organizado por Fraga e Watchs (2007). Também é possível encontrar, embora ainda incipientes, publicações que versem acerca do desgaste do conceito de saúde atrelado a uma visão médico-biologicista na Revista Brasileira de Ciência do Esporte, principalmente nas produções do GTT Epistemologia e do de Atividade Física e Saúde a partir de 2000. Todavia, o mapeamento detalhado desse debate colocou-se como um limite para o “tempo” de produção desta dissertação.

21 Maquinar refere-se a processos “maquínicos”, ou seja, não está relacionado com o mecânico, nem, necessariamente, com máquinas técnicas: “As máquinas técnicas existem, é claro, mas há também máquinas sociais, máquinas estéticas, máquinas teóricas e assim por diante. Em outras palavras, há máquinas territorializadas (em metal, em eletricidade, etc.), assim como há também máquinas desterritorializadas que funcionam num nível de semiotização completamente outro” (GUATTARI; ROLNIK,1994, p. 239).

O estado de bem-estar parece supor uma existência sem angústias, desconsiderando que os erros, os fracassos, as infidelidades fazem parte de nossa história e que, em alguns casos, o mal-estar pode resultar mais estimulante do que a absoluta carência de desafios. A partir do momento em que nosso mundo é um mundo de acidentes possíveis, a saúde não poderá ser pensada como carência de erros, mas sim como a capacidade de enfrentá-los. É por isso que Canguilhem dirá que não existe nada igual a uma saúde perfeita, e que a experiência do vivo inclui a experiência da doença.

A perspectiva de saúde advogada por Canguilhem (1990) amplia o conceito da saúde, superando a limitação de equilíbrio e afirma que a saúde é mais que ausência de enfermidade; é a potência de enfrentar as infidelidades do meio criando novas normas. Nesse sentido,

[...] devemos dizer que o estado patológico ou anormal não é conseqüência da ausência de qualquer norma. A doença é ainda uma norma de vida, mas é uma norma inferior, no sentido que não tolera nenhum desvio das condições em que é válida, por ser incapaz de se transformar em outra norma. O ser vivo doente está normalizado em condições bem definidas, e perdeu a capacidade normativa, a capacidade de instituir normas diferentes em condições diferentes (CANGUILHEM, 1990, p. 146).

Além disso, para ele, saúde e doença não são concebidas como conceitos definitivos nem tampouco opostos, mas estão relacionadas com a trama da própria produção da vida e da existência. São conceitos que dependem de uma análise do lugar, dos tempos, dos contextos e das condições de tensões em que cada um está inserido. Canguilhem (1990) pensa a saúde em termos de “margem de segurança”. Portanto uma saúde deficiente significa a restrição dessa margem, da limitação do poder de tolerância e de compensação às agressões do meio.

Há muitas dificuldades em se definir saúde pela busca de um código genético normal, sem alterações ou anomalias baseadas em termos de freqüência estatística, ou seja, o que se encontra em maior quantidade na média da população. Isso porque,

Se nos referimos ao código genético ‘normal’, veremos que existem infinitos exemplos de variações e desvios, de ‘anomalias’ que não podem ser, em absoluto, consideradas como de valor negativo ou patológicas. Reconheceremos que, assim como não é possível

identificar anomalia com patologia, é impossível associar normalidade e saúde (CAPONI, 2003, p. 56).

Para Canguilhem (1990), não é possível reduzir o conceito de saúde a um termo “científico”. Considerando que é impossível associar normalidade e saúde, ou anomalia e patologia, o recurso às medidas estatísticas, aos valores freqüentes e aos cálculos nada esclarece a respeito desse conceito. Não é possível imaginar que a vida se desenvolva na solidão do organismo individual, nem que possamos alcançar um conhecimento dela pela comparação entre organismos.

É por isso que “O ser vivo e o meio não podem ser chamados de normais se forem considerados em separado” (CANGUILHEM, 1990, p. 145), ou seja, só se pode afirmar que um ser vivo é normal quando vinculado ao seu meio, se considerarmos as soluções morfológicas, funcionais, vitais, a partir das quais ele responde às demandas que o meio lhe impõe. “O normal é poder viver em um meio em que flutuações e novos acontecimentos são possíveis” (CANGUILHEM, 1990, p. 146).

Desse modo, não são as médias estatísticas, nem a fuga dos intervalos assim chamados normais que indicam o momento em que se inicia uma doença, mas sim as dificuldades que o organismo encontra para dar respostas e enfrentar as demandas que seu meio lhe exige. Segundo Caponi (2003, p. 57), “É justamente a consideração deste sofrimento e deste sentimento de impotência individual que escapa às médias estatísticas; o que nos permite tentar uma definição menos restrita do conceito de saúde”.

No foco desse debate, Caponi (2003) advoga a problematização da saúde como uma questão filosófica e, embora esta tenha ocupado, muitas vezes, um lugar marginal entre outras questões mais valorizadas pelos filósofos, como a ética e a política, a saúde foi um tema filosófico freqüente na época clássica, e dela se ocuparam, entre outros, autores como Leibniz, Diderot, Descartes e Kant.

Contudo, a concepção de saúde que se tornou hegemônica no campo das ciências foi a de Descartes, desde o momento em que ele formulou uma concepção

mecanicista das funções orgânicas em consonância com o pensamento dominante moderno e com a visão de corpo máquina (FENSTERSEIFER, 2001).

Canguilhem (1990), por sua vez, elabora um arcabouço teórico que permite vislumbrar outras formas de entendimento da vida e da saúde que ultrapassam as fronteiras do conhecimento científico que trata o corpo como objeto, abrindo janelas de diálogos entre saberes nos quais se confrontam diversas racionalidades e tradições. Segundo Caponi (2003), Canguilhem tomará, como ponto de partida para analisar o conceito de saúde, a terceira parte do obra de Kant Conflito das faculdades, no qual buscou fundamentação para postular que,

Podemos nos sentir bem, isto quer dizer, julgar segundo nossa impressão de bem-estar vital, porém nunca podemos saber se estamos bem. A ausência da impressão (de estar doente) não permite ao homem expressar que ele está bem senão aparentemente, só pode dizer que ele está aparentemente bem (CANGUILHEM, apud CAPONI, 2003, p. 59, grifo do autor)

Por via dessa compreensão, Caponi (2003) argumenta que saúde não é “o” objeto do campo do saber objetivo, mas seu domínio apenas perpassa alguns dos seus aspectos, ou seja, estabelece interfaces. Para Canguilhem (1990), não há uma ciência da saúde. A saúde, dirá ele, não é um conceito científico nos moldes do termo moderno positivista; é um conceito simplesmente comum no sentido de poder ser alcançado por todos, no qual as pessoas podem e são autorizadas a falar sobre sua saúde.

Canguilhem (1990) dirá também, em sua célebre obra O normal e o patológico, que, se a vida encarnada no corpo não pode ser completamente conceitualizável, muito menos pode ser quantificável. Nesse caso, para afirmar um conceito de saúde que não esteja reduzido à perfeita harmonia funcional entre os órgãos, torna-se necessário rejeitar a aludida concepção hegemônica de corpo humano como ordem do mecânico. Negar o pressuposto do corpo como mero objeto a ser dominado e manipulado em suas partes é negar também a possibilidade de comparar o eficiente funcionamento das máquinas com a saúde do corpo, pois o bom funcionamento das máquinas depende, dentre outros, de ajustamentos mecânicos, elétricos etc. Nesse

caso, funcionar bem não é saúde, nem seus emperros e/ou desarranjos é doença (NAJMANOVICH, 2001; TEIXEIRA, 2004).

Ressalto que Canguilhem, ao atacar a ciência normalizadora e legisladora da vida e a Medicina positivista, postula que é o sofrimento, e não as mediações normativas ou devios-padrão, que estabelece o estado de doença. Portanto, para falar de saúde, será necessário considerar sempre a dor e o prazer, ou seja, saúde não é quantificável porque o corpo não é simplesmente um amontoado de músculos e ossos atravessados por nervos e artérias embrulhados por uma pele; o que existe para ele é um corpo subjetivo que escapa às medições, às determinações, aos padrões, aos discursos médicos.

Vale dizer que romper com a concepção de corpo objeto não quer dizer que o corpo subjetivo deve se opor ao saber científico, pois um não representa a alteridade radical do outro. Pelo contrário, o corpo subjetivo precisa desses saberes que lhe indicam e sugerem uma série de artifícios úteis à sua sustentação, pois, segundo Canguilhem (1990, apud CAPONI, 2003, p. 60),

Uma coisa é preocupar-se com o corpo subjetivo e outra é pensar que temos a obrigação de nos liberarmos da tutela, julgada repressiva, da medicina [...].

O reconhecimento da saúde como verdade do corpo, no sentido ontológico, não só pode, mas deve admitir a presença, como margem e como barreira da verdade no sentido lógico, ou seja, da ciência. Certamente, o corpo vivido não é um objeto, mas para o homem viver é também conhecer.

Essa posição não implica, portanto, negar as contribuições da ciência, dos saberes técnicos para a compreensão e a construção da saúde. Os conhecimentos advindos da biologia do corpo podem tornar-se importantes coadjuvantes para a compreensão ampliada do conceito de saúde.

Inspirado nas idéias de Canguilhem, Schwartz (2000a) propõe um conceito de saúde no trabalho complexo e ampliado – é o que me interessa nesta dissertação – para o qual se exige o reconhecimento de que há também um “corpo si”, árbitro no mais íntimo da atividade, que não é um “sujeito” delimitado, definido, mas uma entidade enigmática que resiste às tentativas de ser completamente objetivado, o que nos

remete ao fato de que o “corpo-si” resiste, a seu modo, a um controle total. O corpo que abriga as arbitragens e escolhas no trabalho não é uma entidade que deve ser concebida como algo oposto à alma, nem como conjunto de mecanismos, mas como um corpo atravessado pela inteligência e por processos maquínicos.

Schwartz (2000a) denomina essas múltiplas “microcriações/microdecisões” de “corpo si”, porque são sempre atravessadas por uma inteligência que marca essas escolhas diante da atividade e nem sempre são conscientes. Inteligências do corpo que atravessam os músculos, os líquidos, os nervos, a postura, o imaginário, mas não se restringem apenas ao biológico nem ao cultural, antes perpassa todos esses circuitos. “O corpo si” é algo que escapa às cristalizações e remete à história, à experiência, às paixões e aos desejos dos sujeitos que trabalham para dar continuidade ao movimento da vida.

O conceito de saúde, sob o prisma de um “corpo si”, condiz com o mundo de incertezas pululantes, no qual as infidelidades e as imprevisibilidades do meio, os fracassos, os erros, o sucesso e o mal-estar fazem parte das histórias dos sujeitos (CAPONI, 2003; SILVA, 2003). Assim, é a partir da capacidade única de enfrentar as variações e as infrações do meio que se pode pensar a saúde, pois a saúde não pode ser reduzida a um mero equilíbrio ou capacidade adaptativa, mas deve ser pensada como a capacidade de instaurar normas em situações que são adversas (CANGUILHEM, 1990). Nessa perspectiva, será necessário rejeitar

[...] qualquer tentativa de caracterizar os infortúnios como patologias que devem ser assistidas medicamente, bem como é preciso negar-se a admitir um conceito de saúde baseado em uma associação com tudo que consideramos como moral ou existencialmente passível de valorização. Pelo contrário, é preciso pensar em um conceito de saúde capaz de contemplar e integrar nossa capacidade de administrar de forma autônoma esta margem de risco, de tensão, de infidelidade, e por que não dizer, de ‘mal-estar’, com que inevitavelmente devemos conviver (CAPONI, 2003, p. 68).

Saúde, portanto, é um conceito vulgar no sentido de poder ser compartilhado por todos que vivem as experiências humanas de sofrimentos, dores e prazeres (CANGUILHEM, 1990). Todos são autorizados a dizer a respeito da sua saúde. A condição saudável, assim compreendida, não é algo determinado unicamente de um

exterior, mas é uma posição que se conquista, que se enfrenta e de que se depende. É assunto no qual a atuação de cada pessoa é fundamental (DEJOURS, 1986).

Essa noção ampliada de saúde envolve a dinâmica de sua conquista e preservação, expressando, assim, um constante movimento de luta, um incessante jogo de forças. A doença passa a sinalizar a dificuldade de alterar uma situação que agride física e psiquicamente, produzindo sofrimento. Os processos que levam ao adoecimento são bastante complexos, já que apresentam não só uma dimensão individual, mas, principalmente, coletiva. Então, saúde não pode ser abordada somente do ponto de vista da sua conservação, mas requer, até para poder “conservá-la”, a possibilidade de problematizar a vida cotidiana, criar novas questões e outras formas de estar no mundo; é lutar contra o que enfraquece, contra o que estabelece verdades definitivas. Concordo com Barros de Barros et. al (1998) quando entendem que não são as lutas e batalhas cotidianas que produzem o adoecer, pelo contrário, essas lutas e batalhas são possibilidades de escapar à servidão, à obediência e à impotência, criando outras formas de vida-trabalho.