1 APORTE TEÓRICO-METODOLÓGICO
2.2 O TRABALHO DO PONTO DE VISTA DA ATIVIDADE
Parece não haver uma definição ou conceito de atividade que contemple os intelectuais da análise do trabalho sob suas formas mais atuais. Contudo, é crescente a produção de conhecimentos no trabalho, principalmente por parte dos estudiosos franceses, a partir do “ponto de vista da atividade”. Essa perspectiva opõe-se àquelas que consideram o homem como elemento de um sistema em operação, mas afirma que a referência à atividade remete à esfera das múltiplas microgestões inteligentes da situação, às tomadas de referências sintéticas, ao tratamento das variabilidades, à hierarquização dos gestos e dos atos, às construções de trocas com a vizinhança humana, num vaivém constante entre os horizontes mais próximos e os horizontes mais afastados do ato de trabalho estudado (SCHWARTZ, 2004).
Conceber o trabalho como um locus de problematizações, de microgestões, de debate de valores, de processos normativos e como um lugar que convoca os sujeitos a fazerem escolhas no sentido de dar-se novas normas, escolhendo, assim, a maneira de viver leva ao reconhecimento da existência de uma temporalidade ergológica no íntimo do trabalho e que é exatamente expressa na atividade.
As temporalidades são, para Guattari e Rolnik (1994, p. 47), o importante fermento dos processos de singularização, e “Isso vai desde a recusa de um certo ritmo nos processos de trabalho assalariado, até o fato de certos grupos entenderem que sua relação com o tempo deve ser produzida por eles mesmos”.
No que diz respeito à temporalidade ergológica, compreendem-se dois aspectos. O primeiro diz respeito a uma direta oposição ao tempo do relógio ou a um quadro de temporalidade homogêneo. Ela estaria mais “[...] conectada a uma relação com a ‘saúde’ que se tenta estabelecer com um meio técnico, econômico, já saturado de normas diversas” (ALVAREZ, 2004, p. 129). Portanto, “A temporalidade ergológica é esta de um compromisso sempre problemático, sempre a ser negociado entre as normas antecedentes e as tentativas de renormalizações (SCHWARTZ, 1998, apud ALVAREZ, 2004, p. 129).
O segundo aspecto temporal é o da construção de um compromisso que ocorre pela colocação/mobilização de patrimônios:22 de procedimentos, de recursos da fala, de comunicacão e de sinergias locais. Se trabalhar significa se relacionar direta ou indiretamente com outros por meio de procedimentos, prescrições e pessoas, como afirma Schwartz (2000a), a (re)existência23 da vida no trabalho está vinculada, de alguma maneira, às formas pelas quais os sujeitos “se movimentam” na trama relacional que envolve a realização da atividade. Sob essa ótica, trabalhar é
Tempo também de ajustamentos aos tempos profissionais e internos – de si e dos outros –, de concordâncias internas de tempo, tempo de ‘histórias’ de situação, tempo de operações simultâneas, tempo de
22 Segundo Alvarez (2004), esse é um termo híbrido que denota, ao mesmo tempo, qualquer coisa da ordem dos saberes e dos valores, fundamental para compreender a vida nos ambientes de trabalho. Pode-se ver aí o ponto de partida de toda intenção técnica que um campo de culturas humanas vai, prodigiosamente, diferenciar, instrumentalizar, capitalizar, simbolizar, animar de valores e de conflitos. 23 Esse termo atrela-se à condição de existir de outras formas, de se reconstruir nos encontros.
transmissão de aprendizagens, de aprendizagem dos valores dos outros. Aqui se incluem as competências, que não são algo relacionado a um dom, advindo de uma benesse da natureza, nem um mero acúmulo de experiências construídas no trabalho. Mas a emergência de três pólos distintos: um relacionado aos saberes passíveis de conceitualização, outro referente à apreensão das dimensões históricas da situação, e um terceiro referente ao debate de valores em cada meio particular (ALVAREZ, 2004, p. 129-130).
A atividade é um conceito turvo e transversal, isso não quer dizer mal-entendido, mas situa-se no campo dos possíveis e dos devires por estar ligada às experiências dos sujeitos, às maneiras pelas quais eles convocam conceitos, seus engajamentos na produção de histórias e às negociações problemáticas entre normas antecedentes e as normas engendradas nas situações sempre a serem redefinidas aqui e agora (SCHWARTZ, 2004).
Será necessário, aqui, estabelecer a distinção, não oposição, entre trabalho prescrito e normas antecedentes. É a ergologia, sob a síntese de Yves Schwartz, que amplia e põe novos ingredientes na discussão entre essas duas dimensões do trabalho, quando cunha o termo: normas antecedentes.
O conceito de trabalho prescrito não pode ser confundido com o conceito de prescrição. Embora não sejam dissociáveis, as prescrições devem ser aqui entendidas como
Às ordens emitidas pela hierarquia (oralmente ou por escrito), os procedimentos definidos para a realização do trabalho (uma receita a ser seguida, a configuração de um software a ser utilizado, os parâmetros a serem verificados num controle do processo, os regulamentos de uma instituição, as normas técnicas, de segurança, ou outras que devem ser seguidas, os objetivos explicados aos trabalhadores em termos de qualidade, prazo, produtividade (TELLES; ALVAREZ, 2004, p. 70).
Já o trabalho prescrito envolve, além das prescrições, as condições dadas para seu desenvolvimento. Assim, um cimento de má qualidade, adquirido pelo departamento de compras, faz parte do trabalho prescrito de um pedreiro; uma quadra poliesportiva, com linhas demarcadas com o objetivo do ensino e desenvolvimento dos esportes, segundo as regras oficiais, faz parte do trabalho prescrito dos professores de EF.
Segundo Telles e Alvarez (2004), tanto o conceito de trabalho prescrito quanto a expressão normas antecedentes remetam ao que é dado, exigido e apresentado ao trabalhador antes de o trabalho ser realizado, mas a noção de normas antecedentes é, por sua vez, mais abrangente do que a de trabalho prescrito.
Telles e Alvarez (2004) chamam a atenção para o caráter híbrido da compreensão das normas antecedentes e se fundamentam nas proposições de Yves Schwartz para afirmar que há três aspectos a serem destacados no conceito de normas antecedentes: o primeiro refere-se ao fato de que elas abarcam restrições de execução heterodeterminadas, ou seja, há nelas algo que pode ser reconhecido como a expressão de um dogmatismo científico legitimado por um poder social. Isso quer dizer que aquilo que está amparado cientificamente apenas parcialmente participa da atividade de trabalho.
O segundo aspecto considera as normas antecedentes como construções históricas que dizem respeito a um patrimônio conceitual, científico e cultural, no qual é possível identificar, entre outros, o nível técnico-científico alcançado e a história sempre particular que conduziu a tal nível, na qual estão envolvidos,
Os saberes-fazer historicamente constituídos, as linguagens que os formalizam e que permitem sua expressão, os modos de vida que estruturam as relações ao tempo, ao espaço, à comunidade etc. Trata- se de experiência acumulada que pode ser reputada patrimônio da humanidade em sua totalidade. A esse caráter histórico correspondem também as estratégias, as escolhas, de cada situação analisada em determinado momento (TELLES; ALVAREZ, 2004, p. 73).
O terceiro aspecto está relacionado com os valores que as normas antecedentes comportam e mobilizam. São “Valores que não se referem apenas a uma dimensão monetária e sim a elementos do bem comum, que são redimensionados nas organizações, nos ambientes de trabalho e na sua relação com o meio externo” (TELLES; ALVAREZ, 2004, p. 73).
Há dois elementos que atravessam, constituem e parecem caracterizar a atividade em um sentido mais abrangente do termo, na sua dimensão híbrida, e, ao mesmo
tempo, sem abolir suas características específicas. No cerne dessa problematização, acontece o que se pode chamar de dialética do programa e da atividade, ou das normas antecedentes e das renormalizações efetuadas pelos sujeitos que trabalham ou ainda mais simplesmente, a dialética dos dois registros, nos quais,
O primeiro indicaria o que pode ser antecipado e explicitado no seio de um patrimônio socialmente partilhado e transmitido (métodos), a partir de elementos de relativa generalidade, sobre os quais podem, por essa mesma razão, trabalhar conceitos e definir programas e prescrições, termos que remetem, ao mesmo tempo, às circunstâncias sociais em que esses elementos de patrimônio se formam, se deformam e se reformam. Esse campo de antecipação da situação de atividade também seria, portanto, o da linguagem acabada, já que esta pode neutralizar os parâmetros singulares de um processo que se desenrola, por outra via, sempre no espaço e no tempo. O segundo remeteria ao que é da ordem da gestão do singular, que registra, na atividade cotidiana de trabalho, o efeito da dimensão histórica de toda prática, a não repetibilidade perfeita das situações humanas, sociais, produtivas (SCHWARTZ, 2004, p. 41).
A generalidade dessa dialética autorizaria a caracterizar o trabalho como o locus de uma dramática singular, na qual cada protagonista negociaria a articulação dos usos de si por “por si” e os “usos de si pelos outros”. Outra faceta dessa dialética aponta a superação, no âmbito das pesquisas sobre o trabalho, do fato de que a atividade poderia ser estritamente representável nas normas antecedentes. Isso porque, para Schwartz (2000b, p. 5),
A atividade aparece como produtora, matriz de histórias e de normas antecedentes que são sempre renormalizadas no recomeço indefinido das atividades. Esta idéia universalizante de retrabalho parcial das normas que preexistem a toda situação obriga instituir estruturas de aprendizagem permanente dos saberes e dos valores, sejam quais forem o contexto e os modos de trabalho.
O trabalho não depende ou está circunscrito à redoma das normas antecedentes. Pelo contrário, o conceito de normas antecedentes permite pensar a atividade de trabalho como uma dramática do uso de si, portanto, como condição de possibilidade das renormalizações. Para Telles e Alvarez (2004, p. 77), as renormalizações se constituem como “[...] o processo de retrabalho das normas antecedentes que acontece em todas as situações de trabalho”. Fundamentada nesse argumento, França (2004, p. 124) afirma que:
De acordo com os princípios que postula, a ergologia expande a compreensão da atividade humana para o campo de debate de normas heterodeterminadas que antecedem seu andamento e as experiências recriadoras dos sujeitos, as renormalizações que se processam em cada gesto e em cada situação.
Para Schwartz (2004), a concepção ampliada de trabalho como atividade humana remete a compreendê-la especificamente como um debate entre normas antecedentes e renormalização parcial. Mas, para a compreensão da parcialidade das renormalizações, é necessário retomar as articulações entre valores, saberes e atividades. Embasado em Nouroudine, Vieira (2004, p. 218) afirma que a renormalização é sempre parcial porque,
Valores a atividades estão ligados por uma relação dialética de interdependência e de ‘interdevenir’ da qual os saberes participam como um dado, uma espécie de pressuposto, que garante certa estabilidade: ‘a experiência é necessária ao conhecimento, mas o saber já está presente na experiência. É nesse sentido que a renormalização é parcial, uma vez que sempre guarda os traços de um saber formalizado anteriormente e disponível para uso, estando, de certa forma, próxima da compreensão bakhtiniana dos traços mais ou menos estáveis carreados pelos gêneros do discurso, que por sua vez representam uma economia considerável da circulação/recuperação de sentido na vida social e conseqüentemente para uma determinada esfera da atividade humana.
Se a atividade de trabalho, a partir do que foi exposto, pode ser concebida como debate de normas, como a tentativa de desanonimar o meio no enfrentamento das suas infidelidades, o risco de essa tentativa fracassar é também permanente; por isso, trabalhar é se arriscar, mas com o cuidado para que o risco não se transforme em perigo, em sofrimento e, conseqüentemente, impeça a dialética e a tensão entre os usos de si “por si” e pelos outros, condições de possibilidades pelas quais se podem criar novas normas, novas formas de vida, novas maneiras de existir no trabalho. Trabalho este que deve ser expressão, sobretudo, de “uma vida”, e não pode ser reduzido simplesmente a um valor monetário, nem tampouco ao idêntico, ao mecânico, ao biológico. Esses seriam aspectos que, para trazer Canguilhem (1990) à conversa, descaracterizariam a essência do ser vivente e tornariam a vida “invivível”.
Segundo Schwartz (2000a), não se trata de negar o que cada um experimenta como sofrimento, pois isso pode também transformar negativamente e minar o cotidiano. Não obstante, para ele, quando se entra pela via da noção de sofrimento, corre-se o risco de não mais sair, de se fechar nela, de se conformar em dizer que a culpa é só dos outros. Por outra via, encontrar as alavancas para transformar uma situação que se apresenta patológica exigirá colocar em debate valores, normas, prescrições, histórias de vida, anseios. E se colocar nesse jogo é o risco que se corre na produção de saúde. Assim,
Passar pelo debate de normas é apontar para a dinâmica que escapa a toda objetivação, que é a tentativa muito difícil e frágil de encontrar este equilíbrio entre minhas normas e aquelas dos meus vizinhos; minhas normas e aquelas de um coletivo e de uma organização; minhas normas e aquelas do universo político onde eu estou. Então, mexemos com o que tem valor para o sujeito, com o que não é, em princípio, sua fraqueza ou doença, mas como o que é, em princípio, sua tensão em direção a saúde (SCHWARTZ, 2000a, p. 12, grifo do autor).
A atividade de trabalho, nessa trama, ocorre nessa tensão dos usos de si “por si” e “pelos outros”. São postos em jogo recursos e capacidades, largamente mais complexos do que aqueles explicitados, do que aqueles que a tarefa cotidiana solicita. Há, desse modo, a aplicação de um capital pessoal e coletivo, pela qual Schwartz justifica a opção pelo termo “uso” – nunca só execução, mas “uso”. Para França (2004), nisso residirá a forma indiscutível de manifestação de um sujeito industrioso24 no trabalho.
Ressalto, recorrendo a Clot (2006) e a Viera (2004), que, para a compreensão da atividade, em um sentido mais amplo do que a ação, não é suficiente focalizar apenas a realização concreta de uma tarefa e, a partir de observações restritivas, dotá-la de sentido; antes, é necessário levar em consideração que a atividade também é constituída de seu entorno não evidente, dos atos que ficaram em suspensão, das escolhas que não puderam ser feitas, das palavras que não puderam ser ditas.
24 França (2004, p. 124), embasado na perspectiva ergológica de Schwartz, aponta duas principais características do sujeito industrioso, quais sejam: “Da célula ao meio, o sujeito ‘industrioso’ se constrói (ou se destrói) nesse debate de normas que está além de um diálogo situado entre uma prescrição formalizada e a atividade que se efetua, e; por meio da e na atividade, o sujeito não apenas negocia ou reage ao meio (à situação) de trabalho, mas trata daquilo que é para ele desejável e, portanto, relacionado ao conjunto de valores de sua sociedade”.