3. REVISÃO DA LITERATURA
3.1. Teoria dos stakeholders
3.1.1. Conceito de stakeholder
O conceito de stakeholder surge inicialmente numa publicação de Freeman em 1984 e tornou-se essencial em qualquer publicação sobre gestão de indivíduos, grupos ou organizações que estejam interessados nas atividades de uma organização. De acordo com Mitchell, Agle, & Wood (1997, p. 855) “não há muito desacordo relativamente ao tipo de entidade que pode ser um stakeholder.
Pessoas, grupos, bairros, organizações, instituições, sociedades, e até mesmo o ambiente natural podem ser geralmente pensadas como atuais ou potenciais stakeholders.”
A teoria surge como uma via alternativa para compreender a empresa, em contraste com os modelos convencionais que: “a) mostram o mundo dos gestores de uma forma simplista (e.g.
relacionando com empregados, fornecedores e clientes apenas), ou b) a empresa apenas existe para criar lucro e servir os interesses de um grupo (i.e. sócios)” (Bowie, 2001, p. 20).
As premissas básicas da Teoria dos Stakeholders são as seguintes:
“a organização estabelece relações com muitos grupos que influenciam ou são influenciados pela empresa, i.e. stakeholders de acordo com a terminologia de Freeman (1984);
A teoria foca-se na natureza dessas relações em termos de processos e resultados para a empresa e para os stakeholders;
Os interesses de todos os legítimos stakeholders são de valor intrínseco e é assumido que não existe nenhum conjunto individual de interesses, como referem Clarkson (1995) e (Donaldson & Preston, 1995);
A teoria está focada na gestão dos líderes de opinião;
A teoria explica como os stakeholders tentam influenciar os processos organizacionais de decisão para que sejam consistentes com as suas necessidades e prioridades; e
Relativamente às organizações, elas devem tentar compreender e equilibrar os interesses dos vários participantes” (Mainardes, Alves, & Raposo, 2011, p. 230).
Contudo, nas duas últimas décadas, o termo tem sido tão amplamente divulgado que muitos dos que o usam não definem o conceito ou não sabem claramente o que é um stakeholder. Mesmo na academia, encontram-se várias definições para stakeholder, não existindo um conceito único, final,
aceite por todos (Friedman & Miles, 2002; Mainardes et al. 2011), e assim, tal como em outras questões discutidas na literatura, cada autor define a sua, como a melhor definição para o conceito.
Mainardes et al. (2011) encontraram 66 definições diferentes de stakeholder. Contudo, é consensual na literatura que “a empresa deve tomar em consideração as necessidades, interesses
e influências das pessoas e grupos que têm algum impacto ou podem sofrer com as políticas e operações” e também concordam que “o conceito de stakeholder contém três fatores fundamentais: 1) a organização, 2) os outros atores, e 3) a natureza das relações empresa-ator”
Mainardes et al. (2011, p. 228).
O problema acerca da definição é um dos maiores desafios da teoria dos stakeholder que, em última instância, afeta a sua utilidade para académicos, homens de negócios, ou ambos, tal como descrito por Jones, Wicks, & Freeman (2002) no capítulo designado Teoria dos Stakeholders: O estado da arte do livro editado por Bowie (2001). Jones et al. (2002) identificam quatro grandes desafios para a teoria:
1. O problema da definição de stakeholder;
2. O problema da contextualização da teoria, que dada a sua origem multidisciplinar comporta muitas divergências acerca da teoria dos stakeholders;
3. O problema do pluralismo – se dentro da organização existem diferentes visões da definição de stakeholder e diferentes filosofias de gestão, cada uma definirá de forma diferente a sua importância. Ainda que haja espaço para “um pluralismo razoável”, devendo a organização estar atenta para não comprometer a política dos stakeholders como um todo;
4. O problema da criação de valor e transação, e da teoria ética – dada a multiplicidade dos
stakeholders que a organização tem que encarar, é importante perceber o conceito de valor
acrescentado e olhar para além dos simples interesses económicos.
Da análise conduzida conclui-se que comummente os stakeholders apresentam-se divididos em primários e secundários. Os primários são aqueles que mantêm relações oficiais, formais, ou contratuais com a organização e têm um impacto direto na sua economia. Os secundários podem ser variados e incluem aqueles que não estão diretamente envolvidos nas atividades da organização mas podem influenciá-la ou ser afetados por ela (Savage, Nix, Whitehead, & Blair, 1991).
Mitchell et al. (1997) identificam três atributos que distinguem os stakeholders: i) poder, ii) legitimidade, e iii) urgência, como pode ser observado na Figura 3. O poder refere-se à capacidade
do stakeholder para influenciar a organização no sentido dos seus próprios objetivos; a legitimidade refere-se à adequação das reclamações de cada grupo de interesse; e a urgência representa o imperativo e atenção dada aos diferentes stakeholders, que pode variar conforme os assuntos de interesse, mais ou menos críticos, e o tempo em que eles surgem.
Por outras palavras, é importante identificar quem é mais importante para a organização. Os que possuem mais poder obrigam a organização a maiores esforços para atingir as suas expectativas.
Figura 3 - Tipologias de Stakeholder: presença de um, dois ou três atributos (Mitchell et al., 1997)
Em geral, stakeholders latentes não reúnem muito tempo, energia e outros recursos gastos pelas organizações em gerir esta relação, ainda que não sejam reconhecidos como tal, e incluem
stakeholders adormecidos, discricionários e solicitadores:
Stakeholders adormecidos - têm como atributo chave o poder e usam-no para impor a sua
motivação na organização. Estão contudo limitados pela falta de legitimidade das suas reclamações. Este tipo de stakeholders praticamente não tem relação com a organização, contudo, pressionado pela possibilidade de adquirir outro atributo, a organização deve sempre estar atenta aos mesmos;
Stakeholders discricionários - são caracterizados pelo atributo da legitimidade mas não
Stakeholders exigentes - apenas possuem o atributo da urgência e por isso não têm
influência na organização sem os outros dois atributos, e como o seu único atributo é a urgência, este stakeholder é descrito como solicitador. Mitchell et al. (1997) chamam a estes stakeholders de “mosquitos a zunir nos ouvidos” dos gestores: irritantes, mas não perigosos, incomodativos mas não merecendo mais do que a atenção passageira da gestão, se alguma de todo, uma vez que não possuem nem poder, nem legitimidade.
Stakeholders expectantes incluem um nível elevado de compromisso entre gestores e incluem três
classes: dominante, dependente, e perigoso tal como segue:
Stakeholders dominantes - uma vez que eles têm poder e legitimidade, a sua influência na
organização está assegurada, tendo também mecanismos formais de relação com a organização;
Stakeholders dependentes - não têm poder, possuindo contudo os atributos de
legitimidade e urgência e são assim designados porque dependem de outros stakeholders para exercerem o seu poder por forma a levarem a cabo os seus desejos;
Stakeholders perigosos - têm poder e urgência e podem ser coercivos ou mesmo violentos.
Mitchell et al. (1997, p. 877) justificam a palavra “coercivo” “como um descritor porque a
utilização de poder coercivo acompanha muitas vezes um estatuto ilegítimo”;
Stakeholders definitivos possuem os três atributos e, por isso, esta combinação define-os
como stakeholders muito notados que devem ter uma atenção particular por parte das organizações. Para além disto, a organização deve prestar atenção aos stakeholders que possuem dois atributos pois facilmente se podem tornar em stakeholders definitivos.