Como o Código Civil não contém qualquer noção de direito real, a compreensão da sua natureza passa essencialmente pela distinção entre os direitos reais e os direitos das obrigações, de que já se falou anteriormente. Esta distinção tem sido objecto de diferentes doutrinas, das quais iremos indicar as principais.
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3.1. Doutrina clássica ou realista
Segundo a teoria clássica ou realista (aceite unanimemente até ao séc. XIX), o direito real é um poder directo e imediato sobre uma coisa; haven- do uma relação imediata entre o titular e a coisa, não existe qualquer inter- mediário entre o sujeito e o objecto do direito. O aproveitamento da coisa faz-se sem ser necessária qualquer colaboração de terceiros.
No direito de crédito, pelo contrário, o titular só acede ao objecto por intermédio de outro indivíduo, o devedor. O direito de crédito consiste no poder de exigir de outra pessoa uma prestação (de coisa, de fazer ou de não fazer), tendo por objecto imediato um comportamento do devedor.
Assim, segundo esta doutrina, no direito real há dois elementos cons- titutivos: uma pessoa (o titular do direito) e uma coisa (objecto de direito), em que o primeiro se encontra numa relação directa e imediata com a coisa, que é independente da intervenção de terceiros.
No direito de crédito, pelo contrário, há uma relação indirecta e ime- diata com a coisa: o credor só tem acesso ao bem através da actuação do devedor. Verifica-se aqui uma relação triangular: o sujeito activo do direito (credor), o sujeito passivo (devedor) e o objecto da obrigação, que consiste num facto positivo (dare ou facere) ou numa abstenção (non facere).
Assim, para a doutrina clássica, o direito real caracterizava-se por ser uma relação directa e imediata — isto é, sem intermediários — entre uma pessoa e uma coisa (relação homem — coisa), e o direito de crédito, por uma relação indirecta e mediata entre a pessoa e a coisa, em que o acesso a esta resulta da actividade do devedor (relação homem — homem).
3.2. Doutrina personalista
A teoria clássica foi contestada por se considerar que toda a relação jurídica é uma relação entre pessoas (relação intersubjectiva), não sendo, por isso, admissível a existência de vínculos jurídicos em que uma das partes seja uma coisa.
Com base neste princípio, a doutrina personalista veio considerar que tanto as relações de crédito como os direitos reais são vínculos intersubjec- tivos; apenas diferem quanto ao número dos sujeitos passivos e quanto ao objecto da obrigação.
Quanto à primeira característica — o número de sujeitos passivos —, o direito real traduz-se numa relação entre uma pessoa ou certas pessoas (lado activo) e todos os outros indivíduos (lado passivo); no direito de cré- dito, há uma relação entre pessoas determinadas, quer do lado activo quer do lado passivo.
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O objecto da obrigação nos direitos reais consiste no dever de os su- jeitos passivos se absterem de qualquer acto que possa prejudicar o titu- lar do direito (obrigação passiva universal). Esta obrigação só se revela ou manifesta quando um indivíduo ofende o direito real, surgindo então uma obrigação de responsabilidade civil.
Por sua vez, o direito de crédito apenas permite exigir uma prestação a pessoas determinadas ou determináveis; aqui não há um dever de abs- tenção, mas sim um dever de prestação que, ainda na forma de non facere, constitui uma verdadeira actuação.
A distinção reside, em conclusão, no facto de nos direitos reais existir, do lado passivo, uma obrigação passiva universal, enquanto nos direitos de crédito, uma obrigação de prestação que recai sobre indivíduos certos.
3.3. Posição adoptada
A doutrina moderna procura uma síntese entre a teoria clássica e a teo- ria personalista, considerando que qualquer delas salienta um dos aspectos do direito real.
Na verdade, a teoria personalista veio realçar que os fenómenos só são juridicamente relevantes na medida em que há protecção; só quando a rela- ção de poder entre um sujeito e uma coisa é garantido pela ordem jurídica é que surge o direito real. A relação do titular sobre a coisa só directa e ime- diata, porque a ordem jurídica impõe a todas as pessoas (excepto o titular do direito) uma obrigação passiva universal, isto é, o dever de absterem de interferir na relação entre o titular do direito real e o respectivo objecto. Por conseguinte, a teoria personalista sobrevaloriza o aspecto da tutela do direito real, mas deixa na sombra o seu conteúdo.
A doutrina clássica, por seu turno, destaca a relação de poder com a coisa, mas esquece o aspecto relativo à protecção do direito real. Na verda- de, esta doutrina põe em realce os diferentes interesses que estão subjacen- tes aos direitos de crédito e aos direitos reais; nestes o que se visa garantir é o domínio exclusivo do titular em relação a uma coisa. Neste sentido, pode dizer-se que a obrigação passiva universal está ao serviço do poder conferido pelo direito real, na medida em que é o instrumento que garante o autênti- co domínio sobre as coisas.
Daqui resulta ser conveniente atender aos dois aspectos em integram a noção de direito real: o conteúdo (lado interno) e a sanção ou protecção (lado externo). Assim, relativamente ao lado externo, enquanto nos direitos de crédito a tutela é relativa — dirigida contra pessoa ou pessoas determi- nadas (devedores) —, no direito real a tutela é absoluta, porque abrange a generalidade das pessoas que podem interferir com o exercício do direito.
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Por conseguinte, no direito real há uma eficácia absoluta ou erga omnes e no direito de crédito uma eficácia relativa.
Quanto ao conteúdo (lado interno), o poder do titular direito de cré- dito incide imediatamente sobre um comportamento de outrem (prestação) e só mediatamente sobre uma coisa (assim nas obrigações de dare); já no direito real o poder do titular incide imediatamente sobre uma coisa. As- sim, o direito de crédito consiste num poder de exigir ou de pretender certo comportamento específico do devedor e o direito real num poder directo e imediato de usar, de fruir ou de dispor de uma coisa.
O recurso a uma noção abstracta de direito real é útil, na medida em que permite abranger os diferentes direitos reais; porém, como aquela noção só ganha sentido se a definirmos a partir do direito de propriedade, enquanto direito que constitui a base de todo o direito que regula domínio pleno sobre as coisas.
Neste sentido, podemos definir o direito real como um poder directo e imediato sobre uma coisa (lado interno), que se impõe à generalidade dos membros da comunidade jurídica (lado externo) e que constitui uma apro- ximação, derivação ou expressão do direito de propriedade.
Relativamente ao que deve entender-se por comunidade jurídica para determinar, dir-se-á que não se trata de toda a humanidade, mas apenas daquelas pessoas que se encontrem numa situação em que lhes seja possível interferir na zona de domínio garantido pelo direito real e que são aquelas que estão sujeitas à ordem jurídica que tutela o poder sobre a coisa. Assim, por exemplo, a obrigação passiva universal relativa ao meu direito de pro- priedade sobre uma coisa imóvel situada em Díli abrange todas as pessoas (nacionais ou não) que se encontram, temporariamente ou não, no terri- tório da Timor, na medida em que são elas as únicas que estão sujeitas à ordem jurídica deste Estado.
Já quanto aos direitos reais sobre coisas móveis convirá precisar melhor a determinação dos sujeitos passivos do direito. Se considerarmos um direi- to de propriedade sobre um livro, por exemplo, e se este estiver em Timor, a solução é a mesma do caso anterior. Mas se o meu livro se encontra em Por- tugal? Então, desde que a ordem jurídica portuguesa reconheça — como é o caso — a ordem jurídica timorense (a ordem que tutela a propriedade do meu livro), são sujeitos passivos as pessoas subordinadas à ordem jurídica portuguesa, isto é, as que se encontram em território português no momen- to em que o livro se encontre naquele país.