3 O CUMPRIMENTO DA PENA OBSERVANDO A METODOLOGIA DA
3.1 Conceito e aspectos históricos do método APAC
A metodologia APAC conta, hoje, com mais de 100 unidades espalhadas por todo o país, seja em funcionamento ou em fase de implantação, além de diversas unidades no exterior. Esse método tem se mostrado inúmeras vezes mais eficaz do que o sistema prisional comum, em especial no que tange à finalidade ressocializadora da pena. Os resultados podem ser visualizados analisando o índice de reincidência dos recuperandos, que, conforme dados do Conselho Nacional de Justiça - CNJ, gira em torno de menos de 10%, enquanto no sistema prisional comum, esse número ultrapassa os 70% (BRASIL, 2017).
Dentro da metodologia apaqueana não se usam as denominações “condenado”, “preso” e “apenado”, e em seu lugar, utiliza-se o termo “recuperando”. Além disso, não são usadas armas, visto que a segurança interna fica a cargo dos próprios recuperandos, enquanto que a externa é realizada por monitores contratados para o serviço, sendo esta a principal diferença com relação ao sistema comum, notada já no momento em que se entra em um Centro de Reintegração Social de uma APAC. Outra diferença que chama atenção é a limpeza e a organização interna do lugar, tarefa exclusiva dos recuperandos.
Destaca-se, conforme Ferreira (2016, p. 33) que a APAC encontra amparo legal na Constituição Federal de 1988 para atuar nos presídios, bem como dispõem de estatuto próprio protegido pelo Código Civil e pela Lei de Execução Penal, em especial no que tange a Execução Penal e na administração do cumprimento das penas privativas de liberdade, nos regimes fechado, semiaberto, aberto e livramento condicional.
Para Zeferino (2013, p. 56):
A APAC surge embasada na Lei de Execução Penal, pautando-se por um novo enfoque no cumprimento da pena, executando a liberdade progressiva, priorizando a reeducação do encarcerado que desempenhar os requisitos preliminarmente estabelecidos. A cada etapa cumprida dos estágios estabelecidos, o encarcerado passa a ter um acesso maior à liberdade. Sua liberdade é conquistada a partir da inserção, da aceitação da proposta metodológica, desempenho satisfatório, disciplina e confiança.
Conforme em consulta ao site da Fraternidade Brasileira de Assistência aos Condenados – FBAC17, em 1972, na cidade de São José dos Campos, no Estado de São Paulo, surge a APAC – fundada sob a liderança do advogado e jornalista Dr. Mário Ottoboni, juntamente com um grupo de amigos, no presídio Humaitá, para evangelizar e dar apoio moral aos presos. Assim, surgiu uma experiência revolucionária. A sigla significava Amando o Próximo Amarás a Cristo (FRATERNIDADE BRASILEIRA DE ASSISTÊNCIA AOS CONDENADOS, 2017).
17 FBAC – Fraternidade Brasileira de Assistência aos Condenados - é uma associação civil de direito
privado sem fins lucrativos que tem a missão de congregar a manter a unidade de propósitos das suas filiadas e assessorar as APAC do exterior.
A equipe que constituía a Pastoral Penitenciária, no ano de 1974, chegou à conclusão que somente uma entidade juridicamente organizada seria capaz de enfrentar as dificuldades do dia a dia do presídio e, assim, foi instituída a APAC - Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (FRATERNIDADE BRASILEIRA DE ASSISTÊNCIA AOS CONDENADOS, 2017).
Dessa forma, a APAC - Associação de Assistência aos Condenados - entidade juridicamente constituída, ampara o trabalho da APAC - Amando o Próximo, Amarás a Cristo – Pastoral Penitenciária, composta por entidades religiosas, junto aos condenados, respeitando, sempre a crença de cada um, de acordo com as normas internacionais e nacionais sobre direitos humanos. Nesse sentido, apesar de distintas, uma ampara a outra, pois têm a mesma finalidade: ajudar o condenado a se recuperar e se reintegrar no convívio social (FRATERNIDADE BRASILEIRA DE ASSISTÊNCIA AOS CONDENADOS, 2017).
Apesar de ter sido idealizada e fundada na cidade de São José dos Campos/SP, de acordo com Lima (2017), foi no Estado de Minas Gerais que houve maior difusão da metodologia, sendo a cidade de Itaúna a pioneira a implantar a metodologia e estabelecer o Centro de Reintegração Social – CRS18 – no Estado, e, hoje, é referência nacional e internacional da metodologia apaqueana. Destaca-se, ainda, que hoje Itaúna conta com dois CRSs, um feminino e outro masculino.
Ferreira (2016, p. 33) diferencia a APAC do sistema carcerário atual, basicamente, porque nela os próprios presos, denominados recuperando, são corresponsáveis pela sua recuperação e recebem toda a assistência espiritual, médica, psicológica e jurídica garantida pela Lei de Execução Penal. Ademais, salienta que fica a cargo dos recuperandos, com o suporte de funcionários e voluntários, a segurança e a disciplina do Centro de Reintegração Social – CRS - sem a presença de agentes penitenciários e policiais.
18 Centro de Reintegração Social – CRS – estabelecimento criado pela a APAC, com o objetivo de
oferecer ao recuperando a oportunidade de cumprir a pena próximo de seu núcleo afetivo, facilitando a formação de mão de obra especializada, favorecendo assim, a reintegração social, respeitando a Lei e os direitos do condenado.
De acordo com o mesmo autor, a metodologia APAC caracteriza-se por uma rígida disciplina, baseada no respeito, na ordem, no trabalho, na capacitação profissional, no estudo e no envolvimento familiar. Nesse contexto, como já exposto, são pilares da metodologia o amor, a confiança, a valorização do ser humano e a sua capacidade de recuperação, que diferenciam esse método do sistema comum de execução da pena.
Segundo Faria (2017) a APAC tem como objetivo a humanização do cárcere, sem deixar de lado, entretanto, a finalidade punitiva da pena, e objetiva, também, evitar a reincidência e proporcionar condições para que o condenado se recupere e consiga a reintegração social.
Para Ferreira (2016, p. 34):
Com o objetivo de promover a humanização das prisões, sem perder de vista o caráter punitivo da pena, a APAC mantém o propósito de evitar a reincidência no crime e oferecer alternativas para o condenado se recuperar, mantendo sempre sua filosofia: “matar o criminoso e salvar o homem.”
De acordo com Falcão e Cruz (2017), o método APAC tem como base a valorização humana, buscando reformular a autoimagem do homem que errou. Para tanto, 12 elementos fundamentais foram estabelecidos, sendo sua observância indispensável para a aplicação da metodologia, uma vez que é no conjunto harmonioso desses elementos que serão encontradas respostas positivas para o problema. A seguir, serão apresentaremos estes 12 elementos, a fim de esclarecer a função de cada um deles dentro da metodologia em estudo.