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2 A LEI DE EXECUÇÃO PENAL: A CRISE DO ATUAL SISTEMA PRISIONAL

2.2 Objeto e finalidade da Lei de Execução Penal

De acordo com Mirabete (2004, p. 28), o artigo 1º da LEP possui duas ordens e finalidades, a primeira refere-se a correta efetivação dos mandamentos existentes na sentença ou decisão criminal, com objetivo de reprimir e prevenir os delitos. A segunda diz respeito a reintegração do condenado e do internado a sociedade,

através de instrumentos pelos quais os apenados e os submetidos a medidas de segurança possam participar construtivamente da comunhão social. Nesse sentido, o objeto do Direito de Execução Penal, apesar de algumas contradições entre a cominação e aplicação da pena e sua execução, dirigiu-se ao estudo do desenvolvimento de métodos para a execução da pena como defesa social e ressocialização do condenado.

Nesse sentido, ensina Mirabete (2004, p. 28):

O sentido imanente da reinserção social, conforme estabelecido na lei de execução, compreende a assistência e ajuda na obtenção dos meios capazes de permitir o retorno do apenado e do internado ao meio social em condições favoráveis para a sua integração, não se confundindo “com qualquer sistema de ‘tratamento’ que procure impor um determinado número e hierarquia de valores em contraste com os direitos da personalidade do condenado.”

A Lei de Execuções Penais buscou traçar o caminho para que o condenado pudesse não só se tornar um cidadão recuperado, através de direitos e deveres que será mais aprofundado no decorrer do trabalho, mas também em ter um tratamento digno e humano durante a privação da sua liberdade, o que possibilitaria a sua reinserção social.

A pena, como já mencionado no capítulo anterior, é a sanção imposta ao indivíduo que pratica uma conduta criminosa nos termos do Código Penal e, segundo Avena (2015, p. 6), possui duas finalidades, envolvendo aspectos retributivo e preventivo, sendo que a primeira finalidade, de caráter retributivo, consiste na resposta estatal à infração cometida e a segunda no sentido de evitar a prática de novos delitos.

Nesse mesmo contexto, segundo Nucci (2016, p. 952), essa finalidade preventiva se divide em quatro aspectos: o geral positivo, que demostra a existência, eficiência, legitimidade e validade do Direito Penal; o geral negativo, que intimida a quem pensa em delinquir, ou seja, é o poder de intimidação da punição em relação a sociedade; o especial positivo, que se refere ao condenado, objetiva-se a prevenção individual positiva, isto é, ressocializar o condenado com sua reintegração à

sociedade após o cumprimento de sua pena; e, por fim, o especial negativo, que significa a possibilidade de ser recolher, quando for o caso, o condenado ao cárcere para que não torne a praticar outras condutas delitiva.

Nesse sentido, a Constituição Federal de 1988, em seu texto legal, proíbe, conforme já exposto no capitulo anterior, penas cruéis que vão além da privação da liberdade do indivíduo, como a tortura física e moral, o que, além de significar um avanço na busca da humanização da pena, possibilita a reinserção social do indivíduo. De acordo com Nucci (2016, p. 953), o estudo da execução penal deve estar ligado aos princípios constitucionais penais e processuais penais, os quais indicam uma ordenação ao sistema de normas, e servem como base para a interpretação, integração, conhecimento e aplicação do direito punitivo.

Conforme já mencionado no decorrer deste trabalho, o princípio da humanidade, segundo Nucci (2016, p. 952-953), está previsto em nosso texto a constitucional, envolvendo não apenas o Direito Penal, mas também o Direito da Execução Penal. Nesse seguimento a Lei de Execução Penal abarca este princípio, ao dispor em seus artigos que a pena não ultrapasse a privação da liberdade condenado, ou seja, que não atinja a sua dignidade, integridade física, entre outros direitos. Entretanto, conforme destaca o mesmo autor e como veremos no decorrer deste trabalho, este princípio e outros contemplados pelas Lei de Execução Penal, não vem sendo observado pelo Estado.

Em que pese já tenhamos tratado acerca dos princípios constitucionais penais e que fundamentam, também, Direito da Execução Penal, merece destaque o princípio da jurisdicionalidade, disposto expressamente na Lei de Execução Penal. O Artigo 2º da LEP, dispõe que “A jurisdição penal dos Juízes ou Tribunais da Justiça ordinária, em todo o Território Nacional, será exercida, no processo de execução, na conformidade desta Lei e do Código de Processo Penal.” (BRASIL, 1984)

Avena (2015, p. 10), afirma, que é a partir deste artigo que se percebe que a execução penal é regida pelo princípio da jurisdicionalidade, isso significa que na pratica a intervenção do juiz não se esgota com o transito em julgado da sentença

condenatória, estendendo-se ao processo de execução. Mirabete (2004, p. 32), destaca que esta intervenção do juiz, na execução da pena, é eminentemente jurisdicional, contudo, sem a exclusão de atos administrativos que acompanham as atividades do magistrado.

Ainda, reforçando a importância não só do princípio da jurisdicionalidade, mas de todos princípios que já foram analisados no capítulo anterior, e que fundamentam o Direito Penal, Direito Processual Penal e Direito da Execução Penal, colaciona-se decisão proferida pelo Superior Tribunal de Justiça e pelo Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul:

EMENTA: EXECUÇÃO DA PENA - JURISDICIONALIZAÇÃO - LIVRAMENTO CONDICIONAL - SUSPENSÃO - REVOGAÇÃO - A LEP CONSAGROU A JURISDICIONALIZAÇÃO DA PENA. O CONDENADO DEIXOU DE SER - OBJETO - E PASSOU A -

SUJEITO – DA EXECUÇÃO. ASSIM, O CONTRADITÓRIO

(CONST., ART. 5., LV) NÃO PODE SER OLVIDADO.

COMPREENDE TANTO O PROCESSO JUDICIAL COMO O

ADMINISTRATIVO. A SUSPENSÃO DO LIVRAMENTO

CONDICIONAL ANTECEDE A SENTENÇA CONDENATÓRIA TRANSITADA EM JULGADO. A REVOGAÇÃO, CONTUDO, DEPENDE DE SENTENÇA FIRME. EM QUALQUER CASO, POREM, IMPÕE-SE O DIREITO DE DEFESA (BRASIL, 1994).

EMENTA: EXECUÇÃO PENAL. NATUREZA JURÍDICA. NA ESTEIRA DA DOUTRINA ITALIANA E, ENTRE NÓS, DA DE ESPINOLA FILHO E ADA GRINOVER, COM O ADVENTO DA LEI N.º 7.210/84, EMBORA A PRÁXIS POSSA INDICAR O CONTRÁRIO, ANTE A INICIATIVA DE OFICIO, A PRECARIEDADE DA DEFESA E A ADOÇÃO DAS CONCLUSÕES PERICIAIS COMO RAZOES DE DECIDIR, A EXECUÇÃO PENAL DEIXOU DE SER ATIVIDADE ADMINISTRATIVA PARA, JURISDICIONALIZANDO-SE, REGER-SE PELO PRINCÍPIO DO DEVIDO PROCESSO LEGAL,

EM NOME DA NECESSIDADE DE PRESERVAÇÃO DA

DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA. CONSEQUÊNCIAS. SENDO DE NENHUM EFEITO A CONCESSÃO OU CASSAÇÃO DE DIREITOS FORA DO PROCEDIMENTO JUDICIAL A QUE ALUDE O

ARTIGO 194 DA LEP, MESMO PORQUE SUPRIME A

INTERVENÇÃO FISCALIZATÓRIA DO MP, NÃO E O CASO, ENTRETANTO, DE REVOGAR-SE O TRABALHO EXTERNO CONCEDIDO VERBALMENTE PELO JUIZ AO PRESO PORQUE, APÓS A INSTAURAÇÃO DA CORREIÇÃO PARCIAL, A QUESTÃO FOI FORMALIZADA EM PROCEDIMENTO PRÓPRIO, QUE

CONTOU COM PARECER FAVORÁVEL DA DOUTORA

PROMOTORA DE JUSTIÇA SUBSTITUTA DA VARA DE EXECUÇÕES (RIO GRANDE DO SUL, 2001).

Nota-se que, segundo Mirabete (2004, p. 33), as garantias jurídicas estabelecidas ao condenado, não devem ser apenas aquelas em que se relacionam com a lei de execução, mas também devem se estender a autoridade encarregada de aplica-la, logo surge a necessidade de se ter um juiz para a execução penal, assegurando, assim o controle jurisdicional sobre a execução da pena, conforme o disposto na exposição de motivos da LEP. Ademais, conforme já mencionamos acima quando tratamos da natureza jurídica da execução penal, este princípio da jurisdicionalidade, reafirma o caráter complexo da execução e sua natureza mista e não meramente administrativa.

Por fim, quando mencionamos o artigo 2º da Lei de Execução Penal, importante destacar o disposto em seu parágrafo único, que prevê que os presos provisórios e aqueles condenados pela Justiça Eleitoral ou Militar, que sejam recolhidos a estabelecimento sujeito à jurisdição ordinária, também terão a execução da pena regida pela LEP (BRASIL, 1984). Nesse sentido, Nucci (2016, p. 953-954) menciona que se o réu é detido cautelarmente antes do trânsito em julgado da sentença, ficando recolhido em penitenciária, deve submeter-se às regras que regem a execução penal, desde que compatíveis com a natureza de sua prisão. Logo, é assegurada a sua integridade física e moral, assim como a mesma assistência que o condenado tem direito.