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2 A HISTÓRIA DE CHRISTOPHER MCCANDLESS, O INTERESSE DA MÍDIA E O FASCÍNIO DA AUDIÊNCIA

3 O LIVRO-REPORTAGEM NA NATUREZA SELVAGEM, OS GÊNEROS TEXTUAIS E A TRANSTEXTUALIDADE

3.1 CONCEITO E CARACTERÍSTICAS DO LIVRO-REPORTAGEM

Na natureza selvagem é uma obra de não ficção, denominada como livro-reportagem no campo jornalístico. Edvaldo Pereira Lima, em sua obra Páginas ampliadas: o livro-reportagem como extensão do jornalismo e da literatura (2009, p. 26), conceitua-o como

“[...] veículo de comunicação impressa não-periódico que apresenta reportagens em grau de amplitude superior ao tratamento costumeiro nos meios de comunicação jornalística periódicos”. O tratamento costumeiro citado por Lima refere-se principalmente aos procedimentos de produção das notícias publicadas nos jornais diários. Por conta do tempo e dos espaços exíguos, privilegia-se o texto jornalístico informativo cujo objetivo é noticiar de maneira objetiva e rápida. Nesse cenário, surgem algumas “fórmulas” para a construção da notícia. Entre essas, podemos destacar o lide e a pirâmide invertida. A primeira refere-se ao parágrafo inicial no qual se deve responder preferencialmente as principais perguntas acerca

do fato: quem, o quê, quando, onde e por quê. A segunda está relacionada à estrutura do texto que se desenvolve a partir do fato mais importante para o menos importante. A despeito das críticas quanto à superficialidade dos textos que seguem essas fórmulas, seja no rádio, no jornal impresso, na televisão ou na internet, tais procedimentos de produção cumprem com o propósito do jornalismo cotidiano, que é informar.

O gênero textual característico do livro-reportagem é a reportagem, cujos objetivos são explorar o assunto de forma exaustiva, ou, como destaca Lima (2009), de maneira ampla, buscando os antecedentes do fato e sua repercussão na sociedade. A reportagem se configura no jornalismo a partir da década de 1920, atrelada a dois fatos importantes: ao surgimento de um novo veículo de comunicação, a revista semanal, e à configuração de um novo gênero jornalístico, o interpretativo.

A classificação da reportagem como jornalismo interpretativo não é unânime entre os teóricos do jornalismo. A palavra pode ser usada tanto para se referir a uma ampliação da notícia,23 esta do gênero informativo, quanto a um texto resultado de um trabalho de captação e produção textual mais elaborado. No segundo caso, alguns teóricos, como Lima, denominam de grande-reportagem o texto resultante desse trabalho mais apurado. Nesta tese, vamos utilizar apenas o termo reportagem quando nos referirmos ao texto do livro-reportagem.

Lima aponta três condições essenciais que diferem o livro-reportagem das demais publicações classificadas como livro: quanto ao conteúdo, quanto ao tratamento e quanto à função. O objeto do qual trata o livro-reportagem é o real (conteúdo); o tratamento dado ao texto obedece às particularidades da linguagem jornalística; e ele tem como função fundamental informar, orientar e explicar (2009, p. 27-28).

O autor destaca que o livro-reportagem prolonga o ciclo de existência do acontecimento, cobrindo as lacunas deixadas pela imprensa e ampliando a compreensão da realidade para o leitor. Essa ampliação se dá a partir de dois tipos de aprofundamento:

O aprofundamento é extensivo, ou horizontal, quando o leitor é brindado com dados, números, informações, detalhes que ampliam quantitativamente sua taxa de conhecimento do tema. O aprofundamento é intensivo, ou vertical, quando o leitor é alimentado de informações que lhe possibilitem aumentar qualitativamente sua taxa de conhecimento. Isto é, há uma análise multiangular de causas e consequências, de efeitos e desdobramentos, de repercussões e implicações (LIMA, 2009, p. 40).

23 Relato integral de um fato que já eclodiu no organismo social (MARQUES DE MELO, 2003).

Esse nível de aprofundamento da notícia só é possível nas edições de domingo dos jornais (ou nas tiragens especiais), nas revistas e nos livros. Na natureza selvagem é um exemplo do aprofundamento proporcionado pelo livro-reportagem, conforme apontado por Lima. As informações sobre o andarilho encontrado morto e sua posterior identificação couberam ao jornal, enquanto as causas da fuga de Chris, os conflitos com a família e a reconstituição de sua jornada precisaram de um espaço que possibilitasse um tratamento mais extenso, ou seja, uma revista e, subsequentemente, um livro.

De acordo com Lima (2009), o livro-reportagem pode se originar de uma grande-reportagem (ou de uma série de reportagens) publicada na imprensa cotidiana – a exemplo de Na natureza selvagem – ou de um projeto pensado desde o início para ser um livro. Porém, tendo por base o vínculo mais estreito com a atualidade (relação do fato com o momento presente), os livros-reportagens podem se dividir em dois grupos: o livro-reportagem-instantâneo, que aproveita um fato de repercussão atual, o qual ainda reverbera na sociedade;

e aquele que trabalha com temas mais distantes no tempo. Na natureza selvagem faz parte do segundo grupo, uma vez que a obra foi lançada quatro anos após a morte de Chris McCandless, quando o interesse da mídia e da audiência já havia diminuído. Como exemplo de um livro-reportagem-instantâneo, temos A tragédia de Eloá: uma sucessão de erros, publicado dois meses após a morte da jovem Eloá, em São Paulo. Em 2008, ela foi mantida em cárcere privado por seu ex-namorado e morta após cinco dias. O livro é de autoria do jornalista Márcio Campos, que cobriu o caso para a rede de TV Bandeirantes.

Lima (2009) propõe uma classificação do livro-reportagem a partir de dois critérios: o objetivo particular com que o livro desempenha narrativamente sua função de informar e de orientar com profundidade e a natureza do tema da obra. Surgem assim 13 categorias, entre as quais destacamos o livro-reportagem-perfil. O autor salienta que não se trata de uma classificação definitiva, pois novas variedades de livros podem surgir, assim como é possível que um único tipo apresente características de mais de uma categoria.

Segundo a conceituação de Lima, o livro-reportagem-perfil “procura evidenciar o lado humano de uma personalidade pública ou de uma personagem anônima que, por algum motivo, torna-se de interesse” (LIMA, 2009, p. 51). A escrita da reportagem-perfil tem como objetivo adentrar na psique do indivíduo, revelando seus valores, suas motivações, seus medos, seus receios, ou seja, elementos que ajudem na compreensão do biografado. Esse tipo de livro concentra-se no presente do indivíduo, e o texto nasce de um encontro com o personagem, o que não é possível quando se trata de biografia de personagens já mortos. Na

natureza selvagem consiste em um reportagem-biografia, um desmembramento do livro-reportagem-perfil, e tem como objetivo a reconstrução da carreira e do passado do biografado.

A publicação de perfis é recorrente em jornais e revistas, porém, esses veículos apresentam um texto curto, e as informações e as interpretações trazidas pelo repórter têm prazo de validade. Como o perfilado é um indivíduo ainda vivo, os conceitos, as ideias e as posturas podem mudar com o tempo.

A humanização (construir a notícia a partir dos personagens), presente tanto nos perfis quanto nos livros-reportagens-perfil, aproxima o leitor do indivíduo cuja vida está sendo retratada. “Toda boa narrativa do real só se justifica se nela encontramos protagonistas e personagens humanos tratados com o devido cuidado, com a extensão necessária” (LIMA, 2009, p. 359).

Vilas Boas (2002) observa que as pessoas têm prazer em se identificar com o biografado, de se projetarem em outras vidas:

As biografias sugerem o universal embutido na particularidade do indivíduo.

É como se o leitor se deliciasse com o fato “de não estar sozinho no mundo”

[...]. Muitas vicissitudes humanas são atemporais. O biógrafo lida com

“humanidades” enfrentadas por qualquer geração: os processos da adolescência, a puberdade, o início da fase adulta, a maturidade e o declínio.

Sentimos os fracassos e triunfos do “herói” narrado, e o quanto poderia haver de nós mesmos em situações idênticas [...] (2002, p. 37, grifo do autor).

As “humanidades”, citadas por Vilas Boas, se fazem presentes na trajetória de Chris e são evidenciadas pelo jornalista Jon Krakauer. Com 22 anos, recém-formado na faculdade, Chris estava em busca de um sentido para sua vida. Até então, ele fizera faculdade por exigência dos pais, que esperavam que o jovem também cursasse Direito. Porém, em meio a isso, havia nele um desejo profundo de viver novas experiências. Viajar, conhecer novos lugares e chegar ao Alasca eram algumas delas. No plano familiar, destaca-se a relação conflituosa com os pais – situações e dramas presentes na vida de muitos, ocasionando assim uma identificação com as angústias e as aspirações do jovem. “As pessoas extraordinárias excitam, orientam, alertam, ajudam a vivenciar o que acontece como se acontecesse conosco, dando dimensão imaginária à vida” (VILAS BOAS, 2002, p. 39).

O autor observa que a biografia não é uma escrita própria de um único campo, do literário ou jornalístico, por exemplo. Ela é, por natureza, híbrida, pois promove a troca entre diferentes métodos e conhecimentos específicos. Vilas Boas diz que a biografia pode emprestar ferramentas da História, da Sociologia, da Psicologia e do Jornalismo. No caso do

texto sobre personagens em jornalismo, ele utiliza o termo livro-reportagem, assim como Lima. Muitas de suas reflexões sobre biografia também se aplicam ao livro-reportagem-perfil, ou, no nosso caso, ao livro-reportagem-biografia.

Segundo Vilas Boas (2002), alguns elementos tornam uma biografia atraente para o leitor e para o mercado editorial: o biógrafo ter acesso a arquivos nunca abertos ou publicados e a história trazer evidências de que o personagem teve uma vida rica em experiências.

Percebem-se esses dois elementos na trajetória de Chris: Jon Krakauer teve acesso a documentos, como diário, cartas e cartões postais de Chris – até então não publicados – e apresenta em sua narrativa evidências de que o jovem teve uma vida rica em experiências, como o fato de viver dois anos como andarilho e sobreviver quase quatro meses no Alasca.

Possivelmente, foram esses aspectos que contribuíram para o interesse da mídia e que despertaram o fascínio de algumas pessoas pelo biografado.

O fato de Na natureza selvagem ser uma biografia autorizada facilitou o acesso de Krakauer aos documentos pessoais de Chris, assim como a familiares e a amigos, diferentemente do que ocorre com as biografias independentes ou não autorizadas. Vilas Boas (2002) diz que apesar de estas proporcionarem maior liberdade, pois não sofrem interferência direta daqueles que guardam as informações sobre o biografado, elas podem limitar o trabalho do autor.