5 A INTERTEXTUALIDADE NO FILME NA NATUREZA SELVAGEM
5.1 O FILME E SEUS INTERTEXTOS
5.1.2 Outros intertextos
Entre as alusões presentes em Na natureza selvagem, há uma relacionada ao teatro.
Trata-se de um artifício conhecido como “quebra da quarta parede”, quando o ator se dirige diretamente ao espectador, ignorando a parede imaginária que existe entre ele e a audiência.
Charles Chaplin usava bastante tal recurso em seus filmes, sendo o primeiro deles o curta Making a Living, de 1914. Um longa-metragem clássico na “quebra da quarta parede” é Curtindo a vida adoidado (1986), em que o personagem Ferris fala diretamente com o espectador. O recurso também está presente na TV. Na série House of Cards, o personagem Frank Underwood frequentemente compartilha com o espectador seus reais pensamentos e intenções, normalmente contrários às suas ações na narrativa.
Em Na natureza selvagem, o personagem Chris olha diretamente para a câmera em diversos momentos. O diretor Sean Penn, em entrevista ao site MoviesOnline, explicou que a ideia por trás desse artifício é de provocação, como se o personagem dissesse ao espectador:
“Ei, cara, estamos próximo do fim, quebre toda maldita parede que tenha que quebrar”. O diretor observa que não cabe a ele dizer quais seriam “essas paredes” ao espectador, mas ele acredita que isso é algo que Chris conseguiu fazer. Entendemos que um dos objetivos de Sean Penn, ao utilizar esse artifício, era que o público assistisse ao filme de forma menos passiva.
Figura 57 – Quebra da quarta parede
Fonte: Filme Na natureza selvagem.
A “quebra da quarta parede” permite que o espectador compartilhe momentos de cumplicidade com o personagem, o que depende, na maioria das vezes, da capacidade de interpretação do ator. No primeiro quadro (no alto, à esquerda), temos a imagem do protagonista em uma cena nos primeiros momentos da viagem, brincando, ao falar com uma maçã. Mostra-se empolgado com sua aventura, que ainda está no início. Na imagem, ao lado, à direita, Chris demonstra, com seu sorriso, sua felicidade por estar desfrutando da natureza.
Rickli (2013) examina o recurso como uma metalinguagem, onde o diretor estaria evocando o próprio ato de filmar. A autora chama também a atenção para um outro momento do filme, no qual o casal de turistas dinamarqueses Mads e Sonja olha diretamente para a câmera e simula o movimento do obturador, de abrir e fechar, controlando o tempo de exposição de um filme:
Figura 58 – Referência metalinguística
Fonte: Filme Na natureza selvagem.
Em outra sequência, quando Chris anda pelas ruas de Los Angeles, observando moradores de rua, mulheres de programas e transeuntes, depreendem-se uma alusão à fotografia. Em alguns planos dessa sequência, Sean Penn insere quadros estáticos em meio a imagens em movimento. Ocorre uma interrupção do desenrolar da narrativa fílmica, que gera no espectador uma reação semelhante à do protagonista.
Nessa cena, que tem como cenário as ruas de Los Angeles, há também uma alusão à desigualdade social. Chris olha para os imponentes prédios da cidade, visíveis do ponto onde
se encontra; ao mesmo tempo, imagens mostram homens e mulheres que viviam à margem dessa sociedade de opulência. Quase 100% dos figurantes dessa cena são negros, contrastando com o elenco predominantemente branco da sequência seguinte, quando Chris se encontra em um bairro de classe média. A construção dessa sequência foi a forma que o diretor encontrou para relacionar as preocupações do personagem com as injustiças sociais, presentes em seus discursos, e que estão registrados no hipotexto. No entanto, não podemos desassociar essa cena do próprio diretor, que é conhecido por suas ações de caráter humanitário em países subdesenvolvidos.
Sean Penn também faz alusão ao contexto histórico e político da época na qual a história de Chris McCandless está inserida. Na cena do posto de informação em Lee’s Ferry (aos 54:54:43), há um plano de Chris de costas para a câmera, olhando para a foto do presidente George W. Bush, pendurada na parede, enquanto conversa com um guarda no posto policial da fronteira entre Estados Unidos e México. Ao fundo, a TV transmite o pronunciamento do presidente sobre a Guerra do Golfo, no qual ouvimos nitidamente suas palavras: “Alguns podem perguntar: por que agir já? Por que não esperar? A resposta é clara.
O mundo não pode esperar mais”. Essa fala remete à justificativa do presidente às ações militares dos Estados Unidos no Golfo e chama a atenção do personagem, enquanto ele aguarda ser liberado.
Figura 59 – Alusão à política militar dos Estados Unidos
Fonte: Filme Na natureza selvagem.
A alusão ao presidente dos Estados Unidos e à Guerra do Golfo não consta do livro-reportagem. As alusões estão relacionadas à vida pessoal do diretor, que se opunha, na época, às guerras “promovidas” pelos Estados Unidos, nas quais morreram inúmeros soldados e civis, no início dos anos 1990.
No filme, Penn mostra o posicionamento dos Estados Unidos diante da guerra no Golfo Pérsico no início dos anos 1990, e que, na época da produção de Na natureza selvagem, se mantinha por meio do filho de Bush, o presidente George H. W. Bush, cuja política de guerra promoveu uma invasão ao Iraque em 2003. Por conta de sua militância política, o diretor visitou o Iraque, em 2005, e escreveu uma série de artigos para o San Francisco Chronicle. Em seu primeiro filme, The Indian Runner (Unidos pelo sangue, 1991), Sean Penn mostra a difícil relação entre dois irmãos, onde um deles, Frank, tenta superar seu temperamento autodestrutivo e violento, que se evidencia mais ainda após retornar da Guerra do Vietnã. Porém, seu filme com um viés mais político é o The Last Face (A última fronteira, 2016), ambientado na guerra civil da Libéria e nos conflitos do Sudão.
Em The Last Face (A última fronteira), os horrores da guerra são mostrados sem
“filtros”. Cenas de violência, de mutilações, de corpos de crianças usados como escudos humanos pelos revolucionários são chocantes – às vezes, excessivas e desnecessárias, segundo a crítica no lançamento do filme, em Cannes.
Retomando a alusão ao Presidente Bush, em Na natureza selvagem, destacamos a opinião de Williams (2016) em relação à cena do posto de informação em Lee’s Ferry (aos 54:54:43). Embora Williams não faça referência explícita a essa cena, comenta a visão de mundo de Chris. Retornar aos Estados Unidos significaria, para o andarilho, aceitar os valores da sociedade americana que contestava ou que as palavras de Bush eram para ele uma renegação aos princípios individualistas, radicais e pragmáticos presentes nas obras de Jack London e Henry David Thoreau.
Apesar de Chris McCandless ter sido simpatizante do Partido Republicano, do qual Bush fazia parte, e ter ajudado a fundar um clube republicano na Universidade de Emory, Jon Krakauer registra no hipotexto que Chris defendeu a candidatura do pastor e ativista Jesse Jackson para presidente. Jesse participou ao lado de Martin Luther King pelos direitos civis dos norte-americanos negros e foi candidato pelo Partido Democrata. Logo, acreditamos que, nesse caso, a alusão diz mais respeito ao diretor Sean Penn do que ao personagem Chris McCandless.
Também identificamos uma alusão ao filme preferido de McCandless na cena na qual ele se prepara para fugir (aos 00:21:18). Um cartaz do ator Clint Eastwood é colocado na porta de um armário no quarto do jovem. A câmera focaliza a imagem do cartaz quando Chris abre a porta do armário para tirar alguns pertences.
O personagem do cartaz está presente em uma série de três filmes de western conhecida como Trilogia del Dollaro (Trilogia dos dólares ou Trilogia do homem sem nome,
1964-66), do diretor Sergio Leone. Os filmes são protagonizados por Clint Eastwood, que, em cada filme, tem um apelido diferente: “Joe”, “Manco” e “Lourinho”, respectivamente. O cartaz não alude a nenhum dos três filmes, mas tão somente ao personagem de Eastwood.
Sabemos que Três homens em conflito (1966), o último da trilogia, é o favorito de Chris, como revela sua irmã em seu livro de memórias, The Wild Truth.
Quanto ao cenário do quarto de Chris, o diretor buscou reproduzi-lo o mais fielmente possível. A focalização do cartaz não estaria apenas relacionada ao protagonista Chris, mas também ao fato de Clint Eastwood ter dirigido Sean Penn em Mystic River (Sobre meninos e lobos, 2003), filme pelo qual Penn venceu seu primeiro Oscar como melhor ator. Sean Penn estaria prestando uma homenagem ao ator e diretor Clint Eastwood.
Por fim, Penn faz referência ao gênero documentário57 por meio da inserção de registros reais, em algumas narrações da personagem Carine. Quando ela fala sobre o pai ter trabalhado na Nasa, o diretor usa imagens documentais de foguetes. Quando Carine comenta sobre as notas do boletim do irmão nas disciplinas Apartheid na Sociedade Sul-Africana e Política Africana Contemporânea e Crise Alimentar na África, o diretor insere imagens que remetem à fome e aos movimentos pelo fim do regime da segregação racial da África do Sul.
Stam (2008) e Williams (2016) destacam, em suas análises, a apropriação de imagens da vida real em filmes de ficção. Sean Penn recorre a esse recurso com frequência.
Em The Crossing Guard (Acerto final), o diretor registra uma reunião da associação Mothers Against Drunk Drivers (MAAD), na qual insere dois personagens entre os membros do grupo, que perderam alguém pela imprudência de motoristas bêbados. Em The Last Face (A última fronteira), Penn utiliza-se de registros reais referentes à destruição causada pelos conflitos no Sudão e na Libéria. No caso do filme The Crossing Guard (Acerto final), não temos uma imagem documental, mas a construção de uma cena com depoimentos de pessoais que vivenciaram os conflitos. Já em The Last Face (A última fronteira) e em Into the Wild (Na natureza selvagem), imagens reais foram inseridas nas narrativas fílmicas.
57 Montagem cinematográfica com imagens visuais e sonoras dadas como reais e não fictícias (AUMONT;
MARIE, 2003, p. 86).
Figura 60 – Alusão ao gênero documentário
Fonte: Filme Na natureza selvagem.
Diante da postura ativista de Sean Penn, podemos entender sua escolha pelas imagens usadas nos offs de Carine, pois também reforçam as preocupações sociais do personagem Chris, tal como ocorre na sequência em que ele caminha pelas ruas de Los Angeles.
Ao final do filme, o diretor alude novamente ao documentário, dessa vez com imagens e letreiros que trazem informações sobre a descoberta do corpo de Chris, duas semanas após sua morte, e de que coube a Carine levar as cinzas do irmão em sua mochila. Nesse momento, o diretor deixa de lado a encenação ficcional para relembrar ao espectador de que sua obra é baseada em fatos. Surge na tela um autorretrato de Christopher McCandless. A foto foi encontrada em um rolo de filme da câmera de Chris. Antes dos créditos finais, a produção do longa-metragem agradece a Jon Krakauer e à família McCandless pelo apoio durante a realização do filme.
O filme Na natureza selvagem conseguiu representar a variedade de gêneros textuais presente no livro-reportagem por meio da montagem das cenas e dos recursos cinematográficos. Com exceção do gênero jornalístico, uma vez que, no texto-fonte, Jon Krakauer parte da notícia sobre a identificação do corpo de McCandless, e a reportagem trata da história de outro aventureiro, sem ligação com o biografado. Cortes, modificações e acréscimos foram feitos no processo de adaptação; contudo, o sentido do hipotexto, em sua essência, foi mantido pelo diretor Sean Penn.
Em dois momentos do filme, destaca-se o apuro do trabalho do diretor na adaptação de intertextos: as sequências nas quais ele inseriu o poema de Sharon Olds e a transposição da carta de Chris a Ron Franz na forma de diálogo. São cenas que possuem várias camadas de sentido, as quais o diretor transmite muito bem por meio de um jogo de textos e imagens.
O filme traz bastante material para outras análises. Em nosso estudo, buscamos apontar cenas e imagens, examinando como ocorreram as escolhas e os procedimentos de adaptação de alguns dos textos usados por Sean Penn.
Alguns procedimentos de adaptação privilegiados pelo diretor permitiram relacionar de forma mais evidente os escritos do biografado e de outros autores em relação ao protagonista, especialmente ao colocá-lo em cena lendo ou narrando alguns textos. Isso se deve ainda à possibilidade de o personagem, conhecido no hipotexto por meio da voz dos outros, ter a sua própria voz no filme, vivenciando o que no livro-reportagem foi apenas registrado em palavras.
Assim, ao mesmo tempo em que buscou levar para a linguagem cinematográfica os textos presentes na obra por Jon Krakauer, Sean Penn deixa a sua marca autoral no processo de adaptação, criando um artefato estético.