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3. RESPONSABILIDADE CIVIL

3.1 Conceito e espécie de responsabilidade civil

A responsabilidade civil pode ser definida como sendo a atividade danosa de alguém, que atua ilicitamente e viola uma norma jurídica preexistente, ficando assim responsável pelas consequências de seus atos.

A palavra “responsabilidade” tem sua origem no verbo latino respondere, significando a obrigação que alguém tem de assumir com as consequências jurídicas de sua atividade, contendo, ainda, a raiz latina de spondeo, fórmula através da qual se vinculava, no Direito Romano, o devedor nos contratos verbais. A acepção que se faz de responsabilidade, portanto, está ligada ao surgimento de uma obrigação derivada, ou seja, um dever jurídico sucessivo, em função da ocorrência de um fato jurídico lato sensu.

(...)

Se uma pessoa, dolosa ou culposamente, causar prejuízo a outrem, fica obrigada a reparar o dano. (GAGLIANO; PAMPLONA FILHO, 2012)

Segundo Chaves; Rosenvald; Netto (2017), para que seja possível alcançar um padrão atual de responsabilidade civil, se faz necessário uma análise semântica do filósofo Paul Ricoeur. No que diz respeito ao direito civil a responsabilidade é ainda definida em seu sentido clássico, onde há uma obrigação de reparar danos cometidos por nossa culpa e certos casos aqueles determinados por lei, já em direito penal a responsabilidade civil é definida pela obrigação de suportar o castigo. Será responsável todos aqueles que tem obrigação de reparar ou de sofrer a pena. Ainda afirma que somos responsáveis por tudo e por todos.

Destaca Gagliano; Pamplona Filho (2012), é preciso que fique claro que em ambos os casos, tanto em responsabilidade civil quanto em responsabilidade criminal, decorrem de um fato que seja juridicamente considerado ilícito, ou não desejado pelo direito, pois, sua prática foi em ofensa à ordem jurídica.

Em seus aspectos fundamentais há uma perfeita coincidência entre o ilícito civil e o ilícito penal, pois ambos constituem uma violação da ordem jurídica, acarretando, em consequência, um estado de desequilíbrio social. Mas, enquanto o ilícito penal acarreta uma violação da ordem jurídica, quer por sua

33 gravidade ou intensidade, a única sanção adequada é a imposição da pena, no ilícito civil, por ser menor a extensão da perturbação social, são suficientes as sanções civis (indenização, restituição in specie, anulação do ato, execução forçada etc.) (GAGLIANO; PAMPLONA FILHO, 2012).

Cavalieri Filho (2012) destaca que:

O principal objetivo da ordem jurídica, afirmou San Tiago Dantas, é proteger o lícito e reprimir o ilícito. Vale dizer: ao mesmo tempo em que ela se empenha em tutelar a atividade do homem que se comporta de acordo com o Direito, reprime a conduta daquele que o contraria.

Ao tratar de responsabilidade civil no âmbito do direito privado, e seguindo a mesma linha de raciocínio, pode-se dizer que tal responsabilidade advém da agressão a um interesse particular, ficando o infrator sujeito ao pagamento de uma recompensa a vítima caso não possa repor o estado anterior da coisa. (GAGLIANO; PAMPLONA FILHO, 2012).

O Código Civil prevê a obrigação de indenizar em seu art. 927, in verbis:

Art. 927. Aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo.

Parágrafo único. Haverá obrigação de reparar o dano, independentemente de culpa, nos casos especificados em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem.

Assim pode-se falar que o ato ilícito irá ocorrer quando alguém por ação ou omissão voluntária, negligência, imperícia ou imprudência, causar dano a outrem, conforme preceitua o art. 186 do Código Civil:

Art. 186. Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito.

Flávio Tartuce (2018) em sua obra apresenta duas definições para responsabilidade civil, sendo uma delas do Desembargador do Tribunal do Rio de Janeiro, Marco Aurélio Bezerra de Mello, onde ela diz:

Podemos definir a responsabilidade civil como a obrigação patrimonial de reparar o dano material ou compensar o dano moral causado ao ofendido pela inobservância por parte do ofensor de um dever jurídico legal ou convencional.

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Perante aos conceitos trazidos pelos doutrinadores supracitados, conclui-se que a responsabilidade civil obriga um sujeito que causou o dano a outrem, ressarcir o dano causado ou ainda reparar mediante a ação por ela praticada.

Para aprofundar-se melhor ao tema responsabilidade civil, se faz necessário fazer uma análise das espécies de responsabilidade, permitindo assim uma compreensão com mais clareza do tema.

A responsabilidade civil se subdivide em outras espécies: a contratual e a extracontratual ou aquiliana; objetiva e subjetiva; direta e indireta. Referente às duas primeiras, CAVALIEIRI FILHO (2012) diz que:

Se preexiste um vínculo obrigacional, e o dever de indenizar é consequência do inadimplemento, ternos a responsabilidade contratual, também chamada de ilícito contratual ou relativo; se esse dever surge em virtude de lesão a direito subjetivo, sem que entre o ofensor e a vítima preexista qualquer relação jurídica que o possibilite, ternos a responsabilidade extracontratual, também chamada de ilícito aquiliano ou absoluto.

Pode-se afirmar ainda que na responsabilidade civil contratual para que se caracterize faz-se necessário que o autor do dano e vítima já tenham mantido vinculo anteriormente para obrigação de uma ou mais prestações, sendo a culpa contratual uma violação no dever de adimplir. Já na responsabilidade civil extracontratual ou aquiliana vila um dever necessariamente negativo, para tanto na responsabilidade aquiliana a culpa deve ser sempre provada pela vítima, enquanto na contratual a culpa será presumida.

É também importante fazer a diferenciação de responsabilidade civil objetiva e subjetiva. No que diz respeito a responsabilidade objetiva considera-se aquela em que a lei impõe a reparação do dano simplesmente por sua existência e independente de culpa.

Hipóteses há em que não é necessário sequer ser caracterizada a culpa. Nesses casos, estaremos diante do que se convencionou chamar de “responsabilidade civil objetiva”. Segundo tal espécie de responsabilidade, o dolo ou culpa na conduta do agente causador do dano é irrelevante juridicamente, haja vista que somente será necessária a existência do elo de causalidade entre o dano e a conduta do agente responsável para que surja o dever de indenizar. (GAGLIANO; PAMPLONA FILHO, 2012)

Portanto, no que diz respeito a responsabilidade civil subjetiva, leva- se em consideração o elemento culpa, sendo assim, nos casos que não houver culpa

35 não haverá obrigação de reparação do dano.

A responsabilidade civil subjetiva é a decorrente de dano causado em função de ato doloso ou culposo. Esta culpa, por ter natureza civil, se caracterizará quando o agente causador do dano atuar com negligência ou imprudência, conforme cediço doutrinariamente, através da interpretação da primeira parte do art. 159 do Código Civil de 1916 (“Art. 159. Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência, ou imprudência, violar direito, ou causar prejuízo a outrem, fica obrigado a reparar o dano”), regra geral mantida, com aperfeiçoamentos, pelo art. 186 do Código Civil de 2002 (“Art. 186. Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito”). (GAGLIANO; PAMPLONA FILHO, 2012)

O Código Civil faz referência aos dois tipos de responsabilidade, portanto se filiou a regra da teoria subjetiva, como pode observar o disposto no art. 186, que erigiu o dolo da culpa como fundamento para a obrigação de reparar o dano. A responsabilidade subjetiva subsiste como regra necessária, porém, não há prejuízos para a aplicação da responsabilidade objetiva. (GONÇALVES, 2017)

Por fim, a responsabilidade civil se divide em direta e indireta. Sendo a direta, considerado como regra, quando a própria pessoa que cometeu o dano e irá responder por sua conduta. E a indireta, quando um terceiro não causador da conduta irá responder pelo causador da conduta, tendo esta previsão no art. 932 do Código Civil:

Art. 932. São também responsáveis pela reparação civil:

I - os pais, pelos filhos menores que estiverem sob sua autoridade e em sua companhia;

II - o tutor e o curador, pelos pupilos e curatelados, que se acharem nas mesmas condições;

III - o empregador ou comitente, por seus empregados, serviçais e prepostos, no exercício do trabalho que lhes competir, ou em razão dele;

IV - os donos de hotéis, hospedarias, casas ou estabelecimentos onde se albergue por dinheiro, mesmo para fins de educação, pelos seus hóspedes, moradores e educandos;

V - os que gratuitamente houverem participado nos produtos do crime, até a concorrente quantia.

Referente a estas duas últimas espécies de responsabilidade civil, CERA (2010), dispõe que:

A responsabilidade civil direta, também chamada de simples ou por ato próprio, é aquela que o agente do dano é o responsável por sua reparação. Deriva de fato causado diretamente pelo agente que gerou o dano.

A responsabilidade civil indireta ou complexa ocorre quando o responsável pela reparação do dano é pessoa distinta da causadora direta da lesão. É a

36 que decorre de ato de terceiro, com o qual o agente tem vínculo legal de responsabilidade, além das situações de fato de animal ou fato da coisa. Com a finalidade de melhor entender o tema desse capitulo, passa-se a discorrer sobre a evolução da responsabilidade civil.