2. Revisão da Literatura
2.1. Conceito e finalidades do Desporto Escolar
Desporto Escolar é um programa tutelado pelo MEC destinado a apoiar, no seio das instituições públicas ou privadas de ensino, iniciativas de dinâmica interna ou externa de carácter desportivo. É um elemento do sistema educativo com carácter facultativo, sem peso na avaliação curricular dos alunos. A importância e o impacto do DE na dinâmica de cada escola são inquestionáveis, embora a sua implementação não seja pacífica (Nogueira, 2009). O DE está incluído na oferta desportiva das escolas portuguesas e é uma de muitas atividades que são oferecidas aos alunos para complemento curricular que visa, nomeadamente, o enriquecimento cultural, cívico, desportivo, artístico e a inserção dos educandos na comunidade.
Segundo o Decreto-Lei n.º 95/91 de 26 de fevereiro, secção II, artigo 5.º, documento que veio regulamentar a EF e o DE, entende-se o Desporto Escolar por:
O conjunto de práticas lúdico-desportivas e de formação com objecto desportivo, desenvolvidas como complemento curricular e ocupação dos tempos livres, num regime de liberdade de participação e de escolha, integradas no plano de actividades da escola e coordenadas no âmbito do sistema educativo. (Decreto-Lei n.º 95/91)
No programa 2013-2017, que está atualmente em prática, o DE tem como missão “proporcionar o acesso à prática desportiva regular de qualidade, contribuindo para a promoção do sucesso escolar dos alunos, dos estilos de vida saudáveis, de valores e princípios associados a uma cidadania ativa” (DDE, 2013).
O DE é uma ferramenta pedagógica do nosso sistema de educação, com ligação à EF, mas com objetivos e propósitos distintos. Como o nome indica, desporto escolar é o desporto que é praticado na escola virado para a vertente competição, intra e inter escolas. Pode e deve ter ligações com o desporto federado (DF). O DE é “… um meio de educação (social, pessoal, cívica e cultural) e, como tal, deve estabelecer relações de carácter consubstancial com a disciplina de Educação Física (a substância é o desporto) e, do mesmo modo com as federações desportivas (competição educativa)” (Rebelo, 1999, p.17).
Desde há muito que o DE se debate sobre qual a orientação metodológica que deve seguir. Se uma atividade física orientada para a saúde e recreação, se uma formação desportiva dirigida para a excelência. Há quem defenda que deve continuar sob a tutela do Sistema Educativo e
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quem, pelo contrário, considere que deve ser integrado no Sistema Desportivo. Esta é uma questão fulcral que necessita ser clarificada, pelo menos, enquanto representar um constrangimento ao seu desenvolvimento (Nogueira, 2009).
Matos (1999, citado por Ribeiro, 2013) diz que o DE é uma prática voluntária e uma atividade de complemento curricular inserido no projeto de escola e na comunidade educativa envolvente onde todos os alunos podem aceder e participar. Defende que o DE não se deve orientar para o rendimento desportivo, mas sim para o aspeto formativo e entende que tem um papel importante na escola e no seu processo educativo já que, mais do que um espaço de prática desportiva, é um elemento fundamental para a cidadania como meio para a formação integral dos seus praticantes. Refere ainda que “Desporto Escolar é, realmente, um direito de todos os alunos, é uma porta aberta também para os que são menos dotados e onde não existem suplentes mas apenas titulares” (Matos, 1999, citado por Ribeiro, 2013, p. 44).
De acordo com Mota (2001), a prática do DE tem de ser para todos, independentemente das suas capacidades, não permitindo qualquer motivo de exclusão ou segregação, nem ser orientada por critérios de seleção, normalmente dos mais dotados, que em grande parte são já os que usufruem dos benefícios da prática, seja por razões económicas ou sociais. O mesmo autor entende o DE como um processo unitário, representado por um projeto global, assente em três vertentes de ação pedagógica e educativa dos educadores junto das crianças e jovens para quem ele se dirige, designadas da seguinte forma: (1) vertente da atividade curricular/aulas de EF com participação de carácter obrigatório; (2) vertente de atividade de extensão curricular com participação de carácter misto; (3) uma outra vertente de atividade de tempos livres de participação voluntária.
Os objetivos a que o DE se propõe situam-se globalmente na satisfação do direito de todos os alunos e, não apenas dos mais dotados terem acesso ao desporto e no reforço da motivação para a prática, com vista à aquisição de um estilo de vida ativa e saudável. Por esta razão, na organização e desenvolvimento das atividades, devem ser ponderados os aspetos referentes à saúde e bem-estar, uma vez que constituem um dos meios de compensação dos efeitos nocivos dos estilos de vida da sociedade atual (Mota, 1997).
Gomes (1993) referencia que a escola não deve entrar em disputa pelo espaço do desporto federado porque não segue os mesmos objetivos. Segundo a autora, a escola não reclama a tarefa de formar campeões.
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Por outro lado, Sobral (2012a) menciona que a manutenção da discriminação negativa dos mais dotados, dos “talentos” porventura, em consequência da mediocrização dos objetivos, torna inevitavelmente o DE como uma recreação organizada, sem incentivos à assunção de exigência na aprendizagem, na consolidação das capacidades e das competências, na emulação e promoção do potencial de performance. Dando a primazia ao convívio em detrimento da competição, o mesmo autor menciona que o DE acabou por cair na pecha de um certo conceito de “educação inclusiva” que tomou conta da escola portuguesa, onde o sucesso é estatisticamente medido da mediana para baixo, uma atitude em discordância absoluta com a natureza do ato desportivo.
Guimarães (2005) refere que o DE não deve assumir as mesmas formas para todos os alunos. As suas finalidades e objetivos devem ser comuns, mas a sua operacionalização deve reger-se por princípios de decisão local, ajustada a regras e orientações e de acordo com as características do contexto dos seus destinatários.
Segundo o despacho n.º 9302/2014, os responsáveis pela elaboração do programa do DE visam criar condições para o alargamento gradual da oferta de atividades físicas e desportivas, de caráter formal e não formal a todos os alunos abrangidos pela escolaridade obrigatória e, ainda, para o estímulo aos alunos e promoção de modalidades com elevado potencial desportivo, presentes nos quadros competitivos nacionais e internacionais. Por um lado, pretendem que o DE abranja o maior número de alunos possível, por outro, desejam aprofundar a prática desportiva, com a criação dos centros de formação desportiva e grupos-equipa de nível III, como veremos mais à frente no enquadramento organizacional.
Com o novo programa, o DE procura encontrar formas de equilíbrio entre a competição e o convívio, aumentar o número de praticantes, melhorar algumas competências motoras através do treino, das competições e atividades sócio/recreativas, combater o abandono escolar precoce, aumentar a oferta complementar e melhorar a qualidade das práticas desportivas.
Para Freire (2010) os princípios do DE são:
... contribuir para a formação integral dos jovens, através de situações de convívio, camaradagem, de colaboração e cooperação, de competição, de organização e trabalho colectivo que nelas se vivem, retirando os inegáveis benefícios de ordem física, pedagógica e educativa, onde também se procura a construção de uma cidadania
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participativa e actuante que respeite a individualidade e a diferença, visto que as suas principais finalidades são o acesso à educação e ao bem-estar físico, através da prática desportiva orientada, visando: a promoção da saúde e condição física; a aquisição de hábitos e condutas motoras; o entendimento do desporto como factor de cultura; a estimulação de sentimentos de solidariedade, cooperação, autonomia e criatividade e, ainda, a gestão de actividades por estudantes praticantes, sob a orientação de profissionais qualificados. (pp. 6-7)
Gonçalves (2002) sugere que o DE persiga os seguintes objetivos:
proporcionar a todos, um conjunto de actividades desportivas de carácter recreativo ou competitivo; aquisição de atitudes de integração e de convivialidade, de responsabilidade de pertença e de partilha, da noção de direitos e deveres, ou seja o desenvolvimento precoce da cidadania; aquisição dos valores e princípios do Espírito Desportivo e da Tolerância, do respeito pelas diferenças, de aceitação do outro, nas práticas desportivas e na vida em sociedade; e contribuir para um estilo de vida activo e saudável. (p. 2)
A Lei de Bases do Sistema Educativo, Lei nº 49/2005 de 30 de agosto, faz referência à ocupação dos tempos livres e do DE. O ponto 5, do artigo 51º da respetiva lei refere:
O desporto escolar visa especificamente a promoção da saúde e condição física, a aquisição de hábitos e condutas motoras e o entendimento do desporto como factor de cultura, estimulando sentimentos de solidariedade, cooperação, autonomia e criatividade, devendo ser fomentada a sua gestão pelos estudantes praticantes, salvaguardando-se a orientação por profissionais qualificados. (Lei nº 49/2005)
O Ministério da Educação em 20031 elaborou um documento onde concebeu três grandes finalidades:
(1) A Promoção da Saúde, pelo contributo que pode representar para o bem mais importante da vida das pessoas. Considera-se que a prática de atividades desportivas escolares podem constituir-se como um fator determinante de influência na melhoria da saúde das crianças e jovens alunos, contribuindo decisivamente para a aquisição de hábitos de vida ativa e estilos de vida saudável, ao longo da vida. (p. 5)
1 Ministério da Educação (2003). Documento Orientador do Desenvolvimento do Desporto Escolar: Jogar pelo Futuro - Medidas e Metas para a Década.
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(2) O Desenvolvimento da Cidadania, visando promover a integração dos alunos na sociedade, no respeito pelos seus princípios, leis e valores, em autonomia, ou seja, de forma conjugada com os princípios, regras e valores de cada um. É indiscutível o elevadíssimo potencial de socialização que a prática dos jogos desportivos encerra, pela possibilidade de expressão de sentimentos de emoção, prazer e risco controlado; de adoção de comportamentos, autonomia, responsabilidade e sentido crítico; de criação de ambientes de comunicação e de cooperação, no sentido do desenvolvimento da autoestima e do sentimento de pertença a um grupo. (p. 6)
(3) A Formação de candidatos a Bons Praticantes de Desporto é outra das finalidades. Quer isto dizer, possibilitar boas práticas desportivas a todos os alunos que, pelas mais diversas razões, queiram começar a praticar Desporto Escolar e, mais ainda, criando condições para que todos aqueles que pretendam aperfeiçoar as suas competências desportivas e, posteriormente, desejem especializar-se, tenham mais possibilidades de o conseguir. (p. 6)
Para Santos (2009), ao DE compete a educação motora e a aquisição e desenvolvimento dos gestos básicos da modalidade selecionada, onde a prática desportiva, a par dos benefícios para a saúde e como forma sadia de ocupação dos tempos livres é, ao mesmo tempo, um instrumento de socialização privilegiado. Tendo por base o quadro conceptual da Lei de Bases do Sistema Educativo, as referências legais respeitantes ao DE e os contributos dos autores que se dedicaram a desenvolver este tema, Santos (2009) compilou alguns princípios e objetivos que deverão regular o DE:
(1) Um meio de formação pessoal e social das crianças e jovens que vise contribuir para o alcance de valores como a solidariedade, cooperação, espírito de equipa e de convívio com os outros;
(2) Um agente da aquisição e sedimentação, quer de hábitos de atividade física, quer de higiene;
(3) Uma forma de ocupação do tempo livre devidamente orientada e em segurança;
(4) Proporcionar a todas as crianças atividades de carácter lúdico/recreativo, de formação ou de orientação desportiva;
(5) Uma oportunidade para a aquisição de conhecimentos respeitantes às relações de funcionamento do organismo, saúde, exercitação e prática desportiva;
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(6) Uma atividade de complemento curricular da disciplina de EF na perspetiva da continuidade, reforço, satisfação de necessidades e interesses dos alunos;
(7) Um meio de sensibilizar os alunos para a importância da comunidade onde a escola e as atividades se inserem, através da interdisciplinaridade e da interação com a comunidade local;
(8) Um sistema de formação por excelência para o sistema desportivo, em especial para o Desporto Federado, garantindo não só a sua formação mas também os processos de comunicação com o futuro;
(9) A aquisição de uma atitude responsável no cumprimento de normas e regras.
Existe uma diversificação dos atributos, qualificações destinadas ao DE, mas a maioria refere que ele não deve assumir as mesmas formas, para todos os alunos, apesar das finalidades e objetivos serem comuns a todos. Assim, será essencial que a operacionalização destas atividades se reja por princípios de decisão local, ajustada a regras e orientações de acordo, quer com as características dos seus destinatários, quer com as características contextuais em que se insere a escola (Santos, 2009).
Para Rego (2002) será urgente considerar a realidade escolar e fazer as reformulações adequadas, para que a escola possa colaborar na formação multilateral dos seus alunos. Independentemente da conceção do DE, é importante estimular a escola a promover o desenvolvimento de um modelo de organização desportiva consubstanciado à sua própria realidade, implementando projetos próprios em que as condições da escola, as necessidades e motivações dos seus alunos estejam contempladas.
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