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Secção I – Recurso de revisão

1. Conceito e fundamentos

Contrariamente ao recurso ordinário, qualquer que ele seja, que se destina a evitar o trânsito em julgado de uma decisão desfavorável, o recurso extraordinário de revisão visa a alteração de uma decisão já transitada.

O recurso extraordinário de revisão veio admitir, a impugnação de decisões judiciais já cobertas pela autoridade do caso julgado, pretendendo assegurar-se com ele o primado da justiça sobre a segurança.242 Concretizando, a lei só consente a rediscussão de uma matéria já definitivamente resolvida em situações-limite, de tal modo graves que a subsistência da decisão em causa seja susceptível de abalar clamorosamente o princípio da desejada justiça material. Trata-se, portanto, de um recurso de reparação.243

É que o prestígio de um Estado de Direito impõe que a reapreciação de uma decisão transitada só possa ser feita quando seja fundadamente de crer que a sua formação se acobertou em vícios graves, que adjectivam uma realidade patentemente desconforme com o direito recto e justo que se pretende alcançar.

Para José Frederico Marques, “A coisa julgada cria, para a segurança dos direitos subjetivos, situação de imutabilidade que nem mesmo a lei pode destruir ou vulnerar”. Acrescentam Nelson Nery Junior e Rosa Maria Andrade Nery, “Transitada em julgado a sentença de mérito, as partes ficam impossibilitadas de alegar qualquer outra questão relacionada com a lide sobre a qual pesa a autoridade da coisa julgada. A norma reputa repelidas todas as alegações que as partes poderiam ter feito na petição inicial e contestação a respeito da lide e não o fizeram. Isto quer significar que não se admite a propositura de nova demanda para rediscutir a lide, com base em

242 Mendes, Recursos em Processo Civil, 1994, pág. 301.

novas alegações”.244

Porém, conforme ensina Alberto dos Reis, “Pode suceder que a sentença tenha sido proferida em condições de tal maneira irregulares e viciosas, que o interesse superior da justiça deva prevalecer sobre o interesse social da segurança e certeza [do caso julgado]. Quer dizer, o recurso extraordinário [de revisão] pressupõe um vício estranho e anormal na pronúncia jurisdicional, vício tão grave e tão infeccioso, que não deva ser coberto pela autoridade do caso julgado. O respeito e homenagem pelo caso julgado cede perante a necessidade irreprimível de dar satisfação a um alto clamor de justiça”.245

Em princípio, a segurança jurídica exige que, formado o caso julgado, se feche a porta a qualquer pretensão tendente a inutilizar benefício que a decisão atribuiu à parte vencedora.246

O recurso extraordinário de revisão é um expediente processual que faculta a quem tenha ficado vencido num processo anteriormente terminado, a sua reabertura, mediante a invocação de certas causas taxativamente indicadas na lei.247

Ou seja, este recurso tem natureza excepcional, ditada pelos princípios da segurança jurídica, da lealdade processual e do caso julgado, não se tratando de um sucedâneo das instâncias de recurso ordinário.248 Daí que, no recurso extraordinário de revisão, sejam taxativas as causas da revisão elencadas no art. 487º do CPC. Ou seja, é um recurso que se delimita exclusivamente pelos fundamentos.249

Este recurso cabe das decisões judiciais proferidas em qualquer tipo de causa, ainda que a mesma tenha valor compreendido dentro da alçada do tribunal.250

244 José Frederico Marques, Manual de Direito Processual Civil, vol. III/329, item n. 687, 2ª ed./2ª tir., Millennium

Editora, 2000, e Nelson Nery Junior e Rosa Maria Andrade Nery, Código de Processo Civil Comentado, pág. 709, 10ª ed., 2007, RT, citados no acórdão do Supremo Tribunal Federal do Brasil de 25 de Maio de 2010, Recurso Extraordinário 594.350, Rio Grande do Sul, relator Ministro Celso de Mello. Veja-se acórdão do Tribunal de Recurso de 19-8-2013, processo nº 10/Cível/ 2013/TR, relator Rui Penha.

245 Reis, Código de Processo Civil Anotado, volume V, 2012, pág. 217.

246 Ferreira, Manual dos Recursos em Processo Civil, 2006, pág. 369, citando Alberto dos Reis, Código de Processo

Civil Anotado, vol. VI, pág. 336.

247

Ferreira, Manual dos Recursos em Processo Civil, 2006, págs. 367-368.

248

Mendes, Recursos em Processo Civil, 1994, págs. 300-301.

249 Mendes, Recursos em Processo Civil, 1994, pág. 303, e Freitas e Mendes, Código de Processo Civil Anotado,

volume III, 2008, pág. 224.

250 Mendes, Recursos em Processo Civil, 1994, pág. 303, e Ferreira, Manual dos Recursos em Processo Civil, 2006,

Nos termos do art. 487º do CPC, a decisão transitada em julgado só pode ser objecto de revisão nos seguintes casos ali previstos. O recurso extraordinário de revisão delimita-se, portanto, exclusivamente pelos seus fundamentos.251

a) Quando se mostre, por sentença criminal passada em julgado, que foi proferida por suborno, prevaricação, favorecimento pessoal ou corrupção do juiz ou de algum dos juízes que na decisão intervieram. Só estes crimes podem ser fundamento de revisão e é fundamental que a prática do crime tenha influído no teor da decisão, ou seja, é indispensável que exista nexo de causalidade entre o dolo do juiz e o sentido da decisão a rever.252 O dolo do juiz tem que ser constatado em processo criminal, não podendo ser determinado no próprio recurso de revisão.253

b) Quando se apresente sentença já transitada que tenha verificado a falsidade de documento ou acto judicial, de depoimento ou das declarações de peritos, que possam em qualquer dos casos ter determinado a decisão a rever. A falsidade de documento ou acto judicial não é, todavia, fundamento de revisão, se a matéria tiver sido discutida no processo em que foi proferida a decisão a rever. O vício aqui previsto não se verifica quanto ao órgão judicativo, mas antes quanto aos meios de prova ou a actos judiciais, ou seja, quanto a qualquer vício relativo ao julgador aplica-se a alínea a) e não a alínea b). Por outro lado, também aqui se impõe a verificação de um nexo causal entre o vício e o teor da decisão que se pretende rever.254

c) Quando se apresente documento de que a parte não tivesse conhecimento, ou de que não tivesse podido fazer uso, no processo em que foi proferida a decisão a rever e que, por si só, seja suficiente para modificar a decisão em sentido mais favorável à parte vencida. O documento tem de fazer prova de um facto inconciliável com a decisão a rever. Uma sentença judicial não é documento para o efeito desta alínea.255

d) Quando tenha sido declarada nula ou anulada, por sentença já transitada, a confissão, desistência ou transacção em que a decisão se fundasse. A declaração de nulidade ou a anulação da confissão, desistência ou transacção, em acção para o efeito expressamente intentada, não desencadeia a ineficácia da sentença homologatória; esta tem que ser impugnada pela via do

251

Freitas e Mendes, Código de Processo Civil Anotado, vol. III, 2008, pág. 224.

252 Ferreira, Manual dos Recursos em Processo Civil, 2006, pág. 371. 253 Ferreira, Manual dos Recursos em Processo Civil, 2006, págs. 372.

254 Freitas e Mendes, Código de Processo Civil Anotado, vol. III, 2008, págs. 224-225. 255 Freitas e Mendes, Código de Processo Civil Anotado, vol. III, 2008, pág. 226.

recurso de revisão.256

e) Quando seja nula a confissão, desistência ou transacção por violação do preceituado nos artigos 40º e 249º, sem prejuízo do que dispõe o nº 3 do artigo 253º. Continuando com Lebre de Freitas, “o recorrente pode, no próprio recurso extraordinário de revisão, invocar directamente a invalidade da confissão, desistência ou transacção em que a sentença revidenda se fundara, tendo, na fase rescindente, de provar os factos que consubstanciam tal invalidade. Essa invalidade pode resultar de a confissão, desistência ou transacção ter sido feita por mandatário forense sem poderes especiais para o efeito ou por representante de pessoa colectiva, sociedade, incapaz ou ausente fora dos limites das suas atribuições ou sem autorização especial”.257

Ou seja, o fundamento da revisão pode ser invocado directamente no recurso, ou face a decisão anterior.

e) Quando, tendo corrido a acção e a execução à revelia, por falta absoluta de intervenção do réu, se mostre que faltou a sua citação ou é nula a citação feita. A revelia absoluta do réu ou executado tem de ser acompanhada da falta ou nulidade de citação, pois só estas impedem verdadeiramente o demandado de se defender.258 Ou seja, existe uma absoluta falta de contraditório.259

g) Quando seja contrária a outra que constitua caso julgado para as partes, formado anteriormente. Pela natureza deste fundamento, a procedência da fase rescindente do recurso de revisão implica, desde logo, a produção automática do efeito de subsistência do caso julgado anterior, sem necessidade da subsequente fase rescisória.260

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