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DIREITO PROCESSUAL CIVIL. (Recursos em Processo Civil)

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DIREITO PROCESSUAL CIVIL (Recursos em Processo Civil)

Sumário das aulas ministradas ao IV Curso de Formação para Magistrados e Defensores Públicos (Centro de Formação Jurídica 2012)

Rui Penha

(2)

Direito processual civil Recurso em Processo Civil

Capítulo I – Disposições Gerais

1. Conceito

Nos termos do art. 426º, nº 1, do CPC, as decisões judiciais podem ser impugnadas por meio de recursos.

Na definição de Alberto dos Reis, recurso é o meio específico de impugnação das decisões judiciais. “Os recursos são meios de obter a reforma de sentença injusta, de sentença inquinada de vício substancial ou de erros de julgamento. O mecanismo através do qual opera o recurso define-se nestes termos: pretende-se um novo exame da causa, por parte de órgão jurisdicional hierarquicamente superior”.1

Ou seja, o recurso em processo civil não é uma nova acção, mas sim um meio de impugnação das decisões judiciais, que só existe dentro de um processo que está em curso.2 Só no recurso extraordinário de revisão se solicita a reapreciação de uma decisão já transitada, mas, mesmo aí, sempre na sequência da acção em que tenha sido proferida (art. 488º do CPC).

Recursos são, portanto, os meios processuais destinados a obter uma nova apreciação jurisdicional, por um tribunal hierarquicamente superior, das decisões proferidas pelos tribunais, as quais não são desde logo definitivas.3

Trata-se da consagração do princípio do duplo grau de jurisdição, o qual consiste na

1

Reis, Código de Processo Civil Anotado, volume V, 2012, pág. 212.

2

É uma fase da mesma instância (Mendes, Recursos em Processo Civil, 1994, pág. 48). Os recursos visam modificar as decisões recorridas e não criar decisões sobre matéria nova não se podendo, pois, invocar questões que não tenham sido suscitadas na primeira instância e que os tribunais de primeira instância não tivessem que conhecer (Neto, Código de Processo Civil Anotado, 1997, págs. 744-746).

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possibilidade de as decisões dos tribunais poderem ser apreciadas, do ponto de vista da matéria de facto e da matéria de direito, por um tribunal superior.4 Ou seja, a possibilidade de as decisões dos tribunais de primeira instância serem objecto de recurso.5

Seguindo Bento Herculano Duarte Neto, “O duplo grau de jurisdição consiste numa garantia concedida ao jurisdicionado, destinada a lhe propiciar uma maior segurança. … a competência recursal é exercida, por excelência, por órgãos colegiados, o que implica em tese, em uma melhor apreciação da matéria”.6

Este princípio encontra-se genericamente consagrado no art. 428º, nº 1, do CPC (é permitido recorrer dos acórdãos, das sentenças e dos despachos cuja irrecorribilidade não estiver prevista na lei). Porém, como acontece com a maioria dos princípios processuais, também comporta excepções. Assim, só é admissível recurso ordinário nas causas de valor superior à alçada do tribunal de que se recorre desde que as decisões impugnadas sejam desfavoráveis para o recorrente em valor também superior a metade da alçada desse tribunal (arts. 428º, nº 2, e 917º, nº 1, do CPC).7

Estas excepções não são inconstitucionais. Segundo Fernando Amâncio Ferreira, “o direito à tutela judicial efectiva, consagrado no art. [26º, nº 1, da Constituição], basta-se, em matéria não penal, com uma instância única”.8

Ou seja, desde que não sejam criadas condições que impeçam o recurso das decisões judiciais por fundamentos económicos ou de outra natureza, excluídos pelo princípio do acesso aos tribunais, o legislador ordinário pode ampliar ou restringir os recursos civis, que através criação ou alteração de pressupostos de admissibilidade quer através da criação e actualização de valores para a alçada dos tribunais.9

Os meios de impugnação das decisões judiciais são instrumentos processuais colocados à disposição dos interessados que ficaram prejudicados com a decisão, pretendendo-se eliminar a decisão inválida, injusta ou não conforme à lei, ou a sua substituição por outra, na sequência do

4 Ferreira, Manual dos Recursos em Processo Civil, 2006, pág. 74. 5

Veja-se Mendes, Recursos em Processo Civil, 1994, pág. 97.

6

Neto, Lucon e Teixeira, Teoria Geral do Direito, 2009, pág. 54.

7

A alçada dos tribunais de primeira instância encontra-se fixada, neste momento, em mil dólares americanos (art. 917º, nº 1, do CPC).

8 Ferreira, Manual dos Recursos em Processo Civil, 2006, pág. 76. Veja-se ainda a anotação ao aludido artigo da

Constituição em Vasconcelos, Constituição Anotada da República Democrática de Timor-Leste, 2011, pág. 105.

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reexame da matéria controvertida.10

Diferentemente, a impugnação das decisões judiciais junto do próprio órgão que as produziu designam-se por reclamações, as quais se destinam a expurgar a sentença de vícios formais que a inquinam, sendo solicitadas ao mesmo tribunal que a proferiu (arts. 414º a 417º do CPC).11 Esclarece Armindo Ribeiro Mendes, “A reclamação representa um pedido de revisão do problema sobre que incidiu a decisão judicial, revisão feita pelo mesmo órgão judicial e sobre a mesma situação em face da qual decidiu; o recurso representa um pedido de revisão da legalidade ou da ilegalidade da decisão judicial, feita por um órgão judicial diferente (superior hierarquicamente) ou face de argumentos especiais feitos valer”.12

Segundo a organização judiciária prevista na Constituição existem duas categorias de tribunais com competência para conhecer de matéria cível: os tribunais judiciais de primeira instância e o Supremo Tribunal de Justiça (art. 123º, nº 1, al. a), da Constituição). A organização judiciária rege-se neste momento pelo Regulamento da UNTAET nº 2000/11, alterado pelos Regulamentos da UNTAET nº 2000/14, nº 2001/18 e nº 2001/25, que se mantém em vigor até à instalação e início de funções de novo sistema judiciário, conforme a disposição transitória do art. 163º, nº 2, da Constituição.13

Assim, temos neste momento quatro Tribunais Distritais que funcionam como tribunais de primeira instância e um Tribunal de Recurso, que funciona como tribunal de segunda e última instância.14

Nos termos do art. 52º, nº 1 e 3, do CPC, a competência genérica em matéria civil é exercida pelos tribunais judiciais distritais funcionando em primeira instância, sendo da competência do Supremo Tribunal de Justiça (no presente do Tribunal de Recurso) conhecer dos recursos interpostos das decisões proferidas pelos tribunais distritais em matéria civil.

A hierarquia judiciária reflecte-se apenas no poder conferido aos tribunais superiores de, por via de recurso, revogarem e reformularem as decisões dos tribunais inferiores. A hierarquia

10

Ferreira, Manual dos Recursos em Processo Civil, 2006, pág. 69.

11

Reis, Código de Processo Civil Anotado, volume V, 2012, pág. 212.

12 Mendes, Recursos em Processo Civil, 1994, págs. 20-21, citando Castro Mendes, Direito Processual Civil III

(Recursos), 1987, págs. 6-7.

13 Vasconcelos, Constituição Anotada da República Democrática de Timor-Leste, 2011, pág. 393. 14 O que quer significar que existe apenas uma única instância de recurso.

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judiciária não interfere nem pode interferir com a independência do tribunal.

Ou seja, se, por um lado, os valores de certeza e segurança impõem que as decisões a partir de certo momento se tornem definitivas e imodificáveis, por outro lado, tais valores devem ceder, em casos excepcionais, perante o valor da justiça e da verdade material.15

2. Espécies de recursos cíveis

Os recursos são ordinários ou extraordinários: são ordinários a apelação e o agravo; são extraordinários a revisão e o recurso para uniformização de jurisprudência (art. 426º, nº 2, do CPC).

Segundo Fernando Amâncio Ferreira, “A enunciação é esgotante e taxativa; daí não poderem os pleiteantes servirem-se de qualquer outro recurso para obterem a revogação ou a substituição de decisões desfavoráveis”.16

Os recursos ordinários só são admissíveis para a reapreciação de uma decisão ainda não transitada em julgado, enquanto os recursos extraordinários só podem ser interpostos das decisões que já tenham transitado em julgado.17 Salienta Armindo Ribeiro Mendes, “Nos recursos extraordinários, em regra, há uma primeira fase processual destinada à eliminação ou rescisão da decisão transitada em julgado (judicium rescidens), e, depois, uma fase destinada à formação de nova decisão substitutiva da primeira (jusdicium rescissorium)”.18

Para Lebre de Freitas, “Os recursos ordinários são recursos de reponderação e não de reexame, visto que o tribunal superior não é chamado a apreciar de novo a acção e a julgá-la, como se fosse pela primeira vez, indo antes controlar a correcção da decisão proferida pelo tribunal recorrido, face aos elementos averiguados por este último. É, por isso, … que aos tribunais de recurso não cabe conhecer de questões novas (o chamado ius novorum), mas apenas

15 Ferreira, Manual dos Recursos em Processo Civil, 2006, págs. 82-83. 16 Ferreira, Manual dos Recursos em Processo Civil, 2006, pág. 82. 17 Ferreira, Manual dos Recursos em Processo Civil, 2006, pág. 82. 18 Mendes, Recursos em Processo Civil, 1994, págs. 136-137.

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reapreciar a decisão do tribunal a quo, com vista a confirmá-la ou revoga-la”.19

Nos termos do art. 427º do CPC a decisão considera-se passada ou transitada em julgado, logo que não seja susceptível de recurso ordinário, ou de reclamação nos termos dos artigos 416º e 417º do CPC.

Nas causas que admitam recurso, a decisão transita decorridos dez dias sobre a sua notificação à parte, sem que tenham sido arguidas nulidades ou pedida a aclaração ou reforma da decisão. Arguidas nulidades ou solicitada a reforma ou aclaração da decisão, esta só transita na data da decisão, se não for susceptível de recurso, não sendo admitidos novas arguições de nulidades ou novos pedidos de aclaração ou reforma.20

Daí que os acórdãos do Supremo Tribunal de Justiça21 só transitem em julgado decorrido o prazo de dez dias após a notificação dos mesmos, prazo legal de dez dias para arguir nulidades ou apresentar reclamações (arts. 416º, 417º e 119º, nº 1, do CPC).22 Caso tenha sido arguida alguma nulidade do acórdão do Supremo Tribunal de Justiça, ou se tiver sido apresentada reclamação, o trânsito ocorre imediatamente com a sua notificação, uma vez que já não é admissível arguir nulidades ou apresentar reclamações do acórdão que incidiu sobre a primeira arguição ou reclamação.

Importa, porém, salientar que a arguição de nulidades ou apresentação de reclamações deve ser criteriosa e fundamentada, sendo sempre de evitar a arguição de nulidades ou a apresentação de reclamações sem qualquer fundamento, visando apenas obter uma alteração da decisão, sem base legal para o efeito. Efectivamente, conforme salienta Lopes do Rego, “muitas destas pretensões – expressas na reiterada invocação de pretensas e ficcionadas “nulidades” do acórdão, em pedidos de aclaração, eles próprios perfeitamente obscuros, e em pedidos de reforma substancial do decidido que mais não são que a utilização de uma nova via impugnatória, contra uma decisão que é já definitiva e inimpugnável – só podem entender-se como puras manobras dilatórias, visando protelar artificiosamente a duração de uma lide que deveria estar definitivamente encerrada, com a prolação da “última palavra” por parte do órgão jurisdicional

19 Freitas e Mendes, Código de Processo Civil Anotado, vol. III, 2008, pág. 8. 20 Neto, Código de Processo Civil Anotado, 1997, pág. 747.

21 Ou, no presente, do Tribunal de Recurso.

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que se situa no “topo” da hierarquia dos tribunais”.23

Os recursos extraordinários não se enquadram na definição de recurso supra referida, uma vez que: a) o recurso extraordinário de revisão é julgado pelo próprio tribunal que proferiu a decisão e não por outro hierarquicamente superior (arts. 491º e 492º do CPC); b) o recurso extraordinário para fixação de jurisprudência é julgado pelo Plenário do Supremo Tribunal de Justiça e refere-se a decisões contraditórias do próprio Supremo Tribunal de Justiça (art. 494º do CPC), embora o Plenário inclua todos os juízes do Supremo Tribunal de Justiça não deixa de se interpor o recurso para o mesmo tribunal.24

3. Admissibilidade do recurso

3.1. Decisões que não admitem recurso

Nos termos do art. 427º do CPC (noção de trânsito em julgado), a decisão considera-se passada ou transitada em julgado, logo que não seja susceptível de recurso ordinário, ou de reclamação nos termos dos artigos 416º e 417º.

O trânsito em julgado é o momento temporal a partir do qual a decisão tem o valor de caso julgado formal, podendo ter ou não valor de caso julgado material. Com o trânsito em julgado da decisão final extingue-se a instância.25

Assim, a sentença passa em julgado: quando não admita recurso; ou quando, tendo-se recorrido dela, os recursos ordinários estejam esgotados.26

Quanto ao primeiro caso, não é admissível recurso: a) De despachos de mero expediente; b) De decisões que ordenam actos dependentes da livre resolução do tribunal; c) Nos demais casos previstos na lei (art. 429º do CPC).27

23

Lopes do Rego, O Direito ao Recurso em Processo Civil, acessível em www.dgpj.mj.pt.

24

Reis, Código de Processo Civil Anotado, volume V, 2012, pág. 212.

25

Freitas e Mendes, Código de Processo Civil Anotado, vol. III, 2008, pág. 9.

26 Reis, Código de Processo Civil Anotado, volume V, 2012, pág. 217.

27 Segundo Fernando Amâncio Ferreira, existem três grupos de decisões que não admitem recurso: em razão da

natureza da decisão (será o caso dos despachos de mero expediente, ou dependentes da livre resolução do tribunal), em razão da vontade das partes (por a ele terem renunciado ou terem aceitado a decisão) e por disposição de lei

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Despacho de mero expediente são aqueles que o juiz profere sobre o andamento regular do processo (como o despacho que marca dia para julgamento), dentro dos seus termos legais ou previamente estabelecidos, e que nada decidem, portanto, sobre a forma do processo ou sobre direitos e obrigações dos litigantes.28 Trata-se de despachos internos, proferidos no âmbito da relação hierárquica estabelecida com a secretaria, ou de um despacho que diz respeito à mera tramitação do processo, não tocando em direitos das partes ou de terceiros.29

Os despachos de mero expediente e as decisões que ordenam actos dependentes da livre resolução do tribunal, não admitem recurso, porque, pela sua própria natureza, não são susceptíveis de ofender direitos processuais das partes ou de terceiros. Acrescenta Alberto dos Reis, “Precisamente por isso, não opera aqui o art. [414º] do CPC. Pelo facto de os emitir, o juiz não vê esgotado o seu poder jurisdicional; pode, logo a seguir, proferir outro despacho em sentido oposto”. Assim, nos termos do art. 420º do CPC, tais despacho não fazem caso julgado formal.30

Segundo Fernando Amâncio Ferreira, “Os despachos proferidos no uso legal de um poder discricionário, por oposição aos praticados no exercício de um poder vinculado, são aqueles relativamente aos quais a lei atribui à entidade competente a livre escolha quer da oportunidade da sua prática, quer da solução a dar a certo caso concreto”.31

No dizer de Lebre de Freitas, “Os despachos proferidos no uso de um poder discricionário não podem ser objecto de recurso por não ter sentido apreciar em nova instância o prudente arbítrio do julgador que inspirou a regulamentação neles acolhida. No entanto, é admissível o recurso quando se impugna a legalidade do uso de poderes discricionários”.32

Para Armindo Ribeiro Mendes, “São despachos proferidos no uso legal de um poder discricionário aqueles que são determinados pelo próprio juiz livremente, ao abrigo de uma norma que lhe confira uma ou mais alternativas de opção, entre as quais o juiz deve escolher em seu prudente arbítrio e em atenção a certo fim geral, no nosso caso, os fins do processo civil,

(Ferreira, Manual dos Recursos em Processo Civil, 2006, págs. 126-137).

28

Reis, Código de Processo Civil Anotado, volume V, 2012, págs. 249-250. Veja-se ainda Mendes, Recursos em Processo Civil, 1994, pág. 156.

29 Freitas e Mendes, Código de Processo Civil Anotado, vol. III, 2008, pág. 22. 30 Reis, Código de Processo Civil Anotado, volume V, 2012, pág. 249.

31 Ferreira, Manual dos Recursos em Processo Civil, 2006, pág. 127.

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justa resolução do litígio que lhe é proposto”.33

Quanto à terceira situação (nos demais casos previstos na lei), encontramos, por exemplo, a irrecorribilidade do despacho do Presidente do Supremo Tribunal de Justiça relativo ao pedido de escusa ou de suspeição de um juiz (arts. 91º, nº 5, e 95º, nº 3, do CPC), ou do despacho do juiz de primeira instância sobre o pedido de declaração de suspeição de um funcionário (art. 101º, al. c), do CPC); do despacho de citação (arts. 196º, nº 2, e 360º, nº 1, do CPC); do despacho que concede ao réu prorrogação de prazo para contestar (art. 366º, nº 6, do CPC); do despacho do juiz que, invocando falta de elementos, relegue para final o conhecimento de matéria que devia conhecer no saneador (art. 386º, nº 5, do CPC); do despacho que decida a repetição ou não de um julgamento por impedimento de um dos juízes do colectivo (arts. 402º, nº 2, do CPC); do despacho que indeferir o requerimento de rectificação, esclarecimento ou reforma da sentença (art. 414º, nº 2, do CPC); a recusa de consentimento para as partes formularem por escrito esclarecimento do depoimento escrito do Presidente de República (art. 557º, nº 7, do CPC); do despacho sobre o pedido de inquirição pessoal das pessoas com prerrogativas de inquirição (art. 557º, nº 14, do CPC); do despacho sobre impedimentos, suspeições ou escusas de peritos (art. 634º, nº 3, do CPC).

3.2. Decisões que admitem recurso

Nos termos do art. 428º, nº 1, do CPC, é permitido recorrer dos acórdãos, das sentenças e dos despachos cuja irrecorribilidade não estiver prevista na lei. Ou seja, todas as decisões judiciais não previstas no art. 429º do CPC são recorríveis. Daí que se possa afirmar que o princípio geral do ordenamento jurídico timorense é o da recorribilidade das decisões judiciais.34

Porém, só é admissível recurso ordinário das decisões proferidas sobre causas de valor superior à alçada do tribunal de que se recorre, no caso do tribunal distrital, uma vez que não é admissível recurso das decisões do Supremo Tribunal de Justiça. Para além disso, a decisão tem que ser desfavorável à parte que recorre em valor superior a metade da alçada (art. 428º, nº 2, do CPC).35 Mas já o recurso extraordinário de revisão não está limitado ao valor da alçada, podendo

33 Mendes, Recursos em Processo Civil, 1994, pág. 156.

34 Mendes, Recursos em Processo Civil, 1994, pág. 151. Ou seja, a irrecorribilidade é considerada pela lei como

excepção (Ferreira, Manual dos Recursos em Processo Civil, 2006, pág. 109).

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ser interposto mesmo das decisões proferidas em causas que estejam dentro de tal valor.36

A alçada é precisamente o valor das causas em que o tribunal decide sem possibilidade de recurso da decisão.37 A alçada do tribunal distrital é, neste momento, de US$ 1.000.

Quer dizer, só é admissível recurso ordinário nas causas de valor superior a US$ 1.000 (ou seja, pelo menos US$ 1.000,01), e, mesmo nas acções de valor superior só se a parte que pretende recorrer tiver decaimento, ou seja, ficar vencida, em valor superior a US$ 500 (ou seja, pelo menos US$ 500,01). Em vez do puro critério do valor da causa, em relação ao valor da alçada, restringe-se ainda a admissibilidade do recurso em razão do valor da sucumbência.38

As normas que limitam a possibilidade de recurso em processo civil não são inconstitucionais, gozando o legislador ordinário de uma ampla possibilidade de conformação em matéria de recursos.39

Há, porém, decisões de que se pode sempre recorrer, independentemente do valor da causa, como o recurso do despacho de indeferimento liminar (arts. 196º, nº 2, e 356º, nº 1, do CPC); da decisão relativa a incompetência absoluta ou sobre violação do caso julgado (art. 428º, nº 3, do CPC); da decisão respeitante ao valor da causa, dos incidentes ou dos procedimentos cautelares, com o fundamento de que o seu valor excede a alçada do tribunal de que se recorre (art. 428º, nº 4, do CPC); do acórdão do Supremo Tribunal de Justiça que esteja em contradição com outro, do mesmo tribunal, sobre a mesma questão fundamental de direito (art. 428º, nº 5, do CPC); nas acções em que se aprecie a validade ou a subsistência de contratos de arrendamento para habitação (art. 428º, nº 6, do CPC); das decisões proferidas contra jurisprudência uniformizada pelo Supremo Tribunal de Justiça (art. 428º, nº 3, do CPC); da condenação de uma das partes como litigante de má fé (art. 662º, nº 3, do CPC).

Quando o recurso se fundar em qualquer destas excepções o seu objecto fica obviamente

sucumbência, como pode ocorrer no caso de o réu ser condenado em indemnização a liquidar em execução de sentença. Nestes casos atende-se apenas ao valor da acção (Freitas e Mendes, Código de Processo Civil Anotado, vol. III, 2008, pág. 14).

36

Reis, Código de Processo Civil Anotado, volume V, 2012, pág. 220.

37 Freitas e Mendes, Código de Processo Civil Anotado, vol. III, 2008, pág. 12. 38 Mendes, Recursos em Processo Civil, 1994, pág. 152.

39 Freitas e Mendes, Código de Processo Civil Anotado, vol. III, 2008, pág. 14. Veja-se ainda Ferreira, Manual dos

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limitado a esse conhecimento, ficando vedado conhecer no mesmo de quaisquer outras questões.40

3.3. Legitimidade para recorrer

A regra geral encontra-se prevista no art. 430º, nº 1, do CPC. Pode recorrer quem for parte principal na acção e tenha ficado vencido, ou seja, a quem a decisão tenha sido desfavorável.

Pressuposto necessário à legitimidade para recorrer é o prejuízo real sofrido com a decisão, ainda que não seja um desvalor económico. Sem esse prejuízo não há interesse em agir, sendo inadmissível o recurso.41

As partes principais, com excepção de determinados processos especiais, são autor e réu, exequente e executado, requerente e requerido, etc.

O revel, o réu que não contestou (notificado pessoal ou editalmente), também pode recorrer (art. 436º, nº 2, do CPC). Embora não tenha ainda intervindo no processo ele não deixa de ser parte, podendo recorrer não só das decisões proferidas após a sua intervenção, mas também das que foram proferidas antes, desde que ainda não tenha findado o respectivo prazo.42

Tratando-se de incertos, qualquer pessoa que se julgue directamente interessada em contradizer pode deduzir a sua legitimidade como réu e, sendo esta reconhecida, passa a ter a posição de parte principal, pelo que, consequentemente, poderá recorrer.43

Parte vencida é aquela a quem a decisão é desfavorável. Segundo a definição de Carnelutti (citado por Lebre de Freitas), “a pessoa cuja posição a torne particularmente sensível à injustiça da decisão respectiva.44 Assim, não pode recorrer o réu que tenha sido absolvido da instância, ou o autor que tenha obtido a condenação do réu no pedido, ainda que com fundamentos diferentes daqueles que invocou.45

Mas já pode recorrer o autor se o réu foi absolvido do pedido principal e apenas condenado

40

Ferreira, Manual dos Recursos em Processo Civil, 2006, pág. 116.

41

Ferreira, Manual dos Recursos em Processo Civil, 2006, pág. 143.

42 Reis, Código de Processo Civil Anotado, volume V, 2012, págs. 258-259. 43 Reis, Código de Processo Civil Anotado, volume V, 2012, pág. 259.

44 Freitas e Mendes, Código de Processo Civil Anotado, vol. III, 2008, pág. 25. 45 Reis, Código de Processo Civil Anotado, volume V, 2012, págs. 264-267.

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no pedido subsidiário.46 Mas já não no caso de pedidos alternativos.47

Também pode recorrer o réu que foi absolvido da instância, pretendendo que a acção deve prosseguir para que possa antes ser absolvido do pedido, mas, obviamente, também o autor fica vencido por ver o réu absolvido da instância.48

Nos termos do art. 430º, nº 2, do CPC, podem ainda recorrer as pessoas directamente prejudicadas pela decisão, mesmo que não sejam parte na causa, ou sejam apenas partes acessórias. Conforme Armindo Ribeiro Mendes, “Quer dizer, não é necessário que os terceiros tenham tido qualquer actividade no processo e tenham visto um requerimento seu ser indeferido ou desatendido ou uma acção ou omissão sua ser sancionada. O que importa é que a decisão os afecte directa e efectivamente, que haja um prejuízo que directa e efectivamente se repercuta na sua esfera jurídica (no domínio pessoal ou patrimonial)”.49

Para que uma pessoa, que não seja parte na causa, possa recorrer de decisão proferida nela, é preciso que o prejuízo resulte imediatamente da decisão proferida, não sendo suficiente o prejuízo meramente eventual, ou que dependa de circunstância futura que possa vir a aparecer como consequência da decisão.50 Ou seja, o recurso está aberto não só a pessoas que intervenham no processo, ainda que acidentalmente, mas também a pessoas que nunca tiveram intervenção no mesmo, o que importa é que a decisão afecte ou prejudique directamente o recorrente.51

Não pode recorrer a parte que tenha renunciado ao recurso, mas se a renúncia for antecipada, ou seja, se for anterior à decisão, só é válida se ambas as partes renunciaram à faculdade de recorrer da mesma (art. 431º, nº 1, do CPC). Após a decisão basta à parte vencida não interpor recurso. Porém, existem casos em que as partes têm interesse em que a decisão, ainda que parcialmente desfavorável, transite o mais rápido possível. Nesse caso declaram logo após a mesma, por exemplo para a acta, no caso de uma decisão proferida oralmente, que renunciam à faculdade de recorrer.

46

Reis, Código de Processo Civil Anotado, volume V, 2012, pág. 269, e Freitas e Mendes, Código de Processo Civil Anotado, vol. III, 2008, pág. 26.

47

Freitas e Mendes, Código de Processo Civil Anotado, vol. III, 2008, pág. 26.

48 Ferreira, Manual dos Recursos em Processo Civil, 2006, págs. 144-145. 49 Mendes, Recursos em Processo Civil, 1994, pág. 165.

50 Veja-se Freitas e Mendes, Código de Processo Civil Anotado, vol. III, 2008, págs. 27-28. 51 Reis, Código de Processo Civil Anotado, volume V, 2012, págs. 272-274.

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Ou seja, conforme salienta Lebre de Freitas, “Admite-se que as partes possam renunciar ao decurso do prazo de interposição da reclamação ou de recurso, antecipando o trânsito em julgado”.52

Também não pode recorrer a parte que tenha aceitado a decisão, depois de proferida, expressa ou tacitamente (art. 431º, nº 2 e 3, do CPC). A aceitação tácita resulta da prática de qualquer facto que demonstre sem margem para dúvidas que não pretende recorrer. A aceitação expressa ou tácita não se confunde com o simples deixar decorrer o prazo para interpor recurso.53

A aceitação expressa resulta de declaração da parte,54 podendo ser feita por qualquer forma.55 A aceitação tácita resulta de factos praticados pela parte incompatíveis com a vontade de recorrer, como seja o caso de o réu condenado cumprir a decisão (por exemplo, o réu condenado a pagar ao autor US$ 5.000 entrega o dinheiro logo que tenha conhecimento da sentença, ainda antes do decurso do prazo para poder recorrer da mesma).56

Se a decisão contém condenação do réu no cumprimento de várias e diferentes obrigações, o cumprimento de uma delas apenas implica renúncia tácita parcial, pelo que pode o réu recorrer relativamente à restante parte da decisão.57

A aceitação expressa pode ser declarada pelo mandatário, ainda que não tenha procuração com poderes especiais para o efeito.58

O Ministério Público não tem poder de renunciar ao recurso ou de aceitar expressamente a decisão, não se considerando aceitação tácita qualquer comportamento do mesmo (art. 431º, nº 4, do CPC).

As partes podem ainda, por simples requerimento, desistir de recurso que tenham interposto (art. 431º, nº 5, do CPC). A desistência do recurso é um acto unilateral da parte de natureza

52 Freitas e Mendes, Código de Processo Civil Anotado, vol. III, 2008, pág. 10. 53 Freitas e Mendes, Código de Processo Civil Anotado, vol. III, 2008, pág. 31. 54

Esta declaração pode ser feita por simples requerimento do mandatário, ainda que não tenha procuração com poderes especiais para o efeito (Freitas e Mendes, Código de Processo Civil Anotado, vol. III, 2008, pág. 32).

55

Requerimento, termo no processo, declaração incluída em qualquer peça processual (Ferreira, Manual dos Recursos em Processo Civil, 2006, pág. 133).

56 Mendes, Recursos em Processo Civil, 1994, pág. 159.

57 Reis, Código de Processo Civil Anotado, volume V, 2012, pág. 282. 58 Reis, Código de Processo Civil Anotado, volume V, 2012, pág. 279.

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superveniente, visto que só se pode desistir de um recurso anteriormente interposto.59

3.4. Prazo para interposição do recurso

Nos termos do art. 436º, nº 1, do CPC, o prazo para a interposição dos recursos é de dez dias contados da notificação da decisão recorrida. Trata-se de prazo comum a todos os tipos de recurso, com excepção do recurso de revisão.

O prazo para interposição de recurso é um prazo peremptório de curta duração, imposto pela necessidade de não protelar no tempo a resolução definitiva dos litígios.60

Como é evidente a notificação da decisão terá que ser feita com cópia da mesma (art. 216º do CPC). Não faz sentido que a parte tenha que tomar qualquer atitude perante sentença ou despacho que possa prejudicá-la, sem conhecer com toda a precisão o conteúdo da mesma.61

Porém, só o mandatário mandatários judiciais, o Ministério Público ou o defensor público, são notificados e não as partes (art. 211º, nº 1, do CPC), pelo que o prazo se conta a partir de tal momento, não podendo a parte invocar a falta de notificação quando ela tenha sido feita, conforme previsto na lei, na pessoa do seu mandatário, defensor público ou Ministério Público. Porém, nos casos em que não seja obrigatória a constituição de mandatário, ou a parte o não tenha constituído a notificação à parte que tenha intervindo pessoalmente no processo faz-se na sua pessoa.62

A nulidade da falta da notificação da parte da sentença, ainda que seja sanada por falta de arguição em tempo útil, não invalida que o início do prazo de interposição do recurso não comece, havendo que se proceder a tal notificação.63

Se a parte for revel e a sua residência ou sede não for conhecida no processo, o prazo corre desde a publicação da decisão (art. 436º, nº 2, do CPC). No caso de o réu ser citado para a acção por editais e não contestar nem constituir mandatário nem intervier de qualquer forma no processo (art. 363º do CPC), desconhecendo-se a sua residência ou sede, o prazo de recurso

59

Freitas e Mendes, Código de Processo Civil Anotado, vol. III, 2008, pág. 31.

60 Ferreira, Manual dos Recursos em Processo Civil, 2006, pág. 137. 61 Reis, Código de Processo Civil Anotado, volume V, 2012, pág. 288.

62 Freitas e Mendes, Código de Processo Civil Anotado, vol. III, 2008, págs. 50-51. 63 Neto, Código de Processo Civil Anotado, 1997, págs. 766-767.

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começa a correr com o depósito da sentença na secretaria.64 Daqui decorre que, no caso de revelia do réu de quem seja conhecido o domicílio, deve proceder-se à notificação da sentença à própria parte.

Como acontece com qualquer outro acto processual, a interposição de recurso pode ter lugar nos três dias úteis subsequentes ao termo do prazo (art. 110º, nº 5, do CPC), sem contar com a situação de justo impedimento (art. 111º, nº 1 e 2, do CPC). No entanto, este prazo não se considera para determinar a data de trânsito em julgado da decisão.65 Se não foi interposto recurso o trânsito verifica-se no décimo dia seguinte à notificação da decisão e não só depois do decurso de mais três dias úteis.

Tratando-se de despachos ou decisões orais, reproduzidos no processo, o prazo corre do dia em que foram proferidos, se a parte estiver presente ou tiver sido notificada para assistir ao acto (art. 436º, nº 3, do CPC). Ainda que a parte (ou seja, o seu mandatário, quando constituído, defensor público, ou Ministério Público), não estejam presentes por falta, tendo sido regularmente notificados para comparecerem à diligência, o despacho, ou sentença, proferido oralmente para a acta, não será notificada aos mesmos, começando o prazo a decorrer o prazo de recurso desde a data de prolação de tal decisão.

Neste caso a parte vencida pode interpor logo o recurso directamente para a acta (art. 438º, nº 2, do CPC), começando o prazo para alegações a correr após a notificação do despacho de admissão do recurso, o que normalmente também será preferido imediatamente e ditado para a acta.

Se alguma das partes requerer a rectificação, aclaração ou reforma da sentença, nos termos do artigo 415.º e do n.º 1 do artigo 417.º, o prazo para o recurso só começa a correr depois de notificada a decisão proferida sobre o requerimento (art. 437º, nº 1, do CPC). O despacho de rectificação, aclaração ou conhecimento de nulidades pode alterar, esclarecendo ou rectificando, a sentença (ou não, se for rejeitado o pedido), considerando-se tal despacho complemento e parte integrante da sentença (art. 418º, nº 2, do CPC). Assim, não faria sentido que a parte tivesse que recorrer antes de conhecer a decisão, uma vez que não conhece ainda com precisão o verdadeiro

64 Reis, Código de Processo Civil Anotado, volume V, 2012, pág. 315.

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sentido do seu conteúdo.66

Conforme salienta Alberto dos Reis, “Se o requerimento é indeferido, o indeferimento nenhuma influência exerce sobre o recurso interposto pela outra parte; este recurso subsiste nos precisos termos da interposição. Se o requerimento é atendido, a nova decisão integra-se na primitiva, e daí resulta repercussão inevitável sobre o recurso interposto pela parte contrária. Este recurso passa a ter por objecto a sentença, tal como se apresenta agora, em consequência da integração da nova decisão na primitiva”.67

Assim, se uma das partes recorreu e o recurso foi admitido e a outra requereu aclaração ou reforma da sentença, o prazo para esta interpor recurso subordinado só se inicia após a notificação do despacho sobre o seu pedido de aclaração ou reforma.68

Por outro lado, estando já interposto recurso da primitiva sentença ou despacho ao tempo em que, a requerimento da parte contrária, é proferida nova decisão, rectificando, esclarecendo ou reformando a primeira, o recurso fica tendo por objecto a nova decisão; mas é lícito ao recorrente alargar ou restringir o âmbito do recurso em conformidade com a alteração que a sentença ou despacho tiver sofrido (art. 437º, nº 2, do CPC).

Ou seja, a sentença pode vir a ser modificada, pelo despacho de rectificação, esclarecimento ou conhecimento de nulidade, pelo que pode o recorrente pretender rever e alterar a sua posição inicial, quando interpôs o recurso. Daí que lhe seja atribuída a faculdade de alargar ou restringir o âmbito do recurso, em função da alteração efectuada.69

4. Interposição e indeferimento do recurso. Reclamação

Os recursos interpõem-se por requerimento, dirigido ao Presidente do Supremo Tribunal de Justiça mas apresentado no tribunal que proferiu a decisão recorrida e no qual se indique a espécie de recurso interposto (art. 438º, nº 1, do CPC). No requerimento de interposição não se

66 Reis, Código de Processo Civil Anotado, volume V, 2012, pág. 321. 67 Reis, Código de Processo Civil Anotado, volume V, 2012, pág. 321. 68 Reis, Código de Processo Civil Anotado, volume V, 2012, pág. 288. 69 Reis, Código de Processo Civil Anotado, volume V, 2012, pág. 321.

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deve, por norma fazer qualquer alegação.70

Convém lembrar que na fase de recurso é sempre obrigatória a constituição de advogado (art. 36º, nº 1, do CPC).

A falta de indicação da espécie de recurso, ou a indicação errada da mesma, não determina o indeferimento do recurso, devendo o juiz, no despacho de admissão, indicar a espécie que, no seu entender, deve seguir o recurso, bem como a modalidade de subida e os efeitos (art. 438º, nº 3, do CPC). Ou seja, a falta de cumprimento de tal obrigação não tem qualquer sanção.71 Contudo, esta indicação do juiz não vincula o tribunal de recurso, o qual pode alterar a espécie e o efeito do mesmo quando o processo lhe seja remetido (art. 438º, nº 4, do CPC).

Nos casos previstos nos nº 3, 5 e 7 do artigo 428º, além da espécie de recurso de ainda indicar-se o respectivo fundamento (art. 438º, nº 1, do CPC). Trata-se aqui de despachos que admitem sempre recurso, pelo que, tendo a acção valor que se encontre dentro da alçada, a parte terá que indicar o fundamento do seu recurso, para que o mesmo possa ser admitido.72 Se a parte não o fizer deve ser convidada a fazê-lo no prazo que o juiz indicar.73

Sobre o requerimento incidirá despacho de deferimento, admitindo ou recebendo o recurso e declarando o seu efeito, se não houver fundamento legal para indeferir o requerimento. A declaração do efeito não é, porém, obrigatória,74 excepto para os recursos de agravo, em cujo despacho de admissão deve declarar-se se sobe ou não imediatamente, no primeiro caso, se sobe nos próprios autos ou em separado, e se tem efeito suspensivo ou devolutivo (art. 475º do CPC).

Cintando Lebre de Freitas: “O despacho de admissão do recurso não pode ser impugnado, mas pode o recurso ser rejeitado no tribunal superior (arts. 449º, nº 1, e 482º do CPC). A decisão do recurso não é definitiva, tal como não são definitivas as decisões a fixar a espécie do recurso e a determinar o efeito que lhe compete. Tais decisões não são susceptíveis de impugnação por

70 Mendes, Recursos em Processo Civil, 1994, pág. 191. 71

Reis, Código de Processo Civil Anotado, volume V, 2012, pág. 327.

72

Freitas e Mendes, Código de Processo Civil Anotado, vol. III, 2008, pág. 47. Veja-se ainda Mendes, Recursos em Processo Civil, 1994, pág. 192.

73 Para Fernando Amâncio Ferreira a falta de indicação do fundamento implica o indeferimento liminar do recurso

(Ferreira, Manual dos Recursos em Processo Civil, 2006, pág. 166).

74 Mas é de boa prática que o juiz declare o efeito no despacho de admissão (Reis, Código de Processo Civil

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recurso, mas o tribunal ad quem pode decidir não conhecer do recurso, corrigir a espécie, ou alterar o efeito”.75

Assim, a parte contrária só pode invocar a não admissibilidade do recurso nas suas alegações, sendo então considerada tal posição pelo tribunal superior.76

O recurso será indeferido quando se entenda que a decisão não admite recurso, ou que este foi interposto fora de tempo, ou que o requerente não tem as condições necessárias para recorrer (art. 438º, nº 3, do CPC).

Do despacho de não admissão do recurso, ou do despacho que fixe ao decurso subida diferida, em momento posterior, em vez de imediatamente, pode a parte que interpôs o recurso reclamar (não recorrer), para o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça (art. 439º, nº 1, do CPC). Se, por erro, a parte recorrer em vez de reclamar, o juiz não infere o requerido, mas manda seguir os termos da reclamação (art. 439º, nº 5, do CPC).77 Trata-se de um incidente na tramitação do recurso.78

A reclamação, dirigida ao Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, é apresentada na secretaria do tribunal recorrido, dentro de dez dias, contados da notificação do despacho que não admita ou retenha o recurso. O recorrente exporá as razões que justificam a admissão ou a subida imediata do recurso e indicará as peças de que pretende certidão (art. 439º, nº 2, do CPC).

A reclamação é autuada por apenso e apresentada logo ao juiz, para ser proferida a decisão que admita ou mande seguir o recurso ou que mantenha o despacho reclamado; no último caso, na decisão proferida sobre a reclamação pode mandar juntar-se certidão de outras peças necessárias (art. 439º, nº 3, do CPC).

Se o recurso for admitido ou mandado subir imediatamente, o apenso é incorporado no processo principal; se for mantido o despacho reclamado, é notificada a parte contrária para responder, em dez dias, junta certidão das peças indicadas pelas partes e remetido o apenso ao Supremo Tribunal de Justiça (art. 439º, nº 4, do CPC).

75

Freitas e Mendes, Código de Processo Civil Anotado, vol. III, 2008, pág. 69.

76 Reis, Código de Processo Civil Anotado, volume V, 2012, pág. 342.

77 Neste caso a parte deve ser notificada da decisão para apresentar a sua motivação, uma vez que não o fez no

requerimento de interposição de recurso (Ferreira, Manual dos Recursos em Processo Civil, 2006, pág. 99).

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Recebido o processo no Supremo Tribunal de Justiça, é imediatamente submetido à decisão do Presidente, que, dentro de dez dias, resolverá se o recurso deve ser admitido ou subir imediatamente. Se o Presidente não se julgar suficientemente elucidado, pode requisitar, por ofício, os esclarecimentos ou as certidões que entenda necessários (art. 440º, nº 1, do CPC).

A decisão do Presidente não pode ser impugnada,79 mas, se mandar admitir ou subir imediatamente o recurso, não obsta a que o tribunal ao qual o recurso é dirigido decida em sentido contrário (art. 440º, nº 2, do CPC). Assim, as partes podem nas suas alegações defender entendimento diferente da decisão proferida pelo Presidente. Aceita-se o carácter provisório da decisão do Presidente por, face à lei, não nos encontrarmos perante um recurso.80

As partes são logo notificadas da decisão proferida na reclamação, baixando o processo para ser incorporado na causa principal, e lavrando o juiz despacho em conformidade com a decisão superior (art. 440º, nº 3, do CPC).

5. Âmbito do recurso 5.1. Extensão do recurso

Em princípio, o recurso aproveita apenas à parte vencida que recorreu (art. 432º, nº 1, do CPC).81 Assim, se ambas as partes ficarem vencidas, cada uma terá que recorrer, se quiser obter a reforma da decisão. Ou seja, o recurso interposto por uma das partes não aproveita à parte contrária.

No caso de a decisão ser em parte favorável ao autor e, noutra parte, favorável ao réu, pode cada uma das partes (autor e réu) recorrerem da parte da sentença que lhes é desfavorável, ou pode recorrer apenas uma das partes (o autor ou o réu).82

Num ou noutro caso o recurso fica limitado à parte que é desfavorável ao recorrente.

79

Fazendo, portanto, caso julgado formal (Ferreira, Manual dos Recursos em Processo Civil, 2006, pág. 98).

80

Ferreira, Manual dos Recursos em Processo Civil, 2006, págs. 98-99.

81 Princípio da personalidade do recurso, por contraponto ao princípio da realidade. Segundo este, o recurso

interposto por apenas uma das partes aproveitaria a todos (Reis, Código de Processo Civil Anotado, volume V, 2012, pág. 285).

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Conforme salienta Alberto dos Reis, “Com efeito se cada uma das partes vencidas tem de recorrer, desde que queira obter a reforma da decisão no que lhe for desfavorável, é evidente que, interposto recurso só por uma das partes, o recurso não pode conduzir à reforma da decisão naquilo em que foi vencida a parte que não recorreu: isto equivale a dizer que o objecto do recurso fica necessariamente limitado aos pontos em que o recorrente decaiu, ou, por outras palavras, que a sentença transita em julgado quanto ao ponto ou pontos em que sucumbiu a parte inactiva”. E “pouco importa que o recorrente diga expressamente que interpõe o recurso da parte desfavorável, ou que recorra sem restrição nem declaração alguma. Como o recurso só pode abranger a parte em que o recorrente ficou vencido, é evidente que tanto faz o recorrente dizer – recorro da parte que me a desfavorável –, como dizer, pura e simplesmente: recorro”.83

Se ambas as partes recorrerem, consequentemente, o tribunal superior vai conhecer novamente de toda a matéria, uma vez que os dois recursos acabam por abranger toda a matéria. Se apenas uma ou ambas as partes recorrem em simultâneo, estamos perante recurso, ou recursos independentes.

No caso de litisconsórcio necessário, se apenas uma das partes em coligação recorrer, embora a decisão seja desfavorável a todos os litisconsortes, o recurso interposto aproveita às compartes (art. 433º, nº 1, do CPC). Trata-se de um caso de extensão subjectiva do recurso.84

Para Alberto dos Reis, “Este comando é absoluto; não admite excepções nem desvios”.85

A lei fala apenas do aproveitamento pelos não recorrentes da decisão do recurso, pelo que estas partes apenas podem beneficiar de uma decisão favorável ao recorrente, sob pena de violação da proibição da reformato in peius.86

De todo o modo, o litisconsorte necessário pode sempre intervir, assumindo a posição de recorrente principal, tendo embora de aderir ao recurso interposto pela comparte que recorreu (art. 433º, nº 5, do CPC). Assim, por exemplo, se já terminou o prazo para alegações o aderente terá que se conformar com as alegações da comparte, não podendo ele apresentar alegações novas.

83

Reis, Código de Processo Civil Anotado, volume V, 2012, pág. 286.

84 Existe aquilo que Fernando Amâncio Ferreira chama decaimento paralelo (Ferreira, Manual dos Recursos em

Processo Civil, 2006, pág. 148).

85 Reis, Código de Processo Civil Anotado, volume V, 2012, pág. 293.

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No caso de litisconsórcio voluntário o recurso só aproveita a quem o interpôs (art. 433º, nº 2, do CPC). Há aqui um interesse comum, mas divisível, isto é, um interesse que, embora seja comum, não é de molde a produzir litisconsórcio necessário.87

Porém, existem situações de litisconsórcio voluntário em que o recurso ainda aproveita às compartes:

No caso de haver um interesse pendente do interesse da comparte (art. 433º, nº 1, al. b), do CPC). Existe um nexo de prejudicialidade entre os dois interesses.88 Ou seja, a decisão da questão relativamente ao recorrente principal afecta necessariamente a comparte. Por exemplo, o recurso do devedor principal afecta o interesse do fiador do mesmo; se proceder o recurso do devedor principal declarando-se inexistente a dívida, obviamente que essa declaração aproveita ao fiador, extinguindo-se igualmente a fiança.89

No caso dos devedores solidários (art. 433º, nº 1, al. b), do CPC). Se vários devedores solidários são condenados o autor pode executar apenas um deles. Recorrendo apenas um e declarando o tribunal que a dívida não existe, ela não existe em relação a todos e não apenas relativamente ao recorrente. Ou seja, o recurso aproveita ao devedor não recorrente. A menos que o que esteja em causa não seja a existência ou inexistência da dívida, mas apenas a responsabilidade pessoal do recorrente (se o recorrente funda o seu recurso em causa que lhe seja pessoal).90

Nestes casos, atenta a extensão subjectiva do recurso, tal como acontece no caso de litisconsórcio necessário, o litisconsorte voluntário também pode sempre intervir, assumindo a posição de recorrente principal, tendo embora de aderir ao recurso interposto pela comparte que recorreu (art. 433º, nº 5, do CPC).

A comparte pode ainda aderir ao recurso, tal como acontece no caso de litisconsócio necessário (art. 433º, nº 2, al. a), do CPC). Trata-se de recurso de adesão, ou recurso adesivo. Mas a lei não permite a adesão a um recurso interposto pela parte contrária, ainda que

87 Reis, Código de Processo Civil Anotado, volume V, 2012, pág. 295. 88 Reis, Código de Processo Civil Anotado, volume V, 2012, pág. 299.

89 Veja-se Freitas e Mendes, Código de Processo Civil Anotado, vol. III, 2008, págs. 38-39. 90 Reis, Código de Processo Civil Anotado, volume V, 2012, pág. 300.

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eventualmente os interesses se conciliem.91

Neste caso a adesão terá lugar, por meio de requerimento ou de subscrição das alegações do recorrente, até ao início dos vistos para julgamento do recurso no tribunal superior (art. 433º, nº 3, do CPC). A fim de possibilitar a adesão, devem ser notificados do despacho que admita o recurso interposto pela parte principal vencida os demais compartes.92

Com o acto de adesão, o interessado faz sua a actividade já exercida pelo recorrente e a que este vier a exercer.93 Mas é lícito ao aderente passar, em qualquer momento à posição de recorrente principal, mediante o exercício de actividade própria;94 e se o recorrente desistir, deve ser notificado da desistência para que possa seguir com o recurso como recorrente principal (art. 433º, nº 4, do CPC).95 Ou seja, o aderente pode requerer que o recurso prossiga, no prazo de dez dias após a notificação da desistência por parte da comparte (prazo supletivo do art. 119º, nº 1, do CPC), passando a assumir a posição de recorrente principal. Há um interesse comum a defender; um dos interessados abandona-o; é justo que o outro possa prosseguir sozinho.96

O aderente fica subordinado à actividade do recorrente principal. Embora aproveite da decisão a proferir em sede de recurso, ele está sujeito à actividade desenvolvida pelo recorrente principal, não podendo agir por si, a menos que passe a assumir a posição de recorrente principal, nos termos do art. 433º, nº 4, do CPC.

5.2. Recurso independente e recurso subordinado

O recurso independente está subordinado ao regime geral dos recursos, sem qualquer especialidade (art. 432º, nº 2, do CPC). O recurso segue os seus termos com autonomia, sem ficar

91 Ferreira, Manual dos Recursos em Processo Civil, 2006, pág. 91. Não sendo o caso julgado da decisão do tribunal

superior, face ao princípio da relatividade, extensível ao não recorrente permite a este a lei, mas só na parte em que o seu interesse seja comum com o do recorrente aderir ao recurso. Não sendo o interesse comum não é permitido a este aderir ao recurso interposto pelo seu comparte (Ferreira, Manual dos Recursos em Processo Civil, 2006, pág. 92).

92 Ferreira, Manual dos Recursos em Processo Civil, 2006, pág. 92.

93 O aderente, como tal, não pode ser considerado recorrente, uma vez que a simples adesão não envolve uma

situação de litisconsórcio ou de coligação na fase do recurso (Ferreira, Manual dos Recursos em Processo Civil, 2006, pág. 92).

94

Basta, por exemplo, o aderente pronunciar-se autonomamente sobre qualquer questão prévia suscitada pelo relator ou apresentar alegação própria (Freitas e Mendes, Código de Processo Civil Anotado, vol. III, 2008, pág. 40).

95 Se o não fizer cessa a adesão, caindo tanto o recurso principal, como o recurso adesivo (Ferreira, Manual dos

Recursos em Processo Civil, 2006, pág. 93).

96 Reis, Código de Processo Civil Anotado, volume V, 2012, pág. 295. Veja-se ainda Freitas e Mendes, Código de

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sujeito ao que possa acontecer com o recurso da parte contrária.97 Por exemplo, se o autor desistir do seu recurso, o recurso do réu prossegue até final.

O recurso subordinado já contém um regime especial. Recurso subordinado é aquele que é interposto pela parte que se conformou com a sentença e dela não pretendia à partida recorrer, depois da interposição de um recurso independente pela outra parte.98 Mas a parte que interpõe o recurso subordinado ficou parcialmente vencida. Se obteve total vencimento não pode recorrer nem subordinadamente.99

Ou seja, o autor que obteve um vencimento parcial da causa, mas que satisfaz com a decisão, tomando conhecimento que o réu interpôs recurso, uma vez que o processo tem que subir em recurso ao tribunal superior, solicita que este também reaprecie a parte da decisão que lhe foi desfavorável.100

Por exemplo, o autor pediu a condenação do réu a pagar-lhe 50; o tribunal condena o réu a pagar apenas 40; o autor está decidido a aceitar a decisão, mas o réu recorre; então o autor recorre subordinadamente para que o tribunal superior reaprecie a decisão na parte em que não condenou o réu em 50, mas apenas em 40.

No dizer de Fernando Amâncio Ferreira, “A igualdade das partes e a justiça processual justificam a admissão do recurso subordinado, interposto pela parte que se conformara inicialmente com a decisão e que terá sido surpreendida com a interposição do recurso pelo seu adversário”.101

Por ter sido interposto pela parte que, em princípio, não pretendia recorrer, o recurso subordinado é interposto no prazo de dez dias a contar da notificação do despacho que recebeu o recurso independente interposto pela parte contrária (art. 432º, nº 2, do CPC).

Conforme se referiu supra, Se uma das partes recorreu e o recurso (independente) foi admitido, mas a outra requereu aclaração ou reforma da sentença, o prazo para esta interpor recurso subordinado só se inicia após a notificação do despacho sobre o seu pedido de aclaração

97

Reis, Código de Processo Civil Anotado, volume V, 2012, pág. 287.

98 Freitas e Mendes, Código de Processo Civil Anotado, vol. III, 2008, pág. 35. 99 Ferreira, Manual dos Recursos em Processo Civil, 2006, pág. 88.

100 Mendes, Recursos em Processo Civil, 1994, pág. 173.

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ou reforma, ainda que seja notificada do despacho de admissão do recurso independente da outra parte antes de tal notificação.102

O recurso subordinado está dependente do recurso principal.103 Assim, se o primeiro recorrente desistir do recurso independente, ou este ficar sem efeito, ou o tribunal não tomar conhecimento dele por qualquer motivo de natureza processual (como a falta de apresentação de conclusões), caduca o recurso subordinado, sendo todas as custas da responsabilidade do recorrente principal (art. 432º, nº 3, do CPC). O recurso subordinado só é apreciado se o recurso principal for julgado, independentemente de este ser julgado procedente ou improcedente.104

Segundo Alberto dos Reis, “É rigorosamente lógica esta construção. O recurso subordinado tem por causa o recurso independente; o recorrente subordinado interpôs o seu recurso pelo facto de a parte contrária ter impugnado a sentença ou despacho; se esta tivesse aceitado a decisão, ele ter-se-ia também conformado com ela. Daí vem que a vitalidade, a razão de ser do recurso subordinado fica necessariamente presa e condicionada à vitalidade do recurso principal: desde que este caia, aquele tem, forçosamente, de desaparecer”.105

Pode recorrer subordinadamente a parte que renunciou ao direito de recorrer ou aceitou a decisão expressa ou tacitamente, bem como a parte que decaiu em valor igual à alçada do tribunal ou valor inferior (arts. 432º, nº 4 e 5, do CPC).106 Neste último caso, como já se viu, a parte só pode mesmo recorrer subordinadamente (art. 428º, nº 1, do CPC).

5.3. Delimitação do recurso

Nos termos do art. 434º, nº 1, do CPC, sendo vários os vencedores, todos eles devem ser notificados do despacho que admite o recurso.

O princípio que está na base do artigo é que, havendo mais do que um vencedor, o recurso interposto pela parte vencida considera-se dirigido contra todos aqueles a quem a decisão foi favorável. Daí a obrigatoriedade de que o despacho de admissão do recurso seja notificado a

102

Reis, Código de Processo Civil Anotado, volume V, 2012, pág. 288.

103

Freitas e Mendes, Código de Processo Civil Anotado, vol. III, 2008, pág. 35.

104 Mendes, Recursos em Processo Civil, 1994, págs. 174-175.

105 Reis, Código de Processo Civil Anotado, volume V, 2012, pág. 289.

106 Desta forma se tutela o princípio da igualdade das partes (Freitas e Mendes, Código de Processo Civil Anotado,

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todos os vencedores, ainda que o recorrente não tenha identificado os recorridos.107

Porém, é lícito ao recorrente, salvo no caso de litisconsórcio necessário, excluir do recurso, no requerimento de interposição, algum ou alguns dos vencedores (art. 434º, nº 1, do CPC). A declaração destinada a excluir algum dos vencedores tem, pois, que ser feita no requerimento de interposição do recurso e tem que ser expressa.108 A restrição pressupõe que haja divisibilidade subjectiva do objecto do recurso, ou seja, vários vencedores.109

Trata-se da manifestação do princípio do dispositivo na fase do recurso.110

Já relativamente ao objecto do recurso, se a parte dispositiva da sentença contiver decisões distintas, é igualmente lícito ao recorrente restringir o recurso a qualquer delas, no requerimento de interposição do recurso, uma vez que especifique a decisão de que recorre (art. 434º, nº 2, do CPC). A decisão aqui referida reporta-se apenas à parte decisória e não à fundamentação da sentença. Do que se recorre é da decisão e não da fundamentação.111

Neste caso não pode depois o recorrente ampliar o recurso, solicitando a apreciação da parte da decisão que declarou não pretender recorrer.112

Por exemplo, se o réu é condenado a pagar capital e juros, pode recorrer apenas relativamente à condenação em juros, por entender que os mesmos não são devidos, embora aceite a condenação no pagamento do capital. Ou se for condenado no pagamento de indemnização por danos patrimoniais e não patrimoniais resultantes de facto ilícito, pode recorrer apenas relativamente ao valor fixado para os danos não patrimoniais.

Na falta de especificação, o recurso abrange tudo o que na parte dispositiva da sentença for desfavorável ao recorrente (art. 434º, nº 2, do CPC). Ou seja, se o vencido pretender recorrer de toda a decisão não precisa de o declarar, porque tal está já subentendido.

107 Reis, Código de Processo Civil Anotado, volume V, 2012, pág. 302.

108 Veja-se Reis, Código de Processo Civil Anotado, volume V, 2012, pág. 303. Neste caso estamos perante uma

pluralidade de partes vencedoras que não coincidem com os recorridos (Mendes, Recursos em Processo Civil, 1994, pág. 169).

109

Freitas e Mendes, Código de Processo Civil Anotado, vol. III, 2008, pág. 41.

110 Mendes, Recursos em Processo Civil, 1994, pág. 169. Veja-se sobre a matéria Ferreira, Manual dos Recursos em

Processo Civil, 2006, págs. 157-161.

111 Reis, Código de Processo Civil Anotado, volume V, 2012, pág. 304. 112 Reis, Código de Processo Civil Anotado, volume V, 2012, pág. 308.

(26)

A restrição objectiva do recurso pode ainda ser feita pelo recorrente nas conclusões da alegação, expressa ou tacitamente (art. 434º, nº 2, do CPC).113 Não é no corpo das alegações que se pode restringir o objecto do recurso mas apenas nas conclusões.114

Isto significa que depois da restrição do objecto do recurso feita no requerimento de interposição do recurso o recorrente ainda pode restringir mais o recurso nas conclusões das suas alegações. No dizer de Alberto dos Reis, “O tribunal superior tem que guiar-se pelas conclusões da alegação para determinar com precisão o objecto do recurso; só deve conhecer, pois, das questões ou pontos compreendidos nas conclusões, pouco importando a extensão objectiva que haja sido dada ao recurso, quer no requerimento de interposição, quer no corpo da alegação”.115 Ou seja, o âmbito objectivo dos recursos é definido pelas conclusões do recorrente.116

Os efeitos do julgado, na parte não recorrida, não podem ser prejudicados pela decisão do recurso nem pela anulação do processo (art. 434º, nº 2, do CPC). Significa isto que também no processo civil está excluída a reformatio in pejus, ou seja, o julgamento do recurso não pode agravar a posição do recorrente, tornando-a pior do que seria se ele não tivesse recorrido.117 Trata-se de uma consagração do princípio do dispositivo (o recorrente não pode recorrer da parte que lhe é favorável e o tribunal de recurso não pode conhecer de matéria que não tenha sido objecto de recurso). Ou seja, o tribunal de recurso não pode julgar ultra petitum.118

Nos termos do art. 435º, nº 1, do CPC, no caso de pluralidade de fundamentos da acção ou da defesa, o Supremo Tribunal de Justiça conhecerá do fundamento em que a parte vencedora decaiu, desde que esta o requeira, mesmo a título subsidiário, na respectiva alegação, prevenindo a necessidade da sua apreciação. Trata-se de um caso de ampliação do recurso. Por exemplo, se o autor pediu a anulação judicial de um contrato com dois fundamentos diferentes, erro e coacção, a acção tenha sido julgada procedente com base apenas em um destes fundamentos, se o réu recorrer, pode o autor pedir que seja igualmente apreciada a questão da nulidade com base no

113 A delimitação objectiva do recurso é feita pelas conclusões da alegação do recorrente e o tribunal apenas pode

conhecer das questões nelas compreendidas (Neto, Código de Processo Civil Anotado, 1997, pág. 766, citando Calvão da Silva)

114

Reis, Código de Processo Civil Anotado, volume V, 2012, pág. 309. Veja-se ainda Freitas e Mendes, Código de Processo Civil Anotado, vol. III, 2008, pág. 41.

115

Reis, Código de Processo Civil Anotado, volume V, 2012, pág. 309.

116 Conforme jurisprudência pacífica do Tribunal de Recurso.

117 Reis, Código de Processo Civil Anotado, volume V, 2012, pág. 311, citando Manuel de Andrade, Noções

Elementares de Processo Civil, pág. 200.

(27)

outro fundamento, para o caso de o tribunal de recurso julgar que não se verifica o fundamento que motivou a sentença recorrida.119

Pode ainda o recorrido, na respectiva alegação e a título subsidiário, arguir a nulidade da sentença ou impugnar a decisão proferida sobre pontos determinados da matéria de facto, não impugnados pelo recorrente, prevenindo a hipótese de procedência das questões por este suscitadas (art. 435º, nº 2, do CPC).120

Na falta dos elementos de facto indispensáveis à apreciação da questão suscitada, pode, o Supremo Tribunal de Justiça mandar baixar os autos, a fim de se proceder ao julgamento no tribunal onde a decisão foi proferida (art. 435º, nº 3, do CPC).

6. Ónus de alegar e formular conclusões

O recorrente deve apresentar a sua alegação, na qual concluirá, de forma sintética, pela indicação dos fundamentos por que pede a alteração ou anulação da decisão (art. 441º, nº 1, do CPC). O ónus de alegar e formular conclusões incide apenas sobre o recorrente. Sobre o recorrido não incide ónus algum.121 Embora exista vantagem em que o recorrido responda às razões aduzidas pelo recorrente, assim defendendo a sentença que lhe é favorável, sobre o mesmo não incide tal obrigação.122

Segundo Fernando Amâncio Ferreira, “O recorrente cumpre o ónus de alegar apresentando uma peça processual onde expõe os motivos da sua impugnação, explicitando as razões porque entende que a decisão é errada ou injusta, através de argumentação sobre os factos, o resultado da prova, a interpretação e aplicação do direito, para além de especificar o objectivo que visa alcançar com o recurso”.123

Na falta de alegação, o recurso é logo julgado deserto (art. 441º, nº 3, e 243º, nº 2, do CPC).

119

Freitas e Mendes, Código de Processo Civil Anotado, vol. III, 2008, pág. 44.

120

Veja-se Ferreira, Manual dos Recursos em Processo Civil, 2006, págs. 161-164.

121 Reis, Código de Processo Civil Anotado, volume V, 2012, pág. 302. Veja-se ainda Freitas e Mendes, Código de

Processo Civil Anotado, vol. III, 2008, pág. 51.

122 Reis, Código de Processo Civil Anotado, volume V, 2012, pág. 354. 123 Ferreira, Manual dos Recursos em Processo Civil, 2006, pág. 172.

(28)

A deserção é julgada logo pelo juiz do tribunal de primeira instância, uma vez que é aí que se apresentam as alegações, por simples despacho, mas também pode ser declarada no tribunal de recurso se o recurso subir sem que o recorrente tenha apresentado as alegações (art. 243º, nº 4, do CPC).

Só a falta absoluta de alegações determina a deserção imediata do recurso; a falta deficiência ou obscuridade das conclusões e a não especificação da norma jurídica violada apenas dão lugar a convite para suprimento da falta, sob pena de não conhecimento do recurso se tal deficiência não for suprida pela parte.124

A obrigação de alegar não é imposta ao Ministério Público nos recursos interpostos por imposição da lei (art. 441º, nº 6, do CPC). Ou seja, o Ministério Público só se encontra igualmente obrigado a apresentar alegações de recurso se recorrer voluntariamente por discordar da sentença proferida, representado no processo a parte vencida, como acontece numa acção contra o Estado, uma vez a lei não obriga o Ministério Público a recorrer se o Estado ficar vencido.

Conforme explica Alberto dos Reis, “quando o Ministério Público recorre por dever de ofício, se ele considera justa a decisão, se concorda com ela e a impugna por obrigação legal, seria absurdo que houvesse de apontar porque discorda do julgado; por outro lado, se a lei torna obrigatório o recurso, isso obrigatório o recurso, isso implica, necessariamente, para o tribunal superior, o dever de conhecer do objecto do recurso, não obstante a falta de alegação ou de conclusões”.125

Daí que este regime não viola o princípio da igualdade de armas.126

Seguindo Fernando Amâncio Ferreira, “Expostas pelo recorrente, no corpo da alegação, as razões de facto e de direito da sua discordância com a decisão impugnada, deve ele, face à sua vinculação ao ónus de formular conclusões, terminar a sua minuta pela indicação resumida, através de proposições sintéticas, dos fundamentos, de facto e/ou de direito, por que pede a alteração ou anulação da decisão”.127

124

Neto, Código de Processo Civil Anotado, 1997, pág. 774.

125 Reis, Código de Processo Civil Anotado, volume V, 2012, págs. 355-356.

126 Freitas e Mendes, Código de Processo Civil Anotado, vol. III, 2008, pág. 58, citando Lopes do Rego,

Comentários ao Código de Processo Civil, vol. I, Coimbra: Coimbra Editora, 2004, pág. 690.

Referências

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