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O conceito de observador, a crise da teoria do sujeito e o rompimento com a ontologia

No documento wagnersilveirarezende (páginas 175-184)

4. A Teoria dos Sistemas de Niklas Luhmann e a percepção sistêmica do direito

4.4. O conceito de observador, a crise da teoria do sujeito e o rompimento com a ontologia

Nas ciências sociais, em seu modelo tradicional, o conceito de observação envolve, mesmo que de forma subentendida, a ideia de uma observação psicológica (LUHMANN, 2010, p. 153). As perspectivas sobre a observação são variadas, mas todas elas compartilham a visão de que o acesso ao mundo das formas não pode ser realizado de qualquer modo, ou, na expressão de Luhmann, ao bel-prazer. Essa forma de encarar a posição do observador está relacionada com a tradição, de longa data, da teoria do sujeito. O entendimento do observador enquanto sujeito também exerceu seus efeitos na teoria dos sistemas. Na década de 1960, o problema aparece de forma nítida pela teoria, exigindo soluções. Nessa época, a ciência tratava o observador como um sujeito externo, com capacidade cognitiva. De fora, o observador poderia decidir quais aspectos deveriam ser considerados e excluídos (idem, p. 74).

De acordo com Luhmann (2010), para o enfrentamento do problema da observação, duas teorias foram desenvolvidas, a analítica e a concreta:

Analítica é a teoria que delega ao observador externo a decisão do que ele denomina como sistema e como meio, e também a decisão em relação aos limites. Concreta é aquela teoria que parte do pressuposto de que, na realidade, os sistemas já estão constituídos, e que a tarefa do teórico de sistemas consistiria em tentar descobri-los tais como eles são (LUHMANN, 2010, p. 75).

A teoria analítica, que atribuía ao observador externo o papel de condutor de todo o processo de observação, definindo o próprio sistema e seus limites em relação ao meio, é afim com uma perspectiva transcendental. Através dela, os conceitos do teórico são percebidos como algo que permeia a realidade. Assim, o que se vê está determinado pela maneira de ver do observador, levando em consideração suas subjetividades, e o conceito de sistema é somente uma construção do teórico.

A abordagem concreta, por sua vez, atribui ao observador externo o papel de investigador dos sistemas, mas cuja análise não define o sistema, apenas o descobre na realidade objetiva do mundo, já que parte da

pressuposição de que aquilo que é pesquisado já está colocado na realidade. Antes e depois da pesquisa, a realidade já está lá. Apesar de diferentes, as duas variantes teóricas sobre a observação têm como ponto comum o posicionamento do observador fora do sistema.

Luhmann não se satisfaz com as soluções dadas por essas teorias e dirige a elas uma série de críticas. Ele rejeita a liberdade total para determinar o objeto, proposta pela teoria analítica, pois é preciso estabelecer contatos com a realidade para definir o campo de observação, algo que os analíticos não conseguiram efetivar. Por outro lado, a teoria concreta nunca pôde alcançar uma delimitação satisfatória em relação ao que designa como sistema, e o conceito acaba por não ter capacidades explicativas.

O observador79 não pode ser pensado como externo à realidade que investiga, pressuposto compartilhado pelas duas teorias. Ele já faz parte do mundo que observa. Além disso, observação e observador já devem ser considerados, previamente, como sistemas. Para poder observar, a própria ciência necessita estar constituída como sistema (LUHMANN, 2010, p. 75-77). A partir disso, a proposta de Luhmann para o observador será um contraponto à ideia de observação externa, mas é preciso entender o que sua proposta implica. Mais uma vez, a abordagem sociológica tradicional é colocada em xeque.

Evidentemente, afirma Luhmann, somos observadores externos da sociedade, no sentido de que nos reconhecemos como parte de uma vida social já constituída. Mas a sociologia não pode se dedicar à compreensão da sociedade se posicionando fora dela. Os sistemas de consciência podem observar a sociedade de fora, mas isso não tem efeito social, quando não há comunicação:

Contudo, não podemos nos ocupar da sociedade, na qualidade de sociólogos, como se esta pudesse ser observada externamente. Os sistemas de consciência podem indubitavelmente, observar a sociedade a partir de fora; mas, socialmente, isso fica sem efeito, quando não se comunica; ou

79

Maturana também aborda o tema da observação de maneira própria. Para mais, ver A

seja, se a observação não é realizada dentro do sistema da sociedade (LUHMANN, 2010, p. 99).

Luhmann propõe, então, um conceito de observador que não tem sido trabalhado na teoria sociológica, mas que a Teoria dos Sistemas desenvolve de forma radical. A partir da concepção de observador, inclusive, a teoria sistêmica, segundo o próprio Luhmann, acaba por ser uma teoria entre outras possíveis (2010, p. 152), já que, conforme veremos, ela coloca em dúvida quase toda ontologia sobre o mundo social.

O conceito de observação lança mão de seu suporte circular, ou seja, a observação é vista como algo capaz de produzir a si mesmo. Este é o mesmo entendimento que se tem acerca dos sistemas, envolvendo suas características de autopoiesis e encerramento operativo. Isso significa que a observação é vista, por Luhmann, como um sistema.

O observador deixa de ser percebido, assim como a tradição das ciências sociais prevê, como um sujeito. Esse é o primeiro ponto. A observação é separada da ideia de sujeito. Por isso, Luhmann a trata como uma concepção radical na Teoria dos Sistemas. O observador não é um sujeito transcendental, um cérebro ou uma consciência, mas um sistema.

A observação exigirá, dessa forma, uma diferenciação inicial, como todo sistema: observar/observador. O ato de observar, enquanto operação, é diferenciado do observador, enquanto sistema, que, por sua vez, utiliza as operações da observação de maneira recursiva para obter uma diferenciação em relação ao meio. Observar é uma operação “que só se realiza como um acontecimento instantâneo, fugaz, e que carece de tempo para conectar operações de observação” (LUHMANN, 2010, p. 154).

Esse enfoque tem consequências diferenciadas em relação ao conceito tradicional de sujeito/observador. Na Teoria dos Sistemas, o observador (já que um sistema), não se coloca acima da realidade, “não paira acima das coisas e as observa, digamos, do alto” (idem, p. 154). O observador não se posiciona fora do mundo dos objetos, pois ele, observador, é parte desse mundo que observa. Isso faz com que o observador esteja inserido no próprio mundo que ele procurar observar e descrever, afastando a ideia de que o observador teria acesso “a uma realidade situada no exterior” (idem, p. 159). A sociologia será

entendida, assim, como um sistema de observação das operações realizadas por outros sistemas.

Toda a operação da observação é uma diferenciação e uma indicação, baseada na ideia de forma. As distinções que podemos imaginar são operações de um observador, quando este estabelece diferenças como significante/significado, sujeito/objeto, etc. Todas estas diferenciações têm como base a diferenciação primeira, entre observador e operação.

A proposta de Luhmann é se opor, todo o tempo, à saída tradicional para o problema do observador. Por isso, a Teoria dos Sistemas busca construir o conceito de observação fora da imagem de um observador externo e de um sujeito extramundano. Pensando a observação como um sistema estruturado, o conceito pode abrir mão de uma noção baseada em uma hierarquia, uma natureza ou um cosmo ordenado. A observação, defenderá Luhmann, é possível sem nenhuma hierarquização, intenção temática, ou finalidade aparente (2010, p. 160).

No entanto, mesmo tomando a observação como um sistema, é preciso especificar o tipo de sistema de que se está tratando. O observador não deve ser pensado, estritamente, como um sistema psicológico, ou uma consciência. Caso contrário, definido desta maneira, seria um sujeito, e é justamente essa noção que Luhmann busca refutar. Os sistemas, mesmo os não psicológicos, são capazes de observação. Os sistemas sociais, por exemplo, observam os sistemas psíquicos e vice-versa, e tudo permanece no nível da relação entre os sistemas. Isso mostra, no entendimento de Luhmann, como o sujeito perde lugar no centro da explicação da vida social.

Tendo em vista a proposta oferecida pela Teoria dos Sistemas, Luhmann se pergunta o motivo de, necessariamente, o observador ser tratado como sujeito. A resposta será encontrada na longa tradição e força de uma teoria do sujeito como o centro da explicação social. O problema se relaciona, portanto, à maneira como o conceito de sujeito (e o de observador, consequentemente) foi tratado tradicionalmente.

Luhmann acredita que conceitos não podem ser tratados como ideais, no sentido de que seja possível definir qual conceito é o ideal. O importante é que se tenha clareza em seu uso. No entanto, é possível perceber descontinuidades na utilização de conceitos, alguns sendo mantidos, outros

não. No que diz respeito ao conceito de sujeito, por exemplo, Luhmann propõe uma descontinuidade80. Segundo Luhmann, a continuidade do conceito de sujeito está relacionada à autorreferência. Seguindo entendimento aristotélico, somente a consciência e a razão podem efetuar uma realização, pois têm a capacidade de se voltar sobre si mesmas. Assim, o sujeito conhece a si mesmo como sujeito e possui capacidade de reflexão. A autorreferência seria uma característica exclusiva da consciência, que, na realização da observação, tem que se voltar a objetos que não possuem consciência.

Para Luhmann, essa é a origem da distinção entre sujeito e objeto, que dá, por sua vez, origem à elaboração de uma informação. No entanto, nas ciências sociais, essa distinção entre sujeito e objeto não é suficiente, pois há fatos que não se relacionam somente a essa diferença. Nem tudo pode ser reduzido completamente à consciência individual, nem à soma das consciências de vários indivíduos (LUHMANN, 2010, p. 162).

A teoria do sujeito, desta maneira, faz com que ele deva sempre estar colocado em um lugar (transcendental) acima dos objetos do mundo, ocupando uma posição fixa e determinada. Na perspectiva sistêmica, esse sujeito transcendental ofereceria dificuldades para se posicionar em um dos lados da forma, ou no sistema, ou no meio:

O observador é um sistema, e um sistema pode ter uma capacidade de localização flexível: o sistema pode observar a si mesmo (auto-observação), e também outros sistemas (hetero-observação). Para a teoria do sujeito, em contrapartida, é muito difícil argumentar sob o emprego teórico da diferença. O sujeito sempre deve estar colocado em um lugar (transcendental) acima dos objetos do mundo (LUHMANN, 2010, p. 163).

Com o conceito de observação postulado por Luhmann, não é preciso atribuir nenhuma posição de fora ao observador, pois tudo se resolve no nível

80

Outros conceitos, como o de democracia, embora este último não reflita precisamente a ideia de um poder do povo, em virtude da utilização e aceitação social, devem ser mantidos (continuidade), na concepção de Luhmann (2010, p. 162).

dos sistemas de observação. É isso o que a sociologia, na proposta sistêmica, deveria fazer, ou seja, descrever a auto-observação dos sistemas, sem que sujeitos sejam envolvidos no esquema de observação.

Porém, na tradição humanista, o sujeito é identificado com o indivíduo. A essa tradição, Luhmann opõe a ideia de observação oferecida pela Teoria dos Sistemas. Trata-se de uma abordagem abstrata, que faz referência às condições do pensar, mas não encontra suporte empírico nos sujeitos. Com isso, o conceito de observação se torna incompatível com o de sujeito, já que é difícil distinguir algo estando fora do mundo.

Para Luhmann, a força que a teoria do sujeito ganhou está relacionada com o contexto de sua origem, quando ainda “não era possível formular uma teoria da sociedade” (2010, p. 166), visto que o conceito de sociedade, tal qual nós o conhecemos, é um produto da modernidade. A primeira tentativa foi com a sociedade burguesa, mas não havia, de fato, uma teoria da sociedade, e, sim, um conjunto vago de diferenciações, como a estabelecida entre tradição e modernidade, ao qual se somou o anseio de emancipação, trazendo consigo a valorização do sujeito.

Mas essa teoria do sujeito não levava em consideração o problema da intersubjetividade. Como todas as coisas (a consciência, a autorreferência e a observação, por exemplo) estavam subordinadas ao sujeito, pois nele se encontrava a reflexão, se tornou difícil explicar a interação de muitos sujeitos, e o „inter‟ da intersubjetividade se tornava difícil de ser explicado. Para Luhmann, inclusive, mesmo com os desenvolvimentos da sociologia, uma teoria da intersubjetividade satisfatória ainda não tinha sido desenvolvida.

A resposta para estas dificuldades oferecidas pela teoria do sujeito foi tentar encontrar algo social entre os sujeitos, o que acabou sendo depositado na linguagem, mas isso foi feito sem maior especificação. Por isso, a hipótese do observador defendida por Luhmann pretende se distinguir da prevalência da consciência e da teoria do sujeito.

Um conceito importante para entendermos a concepção que Luhmann tem de observador é o de observação de segunda ordem. Trata-se de uma “observação que se realiza sobre um observador” (2010, p. 168). A observação, portanto, não recai sobre a pessoa (ou sistema) enquanto tal, mas sim sobre a forma pela qual ela observa. A observação de segunda ordem é a

observação feita sobre as distinções (operações) realizadas por um observador. Ela se concentra na observação de como o outro observa o mundo, mantendo o enfoque em um ponto, podendo focalizar, dessa forma, o esquema de diferença utilizado por aquele que observa.

A observação de segunda ordem opera realizando uma grande redução da complexidade. Afinal, essa é uma das características dos sistemas (e a observação é tomada por Luhmann como um deles). Ao concentrar-se no que o outro observa, nas operações de distinção utilizadas por um observador, a observação de segunda ordem permite colocar de lado a totalidade do mundo, operando seletivamente.

O paradoxo é que ao reduzir a complexidade do mundo, focando apenas na distinção feita por um observador, a observação de segunda ordem acaba por aumentar a complexidade, se tornando uma observação de primeira ordem especializada. Isso significa que as garantias ontológicas de que uma distinção específica é a correta são solapadas, não se podendo mais apelar para formas essenciais de conteúdos do mundo.

Além disso, a observação de segunda ordem torna-se especializada em observar aquilo que o observador não pode observar, ou seja, o ponto cego de sua observação. Esse é um ponto importante para o conceito de observação que se busca construir. O reconhecimento de um ponto cego, ou seja, de que é importante operar com um ponto de invisibilidade, que garante a unidade da diferença estabelecida. Este entendimento reforça a importância de sistemas capazes de observarem uns aos outros. O ponto cego de um sistema pode ser observado pelo trabalho de observação de outro sistema, como a ciência faz em relação a outros sistemas, como a sociologia deveria fazer em relação a si mesma e ao direito e à política, por exemplo. O modo de funcionamento dos sistemas é, portanto, a observação de segunda ordem (LUHMANN, 2010, p. 173).

A política, como exemplo, realiza uma operação de segunda ordem que abdica de observar indivíduos singulares, mas se concentra em um sistema. O nível de observação da política, embora venha sendo descrito, ainda, sob termos como dominação e soberania, vem se orientando, desde o século XIX, pela observação da opinião pública:

É evidente que nenhum político poderia orientar sua atuação por aquilo que cada indivíduo pensasse ou exigisse. Isso não seria possível mesmo fazendo permanentemente pesquisas de opinião. Observar a opinião pública substitui a observação dos indivíduos particulares; embora a opinião pública esteja determinada por um princípio de aceleração intrínseco, que consiste na necessidade de já estar preparada a comunicação seguinte. A política consiste fundamentalmente em preparar o modo como determinada atuação política seria abordada pelos meios de comunicação (LUHMANN, 2010, p. 172).

A opinião pública, contudo, não é o verdadeiro poder, como se pode acreditar. Antes, na concepção de Luhmann, ela funciona como um espelho para a política, no qual ela pode ser julgada através das metas específicas que foram propostas. O político, com isso, deve permanecer em constante alerta, em relação à opinião pública, formando sua imagem em função dela81.

O modelo de observação proposto por Luhmann tem suas bases na física. Dela vem a lição de que o observador não pode ser pensado, apenas, como algo passivo, seja um instrumento, seja um sujeito. Ele produz efeitos na realidade, e a observação afeta o próprio observador. A partir do momento em que se observa um sistema, ele deixa de ser o mesmo. Quando a observação se sabe observada, as coisas mudam, pois ele se prepara para essa observação (LUHMANN, 2010, p. 191).

À crise da teoria do sujeito, diagnosticada por Luhmann, se soma à crítica à ontologia do mundo. A revolução da metafísica na sociedade moderna, na perspectiva da Teoria dos Sistemas, consiste em reconhecer, através da observação de segunda ordem, que não são mais possíveis as representações definitivas sobre o mundo. No lugar dos sujeitos, os sistemas. No lugar das verdades absolutas, a contingência82. No entanto, os sujeitos não são

81

Na concepção da Teoria dos Sistemas, se isso se aplica à política, o mesmo não ocorre em relação ao direito. A opinião pública é observada pela política, mas não deve ser o espelho do direito. Abordaremos esse tema nos anexos desta tese.

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A contingência é o que a sociedade moderna pode oferecer. Com a contingência aumentada, a irritabilidade do meio em relação aos sistemas também aumenta, o que faz com que os sistemas tenham que aumentar sua velocidade de reação para reparar o que se decompõe, lidando sempre com o inesperado.

terminantemente eliminados pela perspectiva sistêmica. Eles são, antes, pensados como sistemas. A forma como eles se relacionam com o sistema social é o que veremos a seguir. Antes, porém, é preciso fazer referência a dois importantes conceitos para a sociologia e para a filosofia, que são reconfigurados pela Teoria dos Sistemas, quais sejam, as noções de tempo e de sentido.

No documento wagnersilveirarezende (páginas 175-184)