3. O conceito de campo e suas implicações para o direito e a política
3.1. O exemplo de funcionamento do campo científico
Um bom exemplo para o entendimento do conceito de campo em Bourdieu, e também para a compreensão do que é atribuído à estrutura do campo e à ação dos indivíduos, é o campo científico. Em sua análise, estão presentes todos os elementos definidores da ideia de campo. A ciência é produtora do seu próprio significado, e, conforme define Bourdieu em relação aos campos, é dotada de relativa autonomia em relação aos outros campos sociais. A própria verdade científica, desta forma, é produzida pelo campo, através dos jogos de poder que caracterizam o acúmulo de capital científico, a reconversão de outros capitais e a busca pelas posições mais privilegiadas.
Se afastando da polarização oferecida pelas interpretações internalistas e externalistas, Bourdieu busca escapar de uma concepção de ciência pura, livre da necessidade social, e, ao mesmo tempo, de uma ciência presa, sujeita apenas às demandas políticas e econômicas. Por isso, o conceito de campo é visto por ele como o instrumento teórico mais adequado para a compreensão da ciência e, como veremos, também da política e do direito.
Diante disso, a ciência, assim como nenhum outro campo, não pode ser pensada como absolutamente independente do mundo social e nem como absolutamente dependente dele. A atividade científica, por exemplo, implica custos econômicos e o grau de autonomia da ciência depende do grau de necessidade de recursos econômicos que tal ciência exige para se concretizar. Isso quer dizer que há uma comunicação entre o campo científico e o campo econômico, mas este último não controla aquele (BOURDIEU, 2004, p. 54), e o campo científico mantém sua autonomia com base nas características próprias que possui, quando comparado a outros campos. Na verdade, para Bourdieu, quanto mais o campo puder fazer valer seus próprios critérios, evitando intervenções externas, especialmente as políticas, maior será a autonomia do campo.
O campo científico é pensado como um sistema de relações objetivas entre posições. Sistema, neste caso, não tem o mesmo significado que o termo utilizado no contexto da Teoria dos Sistemas. As posições do campo
estabelecem relações entre si, que, por sua vez, compõem um conjunto complexo de relações, formando o sistema. O que, de fato, está em jogo é a autoridade científica (seu monopólio, mais precisamente), e, portanto, a legitimidade para determinar o científico, a ciência. A capacidade científica está relacionada a falar e agir com legitimidade, o que dota o indivíduo de autoridade, que, por sua vez, exige deste mesmo indivíduo uma capacidade técnica específica e concede a ele uma espécie de poder social (BOURDIEU, 1976).
A relação entre o campo científico e os demais se torna clara na afirmação de que a autoridade científica, capital científico que singulariza o campo, é, em regra, convertida em outras espécies de capital (social, cultural, político, econômico, etc, e a recíproca também é verdadeira). O capital próprio ao campo científico proporciona, além do reconhecimento da competência, autoridade para definir as regras do jogo, as regularidades, e as leis que definem sobre o que é importante ou não escrever, o que é brilhante e o que é ultrapassado (BOURDIEU, 2004, p. 27). Ao assegurar ao detentor um poder sobre os mecanismos constitutivos do campo, a autoridade científica permite a realização da conversão em outras formas de capital, ampliando o espectro de atuação de seus efeitos. Ao habitus primário, oriundo da educação de classe, é somado o habitus secundário, fornecido pela educação escolar. O sistema de ensino, por exemplo, inculca o habitus científico nos destinatários legítimos da ação pedagógica, fazendo com que o capital escolar seja reconvertido em autoridade científica. Desta forma, tendo como base os indivíduos e as relações que eles estabelecem no interior do campo, Bourdieu não pode abrir mão de um conceito de agência humana, que envolva indivíduos concretos.
A perspectiva relacional que caracteriza os campos pode ser observada em diferentes aspectos. Os julgamentos sobre a capacidade científica, por exemplo, são sempre influenciados pela relação entre a posição ocupada pelo julgador (normalmente, alguém já dotado de tal capacidade, possuidor de autoridade no campo), e a posição do aspirante, do novato no campo, aquele que ainda não ocupa uma posição privilegiada na hierarquia do campo. Isso significa que o reconhecimento científico, forma também de reconhecimento social, é dado pelos próprios pares.
O campo é uma forma de dotação de sentido, assim como pensava Weber em relação às esferas de sentido, e assim como também pensava Luhmann em relação aos sistemas. O campo científico, por exemplo, produz uma forma de interesse específica, que lhe é própria. Até neste ponto, a perspectiva relacional se faz presente. Os interesses em pesquisar dizem respeito a elementos intrínsecos, manifestados através da motivação e interesse pessoal do cientista, mas também estão relacionados a aspectos extrínsecos, tangentes ao despertar do interesse dos pares no campo.
A importância de se reconhecer atores (e suas relações) como elementos centrais para o entendimento do conceito de campo se faz patente na crítica que Bourdieu dirige à forma como a filosofia idealista encara a ciência, ou seja, como sendo possuidora de uma história caracterizada pelo desenvolvimento de sua lógica imanente (1976). Rechaçando esta leitura, Bourdieu definirá o campo científico como um lugar de luta política pela dominação científica. A lógica do campo é produzida a partir de condições históricas específicas, de configurações singulares do campo, tendo em vista seus componentes humanos e o valor das posições que ocupam. Diante disso, toda escolha feita no campo é vista como uma estratégia política para angariar posições de privilégio. E o lucro propriamente científico é a obtenção do reconhecimento dos pares-concorrentes (mais uma vez, característica de uma perspectiva relacional entre agentes). A noção de busca estratégica pelo reconhecimento dos pares deixa patente o papel que o ator desempenha em uma teoria como a dos campos.
Essa busca pelo reconhecimento dos pares é influenciada pelo grau de autonomia do campo. Quanto maior sua autonomia, mais os produtores do campo científico tendem a ter, como únicos clientes, seus próprios concorrentes (BOURDIEU, 1976). Só os especialistas podem avaliar o mérito do próprio campo, de fato e de direito – recorrer a uma autoridade exterior ao campo atrairia para si o descrédito3536. Esta é uma maneira de proteger a
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A relação entre a autonomia e o descrédito, no campo científico, pode ser percebida em relação ao locus da publicação de um artigo científico. A publicação que é acompanhada de publicidade (como, por exemplo, em jornais de grande circulação), fora dos meios propriamente científicos, gera descrédito para o autor, ao contrário do que ocorre com as publicações em revistas especializadas, com circulação restrita aos entendidos. Giddens é um autor que sofreu com descrédito, entre outras coisas, em função disto.
autonomia do campo científico37. Quer isto dizer que a autonomia varia, mais uma vez, de acordo com a especificação das condições históricas. Ela nunca é absoluta, mas é dilatada de acordo com condições particulares.
A autonomia do campo científico se manifesta, por exemplo, na definição do que pode ser tratado como problema, na limitação dos métodos aceitos e na aceitação das teorias tratadas como científicas. Esta autonomia de determinação do que é a ciência é também um fator estrutural interno ao campo, limitador das ações dos indivíduos que dele fazem parte. A autonomia, portanto, impõe limitações externas (à influência de outros campos) e internas (aos participantes do campo científico).
O campo científico força seus ingressantes a participarem de um jogo de poder que estabelece os pares como concorrentes. Eles são os únicos capazes de julgamento adequado em relação à produção científica e concorrem por posições distintas no interior do campo. Desta forma, em uma analogia jurídica, todo juiz, no campo científico, é juiz e parte interessada, simultaneamente. Isso faz com que os participantes se vejam obrigados não somente a superarem seus adversários, mas, sob pena de desqualificação de seu trabalho, a incorporarem sua produção em uma espécie de continuação superadora dos trabalhos daqueles com quem concorrem (BOURDIEU, 1976).
Assim como o campo do gosto38, o campo científico é caracterizado por uma contínua disputa pela legitimidade de dizer o que está em jogo na luta científica (operação dos dominantes). Em última instância, a ciência é aquilo que os dominantes, no campo científico, fazem, assim como a escola exige dos alunos, como cultura erudita, aquilo que já é cultura materna para a classe dominante39.
O campo científico é um local de lutas desiguais entre agentes com capitais desiguais. Mais uma vez, o tema da agência é trazido à tona. A luta no campo científico se dá entre dominantes e pretendentes às posições de
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Isto em relação à ciência. Em relação à política, principalmente, o reconhecimento, por parte de autoridades externas ao campo, pode ser um fator de prestígio. Mesmo em relação ao direito, nas posições mais expostas ao público, como é o caso atual do Supremo Tribunal Federal no Brasil, esse reconhecimento externo pode ser encarado como um benefício para aqueles que ocupam a posição.
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Esta é uma concepção que se aproxima da noção de fechamento operacional da Teoria dos Sistemas.
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Exaustivamente analisado por Bourdieu em A distinção.
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prestígio e reconhecimento que caracterizam a ciência. Neste jogo, entra em cena a necessidade de se ter visibilidade, ou seja, o capital social no campo científico deve apresentar um valor diferencial, distintivo, ligado à ideia de se fazer um nome. A lógica da distinção no campo da ciência será regida, diante disso, a partir da oposição entre o obscuro e o brilhante, caracterizado como aquele que foge do comum, do ordinário (BOURDIEU, 1976).
O brilhantismo, o reconhecimento, a construção de uma reputação, de um nome, são todos elementos característicos de uma abordagem que não pode olvidar o indivíduo, e suas peculiaridades, como forma de compreensão do funcionamento do campo. A necessidade, neste caso, é de um indivíduo concreto. A genialidade não pode, absolutamente, ser herdada (pelos discípulos, por exemplo). Assim como o carisma weberiano, ela é particular, peculiar, característica. Sua transferência nunca é absoluta.
O prestígio pessoal, por sinal, é visto por Bourdieu como uma das duas formas de poder correspondentes às duas espécies de capital científico. O prestígio se relaciona diretamente com a abordagem relacional, e diz respeito ao reconhecimento pessoal dos pares, ou seja, àquela forma de reconhecimento que não está institucionalizada, mas, antes, é baseada na estima. A outra forma de capital (que Bourdieu chamou de poder temporal ou político) se relaciona com o poder institucionalizado, ligado às posições importantes nas instituições científicas. O capital científico baseado no prestígio não pode ser transferido da mesma forma que o capital político. O prestígio pessoal tem algo de carismático, difícil de ser transmitido na prática. Desta forma, para compreender a forma como este capital estrutura as relações no campo científico, não se pode abrir mão dos indivíduos concretos.
Mesmo com a consideração da importância dos indivíduos específicos, a análise de Bourdieu sobre o campo científico abre espaço para que o conceito de campo, muitas vezes, seja entendido de forma rígida e pessimista, pois as determinações que a disputa pelo poder oferece parecem impedir qualquer alteração no quadro da distribuição dos privilégios que estrutura o campo. Os indivíduos agem estrategicamente em busca de melhores posições, mas este aparenta ser um jogo perdido, com vencedores já determinados. No entanto, Bourdieu, conforme ressaltamos, ainda abre espaço para uma modificação, baseada na ação dos atores.
Se a estrutura do campo pode ser alterada, isso se dá em função de estratégias de conservação e subversão, orientadas pelas propriedades das posições que os atores ocupam no campo. É claro que as inovações são pensadas como circunscritas aos limites autorizados:
C'est le champ qui assigne à chaque agent ses stratégies, s'agirait-il de celle qui consiste à renverser l'ordre scientifique établi. Selon la position qu'ils occupent dans la structure du champ (et sans doute aussi selon des variables secondaires telles que la trajectoire sociale, qui commande l'évaluation des chances), les "nouveaux entrants" peuvent se trouver orientés vers les placements sûrs des stratégies de succession, propres à leur assurer, au terme d'une carrière prévisible, les profits promis à ceux qu réalisent l'idéal officiel de l'excellence scientifique au prix d'innovations circonscrites dans les limites autorisées, ou vers des stratégies de subversion, placements infiniment plus coûteux et plus risqués qui ne peuvent assurer les profits promisaux détenteurs du monopole de la légitimité scientifique qu'au prix d'une redéfinition complète des principes de légitimation de la domination40 (...) (BOURDIEU, 1976, p. 97, grifos do autor).
Os ingressantes no campo científico terão contra si toda a lógica do sistema, caso queiram inovar. Essa lógica é uma estrutura condicionante da ação. A ação é estratégica, o que exige levar em consideração os limites oferecidos pelo próprio campo, cuja reforma só é possível se observados os limites da ordem oferecidos pela própria constituição do campo. Os inovadores, portanto, são inicialmente combatidos pela instituição, até que, eventualmente, se tornem consagrados, muitas vezes, nesse processo, levando a alterações
40 “É o campo que atribui, a cada agente, suas estratégias, inclusive a que consiste em reverter
a ordem científica estabelecida. Segundo a posição que eles ocupam na estrutura do campo (e também, sem dúvida, as variáveis secundárias, tais como a trajetória social, que comanda a avaliação das oportunidades), os novos participantes do campo podem se ver orientados para as posições seguras das estratégias de sucessão, próprias a lhes assegurar, ao fim de uma carreira previsível, os ganhos prometidos àqueles que realizam o ideal oficial de excelência científica, ao preço de inovações circunscritas aos limites autorizados, ou para as estratégias de subversão, posições infinitamente mais caras e mais arriscadas, que só podem assegurar os ganhos prometidos aos detentores do monopólio da legitimidade científico ao preço de uma redefinição completa dos princípios de legitimação e dominação”. Tradução nossa.
na estrutura do campo. No entanto, uma vez consagrados, devido à própria dinâmica das lutas, eles tendem a adotar uma posição conservadora, buscando manter o prestígio que conseguiram com a “ruptura herética” (2004, p. 40).
O exemplo da ciência mostra as implicações que o conceito de campo tem na teoria de Bourdieu. Interessado em fazer uma ciência da ciência, Bourdieu vê no conceito a chave para o entendimento deste espaço sui generis do mundo social. Contra um construtivismo idealista, Bourdieu aponta que, no domínio da pesquisa científica, os pesquisadores e as pesquisas dominantes definem o que é, num dado momento do tempo, o conjunto de objetos importantes. São os agentes que fazem os fatos científicos, e, em parte, o próprio campo científico, a partir de uma posição nesse campo (posição esta que não criaram, mas que contribui para definir suas possibilidades) (2004, p. 25).
Além da ciência, Bourdieu aplica o conceito de campo em outros setores do mundo social. A política e o direito também são analisados como campos sociais, dotados de autonomia relativa, capital específico, regras e linguagem próprias, e são caracterizados, igualmente, por relações de poder entre indivíduos dotados de características específicas, em busca de privilégios no interior do campo.