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O CONCEITO TRADICIONAL DE DEMOCRACIA RACIAL COMO EXPRESSÃO DE UM MODELO SUBSTANTIVO DE DEMOCRACIA

No documento A JUSTIÇA E AS CORES (páginas 124-146)

1 ENFRENTANDO UM MODELO DEMOCRÁTICO ASSIMILADOR

1.6 O CONCEITO TRADICIONAL DE DEMOCRACIA RACIAL COMO EXPRESSÃO DE UM MODELO SUBSTANTIVO DE DEMOCRACIA

A democracia racial foi uma idéia que ganhou força justamente na época de afirmação do Estado Social no Brasil. O movimento que em 1930 pôs fim à Velha República foi mais que um golpe de Estado porque significou mais que a centralização política administrativa. Aquele movimento foi uma revolução também porque trouxe significativas mudanças culturais e sociais. Sob certo aspecto, a própria unidade política foi também garantida através de um discurso de unidade étnica nacional sedimentada a partir dessa época. Tal unidade foi proporcionada, dentre outros fatores, pela valorização da mestiçagem. Aquilo que durante muito tempo fora visto como a causa de nosso atraso torna-se, para o discurso oficial, um ponto positivo, uma vantagem comparativa em relação a outros povos que conviviam com o dilema de unificar grupos étnicos socialmente segregados.

A centralização política e administrativa foi um desafio gigantesco, dada a heterogeneidade regional e a praticamente absoluta ausência de estradas, ferrovias e

comunicações. A solidificação do governo Vargas praticamente coincide com a fase de instalação do Estado Social no Brasil ou, pelo menos, com sua intensificação.

O Estado Social não se resume a aspectos previdenciários e securitários. A maior regulação legislativa que é típica do Estado Social é conseqüência de uma ideologia segundo a qual o Estado é o centro da sociedade. Segundo essa concepção, o Estado dirige e controla não só a economia, mas a próprias liberdades. Para tanto se requer a adesão a um projeto único dirigido para as prioridades do Estado. De acordo com essa concepção, a centralização política e a direção da sociedade só podem ser conseguidas com sucesso se a sociedade reconhecer-se no Estado. Por isso o período em que prevaleceu a ideologia social do Estado foi também o período em que floresceram os governos mais autoritários.

A questão fundamental da jovem República era a construção de um povo. E de acordo com a crença então vigente, o Estado seria o produto de uma identidade nacional coesa, seria a expressão institucional de uma coletividade natural. Como destaca Kabengele Munanga:

Apesar das diferenças de pontos de vista, a busca de uma identidade étnica única para o País tornou-se preocupante para vários intelectuais desde a primeira República: Sílvio Romero, Euclides da Cunha, Alberto Torres, Manuel Bonfim, Nina Rodrigues, João Batista Lacerda, Edgar Roquete Pinto, Oliveira Viana, Gilberto Freyre etc., para citar apenas os mais destacados. Todos estavam interessados na formulação de uma teoria do tipo étnico brasileiro, ou seja, na questão da definição do brasileiro enquanto povo e do Brasil como nação. O que estava em jogo, nesse debate intelectual nacional, era

fundamentalmente a questão de saber como transformar essa pluralidade de raças e mesclas, de culturas e valores civilizatórios tão diferentes, de

identidades tão diversas, numa única coletividade de cidadãos, numa só nação e num só povo.123

Parece-nos adequado afirmar que a necessidade de afirmar uma identidade nacional uniforme está associada à necessidade de legitimar o Estado sobre um fundamento naturalizado, na velha aspiração de constituir a pátria como a família ampliada, uma coletividade não apenas de destino, mas também de origem, algo que pudesse gerar o sentimento de pertença suficientemente saturado ao ponto de legitimar e sustentar as estruturas artificiais do Estado. Uma coletividade natural na qual o povo, aquele sujeito abstrato e indefinido, pudesse se reconhecer e conferir validade ao Estado. Para a afirmação de um Estado centralizador de todas as atividades sociais num país tão heterogêneo econômica e regionalmente, esse sentimento de pertença tornou-se indispensável. No meio de tanta heterogeneidade de cores, classes e regiões, era preciso encontrar o denominador comum que permitisse que todas as identidades individuais pudessem ser açambarcadas por um discurso assimilador e, conseqüentemente, redutor da complexidade social.

No fim das contas, o que se pretende é transformar o conceito de povo em algo concreto, identificável. Tornando-se realidade concreta, seria possível definir quem é o povo verdadeiro e quem não é, quem é a base natural e legítima do Estado e quem são seus inimigos. Nos países comunistas, por exemplo, o critério de identificação desse elemento incorporador foi econômico. O conceito de proletariado reduzia todos os grupos – mulheres, negros, homossexuais – e todas as demandas – dignidade, alimentação, trabalho, lazer – à solução da questão econômica. O proletariado era o

123 MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade

macro-sujeito coletivo, o protagonista concreto da história, a entidade em nome da qual falava a vanguarda revolucionária e o Estado por ela estabelecido. Quem não era proletário era inimigo do povo. Na Alemanha nazista o critério de identificação foi racial, inventando-se aquilo que deveria ser o verdadeiro alemão, ainda que isso excluísse boa parte dos alemães.

Para o grande jurista do Estado Social, Carl Schimitt, a decisão política fundamental, a única questão materialmente constitucional, é estabelecer quem é o povo, o que só pode ser feito estabelecendo simultaneamente quem não é o povo. Por isso Carl Schmitt reduz a política à definição da relação amigo e inimigo.124 Trata-se de uma questão concreta. Segundo tal concepção o povo é o suporte fáctico de validade do Estado. Um dado real e natural.

No caso do Brasil, a vastidão geográfica e a heterogeneidade étnica e cultural representavam desafios a juristas e sociólogos que acreditavam que a unidade do Estado e do direito dependiam da unidade do povo como uma coletividade concreta e natural e estavam então preocupados em construir um conceito de nacionalidade adequado à nossas experiências. Mesmo um autor como Alberto Torres, que já rejeitava as teorias de superioridade racial, acreditava que o Brasil era um país jovem e tinha como necessidade urgente fazer-se uma nação, isto é, construir aquilo que seria “a base estática, o arcabouço anatômico, o corpo estrutural da sociedade política”.125 Torres defendia que isso deveria ser feito através de programas pedagógicos que deveriam criar, ainda que artificialmente, o sentimento de nacionalidade. Através de lições de patriotismo a população poderia ser organizada e dirigida para um projeto de

124 SCHMITT, Carl. O conceito do político – Petrópolis: Vozes, 1992. 125 TORRES, Alberto. Apud MUNANGA, Kabengele. Op. cit., p. 66

desenvolvimento.126 A identidade nacional era uma questão de planejamento a ser definido a partir do centro administrativo da sociedade, o Estado.

O grande projeto do Estado Social é eliminar as contradições sociais, absorvendo-as e atuando como o mediador universal de todos os conflitos. Os países comunistas e a Alemanha nazista são apenas as formas mais radicais e explícitas do Estado Social. Porém, de modo mais ou menos intenso, todo o ocidente sentiu os efeitos da crise da democracia liberal e experimentou formas de centralização do poder central e redução do espaço das liberdades individuais.

É comum usar a expressão Estado Social para se referir ao conjunto de políticas de intervenção econômica, assistência social e previdência pública. É comum que ao se falar em Estado Social se pense apenas nos governos europeus de depois da I Grande Guerra, no New Deal de Roosevelt e, sobretudo, nos Estados escandinavos, onde políticas de forte intervenção na vida privada e estatização da economia alcançaram sucesso ímpar no cenário internacional. Sob tal perspectiva o Estado Social seria apenas o conjunto das políticas públicas voltadas para a intervenção no domínio econômico. Mas o Estado de Bem-Estar Social é apenas um dos aspectos desse modelo político e jurídico assumido pelo Estado de Direito.

O aspecto da intervenção no domínio econômico é a expressão mais evidente de um modelo de sociedade dirigida a partir de um centro de comando definido. Não se trata apenas de um modelo de proteção previdenciária e assistencial do cidadão, mas do controle da vida privada do indivíduo, reduzindo a esfera de atuação da pessoa e submetendo os interesses privados ao interesse público definido a partir de cima. Nesse modelo, o estatal é de tal modo ampliado que passa a abranger todo o conceito de

126 TORRES, Alberto. O problema nacional brasileiro: introdução a um programa de organização

interesse público e, paralelamente, o conceito de público fica reduzido à esfera do Estado. E isso não é uma característica de regimes autoritários, como no comunismo ou no fascismo. Mesmo em regimes democráticos a ideologia Social é marcada pela diminuição das esferas da liberdade e pelo papel tutelar do Estado, redundando em formas exacerbadas de comunitarismo nas quais a Administração e a burocracia especializada substituem o cidadão no controle da política. Basta lembrar que em 1997 veio a público pela imprensa que na Suécia, tida historicamente como uma sociedade progressista e democrática, entre 1935 e 1976, cerca de 63 mil pessoas – dentre alcoólatras, doentes mentais e outros grupos – foram secretamente esterilizadas sem seu consentimento e sem nem mesmo tomarem conhecimento. Como política de saúde pública, as autoridades sanitárias estabeleceram a prática de esterilizar essas pessoas quando, por qualquer razão, precisavam recorrer à internação hospitalar e procedimentos cirúrgicos. Numa clara medida eugênica, o governo entendeu que, independentemente do consentimento dos pacientes, cabia ao Estado decidir o que era melhor para a saúde da sociedade.127 Em nome de uma forte preocupação social violaram-se direitos fundamentais de milhares de indivíduos sob o argumento de que se estava protegendo sua saúde. Esse exemplo extremo, ocorrido numa democracia antiga e sedimentada, serve para ilustrar que a ideologia do predomínio absoluto da esfera pública sobre a privada não foi especificidade de regimes autoritários nem de países jovens ou subdesenvolvidos. Mais que uma orientação da legislação e dos serviços públicos, por Estado Social compreende-se exatamente essa ideologia de precedência absoluta da esfera pública, restringindo-se e condicionando-se a autonomia privada.

O conceito de Estado Social por nós utilizado acompanha a teoria discursiva do direito formulada por Habermas, que propõe que o estudo do Estado de Direito pode ser feito a partir de paradigmas preponderantes no discurso de justificação e legitimação do poder em épocas determinadas.128 A partir do surgimento do Estado Moderno, quando o direito se diferencia completamente de outros sistemas sociais como a religião ou a tradição, Habermas identifica três grandes paradigmas: o Estado Liberal, o Estado Social e o Estado Democrático de Direito. Os dois primeiros paradigmas corresponderiam a períodos nos quais prevaleceram respectivamente a ideologia Liberal e a ideologia Social. Não significa que sejam períodos em que só uma dessas ideologias tenha existido, monoliticamente. Significa que num primeiro momento uma ideologia foi predominante, orientando a legislação e a aplicação do direito. E num segundo período, uma ideologia que antes era pouco expressiva tomou a primazia nessas mesmas tarefas de legitimação do Estado e interpretação e aplicação do direito.

Habermas acredita que ambos os paradigmas, Liberal e Social, são modelos substantivos da democracia e do Estado de Direito. São definições substantivas porque ambos trazem o que o direito e a democracia devem ser. O primeiro determina a primazia da esfera privada e o segundo a primazia da esfera pública. Para o Liberalismo os direitos coletivos seriam direitos de segunda ordem, ou melhor, seriam derivados dos direitos individuais. Já para o Estado Social as liberdades individuais é que seriam derivadas da organização coletiva da sociedade. Ambos compartilham a pretensão de

128 Conf.: HABERMAS, Jürgen. Três modelos normativos de democracia. In: A Inclusão do Outro:

estudos de teoria política – São Paulo: Edições Loyolo, 2002. HABERMAS, Jürgen. Direito e

Democracia: entre facticidade e validade, volume II – Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997, capítulo VII, p. 9-42. Ver também: HABERMAS, Jürgen. Paradigms of Law, in ROSENFELD, Michel; ARATO, Andrew. Habermas on Law and Democracy: Critical Exchanges – University of California Press, 1998, p. 13-25.

explicar a origem e significado do direito a partir de uma opção ideológica, ora pelos direitos individuais, ora pelos direitos coletivos.

Habermas, por sua vez, reinterpreta a evolução do direito moderno propondo que diferente do que propõem esses paradigmas substancialistas, os direitos individuais e os direitos coletivos são co-originários, isto é, ambos surgiram ao mesmo tempo, estando simultaneamente na base do direito moderno. Por razões históricas, o desenvolvimento do Estado de Direito no ocidente deu maior atenção, num primeiro momento, aos direitos individuais, e, depois da experiência da exploração dos trabalhadores provocada pela Revolução Industrial, das crises militares provocadas pelo imperialismo econômico e, principalmente, depois da grande recessão econômica da década de 1930, tal primazia foi cedida aos direitos coletivos e sociais. Contudo, seriam na realidade perspectivas interdependentes e indissociáveis.

Contrariamente àquela tese de que haveria direitos naturais originários e direitos derivados, Habermas acredita que direitos individuais e direitos coletivos, além de co- originários, são igualmente primordiais para o Estado de Direito, não sendo possível afirmar a primazia de nenhum deles. As liberdades só existem na medida em que também possibilitam direitos políticos de participação na esfera pública, ao passo que os direitos sociais só podem existir se for garantida a autonomia da esfera privada, pois mesmo os direitos coletivos, como direitos previdenciários, trabalhistas, assistenciais, etc., são acessados individualmente.

A prevalência absoluta do individualismo, vez que dá margens ao abuso do poder político e econômico, tende a prejudicar a própria autonomia privada. Vez que a concentração do capital também é uma lei do mercado, as próprias garantias individuais tendem a se fragilizar e a ficarem submetidas a critérios econômicos quando o poder se

concentra de maneira demasiada. Assim, a proteção descontextualizada das liberdades individuais tende a impedir o exercício dessas mesmas liberdades.

Já a prevalência absoluta dos direitos sociais, na medida em que exigem forte dose de centralização administrativa para permitir a alocação dos recursos econômicos de maneira eficiente, acaba por identificar o interesse público com o interesse do Estado. Ao reduzir-se a esfera de autonomia individual, o cidadão se torna dependente da assistência e tutela estatal, pervertendo a cidadania em clientelismo e condenando a coletividade à incapacidade política. Desse modo, os direitos sociais se transformam em simples serviços prestados pelo Estado provedor, isto é, a absolutização dos direitos sociais tende a destruir os próprios direitos sociais.

Se a depressão econômica da década de 1930 pôs fim às ilusões de qualquer liberalismo radical, a crise fiscal do Estado vivenciada em todo o ocidente a partir da década de 1970 revelou as contradições do Estado Social. Diante dessa encruzilhada sem retorno possível, Habermas acredita que é possível garantir a legitimidade do Estado de Direito reconstruindo o sistema dos direitos a partir de uma perspectiva procedimental, na qual o direito assuma a forma adjetiva e não substantiva. O terceiro paradigma, denominado por Habermas como Estado Democrático de Direito, reconhece a importância tanto das liberdades individuais quanto dos direitos coletivos, transformando ambas as ideologias em argumentos igualmente concorrentes na esfera pública, sem qualquer precedência abstrata de nenhum deles.

Para o Liberalismo as liberdades individuais têm precedência a priori. Para o Estado Social são os direitos sociais que têm maior valor a priori. Já para o Estado Democrático não deve haver valorização a priori. Direitos individuais e direitos coletivos não são valores abstratos, mas argumentos que podem ser invocados a cada

novo caso de conflito jurídico. Portanto, a cada nova situação de aplicação do direito, o intérprete deve assumir como válidos tanto os interesses individuais quanto os interesses públicos. A escolha por um deles só é possível em cada caso concreto e de forma contextualizada. Por isso se pode falar que o paradigma do Estado Democrático de Direito é um paradigma procedimental, pois, ao contrário dos paradigmas ideológicos, ele não antecipa o resultado da decisão política ou judicial. Ele apenas estabelece o procedimento. Em cada situação particular, o aplicador deverá optar pela resposta que melhor realize a justiça naquele caso concreto. Em certas situações a pretensão abusiva será do indivíduo. Em outras, da coletividade. Como todo direito é passível de abuso, não se pode afirmar com segurança que a liberdade individual deve prevalecer sempre, nem muito menos que o interesse público deve prevalecer sempre. Só as situações únicas de cada situação concreta, de cada caso específico, fornecerão os subsídios necessários para se saber qual o direito que deve ser protegido e qual a pretensão que deve ser considerada abusiva.

Sob tal paradigma procedimental, a democracia não exige homogeneidade nem muito menos adesão a um padrão dominante. Pelo contrário, o direito deve garantir a possibilidade de livre fluxo dos argumentos e, consequentemente, dos conflitos sociais. O pluripartidarismo e o multiculturalismo que para o Estado Social eram dilemas, obstáculos a transpor a fim de garantir a unidade da nação e a racionalidade da Administração, são a fonte de legitimidade do Estado Democrático de Direito. Num modelo substantivo de democracia tenta-se eliminar os conflitos na raiz, eliminando-se as diferenças éticas e culturais da nação a fim de garantir a adesão do povo ao discurso de legitimação dominante. O objetivo do Estado Social, por exemplo, é eliminar a complexidade social. Porém o aumento de complexidade é um fenômeno estruturante da

Modernidade, e por essa razão o Estado Democrático de Direito deve permitir a abertura do sistema do direito a quaisquer pretensões trazidas à esfera pública, desde que respeitem as próprias condições de comunicação necessárias ao entendimento. Isso significa que a questão de se definir quem é o povo, isto é, quem é o sujeito constitucional e o titular da soberania não pode receber uma resposta concreta e definitiva. A titularidade da soberania deve permanecer aberta. A função do direito, em tal contexto, é justamente garantir o aumento de complexidade.

Na antiguidade e no medievo a soberania era atributo de uma pessoa concreta. Com a Modernidade a soberania torna-se popular. Porém, sob qualquer paradigma substantivo da democracia, a tendência é tentar individualizar quem é o povo soberano. No Liberalismo a soberania é compartilhada por aqueles que têm condições de exercer sua cidadania. Daí o caráter censitário da democracia liberal como tentativa de delimitar quem realmente pode legitimamente exercer o poder político. No Estado Social tenta-se construir uma concepção concreta de povo a partir de critérios éticos ou étnico- culturais, a fim de definir quem é o titular da soberania. Paralelamente à centralização administrativa do Estado, se exige a uniformização da sociedade, a fim de produzir a identificação imediata entre governantes e governados. Isso só pode ser feito às custas da eliminação de todas as formas de diferença.

Acreditamos que democracia racial foi a versão brasileira do discurso de legitimação do Estado Social, ou melhor, foi um dos discursos pelos quais o Estado Social foi legitimado e implementado no Brasil. Muito mais que um mito, como atualmente vem sendo tratada, a democracia racial foi a resposta a uma necessidade institucional e que só funcionou porque atendia não apenas aos interesses da classe dirigente, mas principalmente porque ia ao encontro do senso comum e da cultura

arraigada de uma sociedade que desde antes da Abolição já estava habituada a ver-se como uma nação sem preconceitos de cor. A multidão de cores que povoava o país não permitia que se invocasse nenhum tipo de teoria de pureza racial e nem mesmo uma origem comum. Mas desde antes da Abolição que era difundido o sentimento de ausência de ódios raciais. Os ideólogos da democracia racial não inventaram algo do nada. Eles apenas foram capazes de identificar que em geral os brasileiros viam a si próprios como um povo mestiço. Porém, tiveram a capacidade de transformar isso que até então era motivo de vergonha e embaraço em algo do que se orgulhar. Cientistas sociais como Roquette Pinto e Gilberto Freyre foram alguns dos primeiros que, ao invés de negar a mestiçagem e propor medidas de uniformização através do branqueamento, defenderam a idéia de que a própria mestiçagem era fator de uniformização e um denominador comum do qual se poderiam valer aqueles que pretendiam identificar o critério da nacionalidade brasileira. Não deixa de ser um paradoxo o fato de que a heterogeneidade étnica do país tornou-se o elemento de homogeneização da identidade nacional. Os mitos nacionais europeus em geral reivindicavam uma origem histórica comum para explicar a identidade nacional. Mesmo em Portugal, com sua sociedade mestiça e heterogênea, o nacionalismo romântico recorreu às origens germânicas herdadas das invasões visigóticas para cunhar o mito da nacionalidade.129 Mas se em Portugal isso já era algo muito forçado, no Brasil, cuja elite se envergonhava de não ser suficientemente branca, qualquer tentativa semelhante seria ridícula. Talvez isso tenha contribuído para que a idéia da mestiçagem generalizada, e sua valorização como algo

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