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5. Ciclo 04 – Resultados e Discussão

5.5. Conceitos Aplicados

A partir das entrevistas realizadas, podemos delinear os conceitos mais utilizados na prática clínica pelos profissionais. Sobressaiu o conceito das matrizes perinatais elaborado por Grof (1987), sendo esse é um modelo de cartografia da consciência bastante utilizado pelas entrevistadas. O domínio perinatal gira em torno do nascimento e da vida intrauterina, ressaltando a importância desse período na constituição do ser humano e das experiências durante a vida. As matrizes perinatais podem ser utilizadas na prática clínica como um mapa da consciência e de enfrentamento das situações adversas, como também uma forma de interpretação do brincar das crianças, utilizando a fantasia para reviver esses arquétipos. As matrizes perinatais também podem ser utilizadas como formas de intervenções, pois, apesar da psicoterapia baseada em Grof ser não-diretiva, outros autores utilizaram esses conceitos e

criaram novas formas de intervenções, sendo mais diretiva, como Léo Matos, psicólogo que formou diversos profissionais no Brasil. Seu nome foi citado como um autor que contribui e influencia a prática clínica por alguns psicólogos, como apontado na categoria passada. Portanto, podemos inferir que existem diferentes modos de se trabalhar a partir das matrizes perinatais e da teoria de Stanislav Grof.

O segundo conceito mais utilizado foi o de arquétipos. Esse conceito originalmente foi adotado por Jung em 1927, para designar temas psíquicos que pudessem ser exprimidos por meio de imagens, sendo posteriormente estendido a todas as manifestações psíquicas que estivessem incluídas no plano da natureza humana e típica, tanto no âmbito do biológico, psicobiológico ou ideacional (Jacobi, 2016). Os estudos de Jung se destacam na esfera da psicologia transpessoal, contribuindo em torno de uma psicologia do sagrado o colocando como um importante autor dessa abordagem (Ferreira, Silva, & Silva, 2015). Ainda corroborando com esses autores, “arquétipos e mitos, inconsciente coletivo, sonhos, tipos psicológicos,

abordagem simbólica, sincronicidade e dimensões espirituais da psique serviram de base para a fundamentação da psicologia transpessoal no Ocidente” (Ferreira et al., 2015, p. 33). Dessa maneira, o conceito de sonhos citado pela entrevistada 03 também faz parte de um corpo teórico herdado da psicologia Jungiana.

A Psicologia Junguiana esteve bastante presente nos três teóricos que foram trazidos no início. Relacionando com a categoria de análise 02, Carl Jung também apareceu como um autor que auxilia a prática das profissionais no atendimento infantil, apesar de não aparecer uma obra sua, suas construções teóricas vieram a somar com a prática nessa perspectiva. Na teoria de Vera Saldanha, a razão, emoção, intuição e sensação (REIS) se mostra bastante presente, sendo uma estruturação proposta por Jung. O REIS auxilia na percepção da realidade quando há o seu desenvolvimento de forma saudável e congruente, tendo o contato com a elaboração desses elementos desde o início do desenvolvimento, auxiliando um crescimento saudável

emocionalmente. Estar em contato com o REIS permite que o indivíduo tome consciência dos processos que estão acontecendo em sua vida, tornando-se mais consciente de si e do outro.

O conceito de sombra citado pela entrevistada 03 é utilizado por Ken Wilber para montar sua cartografia se referindo à estrutura da psique apresentada por Jung, sendo um conjunto de atributos do self em que o sujeito perdeu o contato (Tabone, 2003). De acordo com a autora, Wilber acredita que quando esses elementos são negados pelo indivíduo, tendo como consequência o afastamento de si mesmo, criando uma “persona” e percebendo características

da sombra como ameaçadoras do mundo externo. Esse conceito é amplamente trabalhado no livro “O lado sombrio dos buscadores da luz” de Debbie Ford citado na categoria anterior como

um dos livros que auxiliam a prática dos profissionais que estão atuando.

Sobre os níveis de consciência, esse conceito se caracteriza como um objeto de estudo importante para a transpessoal, principalmente se considerarmos a sua história, pois foi em torno dos diferentes níveis de consciência resultantes de outros modos de ver o mundo que surgiram pesquisas protagonizadas por Ken Wilber e Stanislav Grof e consequentemente a Psicologia Transpessoal (Ferreira et al., 2015). Dessa maneira, esse conceito utilizado pelos profissionais se configura de maneira importante para a prática clínica, estreitando teoria e prática. A teoria de Stanislav Grof inicia com as pesquisas realizadas acerca da consciência e dos estados não ordinários que a consciência pode atingir. Esses estados foram chamados pelo autor de estados holotrópicos, onde ocorrem uma transformação da consciência, alterando a forma como percebemos os sentidos do corpo. Os estados holotrópicos da consciência permitem acessar de maneira profunda questões da psique humana, pois a consciência é alterada de forma qualitativa, não a prejudicando, como em delírios (Grof, 2012). O conceito de estados de consciência, principalmente os estados holotrópicos está relacionado ao conceito de matrizes perinatais, também trazido pelas profissionais.

Também para Ken Wilber como Vera Saldanha, os estados de consciência são importantes na constituição da psique e precisam ser estudados. Esses estados de consciência são transitórios, mas fazem parte da consciência humana e podem trazer diferentes compreensões. As experiências de pico fazem parte dos estados de consciência, sendo um estado de consciência também. Essas experiências são necessárias para cultivar a dimensão espiritual do ser humano e também para o sentido de motivação quando não estiver vivendo essas experiências.

Como hipótese, podemos dizer que Stanislav Grof parece ser um autor mais acessível para as entrevistadas por ter construído sua teoria a partir de um modelo de trabalho, sendo percebidas essas experiências e conceitos a partir da sua vivência. Acrescenta a esse fator a construção de um modelo clínico pautado em sua teoria. Com Ken Wilber, podemos perceber uma aplicação em diferentes áreas, não só na clínica psicológica, havendo diferentes trabalhos com seu modelo teórico, não havendo um foco na prática clínica. Vera Saldanha estaria mais próxima de uma “autora da prática” como Grof. Por outro lado, por se tratar de uma autora

brasileira viva e acessível (professora de cursos de especialização como o das entrevistadas), as entrevistadas estariam mais habituadas com suas palestras do que com seus escritos.

Outros conceitos citados percebidos nos atendimentos foram de identificação, apego, transformação, transmutação, respiração, sendo todos conceitos que formam o corpo teórico da psicologia transpessoal em sua história e estão inseridos no modelo explicativo criado para compreender os fenômenos psicológicos do ser humano. Conforme essa análise, é possível apontar que os conceitos citados pelas entrevistadas estão presentes na Psicologia Transpessoal e apesar das psicólogas também realizarem leituras e virem de outras formações teóricas, é perceptível como a transpessoal e seus conceitos estão em seus modos de trabalhar.

Alguns conceitos que aparecem, como grounding e ancestralidade são importados de outras abordagens, como a análise bioenergética e na Constelação Familiar de Bert Hellinger.

A citação desses conceitos pelos entrevistados evidencia o trânsito de autores e noções entre o fazer dos entrevistados e o contato com a diversidade de perspectivas e abordagens disponíveis atualmente. Como mencionado anteriormente, o contato de entrevistados com outras abordagens cria um amalgama de conceitos e noções que fica difícil de separar o que é específico da transpessoal com outras abordagens. Como mencionado na categoria de análise anterior, podemos perceber a influência bibliográfica e teórica de outros autores, agregando a prática desses profissionais. A seguir, falaremos de alguns recursos utilizados pelas psicólogas, podendo auxiliar na compreensão de como esses conceitos são estruturados na clínica infantil a partir da prática delas.