2.2 Governamentalidade
2.2.1 Conceitos em disputa
Miller e Rose (2012) investigam a emergência do pensamento governamental e ensinam que, aí, o pensamento alia-se à técnica porque precisa desenvolver instrumentos de intervenção. O termo “governar” aponta para a ação de conduzir a conduta. E, se tal ação é necessária, isso ocorre porque algo na conduta dos indivíduos é entendido como problemático.
Como saber que tipo de conduta deve ser regulada? Os autores explicam que, para chegar a tal conhecimento, as coisas devem ser problematizadas, ou seja, não as entender como problemas colocados a priori, mas elaborando processos que dão a ver os problemas a serem resolvidos. E mais: ao longo dos processos, também desenvolver tecnologias de governo que mirem a solução dos problemas.
Os autores explicam que há dois aspectos diferentes a serem analisados na governamentalidade: o primeiro são as racionalidades ou programas de governo; o segundo são as tecnologias que permitem implementá-los. Segundo Miller e Rose (2012), essa separação permite, por um lado, “indicar os nexos entre um modo de representar e conhecer um fenômeno, e de outro, um modo de agir sobre ele, de modo a transformá-lo” (p. 27). O termo “racionalidades” aparece no plural porque não há uma racionalidade a ser contraposta a um “irracional”. Ao invés de partir da ideia de uma racionalidade única, Foucault (2008) ensina que há várias formas de racionalidade buscando solucionar os problemas.
Nesse sentido, Geoffroy de Lagasnerie (2013), um polêmico comentador de Foucault, destaca a importância de quebrar a unidade do que entendemos por liberalismo. Por muito tempo e de forma majoritária, a esquerda forjou “um grande relato uniforme” sobre o liberalismo clássico, o neoliberalismo, o capitalismo e a dominação da burguesia (p. 30). A importância de O Nascimento da Biopolítica estaria, justamente, em especificar tais elementos de forma a compreendê-los e assim enfrentá- los com uma argumentação mais precisa e rigorosa2. Na análise do liberalismo e das disputas internas que marcam sua história, a busca deve ser pelas novidades que daí emergiram e pelos diferentes efeitos que produziram em nossa forma de ser e estar no mundo.
Convém apreender positivamente suas contribuições: o que eles produziram? O que geraram como novos direitos, novas liberdades, novas emancipações? De que realidades inéditas impuseram a existência? […] Colocar-se em contato com o que essa tradição renova é, portanto, proporcionar-se meios de discernir ao mesmo tempo, e em um mesmo movimento, as promessas de emancipação encarnadas pelo neoliberalismo e as razões pelas quais ele não as cumpre. Isso, a fim de detectar, nas contradições internas que o perpassam e o minam, os pontos de apoio de uma ação visando transformá-lo e,
2Nesse sentido, Lagasnerie vê similaridade entre Foucault e Marx, quando este critica a racionalidade dos socialistas alemães sobre o capitalismo na Crítica do Programa de Gotha: entender a burguesia como uma reunião reacionária entre feudais e a classe média seria ignorar as peculiaridades econômicas e sociais da época. Assim, para Marx, “apreender a 'positividade' do capitalismo é compreender e aceitar que a classe burguesa é uma classe autenticamente revolucionária: ela transformou as relações econômicas, emancipou os indivíduos dos pertencimentos tradicionais; substituiu as relações feudais de sujeição por relações jurídicas entre homens dotados de direitos formalmente 'iguais' e pelo viés de mecanismos de mercado” (LAGASNERIE, 2013, p. 33).
simultaneamente, selecionar e assimilar suas exigências mais válidas e legítimas. [LAGASNERIE, 2013, pp. 34-35] [Grifos do autor].
Seguindo tais ensinamentos, a proposta dessa Tese é, mediante a caracterização das práticas do jornalismo de massa e do jornalismo empreendedor, compreender e descrever um tipo de jornalismo que parece não se enquadrar em nenhum desses conceitos. Além disso, se as práticas são diferentes, os sujeitos produzidos por cada uma delas também os são – e ao mesmo tempo em que são produzidos, os sujeitos produzem e reproduzem cada uma dessas práticas. Tal discussão atravessa o referencial teórico e deve ser entendida como um pano de fundo da pesquisa. Por ora, voltemos aos debates sobre a governamentalidade foucaultiana e os embates de seus comentadores.
Algumas afirmações de Lagasnerie são vigorosamente rebatidas por outros estudiosos, principalmente quando ele sustenta que Foucault via no neoliberalismo possibilidades estratégicas para elaborar práticas de desassujeitamento perante a sociedade disciplinar. Nildo Avelino (2014) afirma que “Não é preciso muito esforço para demonstrar que não foi na tradição (neo)liberal que Foucault foi buscar 'práticas de desassujeitamento'” (p. 1). As práticas de liberdade aparecem aliadas ao cuidado de si exercido na antiguidade greco-romana e não sob os auspícios da tradição liberal. Avelino sustenta que, aliás, aqui a diferença é grande porque no (neo)liberalismo
[...] não é o indivíduo que pensa sua conduta e, com esse gesto reflexivo, se fortalece enquanto sujeito de vontade; ao contrário, ele é pensado: objetivado pelas verdades da economia que estruturarão sua liberdade, isto é, seu campo de ação, para constituí-lo como sujeito econômico. [AVELINO, 2014, s/p].
O autor defende que a atitude de Foucault perante o (neo)liberalismo foi estritamente descritiva e analítica; interessava-o na medida em que essa tradição engloba diferentes racionalidades governamentais. Estas são práticas que miram a otimização dos meios e fins em uma tríplice aliança: conduta dos indivíduos, princípios de governo e técnicas governamentais. E o fundamento do (neo)liberalismo não é entendido, de modo algum, como a valorização da liberdade, mas parte da ideia de que – a partir de um determinado momento histórico – governar demais passou a ser uma prática irracional.
A pergunta é como governar, e a potência dessa indagação está na análise das condições de possibilidade para o governo das condutas. Portanto, interessa pensar em termos não de uma pura “liberdade”, mas de “liberdade regulada”. Até onde ir para atender o desejo da população? Como e em que medida dizer “sim” a tal desejo?
Avelino (2014) explica que, se na Idade Média o papel do soberano era garantir a salvação dos súditos, há um deslocamento durante o século XVI que faz emergir uma
outra racionalidade: a razão de Estado. Ela pôde aparecer mediante algumas práticas bem específicas que produziram notáveis efeitos na arte de governar.
Em Maquiavel, o príncipe deve conservar seu Estado mediante uma solitária habilidade para reinar. Mas na esteira de “O Príncipe” a literatura anti-Maquiavel vai, pela primeira vez na história, sugerir que reinar é diferente de governar. Se aquele é uno, este é múltiplo: ninguém governa sozinho. Em um determinado território, muitos sujeitos exercem o poder de governo: o pai governa sua casa, sua família e seus bens; o professor governa seus pupilos; o médico, seus pacientes; o líder religioso conduz seus fiéis. Enfim, uma coisa é o poder soberano e outra é o poder de governo.
Antes de impor ou comandar, governar é conduzir as condutas – e tais práticas de condução acarretam problemas que lhe são específicos. Avelino (2014) explica que o governo assim entendido é produto do liberalismo. Foi este que promoveu uma profunda rearticulação no conceito de governo: o liberalismo foi um processo que protagonizou a “transformação do Estado unitário e centralizado na figura do Príncipe, num Estado descentralizado, não mais indexado na figura do Príncipe, mas agora indexado na conduta dos governados” (AVELINO, 2014, s/p).
Embora concorde com a ideia de “liberdade regulada”, penso que a agonística de si faz parte dos processos de criação de ações e de discursos que muitas vezes parecem “vazar” das práticas mais difundidas. É preciso lembrar desses desvios descendo ao “chão de fábrica”: eles aparecem nas práticas irreventes da internet, como a produção de memes e o compartilhamento de livros e filmes protegidos pelo direito de autor, por exemplo.
Mesmo que Foucault tenha voltado ao período clássico para encontrar a ética de si, esse fato não deve ser um impedimento para pensar a possibilidade da agonística nos dias atuais. O próprio Foucault afirmou muitas vezes que não queria ser tomado como um autor e que sua obra deve ser vista como uma “caixa de ferramentas”. Ainda que, claro, devamos atentar para o uso responsável desses ensinamentos de modo a não criar mostruosidades conceituais (VEIGA-NETO e RECH, 2014), a composição do pensamento não pode ser constrangida pelo medo de não reportar exatamente “o que o autor quis dizer”. Do contrário, nos acharemos perigosamente próximos daquela hermenêutica tão criticada pelo próprio Foucault em seus escritos finais.
No mesmo sentido, caso a ética de si seja relegada aos gregos, ficaremos irrevogavelmente presos nas malhas do poder. Se por um lado há governamentos macro das condutas, também há governamentos micro que ultrapassam a ordem discursiva
mais visível ou potente. Essa problematização é trabalhada mais detalhadamente no terceiro capítulo da Tese.
Governamentalidade é um conceito construído para descrever o processo liberal que deu origem ao poder de governo. Assim, a governamentalidade destaca a condução das condutas e as racionalidades que articulam ações correlatas à fiscalização, regulação e normalização dos comportamentos – e não a centralidade do Estado. Alfredo Veiga- Neto (2002) frisa que Foucault jamais se refere ao Estado como centro de irradiação do poder e da ação política e que muitas vezes essa ideia acaba se tornando confusa justamente pelo emprego indiscriminado da palavra “governo”. Assim, sugere o uso da palavra “governamento” ao nos referirmos ao ato ou ação de governar; quando a intenção for falar sobre a instância governamental, usar a palavra “governo”, apontando, aí sim, para a ação protagonizada pelo Estado.
Sem dúvida complexo, o conceito de governamentalidade indica um governamento múltiplo, onde não existe protagonista: economia, mercado, academia, Estado, mídia, tecnologia e outros elementos apoiam-se uns aos outros, operando técnicas de controle e de normalização entre os sujeitos. As mudanças no mundo do trabalho são um exemplo disso – e a potência atual do discurso do empreendedorismo não pode deixar de compor tais governamentos.