A última fase dos estudos de Foucault discute as relações entre o sujeito e os jogos de verdade, de maneira a colocar em evidência as relações do sujeito consigo mesmo. Mas a perspectiva da análise combate o entendimento a-histórico das relações entre sujeito e verdade: o imperativo socrático “conhece-te a ti mesmo”, aqui, é abordado de forma diferente daquela fundada pelo pensamento racional. Isso porque, como explica Foucault (2010a), a necessidade de conhecer a si mesmo é típica da modernidade; para os gregos, pelo contrário, a busca era pelo “cuidado de si”. Antes o “sujeito de verdade” do que o “sujeito da verdade”.
Os gregos compreendiam que a verdade transforma o sujeito em sua historicidade prática, enquanto “homem de experiência”: “Por si mesmo, o sujeito não é capaz de verdade a não ser que transforme seu ser, pois a verdade não é o que complementa o sujeito, mas aquilo que o coloca em jogo, o interroga e o transforma” (GROS, 2010, p. 320). A troca e a transformação, processos basilares para o cuidado de si, acontecem na experiência, vista como local de reciprocidade entre a verdade e o sujeito. Nas palavras de Ortega (1999), “a experiência constitui algo do qual se sai transformado” (p. 43), e tal transformação ocorre também mediante um trabalho sobre si mesmo.
mas de uma perspectiva em que a verdade é uma verdade transcendental e a-histórica: é a sua descoberta que permite ao sujeito ser capaz de tornar-se ele mesmo. A ênfase no conhecimento da verdade, dessa forma, pressupõe a exterioridade dos termos “verdade” e “sujeito” e legitima a neutralidade: é neutro porque, justamente, a verdade independe do sujeito; ela é preexistente, fundante, algo a ser descoberto para que através dela, finalmente, o sujeito seja capaz de conhecer a si mesmo. Portanto, a experiência aqui é secundária, só confirma os poderes de conhecimento do sujeito. Não há produção ativa por parte do homem, já que ele – e a verdade que o determina – é anterior a qualquer experiência possível. A verdade é causa e a experiência é mera consequência dessa causa.
Retomando a filosofia grega, Foucault ensina que o cuidado de si é anterior ao conhecimento de si e problematiza os tipos de subjetivação implicados no “cuida de ti mesmo” e no “conhece-te a ti mesmo” para mostrar a que ética sua obra se refere ao falar do cuidado de si. A ética foucaultiana diz respeito a uma ética da existência, uma estética que é alcançada mediante exercícios práticos sobre a vida mesma e que têm como objetivo a transformação de si.
A ética é a avaliação do que fazemos, mas uma avaliação que usa como régua os modos de existência implicados em nossas práticas. O saber é feito de formas (enunciável e visível); o poder é feito de forças e embates entre forças; a ética também concerne ao uso da força, mas o que importa agora é a relação da força consigo mesma: as regras discutidas aqui são regras facultativas por serem derivadas da relação de si consigo. E se por um lado elas são facultativas, por outro são autoimpostas – é essa imposição voluntária que o sujeito aplica sobre si mesmo que dá o tom do conceito de ética em Foucault.
A hipótese repressiva – o poder, antes de ser aquilo que diz não, condicionaria a produção ativa da resistência20 – encontra seu limite no cuidado de si. As discussões éticas em Foucault derivam de sua angústia frente à negatividade das relações de poder e da integração poder-saber: como ultrapassar a linha do poder? Como inventar novas possibilidades de vida que não sejam fundadas em uma resposta ao poder – por isso sempre uma resposta “reativa” -, mas em uma criação “ativa” e afirmativa da vida?
Jogos de verdade articulados às possibilidades de vida são práticas em que o
20 O entendimento do poder como produtivo não impediu que o filósofo se deparasse com a impossibilidade da afirmação da vida. Afirmação no sentido nietzscheano do termo, ou seja, a invenção de possibilidades de vida para além dos saberes e dos poderes que nos constituem.
sujeito ingressa por meio da fala franca (ou parresía). É a coragem da verdade de um sujeito que empenha sua vida nesse dizer a verdade. A verdade e o sujeito são processos articulados e o foco da análise é, portanto, o governo das condutas.
As condições de possibilidade dessa ética não são fundadas na moral individualista, mas na política – até porque a fala franca exige a presença do outro. Se o poder é importante na justa medida em que integra os modos de subjetivação, o tema central da obra foucaultiana é o sujeito; e, na ética, ao cuidar de si mesmo o sujeito pratica sua liberdade. Mas é importante destacar que a ética é um dos eixos de análise, e não o único. Isso é importante porque os três eixos dos estudos foucaultianos – o saber, o poder e a ética – funcionam paralelos e concomitantemente, de forma a se atravessarem mutuamente. É nesse sentido que a fala franca aparece articulada às técnicas da governamentalidade e às práticas de si (FOUCAULT, 2011, p. 9).
Nas sociedades ocidentais modernas cuidar de si mesmo é uma prática vista com suspeita: seria uma forma de egoísmo, uma contradição com o interesse pelo cuidado do outro e uma irresponsabilidade com um sacrifício necessário de si. Mas Foucault ressalta que é justamente o governo de si mesmo que regula o governo sobre os outros: quem não governa a si próprio é escravo de seus apetites e, caso chegue a governar, governará mediante abuso de poder de modo a atender anseios puramente pessoais. A ética, pelo contrário, exige “um cuidado de si que, pensando em si mesmo, pensa no outro” (FOUCAULT, 2012, p. 267).
O cuidado de si mesmo como prática de liberdade pressupõe a liberdade como condição ontológica da ética. Indica um êthos, uma maneira de ser ou de se conduzir que é visível para os outros e que envolve “o conhecimento de certo número de regras de conduta ou de princípios que são simultaneamente verdades e prescrições. Cuidar de si é se munir dessas verdades: nesse caso a ética se liga ao jogo da verdade” (FOUCAULT, 2012, p 262-263). É uma forma concreta de liberdade porque na ética essa liberdade é problematizada como êthos, como conduta de si: não ser escravo nem de si, nem dos outros.
Ser capaz de governar a si mesmo conduz a uma ética que possibilita ao sujeito jogar o jogo da verdade com o mínimo de dominação possível. A preocupação ética é articulada à luta política pelo respeito aos direitos: o cuidado de si instrumentaliza as estratégias de luta contra os estados de dominação. Os processos de assujeitamento são problematizados de modo a abrir espaço para que os efeitos das diferentes formas de constituir a si mesmo sejam repensados.
E como se dão as formas diferentes de constituição de si? Penso que a resposta a essa questão é necessária, porque o cuidado de si visa justamente questionar os processos de assujeitamento de forma a transformá-los em processos de subjetivação – dobrar a força que nos sujeitava sem que ela deixe de ser força. Mais do que isso: a tarefa é relacionar os processos de assujeitamento com eles mesmos, de modo a evidenciar as regras obrigatórias deles derivadas e, ao mesmo tempo, criar regras de si para si mesmo – regras inerentes às práticas de liberdade.
4.2 Governamentalidades: os processos de liberação e as práticas de liberdade