3 REVISÃO DE LITERATURA
3.5 ATENDIMENTO AOS HOMENS AUTORES DE VIOLÊNCIA POR PARCEIRO ÍNTIMO
3.5.1 Conceitos e Histórico do Atendimento a Homens
O atendimento a homens autores de violência (HAV) baseia-se na ideia de que o sujeito pode reconhecer e responsabilizar-se pela violência que comete, procurando formas de expressão não violentas. Assim busca-se o engajamento dos homens na promoção da equidade de gênero e em ações pelo fim da violência de homens contra mulheres (TONELI et al, 2010).
O trabalho com o tema violência intrafamiliar é um desafio para diferentes áreas, e a maioria das ações são dirigidas à vítima, que geralmente são mulheres, crianças ou adolescentes. Contudo, a compreensão de que para uma atuação mais efetiva é fundamental intervir junto ao autor da violência também tem crescido nos últimos anos (BEIRAS, 2009).
Apesar de na maioria dos casos de violência conjugal, o homem ser o agressor, é necessário considerar que o homem tanto na condição de agredido como de agressor, pode demandar assistência, pois sua vivência também é carregada de sofrimento. Então na abordagem a estes homens, é necessário entender os fatores associados a este comportamento, para evitar condutas culpabilizadoras ou vitimistas. É importante enfatizar que a violência conjugal é relacional, portanto todos devem ser assistidos para que seja possível transformar padrões de comportamento (BRASIL, 2001a).
Assim, para reduzir os índices de violência baseada em gênero é primordial implementar ações mais eficazes de segurança pública, aliadas a ações em saúde dirigidas aos homens, tanto de caráter preventivo como de atendimento a autores de violência. O trabalho com homens, em conjunto com trabalhos realizados junto às mulheres, seria uma alternativa mais eficaz na redução, contenção e prevenção da violência conjugal (BEIRAS et al, 2012; MEDRADO et al, 2009).
A intervenção com autores de violência pode ser então definido como qualquer ação que tenha como objetivo modificar o comportamento violento de uma pessoa que física, sexual, emocional ou verbalmente controla sua/seu parceiro íntimo (ROTHMAN et al, 2003).
Os programas de atenção direcionados aos homens autores de violência (HAV) surgiram no final da década de 70 e início da década de 80, nos EUA e Canadá. Posteriormente foram multiplicados em diversos países, contudo foi somente nos últimos anos que ganharam espaço nas legislações e políticas públicas de cada país (TONELI et al, 2010).
Os primeiros programas direcionados a homens autores de violência foram desenvolvidos no final dos anos 1970 nos Estados Unidos e incluíram o Emerge, AMEND e RAVEN. E desde então este tipo de programa ganhou espaço no país e a maioria ocorre como uma parceria entre o sistema de justiça, a saúde mental e advogados de defesa das vítimas. A maior parte destes programas busca a responsabilização destes homens frente à violência perpetrada, com o desenvolvimento de trabalho grupal psicoeducativo e reflexivo, com foco em questões relacionadas às ideias sexistas e estereótipos de gênero, em alguns casos sob um viés feminista (BEIRAS, 2009; ROTHMAN et al, 2003).
O Emerge, uma ONG localizada em Cambridge-EUA, pelo fato de ser a primeira instituição norte-americana a oferecer esse tipo de serviço, é uma referência nacional e ainda hoje seu modelo é o mais influente sobre programas de atendimentos a HAV (TONELI et al, 2008).
Nos anos 1990 esses programas foram replicados em diferentes países, como Austrália, França e Reino Unido. Na América Latina, a Argentina foi o primeiro país a reproduzir estas ações, seguido do México, e de iniciativas em alguns países na América e Central e no Peru. A Espanha e Honduras possuem programas de caráter governamental, e em vários destes países há intenção de ampliar estas ações em termos governamentais, devido mudanças recentes na legislação destes locais, como aconteceu com o Brasil após a Lei Maria da Penha (BEIRAS, 2009).
O Programa de Hombres Renunciando a su Violencia (PHRSV), elaborado pelo Colectivo Hombres por Relaciones Igualitarias (CORIAC) em 1995, foi o primeiro programa realizado no México. Apresenta uma perspectiva re-educativa, que privilegia o aspecto educativo e social sobre o terapêutico. Este mesmo programa foi levado a Lima, Peru, por Miguel Ramos, sociólogo, professor e
pesquisador, em 2004, chegando no ano seguinte à cidade de Piura (norte peruano), devido ao esforço da organização Católica Diaconía por la Paz y la Justicia (TONELI et al, 2008).
Em levantamento realizado em 38 países, foram identificados 56 programas de intervenção com homens autores de violência, cuja maioria foi estabelecida no final dos anos 1990 e atende menos de 100 agressores por ano (70%). Além disso, em 54% dos programas, homens encaminhados pela justiça formam uma porção significante do grupo que recebe intervenção (ROTHMAN et al, 2003).
No Brasil, na segunda metade da década de 1990, organizações não governamentais passaram a desenvolver estudos, intervenções sociais e mobilizações políticas com um olhar especial para o público masculino. Entre estas organizações se destacam o Instituto Papai, o Instituto Promundo e a ECOS: Comunicação em Sexualidade; que iniciaram estudando questões relacionadas a gravidez e paternidade na adolescência, à prevenção de DST/Aids e posteriormente à questão das violências. Essas organizações tiveram então, junto com os movimentos feministas, papel de destaque ao mostrar a importância de ações em saúde voltadas à população masculina e jovem, buscando o bem estar de homens, mulheres e crianças e a busca da equidade de gênero (LIMA e BÜCHELE, 2011).
Os programas ou experiências de intervenção no país são recentes, alguns ainda experiências piloto em projetos temporários, com exceção de alguns programas de instituições como: o Instituto Noos, que é pioneiro no campo, o programa municipal da Prefeitura de Blumenau e o Programa Albam. Sendo que apenas 21,2% dos serviços existentes no país foram criados entre 1999 e 2002. Essas intervenções são, em sua maioria governamentais, ligadas a: justiça, segurança pública ou políticas públicas municipais ou estaduais. Algumas apresentam objetivos mais amplos, atuando em diferentes temas, outras focam no tema da mulher, de sua saúde e da violência. Buscam fundamentar-se em diretrizes específicas sobre o tema da violência contra a mulher, principalmente relacionadas à Lei Maria da Penha ou diretrizes federais ligadas a esta lei e atuações específicas contra a violência (BEIRAS, 2014).
O Instituto NOOS - Instituto de Pesquisas Sistêmicas e Desenvolvimento de Redes Sociais, localizado na cidade do Rio de Janeiro, também faz parte das organizações que desenvolvem programas que incluem os homens em situação de violência. O instituto iniciou suas atividades em 1998, com o objetivo de oferecer a terapia de família e de casais para as camadas populares, e atuar de forma conjunta com
serviços governamentais e não governamentais, buscando colaborar na prevenção da violência. Entre as principais atividades desenvolvidas estão a terapia de família e casais, e os grupos reflexivos de gênero com homens e mulheres (BEIRAS, 2009).
Cada um destes serviços, tanto os internacionais quanto os nacionais, foi construído sob uma perspectiva e em determinado período, sendo importante buscar uma forma de acompanhamento dos homens que participam dos diferentes tipos de serviço, permitindo analisar as mudanças ou não a partir da entrada no programa. Por isso a necessidade de instrumentos validados para este propósito, que englobem as dificuldades deste tipo de atendimento, assim o tópico seguinte abordará os obstáculos enfrentados por estes problemas e suas potencialidades.
3.5.2 Formas de atendimento, críticas e possibilidades
A intervenção com homens que cometem violência contra a companheira é uma medida controversa em diferentes âmbitos, e as principais críticas a sua organização são: utilizar recursos econômicos que poderiam ser destinados no amparo às vítimas; a imposição de medidas de ressocialização, reeducação ou tratamento ao invés de medidas punitivas; considerar que homens que praticam violência não mudam e portanto as intervenções com eles não são efetivas (ANTEZANA, 2012).
Mas avaliações indicam que os programas de atenção a homens autores de violência são no mínimo efetivos para prevenir novas agressões. Levantamentos realizados em programas dos Estados Unidos e Reino Unido, encontraram que entre 50 e 90% das pessoas que completam o programa não cometem violência durante períodos de seguimento que variam de 6 meses a três anos (ROTHMAN et al, 2003). De acordo com levantamento realizado por Montero e Bonino (2006), avaliações realizadas em diferentes países que há pelo menos vinte anos desenvolvem programas com homens que cometeram violência conjugal, demonstram que esses programas tem efeito positivo, desde que cumpram determinados critérios. Entre os principais resultados, os autores destacam que após 30 meses do fim do programa há diminuição da violência psicológica e 80% dos homens não voltam a cometer violência física.
Mas as avaliações do programas de intervenção com HAV também são criticadas, pois os homens que participam destas ações podem se tornar mais habilidosos em ocultar novas agressões e