3 REVISÃO DE LITERATURA
3.5 ATENDIMENTO AOS HOMENS AUTORES DE VIOLÊNCIA POR PARCEIRO ÍNTIMO
3.5.2 Formas de atendimento, críticas e possibilidades
prevenção da violência. Entre as principais atividades desenvolvidas estão a terapia de família e casais, e os grupos reflexivos de gênero com homens e mulheres (BEIRAS, 2009).
Cada um destes serviços, tanto os internacionais quanto os nacionais, foi construído sob uma perspectiva e em determinado período, sendo importante buscar uma forma de acompanhamento dos homens que participam dos diferentes tipos de serviço, permitindo analisar as mudanças ou não a partir da entrada no programa. Por isso a necessidade de instrumentos validados para este propósito, que englobem as dificuldades deste tipo de atendimento, assim o tópico seguinte abordará os obstáculos enfrentados por estes problemas e suas potencialidades.
3.5.2 Formas de atendimento, críticas e possibilidades
A intervenção com homens que cometem violência contra a companheira é uma medida controversa em diferentes âmbitos, e as principais críticas a sua organização são: utilizar recursos econômicos que poderiam ser destinados no amparo às vítimas; a imposição de medidas de ressocialização, reeducação ou tratamento ao invés de medidas punitivas; considerar que homens que praticam violência não mudam e portanto as intervenções com eles não são efetivas (ANTEZANA, 2012).
Mas avaliações indicam que os programas de atenção a homens autores de violência são no mínimo efetivos para prevenir novas agressões. Levantamentos realizados em programas dos Estados Unidos e Reino Unido, encontraram que entre 50 e 90% das pessoas que completam o programa não cometem violência durante períodos de seguimento que variam de 6 meses a três anos (ROTHMAN et al, 2003). De acordo com levantamento realizado por Montero e Bonino (2006), avaliações realizadas em diferentes países que há pelo menos vinte anos desenvolvem programas com homens que cometeram violência conjugal, demonstram que esses programas tem efeito positivo, desde que cumpram determinados critérios. Entre os principais resultados, os autores destacam que após 30 meses do fim do programa há diminuição da violência psicológica e 80% dos homens não voltam a cometer violência física.
Mas as avaliações do programas de intervenção com HAV também são criticadas, pois os homens que participam destas ações podem se tornar mais habilidosos em ocultar novas agressões e
consequentemente os resultados das avaliações serão mais positivos do que realmente são. Além disso os efeitos das intervenções são obtidos apenas com os homens que completaram o programa, e um dos principais problemas enfrentados pelos programas é o alto índice de desistência. (ROTHMAN et al, 2003). Entre as pessoas contrárias às intervenções com HAV, predomina a visão de que a prisão dos homens é o melhor dispositivo para a segurança das mulheres (LIMA e BÜCHELE, 2011).
A despeito das críticas a estes programas existem razões importantes para implementá-los: a) as mulheres que sofreram violência solicitam esse tipo de intervenção; b) para responsabilizar os que perpetram violência e erradicá-la; c) mulheres submetidas a violência nem sempre se separam do companheiro; d) necessidade de intervir com homens que, mesmo que se separem, repetem seus padrões violentos em novos relacionamentos; e) para romper a transmissão intergeracional da violência (ANTEZANA, 2012).
Entre os argumentos favoráveis a este tipo de intervenção, um dos mais utilizados pode ser identificado nos questionamentos elaborados por Ramos (2006, p.9):
Como compreender a violência de gênero se não investigando também os homens, suas histórias de reconstrução de gênero, suas experiências e narrativas? Como intervir nesse tema, além do indispensável trabalho com as vítimas, se não atuando também com os que geralmente a perpetram?
Os primeiros programas abordavam principalmente o controle da ira, com o uso de técnicas cognitivas. Todavia, com o passar dos anos percebeu-se que trabalhar apenas com o controle da ira era insuficiente, tendo muitas vezes o efeito oposto, como o aumento da violência cometida contra a mulher. Dessa forma, se recomendam os programas que trabalham as questões de gênero com o casal e de modo mais subjetivo, e que buscam quebrar as ideologias tradicionais que justificam a violência exercida contra a mulher (TONELI et al, 2010).
Atualmente, de acordo com Antezana (2012), os principais modelos de intervenção com homens que praticam violência conjugal são:
a) modelo psicopatológico: desenvolvido por psicólogos, considera a violência no casal como um distúrbio da personalidade, desconsiderando a questão sociocultural de gênero. Considera que os homens que cometem violência
desenvolveram uma personalidade abusadora, por terem vivido vínculos inseguros e sofrerem ou testemunharem violência parental. Possui uma perspectiva clínica e psicoterapêutica, abordando no tratamento dos homens dimensões como apego, vergonha, culpa e experiências traumáticas.
b) enfoque psicoeducativo pró-feminista: é favorável aos valores feministas e considera o problema de violência de gênero no âmbito das relações de poder e controle dos homens sobre as mulheres. A intervenção mais conhecida é o modelo Duluth, cuja metodologia se baseia na criação de grupos educativos, e considerada que a violência exercida por homens é mais parte de um padrão de comportamento do que um incidente isolado.
c) enfoque cognitivo-comportamental: também desenvolvido por psicólogos, considera a violência um problema dos pensamentos, crenças e condutas das pessoas mais do que uma questão de poder e controle sobre o cônjuge. A intervenção é dirigida aos pensamentos considerados “incorretos”, dando prioridade à cognição. Os programas que seguem exclusivamente este modelo não incluem o gênero como tópico relevante para o problema, posicionando a questão no nível individual.
d) enfoque construtivista-narrativista com perspectiva de gênero: baseado na perspectiva construtivista, considera ao mesmo tempo o contexto sociocultural e político próprio dos enfoques pró-feministas e das teorias de gênero. Assim, esse modelo compreende que a violência que homens desenvolvem contra as mulheres não é um fenômeno isolado devido a uma mente “errada”, e sim uma questão social inserida numa subjetividade individual.
No Brasil, um dos modelos mais conhecidos de intervenção é o desenvolvido pelo Instituto NOOS, que atua por meio de grupos reflexivos de gênero com homens, com um enfoque sistêmico. O trabalho em grupo visa a reconstrução de significados sobre modelos de masculinidade e relações de gênero, e permite o compartilhamento de experiências comuns em situações semelhantes e consequentemente a percepção de outras maneiras de expressão da masculinidade. Porém os autores deste modelo não o consideram um grupo psicoterapêutico, embora apresente efeitos terapêuticos, e não indicam terapias como primeira medida para autores de violência, entendendo o grupo reflexivo
como complementar a ações policiais, médicas e psicológicas contra a violência familiar (BEIRAS, 2009).
Estes grupos ocorrem semanalmente, com duração de duas horas e meia por encontro, durante cinco meses, num total de 20 encontros, com no máximo 12 homens. Os grupos são conduzidos por dois facilitadores, um estagiário ou voluntário, e uma equipe reflexiva. De forma geral ocorre um pré-grupo entre a equipe, o grupo propriamente dito (compromisso de convivência e não-violência ativa, levantamento temático e dinâmicas geradoras de conversas), e pós-grupo (BEIRAS, 2009).
3.5.3 Diretrizes para a Realização do Acompanhamento aos Homens