3.3 Análise monetária sobre teoria austríaca de ciclos econômicos .1 A influência de Wicksell
3.3.2 Conceitos estruturantes do lado monetário do modelo de Mises
Ebeling (2014) destaca que Mises, ao estruturar seu modelo de ciclo econômico, utilizou como base a teoria do capital de Eugen Von Böhm-Bawerk, assim como as ideias de Knut Wicksell, segundo as quais alterações na oferta de crédito acabam por causar desequilíbrio entre as “taxas monetárias” de juros e a aquela que seria a “taxa natural”. Desse modo, o modelo proposto por Mises destaca uma fase de crescimento súbito insustentável, a qual é responsável por preparar as condições para o declínio econômico. Assim, uma expansão de crédito que acaba desconectando as taxas de juros monetárias para um valor inferior à taxa de juros natural, implicaria em uma desorientação no uso dos recursos e em
investimentos equivocados, uma vez que se tem uma estrutura temporal de investimentos inconsistente com o nível de popança.
No entanto, é importante destacar que para que investimento e poupança possam ser diferentes, é preciso defini-los de forma distinta da, hoje, usualmente aceita. Assim, Garrison (2001) discute que os austríacos fundamentaram suas teorias de poupança e investimento em inspirações nos modelos clássicos de estrutura do mercado de crédito. Nesse modelo, que será detalhado no item 2.2.4.2 desta pesquisa, é feita uma aplicação de um modelo de oferta e demanda, de modo que existe uma função de poupança, com os fundos disponíveis para empréstimo, e uma função de demanda, referente a busca de fundos para investimento. E a taxa de juros funcionaria como preço que equilibraria as duas funções. 12Nessa perspectiva, Garrison segue a linha de pensamento de Robertson (1948), ao seguir a chamada teoria da poupança “real”. Nessa abordagem, para que os investimentos sejam fisicamente realizados no futuro, faz-se necessário o anterior acúmulo de recursos. Assim, a poupança seria identificada pelo estoque acumulado de bens de consumo, os quais seriam suficientes para atender a comunidade enquanto a maior parcela de seus recursos estivesse envolvida com a produção de bens de capital.
Então, Wicksell (1962) expandiu essa abordagem clássica para economias com sistema financeiro com capacidade de criação de moeda, nas quais esses bancos financiariam investimentos a uma taxa de juros de mercado diferente da taxa natural.
Seguindo esse mesmo caminho, Robertson (1948) reconheceu que o sistema bancário, com a criação de moeda e oferta de empréstimos, seria capaz de impactar sobre os recursos reais disponíveis para investimento. Eles poderiam expandir a oferta de crédito para além da contrapartida material, ou seja, além da poupança real. Permite-se assim, que a função oferta de crédito possa se desvincular da função poupança, uma vez que os bancos podem expandir essa oferta artificialmente, possibilitando que a poupança e o investimento assumam valores diferentes, dadas as diferenças entre taxa de juros de mercado e a natural, o que será detalhado no item 2.2.4.2 desta pesquisa.
12 Deve-se ponderar também que, como a teoria ortodoxa moderna aceita a ideia de que o consumo (e portanto a poupança) depende da renda, o sistema de determinação da taxa de juros pelas funções poupança e investimento torna-se indeterminado, com duas funções para se determinar três variáveis. Para solucionar essa questão deveria-se especificar que a teoria modelaria apenas a questão do “longo prazo”, ou que deveria-se especificar a caracterização da função poupança como a “função poupança de pleno emprego”, ou de longo prazo. Desse modo a renda torna-se pré-determinada pelo lado da oferta (lei de Say), permitindo que as referidas funções determinem a taxa de juros de longo prazo (ou natural). Essa forma é compatível tanto com Wicksell quanto com Mises, que consideram que a taxa de juros de curto prazo pode ser diferente da natural. Além disso, para evitar a inconsistência com a contabilidade, bastaria substituir o termo investimento por formação bruta de capital fixo, e admitir que em equilíbrio a variação de estoques é zero. Mas, é importante destacar que nem a teoria austríaca, nem a ortodoxia convencional tomam esse cuidado de tentar aproximar seus conceitos econômicos básicos.
Para que se possa entender o efeito da dinâmica monetária sobre o ciclo econômico austríaco, precisa-se, antes disso, destacar claramente alguns conceitos preliminares, mas fundamentais descritos por Mises (2010). Primeiramente, a ideia de encaixe (“cash holding”), que corresponde ao saldo monetário ou saldo de caixa, que os agentes buscam ter à disposição, seja na forma de moeda ou de saldos bancários. O autor expõe que existe uma busca por meios de troca, então, os agentes desejam manter certa quantidade de moeda a sua disposição, estabelecendo seus respectivos encaixes, correspondentes às suas pretensões.
Assim, o encaixe não seria apenas um resíduo, um montante não gasto, mas sim uma parcela resultante de uma deliberada demanda por moeda para construir este encaixe13. Desse modo, o poder de troca da moeda frente aos demais bens será afetado por mudanças na relação entre oferta e demanda por moeda.
Então, outro conceito basilar desse modelo de ciclos é o de relação monetária, o qual corresponde à relação entre a oferta de a demanda por moeda, moeda essa para suprir os encaixes individuais. “[...] money relation-i.e., the ratio between the demand for and the supply of money for cash holding [...]”. Além disso, reafirma-se que alterações nessa relação entre demanda e oferta por moeda impactam sobre a relação de troca entre bens vendáveis e moeda. (MISES, 2010, p. 535)
Mises (2010) explana, em seguida, sobre os certificados de moeda, que correspondem aos substitutos de moeda que possuem reservas de moeda, mantidas pelo devedor, equivalentes a 100% de seu valor. Por fim, tem-se o último conceito preliminar chave para a expansão, que é o de moeda fiduciária14. Esse tipo de moeda corresponde ao excedente entre os substitutos de moeda emitidos e as reservas mantidas, pelo devedor, em menor quantidade, para respaldá-los. Ele é determinante, uma vez que permite que os bancos realizem empréstimos além dos limites relacionados às suas reservas, concedendo assim, não apenas crédito mercadoria (com 100% de reservas), mas também crédito circulante, ou seja, crédito por meio de moeda fiduciária.
O problema consiste no fato em que enquanto variações na quantidade de certificados de moeda são indiferentes, variações no montante de moeda fiduciária impactam no poder aquisitivo da moeda, na taxa de juros e nos preços. Assim, o autor destaca que o crédito
13 “Muitos economistas evitam usar os termos demanda e oferta no sentido de demanda por e oferta de moeda
para tê-la como encaixe, porque temem que se faça confusão com a terminologia corrente usada pelos banqueiros. De fato, costuma-se chamar de demanda por moeda a demanda por empréstimos em curto prazo, e de oferta de moeda a oferta de tais empréstimos. Por isso, o mercado de empréstimos em curto prazo é conhecido como o mercado de dinheiro.” (MISES, 2010, p. 470)
14 É importante destacar que esse conceito de moeda fiduciária apresentado por Mises difere do usualmente aceito para o termo, que corresponderia aos títulos não lastreados em metais e sem nenhum valor intrínseco.
mercadoria não pode gerar expansão, essa só surge por meio da expansão de crédito circulante, o qual impacta a relação monetária. A questão é que a oferta de crédito mercadoria estaria fundamentada na coordenação com a preferência temporal dos agentes, portanto, com o nível de poupança, assim, geraria um crescimento econômico genuíno. Enquanto isso, em uma expansão por meio de moeda fiduciária, tem-se que essa também afetaria a dinâmica de mercado, influenciando na relação monetária, no poder aquisitivo da moeda, nos preços e na taxa de juros. Porém, nesse caso, nada disso estaria em acordo com a preferência temporal dos agentes, uma vez que estaria descoordenada com o nível de poupança. Esse processo de descoordenação e seu impacto sobre a estrutura produtiva será descrito na seção 2.2.4.4 desta pesquisa. (MISES; 2010)
Assim, esses conceitos são fundamentais, pois eles são a chave do processo de expansão, uma vez que alterações na relação monetária podem impactar, primeiramente, o mercado de crédito, no qual a taxa de juros de mercado é influenciada pela demanda e oferta de empréstimos, como será descrito em detalhes a seguir. (MISES; 2010)