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Conceitos metafóricos e a noção de alteridade

Capítulo IV Análise da Carta de Pero Vaz de

4.4. Conceitos metafóricos e a noção de alteridade

Conforme sugere Costa (1996), o relacionamento entre civilizados e selvagens segue um comportamento padrão direcionando inclusive à noção de alteridade que quer destacar: um eu malicioso, civilizado, pertencente a uma cultura complexa contrapondo- se a um outro ingênuo, pertencente a uma cultura de matizes pueris. A impossibilidade de se comunicar via linguagem promove uma dinâmica que se dá principalmente pela troca de mercadorias. A estratégia é bem sucedida, embora o significado que essas trocas representam seja distinto para ambas as culturas.

Para os povos ágrafos, em geral, não se alimenta a noção de propriedade privada. Uma exceção manifesta-se nas armas utilizadas pelo grupo masculino pela importância que esses instrumentos de defesa, de ataque e de caça assumem perante a comunidade.

Então se começaram de chegar muitos. Entravam pela beira do mar para os batéis, até que não mais podiam; traziam cabaços de água, e tomavam alguns barris que nós levávamos; enchiam-nos de água e traziam-nos aos batéis. Não que eles de todo chegassem à borda do batel. Mas junto a ele, lançavam os barris que tomávamos; e pediam que lhes dessem alguma coisa. Levava Nicolau Coelho cascavéis e manilhas. E a uns dava um cascavel, a outros uma manilha de maneira que com aquele engodo quase nos queriam dar a mão. Davam-nos daqueles arcos e setas por sombreiros e carapuças de linho ou por qualquer coisa que homem lhes queria dar.

Os portugueses, ao trocarem qualquer coisa por arcos e setas, conseguiram quase que desarmar por completo aos indígenas. Essa noção de alteridade determina, segundo os postulados defendidos até aqui, que a pureza dos indígenas os prontifica a adaptarem-se à cultura européia. Portanto, mais de uma construção linguística do texto sustentará o conceito metafórico: OS NATIVOS SÃO BONS SELVAGENS:

Para Fonseca (2000), a noção de alteridade em questão demonstra que, ao lado do caráter autêntico, devido à maneira que os índios têm de demonstrarem a nudez, encontra-se uma bestialidade que precisa ser modificada. Novamente um caráter retórico argumentativo que subjaz a toda a apresentação dos fatos pelo redator do documento. Os indígenas, para os padrões culturais dos europeus, além de

despudorados, nem sempre sabem tratar o semelhante com o devido respeito por serem, por vezes, impulsivos e arredios.

Discute-se aqui uma noção significativa às motivações ideológicas do redator da carta. O conceito metafórico, O SELVAGEM É UM ANIMAL, estará embasado por mais de uma expressão linguística:

Sobre isto acordaram que não era necessário tomar por forças homens, porque era geral costume dos que assim levavam por força para alguma parte dizerem que há ali de tudo quanto lhes perguntaram; e que melhor e muito melhor informação da terra dariam dois homens destes degredados que aqui deixassem do que eles dariam se os levassem, por ser gente que ninguém entende. Nem eles tão cedo aprenderiam a falar para o saberem tão bem dizer que muito melhor estoutros o não digam, quando Vossa Alteza cá mandar. E que portanto não cuidassem de aqui tomar ninguém por força nem de fazer escândalo, para de todo mais os amansar e apacificar, senão somente deixar aqui os dois degredados, quando daqui partíssemos.

Significa esse conceito um forte argumento que direciona as intenções do estrangeiro à necessidade de salvar o autóctone. Daí a recorrência a verbos como apacificar, amansar. Pela expressão linguística, recupera-se o conceito uma vez que pessoas não devem ser amansadas, somente animais.

Destaca-se um comportamento a ser modificado:

Bastará dizer-vos que até aqui, como quer que eles um pouco se amansassem, logo duma mão para a outra se esquivavam, como pardais, do cervodeiro. Homem não lhes ousa falar de rijo para não se esquivarem mais; e tudo se passa como eles querem, para os bem amansar.

O indígena precisa ser guiado, pois, se é dócil, é, ao mesmo tempo, arredio. Em mais de um momento o escrivão registrará informações relativas a essa necessidade:

Os outros dois, que o Capitão teve das naus, a que deu o que já disse, nunca mais aqui apareceram – do que tiro ser gente bestial, de pouco saber e por isso tão esquiva. Porém e com tudo isto andam muito bem curados e muito limpos. E naquilo me parece ainda mais que são como aves ou limarias monteses, às quais faz o ar melhor pena e melhor cabelo que às mansas, porque os corpos seus são tão limpos, tão gordos e formosos, que não pode mais ser.

Pero Vaz de Caminha, frente ao caráter pouco sociável dos autóctones, não hesita em classificá-los como bestiais. Para Ferreira (1986), bestial faz referência a pouco inteligente e também a simplório. Pela leitura do documento deve-se optar pelo caráter simplório que os portugueses queriam incutir aos índios porque pertencentes a

uma cultura pouco desenvolvida frente aos referenciais europeus que os lusos acreditavam mais complexos.

Portanto, pode-se afirmar, em relação aos conceitos metafóricos que ressaltam na carta redigida por Caminha, que eles são justificados ideologicamente pela necessidade que o escrivão possui de persuadir o monarca em favor da colonização das terras brasileiras. Os conceitos, A TERRA DESCOBERTA É O PARAÍSO e OS NATIVOS

SÃO BONS SELVAGENS constituem o caráter convidativo da descoberta e o conceito O

SELVAGEM É UM ANIMAL, por sua vez, ressalta a importância de um processo de aculturação a ser implantado para que se possa modificar a personalidade dos selvagens.

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