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Capítulo III Análise do discurso

3.5. Paráfrase e polifonia

Saber elencar os objetivos de análise, ao se escolher um corpus, significa demonstrar o que se quer provar a partir da materialidade do texto e entender o que essa materialidade fornece em termos de uma materialidade discursiva, como essa materialidade discursiva liga-se a outras, como o conceito inscreve-se no corpus, ou melhor, quais os caminhos que o texto pode fornecer para a elaboração, a exemplificação ou a refutação de um ou mais conceitos. Diante do intento de se interpretar um discurso há de se atentar tanto para o interdiscurso quanto para o intradiscurso.

O interdiscurso, segundo Maingueneau (2000), implica a idéia de um conjunto de unidades discursivas em relação umas com as outras. Esse interdiscurso diz respeito a um estatuto de uma FD dominante ideologicamente constituída. Recursos retóricos que se manifestam na materialidade discursiva são fundamentais para a afirmação dos conteúdos a serem transmitidos por essa FD dominante e devem se manifestar no discurso ao inscrever trocas entre FDs.

A movimentação descrita manifesta-se paralela à ação do intradiscurso: o conteúdo do texto em si, em todo o seu potencial presentificado. Essa totalidade discursiva é atravessada pelo interdiscurso, (Maingueneau:2000). Para uma análise interdiscursiva, interessa também o plano histórico sobre a argumentação utilizada de modo que se demonstre de que forma esses argumentos remetem-se a outros.

No corpus a ser analisado, todas as variáveis que o constituem e todos os resultados possíveis de ser atingidos, quando da escolha dos objetivos a serem trabalhados sobre essas variáveis, constituem também um intradiscurso. No que se refere a essa prática intradiscursiva é pertinente atentar-se sobre as relações interdiscursivas que foram pertinentes para se elaborar a análise.

Uma vez que a AD vê todo o discurso sendo elaborado a partir da tensão entre o mesmo e o diferente, o já-dito e o dito, a memória (constituição de sentido) e

formulação (atualidade), paráfrase e polifonia, na análise há que se visualizar o que é reprodução ou produção.

Os processos parafrásticos, para Orlandi (2002), aliam-se à estabilização ao promover o retorno aos espaços do dizer pela ação da memória. Ao tomar os sentidos sedimentados, concomitantemente, produzem-se novas formulações. Na polissemia, o deslocamento provocado pela ruptura caracteriza o jogo com o equívoco.

Parte-se sempre do já dito, das próprias palavras com os seus sentidos sedimentados, para se mexer com as redes de filiação dos sentidos. Daí a noção de que sujeito e sentido não possuem um caráter estático. Podem inscrever-se no mesmo e no diferente. Dependendo de como essa inscrição é feita, a produção tende à reprodução ou à criação.

Todo o percurso elaborado pelo sujeito e pelo sentido só se significa entre esse jogo entre o mesmo e o diferente. Só por meio da falha, do equívoco, da incompletude, que caracteriza os sujeitos, os sentidos e os discursos, é que existe a transformação, que possibilita, por sua vez, o movimento tanto da língua, quanto da história; tanto do simbólico, quanto do político.

O intradiscursivo, segundo Maingueneau (2000), é atravessado pelo interdiscursivo. A presentificação, em sua materialidade textual e significativa, é constituída (atravessada) pela memória. Esta, por sua vez, é “afetada pelo esquecimento” (Orlandi: 2002, p.34) número um, ideológico e pelo número dois, enunciativo.

O conceito de memória, para Pêcheux (2007), não deve ser trabalhado no sentido individual, psicologista, mas, sim, no sentido social como o manuseia o historiador. No espaço da memória, ao se referir ao processo de inscrição do acontecimento, deve-se atentar a uma dupla forma limite. A primeira, ao escapar, não chega a se inscrever. A segunda, quando absorvida pela memória, como se não tivesse existido.

A memória discursiva surgiria para restabelecer o trabalho com os implícitos exigido pelo investimento voltado à compreensão do texto lido. A questão mais urgente faz referência à localização dos implícitos. Segundo P. Achard (2007), - conforme explica Pêcheux (2007) - uma dada regularidade discursiva, que tornaria possível a localização desses implícitos, corre sempre o risco de ser desmontada pelo dado discursivo novo a desestabilizar a memória. Um jogo de força passa a ser considerado, sob o impacto do acontecimento.

Primeiro procura manter uma regularidade pré-existente, ao promover uma certa estabilidade parafrástica, quando voltada a negociar a integração, a absorção e sua eventual dissolução. Segundo foca em um jogo de forças voltadas à desregulação, quando voltada a perturbar a rede dos implícitos.

Pêcheux ressalta, por um lado, os efeitos das repetições que fundam comutações e variações, possibilitando a elaboração de uma vulgata parafrástica. Por outro, alerta para o fato de que

a recorrência do item ou do enunciado pode também (este é um ponto introduzido por Jean-Marie Marandin na discussão) caracterizar uma divisão da identidade material do item: sob o “mesmo” da materialidade da palavra abre-se então o jogo da metáfora, como outra possibilidade de articulação discursiva. Uma espécie de repetição vertical, em que a própria memória esburaca-se, perfura-se antes de desdobrar-se em paráfrase. (Pêcheux: 2007, p.53).

O ponto de divisão entre o mesmo e a metáfora confere ao discurso sua opacidade não sendo mais possível reconstruir os implícitos. Isso explica o fato de a AD tender cada vez mais a se afastar daquilo que evidencia a proposição, a frase e a estabilidade parafrástica.

O dizer constitui seus sentidos a partir do jogo entre interdiscurso e o intradiscurso. A historicidade, por meio da ação do pré-construído, elege o que das condições de produção é relevante para a discursividade: “Pelo funcionamento do interdiscurso, suprime-se, por assim dizer, a exterioridade como tal para inscrevê-la no interior da textualidade.”(Orlandi: 2002, p.33)

Para Brandão (2004), o pré-construído representa o elemento responsável por elaborar a articulação entre as teorias dos discursos e a linguística. Tem por objetivo

recuperar uma construção anterior e exterior separado do que é erigido pelo enunciado. O conceito remete a uma anterioridade no momento da interpelação ideológica.

Assim, o pré-construído, entendido como “objeto ideológico, representação, realidade” é assimilado pelo enunciador no processo do seu assujeitamento ideológico quando se realiza a sua identificaação, enquanto sujeito enunciador, com o Sujeito Universal da FD. (Brandão: 2004, p. 49).

Ao se falar, para Orlandi (2002), a constituição de sentidos insere-se à idéia de uma filiação, a uma rede de sentidos. Sofre-se a influência de alguns sentidos e não de outros pelo fato de que eles são determinados tanto pela história quanto pelo acaso.

Em sua prática discursiva, o analista deve atentar, na comparação entre dois ou mais discursos, no modo de como se manifesta o não-dito no dito. O não dito é encarado como uma ausência necessária, uma ausência que, pela sua importância, torna- se presença ao analista. O que o sujeito não diz, passa a constituir sentidos pelo poder de influência que o não-dito tem sobre o dito.

Conforma explica Orlandi (2007), enquanto se entender a língua como um sistema abstrato – a langue para os estruturalistas – depara-se com a literalidade e a transparência. A perspectiva discursiva apresenta a opacidade ao leitor ao enxergar na materialidade discursiva o espaço em que se refletem as contradições e os confrontos ideológicos.

O fato de que o limite de uma FD é o que a diferencia de uma outra faz com que cada FD seja heterogênea a ela mesma, pois invoca o outro sentido que não possui. O silêncio, o sentido ausente, garante o próprio movimento dos sentidos. A contradição inevitável entre o um e o múltiplo somente pode ser vislumbrada pelo sujeito em função do trabalho efetuado por esse conceito.

Para compreendê-lo em sua amplitude, há de se distinguir entre

a) o silêncio fundador, aquele que existe nas palavras, que significa o não-dito e que dá espaço de recuo significante, produzindo as condições para significar; b) a política do silêncio, que se subdivide em: b1) silêncio constitutivo, o que nos indica que para dizer é preciso não dizer (uma palavra apaga necessariamente as “outras” palavras); e b2) o silêncio local que se refere à censura propriamente (àquilo que é proibido dizer em uma certa conjuntura). (Orlandi: 2007, p. 24)

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