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As redes sociais produtivas

2.1 Conceitos e perspectivas das redes

Mapear as relações em sociedade, tomando por base a compreensão destas como processo de construção social, sempre suscitou diversas formas de análise que pudessem abarcar a complexidade da percepção de poder, influências, valores e referências simbólicas. Os motivos que direcionam as tentativas de realizar leituras das interações contidas nas relações em sociedade, sejam com fins científicos, econômicos ou de ampliação de poder, interessam a diversos campos de conhecimento, que definem metodologias próprias e focos de investigação.

Alguns autores remetem as origens do estudo das relações sociais por meio de redes à segunda metade do século XX. Por outro lado, “a ampla difusão da idéia da

sociedade como um sistema estruturado em redes é relativamente nova” (LUNA, 2004: 12) 17.

Analisando a evolução desta temática, Swedberg18 (2004) destaca a valorização da leitura das relações sociais por meio da noção de redes no âmbito de vários campos científicos, da sociologia e antropologia à ciência política, economia, direito e geografia. Estudam-se redes econômicas, religiosas, redes de informação, de poder, de políticas, de conhecimento, de produção, de movimentos da opinião pública até a análise da estrutura social de cartéis ilícitos, para citar apenas alguns exemplos.

A emergência e a rápida difusão da noção de redes parecem estar conectadas tanto ao processo de globalização como à proliferação massiva das tecnologias de comunicação e informática.

Este fato foi percebido por Castells (1999), que levou a noção de rede, “a um sentido alegórico, tornando-se a imagem e a representação emblemática dos processos sociais mundializados”. Seu livro, A sociedade em rede, se tornou “um quase best-seller entre as obras de interpretação das mudanças sociais recentes” 19 (Radomsky e Schneider, 2007:250). Radomsky e Schneider (2007) ressaltam, no entanto, que

mais sintomático parece ser o movimento reverso que ocorre simultaneamente a este e que passa a requerer legitimidade para o uso da noção de rede. Para além da sua significação vinculada à globalização, a noção de rede passou a atrair a atenção de pesquisadores em ambientes acadêmicos que estavam

17 As citações de Matilde Luna foram traduzidas pela autora.

18

Swedberg realizou estudo sobre o desenvolvimento da Sociologia Econômica num período de 15 anos, desde a década de 1980 até 1995, levantando as contribuições de teóricos europeus, americanos, da América Latina e de países em geral. Neste estudo ele demonstrou as linhas de análises e marcos teóricos que apontam tendências neste campo (Swedberg, 2004).

19 A obra conseguiu um reconhecimento amplo, principalmente pela leitura de vários campos das relações

preocupados em compreender os movimentos e as articulações que ocorrem em nível local. É como se as teorias pudessem ser renovadas a partir de um conceito que procura desvendar algo não necessariamente novo nas relações sociais que são localizadas, e que podem ser potencializadas pelo uso da noção de rede (Radomsky e Schneider, 2007:250).

Outros enfoques anteriormente privilegiados no campo científico para a análise de Redes Sociais se desenvolveram no âmbito da Antropologia, da Sociologia e da Psicologia Social, com atenção dedicada às “interações promovidas por indivíduos e grupos sociais em suas relações cotidianas de interesses, afinidades e satisfação de necessidades”. A partir da década de 1980, e mais fortemente na década de 1990, os estudos nessa área começaram a refletir as novas demandas das sociedades complexas e a ter um enfoque econômico.

Na Sociologia Econômica, a perspectiva das redes é concebida como metodologia de análise para investigar diversos tipos de interações as quais, embora visem a fins econômicos, não podem ser classificadas nem como costumes nem como de racionalidade puramente econômica. Esses estudos buscavam problematizar a implementação de projetos econômicos, apontando um hiato entre a previsibilidade e a busca de caminhos diretos da “maximização” da riqueza, em uma oposição à visão das ciências econômicas. Uma de suas ênfases é o reconhecimento de redes preexistentes, com articulações políticas e interesses de grupos que criam uma complexidade para o alcance de resultados (SWEDBERG, 2004:17).

No campo da teoria das organizações, a concepção é usada de forma similar, com o sentido de instrumento analítico para a compreensão de certas formas de organização coletiva. Mas, como definido por Powell e Smith-Doerr apud Abramovay

(2000:04), as redes não são apenas instrumentos de análise: “Estruturas de governança em rede caracterizam as teias de interdependência encontradas nos distritos industriais e tipificam práticas como relações contratuais, colaboração entre manufaturas ou vários níveis de alianças entre firmas”.

As visões delineadas acima podem ser compreendidas em três concepções teóricas distintas, com noções que parecem se complementar, de acordo com o foco pretendido e sem pontos de desacordo entre as metodologias. Luna (2004) realizou uma síntese interessante sobre estas linhas de investigação.

O enfoque que se desenvolveu inicialmente foi a “Análise de Redes Sociais (ARS)” que enfatiza a morfologia da rede; o segundo, a “Teoria do Ator x Rede”, focalizando a dinâmica e a evolução da rede, e o terceiro, a “Rede como Mecanismo de Coordenação”, privilegiando as regras de interação entre os componentes (LUNA, 2004:12). Conforme nos explica a autora, o estatuto de instrumento analítico permitiu que este enfoque fosse incorporado a muitas disciplinas diferentes, teorias e objetos de estudo. A direção principal girou “em torno da operacionalização, medição, racionalização, formalização e representação de vínculos, medindo os graus de centralidade e densidade (relação entre os laços existentes e os laços possíveis) de uma rede” (LUNA, 2004: 21).

Esta linha de investigação é a mesma de Granovetter (2004), que, num artigo relevante do início da década de 1990, criticou a noção de mercados como abstrações idealizadas, e deu significativa visibilidade ao estudo de grupos de interesses econômicos, com a ajuda da noção de redes. “Uma percepção trazida por essa pesquisa é o fato de que, na Europa, na Ásia e na América Latina, os grupos de negócios respondem por uma parcela significativa da economia” (SWEDBERG, 2004).

Granovetter (1973 apud Radomsky e Schneider: 256) também “sugere a noção de rede como um recurso metodológico quando a análise sociológica procurar lidar com

as interfaces dos níveis micro e macrossociológico”. Em seu estudo original acerca de redes, em 1973, Granovetter destacou que laços fortes- Strong tie - (parentesco ou amizade) são menos importantes que laços fracos - weak tie - (conhecidos ou colegas de associações comunitárias), no sentido de facilitar a ação coletiva e a agregação de recursos de enraizamento (embeddedness) (GRANOVETTER, 1973).

Voltados às conexões entre empresas, instituições e grupos, estudos recentes desenvolvidos por Castells (1999:497) apontam as redes como “a nova morfologia social de nossas sociedades”. O autor salienta que, embora seja esta uma forma de relação própria da sociedade, o que se altera contemporaneamente é a relação de “tempos e espaços”, com a possibilidade de expansão em toda a estrutura social, e a configuração de um “poder dos fluxos” maior do que o “fluxo do poder” (CASTELLS, 1999:497).A sua definição de rede é a de um

conjunto de nós interconectados”, concretizando-se um nó quando um ponto da curva se entrecorta [...] formando estruturas abertas capazes de expandir de forma ilimitada. Novos nós são integrados desde que consigam comunicar-se dentro da rede, ou seja, desde que compartilhem os mesmos códigos de comunicação (por exemplo, valores ou objetivos de desempenho) (Castells, 1999:498).

De acordo com esta concepção, a intensidade e a frequência das relações determinam a importância de um nó ou outro para o êxito pretendido de forma conjunta. Conquanto outros fatores, como os interesses e valores dos agentes formadores da rede, influenciem de forma significativa, Castells ressalta a morfologia da rede como a grande responsável pela interferência nas relações de poder. Pode-se sintetizar, pois, como um

dos maiores impactos da perspectiva de redes pela Análise de Redes Sociais (ARS), o reconhecimento de que a ação econômica está imbricada em redes de relações sociais.

A linha teórica do ator x rede é uma construção impulsionada por Bruno Latour e Michel Callon, na França, entre outros autores que desenvolveram linhas de pesquisa na Europa. A noção de rede, para Latour (1994), é ampliada “para além das relações humanas” e inclui as alianças entre humanos e não-humanos (objetos), como os interesses, habilidades, poderes, dinheiro, que formam “conexões múltiplas e heterogêneas” (MENDES-DA-SILVA; BRITO; FAMÁ, 2007:06).

De acordo com Luna (2004), tal concepção busca descrever associações entre humanos e inanimados, “vinculados a metas de redes construídas e mantidas temporalmente para alcançar uma meta específica, uma escolha estratégica de opções, a satisfação de necessidades de adaptação ou a construção de propriedades que fazem certas coisas possíveis e certas outras impossíveis”. É crucial nesta teoria a tradução das “negociações, intrigas, cálculos, atos de persuasão e violência, pelos quais um ator ou uma força adquire autoridade para falar ou atuar em representação de outro ator ou força". Neste sentido, esta concepção envolve os processos, a dinâmica e a evolução de determinada rede, com a finalidade central de desenvolver modelos analíticos capazes de descrever a sociedade (LUNA, 2004:07-08).

O terceiro aporte teórico, o das Redes como Modo de Coordenação corresponde aos estudos sobre a governança, termo que reflete a busca de criação de mecanismos de coordenação social e administração de sistemas complexos. Como exemplo, podemos citar os conselhos, reuniões e fóruns diversos para a criação de entrosamento, elaboração de consensos e tomada de decisões em unidades descentralizadas.

Nesta perspectiva, o que distingue as redes de outras formas de coordenação social é, para Luna (2004),

seu alto nível de complexidade que é resultado de fenômenos de diferenciação, especialização e interdependência entre distintos sistemas sociais: o político, o social, o econômico, o científico, o educativo, etc. Esta complexidade se expressa em distintas propriedades das redes como as seguintes: trata-se de estruturas orientadas à abordagem e à solução de problemas que cruzam barreiras organizativas, setoriais, institucionais, culturais ou territoriais, e vinculam atores de diferentes entornos institucionais (LUNA, 2004:09).

Um traço fundamental que diferencia esta visão das outras construções teóricas é a ênfase na concepção de rede como mecanismo de integração e estruturação do conflito, remetendo-se, principalmente, ao estudo das normas e regras de interação entre organizações e instituições. Na concepção do Ator x Rede, focalizam-se os sistemas de comunicação como forma de compreender a articulação entre indivíduos e objetos de interesse, enquanto na Análise de Redes Sociais se privilegia a morfologia das redes (LUNA, 2004:11).