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A configuração do trabalho na Rede de Agroecologia Ecovida

4.1 Estrutura organizacional e processos decisórios

A forma de organização desta rede revela um nível de institucionalização que permite espaços para encaminhamentos não previstos, tanto nas relações entre seus componentes, como nas relações mais amplas com a sociedade, estado e organismos internacionais, com fronteiras móveis. As relações com a área pública também são muitas vezes imprecisas, ora em movimentos antagônicos, ora atuando de forma complementar como concretizadora de programas governamentais.

No ambiente interno estas fronteiras também são fluídas, com uma dinâmica orientada pela estrutura horizontalizada e pouco hierárquica. Foi possível perceber uma autonomia dos núcleos, por exemplo, para tomar decisões sobre a criação de um novo grupo, ao invés de agregar famílias aos já existentes, sem necessitar de autorização de

coordenadores nacionais ou regionais. Dentro dos grupos as decisões sobre novos projetos também podem ocorrer sem a intervenção da direção do núcleo ao qual estão ligados.

Sequencialmente se descreve as instâncias que concretizam o funcionamento da Rede Ecovida:

Os grupos

:

Na composição dos núcleos estão agricultores familiares organizados em grupos, compostos geralmente por um número de famílias que obedece a critérios de proximidade geográfica. São compostos por um número de famílias que vai de nove a vinte, mas em sua maioria possuem no máximo 15 famílias. Estes pequenos são as unidades base da rede e nestes se encaminham projetos de interesse da comunidade local sem necessidade de autorização ou discussão anterior nas coordenações mais amplas. 41

Os grupos mais estruturados e com interesse de viabilizar reconhecimento jurídico para objetivos de comercialização ou de facilitar o relacionamento com o Estado se registram como associações.

O funcionamento no estilo de células individuais que se comunicam, incentiva a autonomia, permitindo dessa forma o engajamento dos indivíduos e famílias em projetos nos quais possuem interesses diretos e conhecem as questões contextualizadoras. Podem dessa forma, opinar e perceber as conseqüências em seu cotidiano de ações que eles mesmos iniciaram. Alguns destes projetos são depois divulgados nos encontros regionais e replicados. Estas características foram encontradas

41 Na região de Urubici e Paulo Lopes visitamos o Grupo Renascer que envolve localidades muito

pequenas, com estradas ainda sem asfalto e distâncias difíceis de serem percorridas pela pouca disponibilidade de transporte público para a zona rural.

na rede estudada, e podem ser compreendidas através da descrição das atividades de cada instância, apresentadas a seguir, e sintetizadas em organograma anexo.

Núcleo Regional: os núcleos regionais são as unidades base, às quais todos os

integrantes da Rede devem estar vinculados. A Rede Ecovida funciona de forma descentralizada em vinte e quatro núcleos regionais, sendo sete no estado do Paraná, oito em Santa Catarina e nove no Rio Grande do Sul, conforme mapa em anexo.

O núcleo é a instância responsável pelo contato e troca de informações com as organizações parceiras, com as outras divisões da Rede, e pela articulação dos grupos em cada região. Têm a função de mobilizar o trabalho de acordo com a dinâmica local e criar atividades próprias, manter e disponibilizar as informações necessárias à rede, manter atualizados os cadastros dos integrantes, indicar e aprovar a adesão de novos membros, colher e analisar as informações referentes à certificação dos membros do núcleo, recolher anuidades, entre outras atividades administrativas.

Cada núcleo possui pelo menos uma entidade (organização não governamental ou associação) que desempenha papel central de articulação e operacionalização das ações estratégicas definidas pela Coordenação e Assembléia Geral da Rede Ecovida. Funcionam também como entidades de assessoria e exercem o papel de operar as relações com o Governo, empresas e instituições em geral, atuando como interlocutores que possuem registros formais reconhecidos na macroestrutura estatal (Técnico do Centro Vianei). A composição destas ONGs é principalmente de profissionais da área agrícola e afins, como engenheiros agrônomos, veterinários e técnicos agrícolas, e de outros cursos de permacultura e agroecologia em nível de pós-graduação.

No capítulo cinco serão apresentados os núcleos Planalto Serrano e Litoral Catarinense, estudados nesta tese, e descritas em profundidade à atuação das ONGs envolvidas na articulação destes.

Coordenação Regional: A coordenação regional é responsável pela eficiência

operacional partilha de informações, alinhamento de questões-chave, e outros processos detectados durante a pesquisa, como transversais na Rede Ecovida em todos os núcleos. É atribuição desta coordenação “fomentar a Rede Ecovida na sua esfera de ação, provocar, elaborar e propor qualquer assunto que vise à melhoria do funcionamento da rede e avaliar e cobrar a atuação dos núcleos regionais” (REDE ECOVIDA DE AGROECOLOGIA, 2002:08).

Coordenação/ Executivo: A Coordenação Político-Operacional ou

simplesmente Coordenação, é formada por três representantes de cada Estado e tem a função de representar a rede nos mais diversos fóruns e encontros, bem como deliberar sobre os pontos em aberto ou indicado pelas instâncias diversas.

Associação Ecovida de Certificação Participativa: Esta é uma instância

constituída legalmente, responsável final pelo processo de certificação perante o Colegiado Nacional de Agricultura Orgânica, e emissão de selos.

Além destas divisões permanentes, existem mecanismos que envolvem fóruns específicos para tomada de decisão, com encontros programados periodicamente ou possíveis de ser acionados quando necessário. Estas são instâncias formadas por representantes dos órgãos previstos na estrutura e se reúnem em períodos previstos, ou

extraordinariamente caso necessário. São eles a Assembléia Geral, a Coordenação Ampliada ou Plenária de Núcleos, os Conselhos e os Grupos de Trabalho, a seguir apresentadas.

Assembléia Geral dos Encontros Ampliados: Instância máxima da Rede

Ecovida de agroecologia, se reúne de dois em dois anos ou extraordinariamente, conforme necessidade. A assembléia é a instância máxima de decisão, responsável pela aprovação de todos os documentos referentes ao funcionamento e ao processo de certificação da Rede; criação, subdivisão ou dissolução de um núcleo regional, e sua grande tarefa é discutir os rumos da Rede no período seguinte ao do encontro, que ocorre de dois anos em dois anos. A assembléia ocorre com a participação de todos os delegados presentes no Encontro Nacional. Nestes são aprovados direcionamentos e princípios gerais da rede com o reconhecimento de uma assembléia geral dos núcleos.42 A composição do quórum, para o Encontro Ampliado, para fins de deliberação, é feita por indicação de delegados representantes dos núcleos, com base no número de membros destes. A indicação de delegados obedece à seguinte proporção de associados: para cada 10 associados o núcleo poderá indicar um (01) delegado, até no máximo de cinco delegados. Conforme os relatos e observação efetuada durante o 6º. Encontro Nacional realizado em julho/2007 pode-se perceber distintas posições ideológicas que evidenciavam propostas trazidas pelos núcleos.

A recomendação prevista em documentos oficiais da rede, inclusive em folhetos distribuídos durante o Encontro é de que se deve buscar sempre o consenso nos assuntos. Caso isto não ocorra, deverá ser avaliado se o tema merece discussão mais

42 Como parte da pesquisa de campo, participei do 6º. Encontro Ampliado realizado na cidade de Lapa no

aprofundada nas regiões ou votação imediata. Em caso de votação a decisão será por, no mínimo, 2/3 dos votos dos delegados presentes e que estejam em condições de votar.

Coordenação Ampliada ou Plenária de Núcleos: Trata-se de um encontro

promovido periodicamente com representantes de todos os núcleos regionais da Rede Ecovida. Compõe a estrutura organizacional da rede e parece ser a instância na qual as decisões estratégicas são encaminhadas, depois de deliberadas pela Assembléia Geral do Encontro Ampliado. Essa coordenação ampliada tem papel operativo e é usualmente tratada como Plenária. É responsável inclusive por preparar o Encontro Ampliado, e delibera ainda sobre os pontos que não tenham sido abordados no encontro ampliado ou que se mostram de caráter urgente. Esta instância é composta por dois ou três representantes de cada um dos 24 núcleos regionais. Sua composição inclui um coordenador geral, um coordenador de certificação, um coordenador técnico e de formação; um coordenador de informação e comercialização e coordenador tesoureiro, todos com mandato de dois anos.

Conselhos: Existem dois tipos de conselhos. Conselhos temáticos que

funcionam de forma temporária, ligados a questões emergentes e os conselhos de ética, que são permanentes, com alternância de membros que o compõe. Os conselhos de ética são integrados aos núcleos e discutem questões relativas às técnicas da certificação, orientam e fiscalizam os agricultores para a conversão e tratam de questões gerais que possam surgir relacionadas ao campo ético.

Cada grupo possui seu conselho de ética, formado por três membros (agricultores e/ou técnicos agrícolas), com mandato de dois anos, escolhidos na assembléia ou reunião do grupo. Suas atribuições são:

fazer cumprir as normas técnicas de produção ecológica de alimentos da Rede; acompanhar os sistemas de produção agroecológica dos membros do seu grupo; aprovar ou não os procedimentos dos membros do grupo; definir os padrões de qualidade dos alimentos; e contribuir na superação de problemas e eventuais distorções de menor gravidade (REDE ECOVIDA DE AGROECOLOGIA, 2002: 8-9).

Grupos de Trabalho: São criados Grupos de Trabalho- GTs para discussão de

propostas como a comercialização, certificação, desenvolvimento de novas técnicas para aproveitamento de produtos, que funcionam de forma permanente e se reúnem mensalmente. Outros temas referem-se a questões mais amplas, como gênero, alimentos transgênicos, e ocorrem apenas em momentos específicos como os encontros nacionais ou regionais.

Os temas dos Grupos de Trabalho são também propostos em âmbito local, pelos grupos, discutidos localmente, e depois estendidos para outros núcleos. O que se percebe é uma lógica de autonomia na discussão de temas que depois são repassados para outros núcleos, com a iniciativa de mudanças surgindo de questões que interessam as comunidades.

4.2 Relações com o Poder Público – Colegiados, Conselhos e