• Nenhum resultado encontrado

Conceitos, princípios e objetivos do ambientalismo

MARCO DE REFERÊNCIA CONCEITUAL

2. MOVIMENTOS SOCIAIS

2.1 MOVIMENTOS AMBIENTAIS

2.1.1 Conceitos, princípios e objetivos do ambientalismo

Movimento ambiental ou ambientalismo, como já mencionado anteriormente, é uma das vertentes restritas dos movimentos sociais que surgiu nos anos 1960, que priorizava em suas bandeiras de luta, a questão ambiental.

O aparecimento de movimentos ambientais, em função da percepção da problemática ambiental local pela sociedade, foi campo de estudos por parte de pensadores como Castells, Goldblatt, Habermas, Leff, entre outros. O pensar a história do ambientalismo forneceu material aos estudiosos, permitindo-os caracterizar o ambientalismo, enquanto

movimento social específico. Isso foi fundamental para compreender os confrontos pacíficos que estavam ocorrendo entre sociedade e Estado, via manifestações públicas organizadas por esses movimentos, cuja finalidade era buscar saídas para equacionar a problemática ambiental, gerada pelo modelo de desenvolvimento já consolidado.

Castells (1999: 143), um dos principais teóricos dos novos movimentos sociais, conceituou ambientalismo como: “formas de comportamento que, tanto em seus discursos como em sua prática, visam corrigir formas destrutivas de relacionamento entre o homem e seu ambiente natural, contrariando a lógica estrutural e institucional atualmente predominante”. Esse teórico destaca que tanto os indivíduos quanto os grupos que compõem o ambientalismo são produtores e produtos de seus próprios discursos, pois trazem para a práxis as ações que deverão ser implementadas com o objetivo de equilibrar a relação entre homem e a natureza.

É importante ressaltar que nesse conceito, a participação da sociedade aparece caracterizada nos debates ou diálogos entre as partes envolvidas, os quais ajudarão na reflexão crítica sobre o comportamento individual ou coletivo que poderão se materializar em ações que visem corrigir ou minimizar formas destrutivas de exploração dos recursos ambientais.

Assim, o ambientalismo, em Castells, não ignora a existência de uma “lógica estrutural e institucional dominante”. Por isso, busca captar as propostas de soluções fora das estruturas institucionais e apresentá-las como demandas para serem incorporadas nas ações das instituições. E, ainda, tem expectativa de que as transformações no comportamento individual e coletivo possam produzir resultados satisfatórios para a coletividade.

O movimento ambientalista, na visão de Goldblatt (1996:188-189) “faz parte de uma faixa mais alargada de novas actividades políticas, ligadas pela partilha da defesa do mundo natural e articuladas segundo uma crítica ao crescimento. Neste aspecto, [...] representa uma política subscrita e motivada de valores morais”.

Na análise do conceito de ambientalismo de Goldblatt (Ibid: 186:187) pode-se observar duas vertentes de argumentos. Uma vertente critica o modelo de crescimento econômico; identificando o crescimento como a principal causa da destruição da natureza. Nesse aspecto, o autor apóia seu argumento na visão de Habermas, de que os movimento ambientais se opõem: aos “efeitos do desenvolvimento económico e tecnológico descontrolado e à actividade política e económica sem obstáculos morais”; e ainda, “à

destruição material tangível do ambiente natural”. A outra vertente trata de uma dimensão política praticada pela sociedade, que foi ampliada pela inserção de novas atividades, tendo em vista enfrentar a problemática ambiental percebida.

Nota-se nesse conceito, que a participação da sociedade é apontada como fundamental no processo de escolha de seus representantes políticos. Representantes esses que devem incorporar em seus discursos e em suas práticas a defesa do mundo natural e de valores morais.

Para Leff (2000: 304) o ambientalismo

[...] inscreve-se num novo discurso da globalização, da interdependência e da complexidade, dando novo significado às velhas lutas sociais e abrindo vias de desenvolvimento inéditas para a Humanidade, entre os poderes dominantes e os direitos fundamentais das maiorias. Assim, o movimento ambientalista vai definindo as suas estratégias, para passar da contestação à repressão e do protesto ante a destruição, à construção de uma nova ordem ética, econômica e política.

Segundo esse mesmo autor (2001: 154 et seq), os movimentos ambientais surgiram com a finalidade de provocar mudanças nos paradigmas dominantes19 da sociedade capitalista, por meio de conflitos.

Os conceitos de ambientalismo evidenciam que a visão de Leff sobre esse movimento é bastante ampla, pois inclui questões globais como, padrões de produção e consumo, desenvolvimento econômico, cientifico e tecnológico e suas conseqüências para a sociedade e o meio ambiente. Incluem, também, questões ideológicas, culturais e éticas. E, vai mais além, ao considerar que o movimento ambiental é capaz de promover uma revolução ideológica e cultural.

Na visão do autor, a questão ideológica consegue simplificar e explicitar, a diferentes segmentos da sociedade, que a atual crise civilizacional é conseqüência do modelo de desenvolvimento econômico e tecnológico; e ao mesmo tempo, despertar nos indivíduos o desejo de se organizarem e lutarem para promover mudanças que ajudem na superação dessa crise. E é também cultural, porque há necessidade de mudanças no comportamento, tanto no campo individual quanto coletivo, pois abrange modos de exploração dos recursos ambientais, o consumo dos bens produzidos e o descarte de resíduos.

19

Para Leff existe uma constelação de paradigmas dominantes, dentre eles o do conhecimento técnico-científico, o do sistema econômico-capitalista.

Para Leff (2001), a participação social é um processo que ocorrerá em função de diferentes formas de conflitos. Uma das formas de conflito se caracteriza pelo questionamento que a sociedade faz do modo de apropriação privada dos recursos naturais e dos benefícios gerados, enquanto, a maior parte da sociedade, se vê obrigada a compartilhar apenas dos danos provocados por tal forma de apropriação. Como resultado desse questionamento, o modelo de apropriação e de produção vigente no sistema capitalista é colocado em xeque.

Nesse contexto, o confronto social poderá ocorrer entre os que lutam pela manutenção do modelo de desenvolvimento e aqueles que lutam pela mudança do modelo. Nessa arena de conflito de interesses, cabe à sociedade civil organizada iniciar um processo de transição do paradigma20 dominante, que englobam meios de produção, consumo, distribuição de benefícios e de apropriação dos bens naturais, para um outro a ser construído por deliberação da maioria e que buscam estabelecer uma nova ordem política, ética e econômica, na tentativa de dar início à construção de uma sociedade em que a justiça social e ambiental seja o objetivo principal.

Nos conceitos de ambientalismo, citados acima, observa-se que o termo “natureza” assume diferentes nomenclaturas, em função do foco de atenção de cada um dos pensadores. Para Castells “natureza” significa ambiente natural, enquanto que para Goldblatt significa

mundo natural. Por outro lado, Leff não menciona o termo “natureza” optando por abordar a

questão ambiental do ponto de vista da globalização, da ideologia e da cultura.

Observou-se que os conceitos de ambientalismo mencionados apresentam semelhanças significativas quanto aos sujeitos e quanto aos discursos. Assim, em relação aos sujeitos sociais consegue-se identificar aqueles envolvidos, apesar de não estarem nominalmente citados. Já os discursos procedem de reflexões críticas acerca da relação homem versus natureza e de suas implicações no desenvolvimento econômico e tecnológico. Esse processo de desenvolvimento resultou na deterioração das condições de vida da comunidade e na forma como os recursos naturais são apropriados para viabilizar um projeto de modernidade para a humanidade.

Sob o prisma de uma visão histórica, o ambientalismo segundo Viola21 (1992 apud LEIS e D’AMATO 1995: 77-78) é visto sob três perspectivas: Na primeira perspectiva, o

20Mudança de Paradigma segundo Capra (1982:28) é “uma mudança profunda no pensamento, percepção e

valores que formam uma determinada visão da realidade” (CAPRA, Fritjof. O Ponto de Mutação: a ciência, a

sociedade e a cultura emergente. São Paulo: Editora Cultrix Ltda. 1982).

21

VIOLA, Eduardo. O movimento ambientalista no Brasil (1971-1991): da denúncia e conscientização pública para a institucionalização e o desenvolvimento sustentável. In: GOLDENBERG, M. (Org.) Ecologia, ciência e

ambientalismo é visto “como um grupo de pressão ou interesse”. Enquanto grupo de pressão, ele reivindica a solução de problemas ambientais específicos, sem questionar a origem dos problemas nem a necessidade de mudanças sociais.

Ainda segundo Viola (1991:4), o “enfoque do grupo de interesse dá relevância apenas às organizações não-governamentais (que dispõem de recurso para influenciar o sistema político)”. Nessa perspectiva, os grupos de pressão eram formados por manifestantes das classes média e alta norte-americana, que apresentavam demandas específicas, como por exemplo, de combate à poluição industrial.

Já no Brasil, os grupos de pressão eram formados pela classe de intelectuais das regiões Sul e Sudeste e tinham como finalidade combater a poluição industrial nessas regiões. Enquanto na segunda perspectiva, o ambientalismo é visto como: “um novo movimento social”. Em tal perspectiva, “a questão ecológica é tratada de forma crítica e alternativa em relação à ordem existente, sendo contextualizada de um modo fortemente normativo”. Nesse enfoque está agrupado o “setor ideologicamente radical do ambientalismo (tanto organizações não-governamentais quanto grupos de base)” (VIOLA 1991:4).

Em uma análise comparativa, percebe-se que na segunda perspectiva, o novo ambientalismo é identificado como um movimento de protesto; a sua bandeira de luta é mais ampla que a da primeira, pois envolve a antecipação de problemas comprovados cientificamente ou empiricamente e a qualidade de vida é priorizada nas pautas reivindicatórias. E, ainda, nas suas reivindicações são contempladas: a conservação de alguns recursos ambientais como, floresta e biodiversidade; a proposta de autogestão dos recursos naturais; e a inserção de representantes da sociedade civil nos processos de tomada de decisão.

Já na terceira e última perspectiva, o ambientalismo é visto como: “um movimento histórico”. Nesta perspectiva o movimento ambiental, segundo os autores, considera insustentável o atual modelo de desenvolvimento, mas tem consciência de que qualquer alteração dependerá de “um movimento multissetorial e global, capaz de mudar os principais eixos civilizatórios da sociedade contemporânea”.

Como um movimento histórico, esta abordagem recebeu um tratamento diferenciado, com os estudos realizados por autores como, Young (1990), Brown et al. (1990) e Caldwell (1990), que complementam as idéias de Viola. Para esses autores, enquanto movimento histórico, o ambientalismo considera insustentável não apenas o modelo de desenvolvimento, mas a própria civilização contemporânea.

Viola (1991) enfatiza que a insustentabilidade da civilização decorre de vários fatores, dentre eles: “o crescimento populacional exponencial, depleção da base de recursos naturais, sistemas produtivos que utilizam tecnologias poluentes e de baixa eficiência energética, e sistema de valores que propicia a expansão ilimitada do consumo de material“.

Nessa perspectiva histórica pode-se identificar como um de seus pilares a teoria malthusiana de crescimento populacional, que é defendida por economistas clássicos e pelos “profetas do apocalipse; argumentação que encontra fundamento nos estudos de Leis e D’Amato (Ibid.), que defendem essa perspectiva por considerá-la “mais completa e adequada para interpretar as idéias e as práticas ambientalistas presentes no cenário mundial”.

O movimento ambiental, apesar de sua trajetória histórica, tem conseguido desenvolver-se no contexto internacional, mas no plano interno de cada país, continua dependente de oportunidades políticas que para Viola (1991) está no...

[...] grau de abertura ou fechamento do sistema político; estabilidade ou instabilidade dos alinhamentos políticos; presença ou ausência de aliados e grupos de apoio; unidade ou divisão dentro das elites; capacidade de formular e implementar políticas por parte do governo; abertura e receptividade do sistema político nacional com relação ao sistema internacional.

Esta condição teve implicação na abordagem histórica do ambientalismo, que nos países de regimes políticos não-democráticos, a luta da sociedade é quase que totalmente direcionada para a obtenção do direito a liberdade de “ir e vir”. Em função de tal restrição da liberdade, que é imposta pelo regime político, o interesse da sociedade pela questão ambiental ou fica em segundo plano, ou é até mesmo ignorado. Além disso, a apropriação dos recursos naturais e dos meios de produção são controlados pelos governos, os quais formulam normas rígidas de controle, que amparam o modelo de apropriação vigente.

Infere-se que com uma limitação de liberdade, o espaço para a participação da sociedade nos processos decisórios ou é ignorado ou é fortemente reprimido ou controlado. Pela análise das idéias de Viola (op. cit.), pode-se deduzir que uma questão essencialmente política pode influir de forma benéfica ou nefasta no modo como a sociedade assimila os problemas, sejam eles de cunho político, social, econômico ou ambiental.

Em termos históricos, destaca-se que nos países em que o regime político permitia a manifestação pública, os movimentos ambientais puderam se organizar e manifestar-se

publicamente, com o apoio de vários segmentos da sociedade, sem acarretar ônus para seus membros. Por isso, quanto mais apoio o movimento ambiental recebia da sociedade, maior pressão política era exercida nas instituições públicas, para que as reivindicações desses movimentos fossem, em parte ou mesmo no todo, incorporadas nas políticas públicas.

Em suma, quanto mais democrática é uma sociedade, maior capacidade de organização ela tem e condição para poder participar do processo de tomada de decisão. Essa capacidade de organização fortalece os movimentos ambientais para exercer maior pressão junto a seus governantes e representantes políticos, para que as demandas de proteção e de melhor qualidade do meio ambiente sejam atendidas.

A parceria da sociedade com o ambientalismo teve origem a partir de uma visão crítica do atual modelo de desenvolvimento econômico, que agregou às suas atribuições, o papel de mediador entre os ambientalistas radicais – tanto ONGs quanto grupo de base – e outros movimentos sociais – “empresariais, cientistas, agências governamentais e inter- governamentais”.

Na ótica de Viola (1991), a abordagem histórica do ambientalismo consegue administrar os conflitos de interesses entre os demais movimentos, harmonizando as demandas, que, posteriormente, são incorporadas às políticas públicas.

O papel de mediador, que vem sendo desempenhado pelo ambientalismo histórico, caberia ao governo, como o principal coordenador e mediador dos fóruns ambientais de negociações coletivas, e em segundo plano, aos Conselhos de Meio Ambiente, que conta com a representação de diferentes setores da sociedade. Pois, nesses fóruns, interesses conflitantes são e devem ser negociados e harmonizados; podendo inclusive, serem transformados, posteriormente, em resoluções.

O ambientalismo, como é conhecido atualmente, é resultado de um processo de mudança, que vem ao longo dos anos adaptando-se às transformações da sociedade. Com a atenção voltada para problemas globais, o ambientalismo tem sua atuação fundamentada em princípios, que segundo Leff (2001: 152) compreende:

(a) Maior participação nos assuntos políticos e econômicos, particularmente na autogestão dos recursos naturais. (b) Sua inserção nos movimentos pela democratização do poder político e da descentralização econômica. (c) Defesa de seus recursos e seu ambiente, para além das formas tradicionais de luta por terra, emprego e salário. (d) Busca de novos

estilos de vida e padrões de consumo afastados dos modelos urbanos e multinacionais. (e) Busca de sua eficácia por meio de novas formas de organização e luta, longe dos sistemas institucionalizados e corporativistas do poder político. (f) Organização em torno de valores qualitativos (qualidade de vida) por cima dos benefícios que podem derivar da oferta do mercado e do Estado do Bem-Estar. (g) Crítica à racionalidade econômica fundada na lógica do mercado, da maximização do lucro, da eficiência e produtividade tecnológica e dos aparelhos associados de controle econômico e ideológico.

Esses princípios deram ao ambientalismo a sustentação para uma ampla atuação no campo socioambiental. Orientaram, também, o estabelecimento de parcerias com diferentes setores da sociedade, como: grupos empresariais, grupos populares, outros movimentos sociais, partidos políticos e instituições governamentais, desde que apresentem objetivos de luta comuns. Por sua vez, as parcerias não podem restringir a autonomia e a individualização dos movimentos ambientais; por isso, nos instrumentos de sua formalização, devem constar cláusulas flexíveis, que permitam o seu rompimento quando houver conflitos de interesses.

Infere-se que tais princípios também ampliaram a participação da sociedade no ambientalismo, que por sua vez, passou a ter uma atuação e objetivos diversificados. Com relação a esse aspecto estudos de Goldblatt (1996: 210) apontam para dois objetivos principais, que sintetizam o raio de atuação desse movimento. São eles:

(i)em primeiro lugar, reagir contra as estruturas sistemáticas impostas ao

domínio público, obrigando a questão do ambiente a fazer parte da agenda política controlada predominantemente por organizações que não têm nenhum interesse imediato em dar resposta ao problema;

(ii) em segundo lugar, exigir um acordo para que o ambiente e os recursos

ambientais tenham um lugar central nas decisões econômicas de instituições e indivíduos que até agora reagiram apenas aos imperativos da obtenção de lucros e às recompensas do consumo material (destaque nosso).

Tais objetivos podem ser claramente identificados nas bandeiras de luta dos movimentos, quando das manifestações públicas que ocorreram na década de 1970. No entanto, existe um outro aspecto importante que deveria ter sido incluído nos objetivos pelo autor, que é “o forte conteúdo ético” das bandeiras defendidas pelo ambientalismo;

responsável inclusive, pela rápida propagação do ambientalismo na sociedade de várias partes do mundo (LEIS, 1996: 54).

Em suma, o que deve ser enfatizado é o papel importante desempenhado pelos movimentos ambientais, na mobilização da sociedade e no seu esclarecimento quanto à questão ambiental. Uma sociedade consciente de que, sem a participação de todos, não há como buscar as soluções para os desafios que a problemática socioambiental requer, dentre essas: a de uma gestão justa dos recursos naturais e financeiros, compartilhamento dos benefícios gerados pela apropriação privada desses bens e precaução quando na implantação de atividades cujos riscos são desconhecidos.

A mudança do paradigma atual em que predomina a lógica de mercado, somente ocorrerá com a participação ativa da sociedade, pois ela poderá dar legitimidade aos desafios a serem enfrentados, tendo em vista a conquista de melhoria de qualidade de vida.