Grafo 6.21 – QE 2, Bloco F (planta modificada)
4.1 Conceitos e procedimentos de análises
4.1.1 APROPRIAÇÃO DO ESPAÇO EXISTENTE
Entre as “indisciplinas” mais comuns, quando se trata de espaço doméstico, está a mudança de função ou dos rótulos dos espaços. Essa atitude explicita a dinâmica do espaço doméstico e contrasta a concepção do projeto e a ideologia da proposta habitacional que o antecedeu, pois as pessoas não vivem conforme o prescrito no “gráfico do papel”, como abordado por Coutinho (1998). As indisciplinas revelam o “novo” programa de necessidades definido pelo próprio habitante. Por isso, mais que estudar o programa de necessidades originais das moradias, interessa identificar aqui qual o novo programa de necessidades estabelecido na prática, revelando a autonomia do sujeito e o modo de vida em apartamentos no Distrito Federal.
Neste capítulo, o levantamento e a análise ficaram restritos à identificação das indisciplinas “leves”, caracterizadas pelas mudanças dos rótulos ou funções dos cômodos. Isso foi possível a partir das informações de uso dos moradores e das plantas baixas desenhadas por eles, com os atuais rótulos. A representação do espaço doméstico feita pelos moradores foi uma “mediação” fundamental para entender o espaço real, o lugar vivido por eles. Por meio dessas representações foi possível identificar as atividades e a comparação com a planta baixa original permitiu mapear as mudanças de função e os novos rótulos nos apartamentos da amostra. A Figura 4.1 é exemplo de uma representação socioespacial (conforme definido no capítulo 1) feita pela moradora da Octogonal, na qual foram identificadas as atividades de tempo (uso) no espaço.
Figura 4.1 – Octogonal – AOS 6 – Bloco C - Desenho do(a) morador(a)
A INDISCIPLINA QUE MUDA A ARQUITETURA
|
04
A Figura 4.2 é a planta original feita a partir de imagens do levantamento iconográfico junto à Administração Regional. Os dados das duas imagens fazem uma aproximação do espaço concreto habitado.Figura 4.2 - Projeto Original – AOS 6 – Bloco C Fonte: Arquivo da Administração Regional o Sudoeste/Octogonal
4.1.2 CATEGORIAS DE USO E OCUPAÇÃO DOS ESPAÇOS
O uso (atividade) e a ocupação (permanência) são as categorias de tempo na análise do espaço doméstico e estão diretamente ligadas à noção de práticas do espaço, que Certeau (2000) definiu como as “maneiras de fazer”. As práticas cotidianas (CERTEAU, 2000) ou práticas no espaço são procedimentos que definem o comportamento das pessoas em determinadas situações ou ocasiões. Diferente de Brandão (2004), a identificação dos usos não se dará pelas “narrativas” do espaço em termos de sensações (como as pessoas se percebem no espaço ou o representam), mas sim mapeada pelas ações, as atividades nos lugares.
A INDISCIPLINA QUE MUDA A ARQUITETURA
|
04
Para aferir essas práticas, os procedimentos usados procuraram mapear as atividades dos membros do grupo familiar e não somente da pessoa que respondeu ao questionário. Certeau (2000:37) alerta que o estudo das práticas cotidianas não é um regresso ao indivíduo155,pelo contrário, cada “individualidade é o lugar onde atua uma pluralidade incoerente (e muitas vezes contraditória) de suas determinações relacionais”. Com isso, Certeau está dizendo que o mais importante não é o que a pessoa faz na sua individualidade, mas como ela estabelece suas relações mediante modos de operação ou esquemas de ação. São os esquemas de ação ou práticas socioespaciais que nos revelam as práticas cotidianas no espaço concreto.
Um dos modos de mapear as “táticas de praticantes” no espaço doméstico é a descrição de algumas práticas (ler, falar, caminhar, habitar, cozinhar, etc.). Essas práticas são táticas que “apresentam continuidades e permanências” (CERTEAU, 2000:47), aqui denominadas uso (atividades) e ocupação (permanência). Essas táticas serão identificadas e agrupadas por
categorias, criadas a partir de Monteiro (1997) e que buscam, assim como Certeau, mapear as atividades e as permanências. A diferença em relação à Certeau é que nos interessa onde essas práticas se dão, mais do que a descrição delas, porque importa saber como o espaço concreto é apropriado pelos moradores.
As categorias de análise de uso e ocupação buscam identificar estilos ou modos de vida no interior da moradia. Entretanto, as características da decoração156 ou a qualidade dos
materiais de acabamento, por exemplo, não serão consideradas, pois o objetivo é saber onde as atividades realmente acontecem e onde há interação entre habitantes, empregados(as) e visitantes. O objetivo é identificar a apropriação do vão por meio das ações (atividades e permanências), não por meio de predileções de caráter estético e de gosto pessoal.
As relações interpessoais ajudam a entender e mapear as permanências no espaço doméstico. As relações serão analisadas sob três aspectos: i) entre os habitantes; ii) dos habitantes com os visitantes; iii) dos habitantes com os empregados. Para entender essas relações socioespaciais (ocupação) serão identificados os espaços de maior e os de menor permanência dos habitantes; quais são mais utilizados para receber visitantes e quais, normalmente, são inacessíveis a pessoas externas à habitação.
155 De acordo com Certeau (2000: 37), o atomismo cultural que, durante três séculos, serviu de postulado histórico para um determinado tipo de análise da sociedade supõe uma unidade elementar, o indivíduo, a partir da qual seriam compostos os grupos e à qual sempre seria possível reduzi-los.
156 Sem sombra de dúvidas, a análise da decoração (uso de cores, tipos e disposição dos móveis e utensílios, etc.) poderia revelar elementos importantes sobre formas (estéticas) de apropriação (ou uso) do espaço doméstico, mas este não é o objetivo aqui, mesmo porque a pesquisa não coletou dados para este tipo de estudo.
A INDISCIPLINA QUE MUDA A ARQUITETURA
|
04
Quanto às atividades ou uso dos espaços, os dados foram agrupados em cinco categorias, segundo a taxonomia de Monteiro (1997): i) tarefas domésticas (cozinhar, lavar louça, lavar roupa e passar); ii) lazer passivo (ver TV, ler, ouvir música, jogos de computador, fazer ginástica)157; iii) lazer interativo (encontrar amigos, beber, namorar); iv) necessidadescomuns (tomar café, almoçar, jantar), e v) necessidades privadas (escovar dentes, tomar banho, dormir, repousar, fazer amor).
Dentre as categorias consideradas para análise, encontram-se as atividades que não capitalizam o tempo158 e as que procuram dominá-lo ou estão em função dele, como as
“necessidades comuns” e as “tarefas domésticas”, por exemplo. Ambas são formas de tempo, e estudar essas práticas cotidianas no espaço é procurar entender a relação espaço/tempo no lugar da vida cotidiana, no espaço doméstico.
Outra maneira utilizada para caracterizar as práticas no espaço é mapear a localização dos equipamentos que fazem parte do cotidiano das pessoas. Apenas alguns foram incluídos no questionário da pesquisa (televisão, aparelho de som, computador e aparelho de ginástica) porque são equipamentos que podem, mais diretamente, indicar comportamentos e suas mudanças, pois influenciam no uso e determinam permanências nos diferentes espaços da casa.159
As práticas espaciais são formas de apropriação do espaço de diferentes maneiras, dependendo do tipo de intervenção no espaço doméstico, e revelam a autonomia do sujeito no espaço doméstico. A partir do mapeamento das indisciplinas leves, foco deste capítulo, serão analisadas as ações que caracterizam atividades e permanências (uso e ocupação), elementos que configuram o modo de vida nos apartamentos do Distrito Federal.
157 O termo "lazer passivo" refere-se a atividades que, embora possam ser feitas coletivamente, não têm um caráter de interação direta entre as pessoas.
158 Para Certeau (2000), ler e ouvir música, por exemplo, são atividades “que produzem sem capitalizar, isto é, sem dominar o tempo” (2000:49), mas são uma forma de tempo (CERTEAU, 2000:109).
159 Ressalva-se que, na pesquisa, outros equipamentos foram detectados, como instrumentos musicais e máquina de pão que representam, respectivamente, atividades que não capitalizam tempo e que estão em função dele.
A INDISCIPLINA QUE MUDA A ARQUITETURA