3.2 Redes de Conhecimento e Comunidades de Prática
3.2.1 Conceitos
O termo “rede de conhecimento” tem sido usado frequentemente como uma descrição geral para uma variedade de modelos de colaboração, entre eles a comunidade de prática (Creech & Willard, 2001; Büchel & Raub, 2002; Tomaél, 2005).
Creech & Willard (2001) ressaltam que há muitos híbridos dos modelos de colaboração e das melhores práticas de gestão que podem bem servir para reforçar outras aproximações colaboradoras.
A seguir são listados alguns dos modelos de colaboração com intuito de auxiliar a compreensão do leitor para a proposta deste estudo.
Redes internas de gestão do conhecimento: se desenvolve através do mapeamento de competências, combinada com a criação de ambientes adequados para compartilhar conhecimento, cujo propósito é maximizar a aplicação dos conhecimentos individuais para atingir os objetivos organizacionais. Estas redes são em grande parte interna, embora possam atravessar as fronteiras da organização.
Alianças estratégicas: são acordos intencionais entre organizações com interesses comuns, que permitem às empresas participantes ganhar ou sustentar uma vantagem competitiva em relação a seus concorrentes fora da rede.
Comunidades de prática: formada por duas ou mais pessoas para a conversação e compartilhamento de informações, possivelmente levando ao desenvolvimento de novas idéias e processos. A participação é puramente voluntária e podem aumentar ou diminuir a capacidade de se desenvolver a depender do nível de interesse dos participantes. Elas atraem as pessoas que estão dispostas a compartilhar seus
conhecimentos e ganhar experiência com os outros. O condutor principal é o desejo de fortalecer as habilidades individuais.
Redes de especialistas: reúnem indivíduos ao invés de organizações; o convite para participar baseia-se na especialidade em uma determinada área.
Redes de informação: primeiramente fornece o acesso a informações disponibilizadas pelos membros da rede, ocasionalmente se organizam por conteúdo temático. No entanto, são fundamentalmente de natureza passiva e os usuários devem ir à rede, fisicamente ou eletronicamente, para beneficiar-se do trabalho da rede.
Redes de Conhecimento Formal: tendem a ser mais centrada e restrita que as redes de informação; mais intersetorial e inter-regional que as redes internas de gestão do conhecimento; mais voltada para o exterior que as comunidades de prática e envolvem mais parceiros que algumas de alianças estratégicas. Os pontos fortes da rede de conhecimento formal encontram-se na produtividade e no seu impacto sobre os decisores (Creech & Willard, 2001).
Diante destas distinções, as autoras concluem que uma rede de conhecimento formal é a instituição de um grupo de peritos que trabalham juntos em uma preocupação comum para reforçar-se mutuamente, para compartilhar bases de conhecimento e desenvolver soluções que atendam às necessidades alvo dos decisores no nível nacional e internacional. Podem atuar tanto nos espaços reais quanto nos virtuais, um não excluí o outro, ambos podem ser necessários em algum momento do desenvolvimento dos projetos em colaboração. O desenvolvimento do trabalho não está atrelado apenas ao compartilhamento do conhecimento explícito, mas também à construção do conhecimento novo, sendo necessário reconhecer a importância do conhecimento tácito (aprender como fazer) e implícito (visão, cultura e valores).
Büchel & Raub (2002) afirma que as redes de conhecimento ultrapassam o conceito mais utilizado das comunidades de prática, ou seja, o primeiro é mais amplo que o segundo. Para eles, comunidades de prática têm sido descrita como grupos informais de pessoas que compartilham experiências e uma paixão comum. Enquanto, as redes de conhecimento envolvem duas dimensões.
A primeira dimensão trata o nível de benefícios (individual x organizacional) e a segunda dimensão aborda a quantidade de suporte gerencial (autogestão x gerenciado), conforme Tabela 3.8.
Tabela 3.8 – Quatro tipos de redes de conhecimento
Quantidade de suporte gerencial
Gerenciado Rede de aprendizagem profissional Rede de melhores práticas Autogestão Redes de Hobby Rede de oportunidades de negócios Individual Organizacional Nível de benefício
Fonte: Büchel & Raub (2002, p.589), tradução do autor
Os autores destacam que as redes de conhecimento que se concentram principalmente nos benefícios individuais ao invés daquelas que focam benefícios organizacionais ajustam-se ao conceito tradicional de comunidades de práticas. São elas: (a) redes de hobby – baseadas em interesses pessoais e não recebe controle da gerência, esta rede traz a idéia subjacente de que indivíduos satisfeitos no trabalho são mais produtivos; (b) redes de aprendizagem profissional – constroem a base da habilidade individual e se sua importância for reconhecida, receberão apoio da gerência.
A transferência de conhecimentos nestas redes é espontânea e contínua, um subproduto natural do trabalho de todos e do apoio mútuo. O valor do conhecimento a ser transferido não é determinado pela chefia, mas pelo potencial usuário / beneficiário que declara o interesse na transferência. Embora o benefício principal possa estar com o indivíduo, estas redes conduzem a uma maior produtividade com base no conhecimento adquirido individualmente. O fato de contribuir para a melhoria da habilidade dos membros acaba por ocasionar a satisfação pessoal.
Por outro lado, entre as redes de conhecimento que focalizam os benefícios organizacionais têm-se (c) redes de melhores práticas – são formas institucionalizadas de compartilhamento do conhecimento nas organizações, se concentram na eficiência organizacional e na reutilização do conhecimento existente, onde cada membro e cada unidade podem aprender com os outros; (d) redes de oportunidades de negócios – podem agir de maneira mais pró-ativa investindo no conhecimento existente para explorar novos mercados com a criação de conhecimento inteiramente novo, uma nova solução para um problema que já existia, uma nova tecnologia ou novo produto.
Para Tomaél (2005) as redes de conhecimento compreendem a interação entre atores, que compartilham e constroem conhecimentos, desenvolvendo idéias e processos por meio do movimento de troca de informações e fortalecem os estoques individuais e coletivos de uma
determinada perícia. Elas são configuradas e reconfiguradas pelo movimento da informação e pela construção do conhecimento. São consideradas como redes sociais visto que são tecidas por interações decorrentes da cooperação e trabalhos em parcerias, que resultam em benefícios para a organização ou uma comunidade.
A formação de redes, segundo Rossetti et al. (2008), se dá pelo contato de pessoas e organizações com interesses similares, cujo propósito é descobrir oportunidades, compartilhar recursos, aprender melhores práticas, dar ou receber auxílio. Estes autores acrescentam que as chamadas comunidades de prática, comunidades de especialistas, comunidades de práticos ou micro comunidades de conhecimento têm em comum a característica de envolver indivíduos que trocam informações, insights, experiências e ferramentas sobre alguma área de interesse comum.
Deste modo, Rossetti et al. (2008) em referência a Choo (2003) afirma que a busca consciente do preenchimento das “lacunas de conhecimento” pelo contato social é a essência da formação das redes de conhecimento. Elas podem ser criadas entre indivíduos de uma mesma organização; entre organizações com interesses comuns, independentemente de porte; entre organizações e institutos de conhecimento ou entre organizações globais. As redes de conhecimento facilitam o acesso às inovações tecnológicas e à própria formação de comunidades de prática.
O ambiente das redes é bastante fecundo para o compartilhamento do conhecimento. As pessoas aproximam-se por vivências similares ou para a resolução de problemas que requeiram o conhecimento coletivo tornando cada vez mais o conhecimento relevante (Tomaél, 2005).
Ao desenvolver um estudo das redes informais às comunidades de prática como um método de apoio à gestão do conhecimento, Cereja (2006) aborda as redes informais como meio rápido de procurar e acessar informações e as comunidades de prática como método que complementa e formaliza a dinâmica já existente informalmente.
Wenger et al. (2002) afirmam que comunidade de prática é grupos de pessoas que compartilham uma preocupação, um conjunto de problemas ou uma paixão sobre um tema, aprofundam os seus conhecimentos e experiências nesta área por meio da interação contínua e ajuda mútua. As pessoas não necessariamente trabalham todos os dias juntas, mas exploram idéias e agem como disseminadoras. Podem criar ferramentas, padrões, normas, projetos, manuais e outros documentos ou elas podem simplesmente desenvolver um entendimento tácito daquilo que compartilham. Acumulam conhecimento e a satisfação pessoal de conhecer
pessoas que entendem as perspectivas um do outro e de pertença a um grupo interessante de pessoas como também um senso comum de identidade.
Para estes autores as organizações precisam cultivar as comunidades de prática ativa e sistematicamente, para seu benefício, bem como para o benefício dos membros e das próprias comunidades. Sem o cultivo intencional, as comunidades que se desenvolvem dependerão do tempo livre dos membros e a participação provavelmente será irregular, principalmente quando os recursos são restritos. Como resultado, as comunidades estão aptas a ter menos impacto, não são susceptíveis de atingir seu pleno potencial.
Deste modo, a partir destes estudos encontrados na literatura, entende-se que as redes de conhecimento e comunidades de prática são modelos de colaboração que contribuem para o preenchimento das “lacunas de conhecimento” como também para o desenvolvimento de projetos em parcerias. As redes de conhecimento facilitam a formação de comunidades de prática, ambos contribuem com benefícios para os indivíduos e organizações e merecem ser cultivados.
Portanto, é necessário ainda identificar o que pode guiar ou orientar o ponto de partida para a formação de redes de conhecimento, como um contexto mais amplo, mas também verificar mais de perto a comunidade de prática dado o seu potencial promissor.