1. SAÚDE DOS INDIVÍDUOS E DAS COMUNIDADES
1.1. Conceitos relacionados com saúde comunitária
A saúde duma comunidade resulta do seu desenvolvimento, ou seja, são as comuni- dades que, por sua iniciativa, responsabilidade e controlo dos serviços e organizações relacionados com a saúde, podem melhorar as respectivas condições de saúde.
Tradicionalmente comunidade é designada como sendo uma área geográfica com limites específicos. Contudo, no contexto de saúde comunitária, comunidade é um grupo de pessoas que têm características comuns e que podem ser definidas por áreas geográ- ficas, etnias; grupos sociais, idade, ocupação, com problemas específicos, interesses ou
3 Modelo subjacente a uma verdadeira indústria da “saúde” e que oferece um infindável número
vinculos. Pode ter a dimensão de um pequeno grupo ou ser constituída pela população dum país.
Saúde comunitária refere-se ao estado de saúde de uma determinada comunidade,
como grupo definido de pessoas, e suas actividades e condições (públicas ou privadas) para promover, proteger ou preservar a sua saúde. Distingue-se do temo saúde
populacional pois este refere-se ao estado de saúde de um conjunto de indivíduos sem
estarem organizados em actividades específicas relacionadas com a sua saúde (McKenzie, Pinger & Kotecki, 2002).
Saúde pública refere-se ao estado de saúde de um determinado grupo de pessoas e as
das actividades e condições governamentais, ou seja asseguradas pelo Estado, com vista à promoção, protecção ou preservação da sua saúde. É o resultado da organização da sociedade, sob a tutela do Estado, no sentido de promover e defender a saúde dos seus cidadãos.
Convém também distinguir o conceito de actividades de saúde individual das de saúde comunitária. As actividades de saúde individual podem ser actividades preventivas ou curativas ou tomadas de decisão que afectam a saúde desse indivíduo e eventualmente a dos seus familiares e conviventes directos. Raramente afectam o comportamento de outros além do alvo da intervenção. São exemplo os estilos de vida saudável e as medidas de segurança e protecção individuais. As actividades de saúde comunitária são actividades cujo objectivo é a protecção e melhoria da saúde duma população ou comunidade. São exemplos os sistemas de notificação e registo de informação, a vigilância da qualidade das águas e alimentos, a vacinação, as medidas de protecção colectiva e a mobilização comunitária.
Existem muitos factores que podem afectar a saúde duma comunidade. McKenzie, Pinger & Kotecki (2002) agrupam-nos em quatro categorias: físicos e sociais e/ou culturais; capacidade para a comunidade se organizar; capacidade para mobilizar os comportamentos individuais para o bem comum.
Os factores físicos referem-se à geografia, à qualidade do meio ambiente, à dimensão da comunidade (especialmente a densidade populacional) e ao seu desenvolvimento económico.
Os factores sociais derivam da interacção dos indivíduos e grupos da comunidade. As tradições, as crenças e os preconceitos podem afectar a saúde duma comunidade. Da mesma forma as políticas, a religião e as normas são factores sociais determinantes do estado de saúde comunitário.
A organização comunitária é o processo através do qual mobiliza os recursos e implementa estratégias para a resolução dos seus problemas. A forma como mobiliza os seus recursos influencia muito a capacidade de resolver os seus problemas, inclusive os de saúde: se uma comunidade consegue criar um ambiente de consenso e democrático e organiza os seus recursos de modo integrado e unificado, está melhor equipada para resolver tanto os problemas comuns como aqueles inesperados ou mesmo catastróficos. Considerando ainda que os comportamentos individuais dos membros de uma comuni- dade contribuem para a saúde da comunidade, é necessário o esforço concertado de todos os indivíduos da comunidade para aderirem aos programas de saúde. Este esforço colectivo é viabilizado num Estado democrático e com cidadãos participativos. A recicla- gem dos resíduos, a vacinação e o movimento “cidades saudáveis” são disso exemplos. Nas sociedades antigas, as actividades de saúde comunitária visavam quase exclusiva- mente a resolução de problemas urgentes/emergentes, contando com a participação e envolvimento dos líderes comunitários. As epidemias são destas actividades comunitárias um bom exemplo. Contudo, hoje em dia, as comunidades são complexas e dependem dum sistema organizado de protecção, promoção e preservação da saúde que garante o uso racional dos recursos de saúde quer no quotidiano comum quer em caso de emergência. Por isso a capacidade de uma comunidade responder com eficiência na resolução dos seus próprios problemas é influenciada pela existência de um sistema desenvolvido e centralizado de recursos públicos de saúde; pela rapidez na comunicação (que inclui a rede de transportes) e de intercâmbio de informação; pelas relações entre as diferentes organizações de saúde e sociais; e pelo sistema de financiamento dos serviços de saúde.
Em todas as comunidades existem diversas organizações que participam na distribuição de serviços e recursos relacionados com a saúde e que podem ser classificadas em dois grandes grupos: governamentais e não governamentais. Destacam-se ainda as organiza- ções (governamentais ou não) que influenciam o estado de saúde das comunidades pela sua função defensora da saúde mundial desenvolvendo actividades de cariz normativo e investigador.
Em Portugal a saúde das comunidades é assegurada essencialmente pelo Estado, a partir da rede de instituições do Serviço Nacional de Saúde, em parceria (cada vez maior) com organizações não governamentais com e sem fins lucrativos. Tal como noutros países, a nutrição, alimentação, saneamento, água potável, vacinação e antibioterapia, industrialização e crescimento económico, progresso técnico-científico, políticas de protecção social e de saúde, programas de saúde dirigidos (destacando-se o de saúde
materno-infantil), contribuíram para a elevação dos indicadores de Saúde Pública em Portugal, apesar da escassez de recursos humanos e financeiros, dos défices nos serviços e infra-estruturas, do baixo índice cultural da população e do isolamento politico- -diplomático do final de século XX. Destacam-se como principais marcos a reforma de Ricardo Jorge, em 1901; a introdução do Plano Nacional de Vacinação, em 1965; a reforma de Gonçalves Ferreira, em 1971; a Lei de Bases do Serviço Nacional de Saúde, em 1979; a Regulamentação das Carreiras Médicas, em 1982; a Lei de Bases da Saúde, em 1990; a Organização dos Serviços de Saúde Pública, em 1999; a reforma dos Cuida- dos de Saúde Primários, em 2005, com a tentativa de criação da Rede de Centros de Saúde de 3ª geração e da Rede de Cuidados Continuados; e agora as novas formas de organização de Hospitais com gestão privada empresarial e Unidades de Saúde familiar. Actualmente vive-se mais uma tentativa de reforma do sistema de saúde que permita uma melhoria na situação de saúde comunitária. Preconiza-se uma saúde pública baseada nos princípios da governação e da responsabilização, capaz de implementar as políticas públicas já formuladas, com horizontes temporais definidos, com resultados demonstráveis e passíveis de serem avaliados. Surge assim o importante contributo das Ciências Sociais (como a Pedagogia, a Antropologia, a Sociologia) nas decisões e práticas de Saúde Comunitária, além das disciplinas de Epidemiologia, Estatística, Infor- mática, Economia e Engenharia do Ambiente. Privilegiando o sentido da responsa- bilidade, quer a nível organizacional (internacional, nacional, regional e local) como individual (em todos os profissionais mas também nos cidadãos) pretende-se promover uma reforma que acompanhe as dificuldades financeiras e burocráticas do sistema de saúde, os desequilíbrios demográficos e socio-económicos no acesso a cuidados de saúde, as novas ameaças à saúde, a redução progressiva da natalidade, o envelheci- mento da população, a transição epidemiológica dos padrões de morbilidade e a dificuldade do controlo de doenças transmissíveis (tuberculose, HIV/SIDA).
O Plano Nacional de Saúde 2004-2010 (2004), que adiante será abordado, define as principais estratégias para esta reforma que está em curso.