A PERFORMANCE COMO ATO DE FALA
3.1. Conceituando a performance
No capítulo anterior, foi apresentada a teoria psicanalítica, desde sua base às elaborações contemporâneas, sobre a constituição das identidades de gênero, tendo no tabu do incesto o mecanismo pelo qual tais identidades são consolidadas em nome da Lei. Para tanto, a genealogia foucaultiana, usada como instrumento da crítica de Judith Butler, permitiu verificar o fundo estruturalista no discurso psicanalítico.
Para se contrapor às oposições binárias, tais como construídas pelo estruturalismo e com reverberação na teoria psicanalítica, Judith Butler constrói o conceito de
performatividade. Com tal conceito, pretende desnaturalizar as identidades sexuais fixas e,
por conseguinte, discutir a fabricação das essências como o que está por trás do processo de naturalização do gênero.
O conceito de performatividade é fundamentado nas elaborações de Simone de Beauvoir, de Nietzsche e da própria Psicanálise. Percebo em tal proposta o intuito de desestabilizar a naturalização imposta pelas normas do gênero ao longo do processo histórico. Isso permite entender as identidades não mais como fixas e imutáves, mas como fluidas, sendo o efeito de condicionamentos sociais e objeto destinado a ser reproduzido por 'imitação' de acordo com as culturas disponíveis.
Na constituição do pensamento de Butler, pode-se perceber a influência de algumas vertentes filosóficas, como Hegel e Nietzsche em especial, assim como o pós estruturalismo lingüístico de Deleuze e Derrida, a fenomenologia existencialista de Merleau-Ponty e Sartre para pensar o corpo, a Psicanálise freudiana e a sua releitura realizada por Lacan, para pensar a constituição do sujeito (Femenías, 2003). Vale acrescentar que a crítica à teoria feminista formulada por Butler se apresenta como uma crítica aos próprios feminismos, cujo tema escapa aos objetivos desta dissertação. Porém, tal autora recupera algumas teóricas, lingüistas e poetas como Adrianne Rich, Monique Wittig e Toni Morrison, para fazer alusão a sua proposta de gênero como performance. Tais autoras estão, portanto, alusivamente presentes neste texto. Não as mencionarei diretamente para não tornar ainda mais complexa a discussão.
Nesta perspectiva, a crítica proposta por Butler se sustenta na hipótese de que a categoria sujeito se funda na idéia de homem (varão), ou seja, o sujeito pressuposto pela teoria psicanalítica, embora possua consistência teórica e ainda se apresente como um construto de caráter subversivo, pela sua determinação inconsciente, peca justamente por reificar um sistema falocrático, ao exigir uma identificação normativa com a oposição binária entre os sexos.
A Psicanálise, assim como o estruturalismo, descreve claramente o patriarcado. Mas fica na descrição, ou seja, a Psicanálise não faz a crítica, mas reitera a situação. Tal é a própria noção de bissexulidade postulada pela teoria, onde percebo uma dificuldade conceitual em lidar fora dos limites impostos pelo dimorfismo sexual. Dito de outra forma, a bissexualidade discutida no capítulo anterior justifica um desejo homoerótico, mas dentro de um caráter latente e não como prática regulada socialmente, e quando a bissexualidade se efetiva como prática, isso se circunscreve dentro do binário.
Parte desta crítica já havia sido formulada pelas teóricas feministas, quando denunciam que a noção de sujeito é uma prerrogativa masculina. Todavia, tais teóricas também são passíveis de crítica, quando pressupõem uma anterioridade ao falocentrismo, como a dimensão ou o lugar próprio do feminino. Tal formulação perde interesse para o projeto de Butler, primeiro, pela tentativa de essencialização de um feminino, segundo, por supor algo anterior ao discurso e, terceiro, por também se alienar à estrutura de sexo binário, na qual sexo e gênero permanecem indiferenciados, conforme foi explicitado no segundo capítulo.
Para Butler, o campo da linguagem fixa as identidades sexuais e impõe o binarismo como norma, ignorando as fragmentações internas de raça, cor, classe, tanto da categoria de mulheres como de homens, pois tais inscrições da linguagem se apresentam contingentes histórica e socialmente, com a finalidade de criar esta ilusão de estabilidade e coerência entre o sexo e o gênero, com propósitos de controle social.
Para clarear a questão das fragmentações internas colocadas por Butler, cito Anzaldúa (1987), cujo texto mostra a presença da interseccionalidade como eixo de
proposição contra-discursivo sobre identidades. Esta interseccionalidade se constitui como estratégia política de atução contra as exclusões promovidas pelo sistema discursivo hegemônico.
Como mestiza, eu não tenho país, minha terra natal me despejou: no entanto, todos os países são meus porque eu sou a irmã ou amante em potencial de todas as mulheres. (Como uma lésbica não tenho raça, meu próprio povo me rejeita; mas sou de todas as raças porque queer em mim existe em todas as raças.) Sou sem cultura porque, como uma feminista, desafio as crenças culturais/religiosas coletivas de origem masculina dos indo-hispânicos e anglos; entretanto, tenho cultura porque estou participando da criação de uma outra cultura, uma nova história para explicar o mundo e a nossa participação nele, um novo sitema de valores com imagens e símbolos que nos conectam um/a ao/à outro/a e ao planeta. Soy un amasamiento, sou um ato de juntar e unir que não apenas produz uma criatura tanto da luz como da escuridão, mas também uma criatura que questiona as definições de luz e de escuro e dá-lhes novos significados (Anzaldúa, 1987, p. 80-1).
Anzaldúa é mexicana e, enquanto tal, produz reflexões que introduzem outras categorias, além daquelas propostas por Butler, esta última uma pensadora bem posicionada no mundo hegemônico branco.
Embora seja uma crítica a essa hegemonia, o ponto de partida da proposta de Butler de distinguir entre sexo e gênero, dando a este último o caráter performático é a concepção beauvoiriana de a mulher não nascer mulher, mas tornar-se (Femenías, 2003). Tal assertiva permite entender o gênero como a forma e o significado cultural que os corpos adquirem segundo os modelos culturais, desnaturalizando, assim, comportamentos ditos femininos.
Por esta perspectiva, Butler entende que ser mulher, ser homem, ou qualquer outro desejo identificatório é um ato, uma construção que depende da diversidade cultural, para que possa adquirir significados dentro de um processo de auto construção do próprio
gênero que se repete. Para Butler, o gênero não é determinado passivamente ou construído pelo sistema patriarcal, o gênero é dinâmico, paródico e repetitivo. Sua significação se dá através de uma marca/ estilo corporal que é interpretada, onde o gênero interpretaria o sexo, alargando as possibilidades identificatórias.
Com efeito, essa é a diferença entre Butler e Beauvoir, nos destinos que um gênero pode se performar, ou seja, para Butler, os atos corporais é que irão significar o gênero, os quais se tornam singulares e no ato dessa sigularização é que se tornam repetitivos “el
género es la variable cultural que interpreta al sexo, carece de fijeza y no clausura las características interpretativas de la identidad (Femenías 2003, p. 23)”. Já para Beauvoir, o
gênero inevitavelmente se subordinará ao sexo binário, isto é, ainda que se tornar mulher dependa de uma variação cultural - a categoria pode variar segundo diferentes aspectos - a mulher passa a se identificar com o feminino de sua cultura em oposição ao masculino. Ou seja, em Beauvoir o binarismo se confirma, é anterior à categorização de homem e de mulher.
Vale ressaltar que Butler não desconsidera a categoria sexo como um elemento de análise, ao contrário, ela admite que tal categoria é importante, por entender que a sexualidade é coextensiva ao ser humano. Segundo Femenías (2003), o que Butler propõe não é uma distinção entre sexos, ou emancipação de categorias, como quer a crítica feminista. Sua fundamentação teórica sustenta a idéia de que gêneros paródicos, como construções imaginárias, tendem ao lugar do abjeto, pois a anatomia mesmo não designa o gênero. O corpo é, pois, um fenômeno, isto é, a natureza corporal é uma superfície de invenção cultural.
No que se refere às diferenças anatômicas, para Butler tais demarcações são produtos da interpretação cultural, interpretação esta que serve aos propósitos normativos e naturalizantes, e não uma realidade dada de antemão. Portanto, é dessa forma que a autora entende o corpo, como um lugar de interpretação das possibilidades e reatualizações da cultura. Entender o gênero por esta ótica é promovê-lo como um fenômeno de multiplicidade e novos arranjos classificatórios, e, por conseguinte, descartar o status ontológico do sistema binário entre os sexos.
Para tal autora, esta ontologia do gênero se fundamenta numa substancialização das estéticas corporais, corolárias da metafísica da substância. A crítica à metafísica da substância se associa às elaborações nietzschinianas, cujo intuito é oferecer uma crítica contemporânea do discurso filosófico. Conforme Michel Haar (1977), a objeção contra a metafísica da substância questiona os fundamentos do sujeito, do eu e do indivíduo como um ser psicológico de ordem essencial, alegando que tal ser não existe, senão dentro de uma realidade lingüística onde ele adquire seu status de substância.
Dessa forma, pode-se constatar que o modelo binário do sexo se estabelece a partir da metafísica da substância, naturalizando o homem como masculino e a mulher como feminino. Apoiando tal argumento, tem-se Foucault (1999a) que propõe pensar o sexo como categoria artificial. Para este autor, tal categoria foi substancializada quando o sexo se tornou anterior à sexualidade.
Assim, a produção da categoria sexo serve aos propósitos de apropriação do desejo. Ou seja, por meio da concepção de sexo, foram atribuídas características anatômicas,
biológicas, zonas de prazer, entre outros, de forma que o sexo pudesse funcionar como unidade fictícia na lógica de uma causa primária.
(...) o sexo pôde, portanto, funcionar como significante único e como significado universal. Além disso, apresentando-se unitariamente como anatomia e falha, como função e latência, como instinto e sentido, pôde marcar a linha de contato entre um saber sobre a sexualidade humana e as ciências biológicas da reprodução; (...) Enfim, a noção de sexo garantiu uma reversão essencial; permitiu inverter a representação das relações entre o poder e a sexualidade, fazendo-a aparecer não na sua relação essencial e positiva com o poder, porém como ancorada em uma instância específica e irredutível que o poder tenta da melhor maneira sujeitar; (Foucault 1999a, p. 145).
De acordo com Foucault, o corpo torna-se sexuado a partir de uma prática discursiva que promove sua sexuação como essência nas relações de poder. Portanto, a sexualidade cria o sexo como unidade fictícia para camuflar as relações de poder aí existentes.
Nesse sentido, o sexo é significado como causa das práticas sexuais, do comportamento e do desejo. A esta causa, Foucault atribui um sentido de efeito através da análise genealógica. Tal efeito possui como finalidade a regulação das próprias experiências sexuais com o propósito de solidificação de categorias distintas relacionadas ao sexo, consolidadas na prática da heterossexualidade, defendida pelo discurso normativo.
Em sua análise do caso Herculine Barbin - um caso de hermafroditismo, por meio do qual Foucault (1983) exemplifica sua crítica formulada em A História da Sexualidade – o autor o apresenta como a própria desorganização das regras que regulam o sexo, o gênero
e o desejo. Até anatomicamente Herculine passa a questionar essas imposições, pois, não é categorizável na perspectiva do autor. Assim, a crença numa heterogeneidade sexual, contraditoriamente excluída por uma heterossexualidade naturalizada, implica em uma crítica da metafísica da substância.
Embora Butler discorde de Herculine não ser categorizável, o exemplo lhe fornece argumento para desenvolver a concepção de performatividade, levando em consideração que o gênero não é substantivo, ou seja, é o seu efeito de substantivo que perpassa tal idéia, cuja finalidade é produzir um ser anterior à sua ação, de forma a regular práticas sociais de acordo com a coerência do gênero. Herculine é, então, para Foucault, um caso de uma não identidade; Butler sugere que Herculine é uma lésbica e, para a Psicanálise, pode-se pensar este caso como uma estrutura melancólica. Atualmente, até pelo efeito de uma intervenção – obrigatória - sobre o corpo, tem-se Herculine como um caso de transexualidade.
O conceito de performatividade como dito anteriormente é articulado por Butler, a partir da influência beauvoiriana, assim como da crítica formulada por Nietzsche, entre outros, sobre a metafísica da substância, segundo a qual “não há ‘ser’ por trás do fazer, do realizar e do tornar-se; o ‘fazedor’ é uma mera ficção acrescentada à obra – a obra é tudo (Nietzsche 1969, p. 45 citado por Butler 2003, p. 48)”. Assim, o gênero passa a ser uma
performance do que aparenta ser, não havendo um por trás desta performance, e nem das
próprias identidades de gênero. Tais identidades são construídas performativamente por seus atos e gestos atribuídos como sua conseqüência.
Para Butler, o gênero é uma ficção cultural, o efeito da performance de atos reiterados. Dito de outra forma, não existe identidade de gênero anterior ao próprio gênero.
Tal identidade é performativamente constituída por suas expressões que são significadas como se fossem o seu resultado. Butler resiste à naturalização do gênero em função da repetição deslocada de sua performance, pois este tipo de essencialização alude aos processos de consolidação das identidades sexuais (Fernando, 2004).
Sobre a questão da reiteração das performances, é possível entendê-las como estratégias de repetição paródicas das regras do gênero, ou seja, o gênero não é algo a ser assumido, mas é na repetição de seus atos que ele é consolidado. Neste sentido, pode-se afirmar que é dessa maneira que ele se determina. No próximo, item deter-me-ei mais sobre este aspecto determinante do gênero, assim como sobre o sentido da paródia expressa por Butler.
Por ora, cabe ressaltar que a proposta de performatividade de Judith Butler se baseia nos atos de fala, onde se observa mais uma influência teórica, de John Austin. Para Butler, os atos de fala produzem efeitos e conseqüências nos pensamentos, ações e sentimentos sobre um eu e o outro, pela sua força e poder de transformação intencional (Femenías, 2003).
As performances se constituem como formas de falas legítimas, apoiadas em redes de castigo e recompensas discursivas. São construídas pela repetição, mas também pelas possibilidades de ruptura. Para Butler, a repetição institui um sujeito pela sua condição de temporalidade, perpassado por uma espécie de produção ritual, ritual este submetido a certas condições de proibição e tabu, mas que não determinam o sujeito por completo. Pois, se se pensa nas reatualizações interpretativas do gênero, este jamais pode se cristalizar, residindo aí o aspecto de ruptura discursiva aludido anteriormente.
A visibilidade da performance se dá através da ruptura com contextos anteriores e posteriores à assimilação de novos modelos. Butler confere uma força aos atos de enunciação, no sentido que o que é dito não está separado da 'realidade' do corpo. A fala torna-se aí uma expressão corporal (Femenías, 2003).
Butler se aproxima de uma apropriação psicanalítica quando relaciona atos de fala com atos corporais, no sentido em que o corpo revelaria um saber inconsciente por meio das expressões e atos da fala. Mas também se apóia no conceito de citacionalidade de Derrida (1991), para mostrar que a repetição torna possíveis os atos performativos por suportar e solidificar as identidades padrão. Todavia, quando a repetição não mais reproduz
performances de acordo com o binário, isso de alguma maneira perturba o estabelecimento
das normas do gênero, rompendo com o padrão.
Por esta lógica de atos de fala, o sujeito do gênero é um efeito discursivo,
performado. Com base na análise genealógica, tal instrumento permitiu a esta autora
mapear o contexto político de sua construção dentro de uma imposição ontológica. Esta genealogia da ontologia do gênero revela a coerência da produção discursiva conforme a estrutura binária e afirma que algumas conformações do gênero na cultura são postuladas como o “real”, reificando um certo tipo de hegemonia, com base na naturalização do gênero.
Para tanto, fica legítimo entender a performatividade do gênero como um fantasia em atuação, isto é, se os gêneros são constituídos por um processo de identificação, e esta pressupõe uma fantasia, assim, a performance reside na atuação desta fantasia através do corpo, o qual adquire significações dentro dos modelos culturais existentes, determinado por esta fantasia (Femenías 2003).