A LITERATURA INFANTIL DE MATRIZ AFRICANA: INFLUÊNCIAS NA CONSTRUÇÃO DAS IDENTIDADES NEGRAS
2.3 CONCEITUANDO PRECONCEITO, SEGREGAÇÃO E RACISMO
Refletiremos um pouco sobre quais as formas de preconceito, segregação e racismo ainda presentes na atualidade, marcando uma herança histórica e cultural, com raízes num processo de escravidão que, de forma violenta, buscou destituir de um povo, sua história, suas tradições e seus costumes.
Trazidas na condição de mercadoria, essas pessoas sofreram não só na pele, mas na alma e em todo corpo, castigos físicos e morais que, traduzidos sob um falso viés de igualdade, se arrastam até os dias de hoje, na forma de olhares desconfiados e (des)veladas atitudes discriminatórias.
39 O corpo negro padeceu e padece até hoje, visto que, em pleno século XXI, se observa que há um sem-número de relatos de homens, mulheres e crianças que são hostilizadas sob os mais diversos aspectos. Rodrigues (2012, p.61) nos relembra:
O corpo se destaca, assim, como veículo de expressão de opressão, que constrói no indivíduo diversos sentimentos contraditórios como rejeição, negação, sofrimento, dor, aceitação, resistência... Além disso, pensar o corpo negro ao longo da sociedade brasileira é refletir sobre um corpo que durante três séculos da história do Brasil foi resumido ao status de mercadoria. (...) o cabelo carapinha, o nariz achatado, a boca grande e carnuda e a pele negra foram características biológicas associadas a seres primitivos e monstruosos, que habitavam a África, uma terra repleta de fetiche e magias.
Esse mesmo corpo negro provou sua força e resiliência reconstituindo-se em outra terra, refazendo-se em outra nação e se tornando elemento formador da cultura brasileira, ainda que não se dê a ele o devido valor por inúmeras e importantes contribuições. Sobre essa valorosa participação Munanga (2014, p. 28) explica:
Se não há mais dúvidas sobre as heranças culturais africanas na formação da identidade nacional brasileira, por que então o sistema educacional não as incorporou e precisou-se esperar as reivindicações do Movimento Social Negro para começar a discutir a questão? O atraso tem certamente a ver com o mito da democracia racial, apoiado entre outros nas ideias de sincretismo cultural, de cultura e identidade mestiças, de povo mestiço, etc. que se contrapõem às ideias de diversidade e de pluralismo cultural. Expressões que se naturalizaram e que habitualmente são proferidas, sem a menor preocupação, como “lá com suas negas”, “coisa de preto”, entre outras, são típicas de um comportamento de quem muito provavelmente não se confessa racista, mas utiliza piadas de mau gosto e gestos em que se autoidentifica, ainda que não declaradamente, superior ao outro. São formas de agir assim que, de maneira corriqueira, agridem, detonam e acabam por humilhar, reproduzindo o racismo difícil de ser combatido. Em seu artigo “O mito da democracia racial”, publicado em 10/11/2017 no Jornal Virtual GGN, Mônica Fenalti Delgado Pasetto resgata:
Esse comportamento brasileiro foi identificado por Florestan Fernandes (sociólogo brasileiro do século XX autodenominado mestiço) ao se opor à ideia da democracia racial cunhada por Gilberto Freire. Para Freire, o Brasil possuía uma inter-relação
40 racial adequada, a ser admirada por outros países, especialmente por aqueles que viviam nos seus esquemas jurídicos de segregação racial e apartheid, como EUA e África do Sul. O sociólogo denunciava a existência do racismo velado por meio de comportamentos sutis e cruéis da democracia racial. Ele apontava que diante da verticalização das relações da sociedade brasileira, ao escravo liberto não fora dada a condição de trabalhador livre e cidadão, por não ter sido efetivamente integrado à sociedade.
Refletindo sobre o conceito de democracia racial, buscamos compreender a visão de Florestan Fernandes também através da interpretação de Foster (2005), que afirma que Florestan não nega a existência de preconceito de cor no país e tampouco, em seus estudos, realiza uma junção mecânica entre a questão de classe e a questão racial, apesar de analisar a segunda em sua ligação com a primeira.
Quando nos referimos à mulher, a questão fica ainda mais intensa, em se tratando de atitudes de desigualdade e de discriminação. Segundo levantamento feito pelo Mapa da Violência realizado pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO, 2015), o número de homicídios de mulheres negras aumentou em 54,2% de 2003 para 2013. Em dez anos, passou de 1.864 para 2.875 vítimas.
No mesmo período, o número de homicídios de mulheres brancas caiu de 1.747 vítimas para 1.576, o que representa uma redução de 9,8%. Os estados de Amapá, Paraíba, Pernambuco e Distrito Federal têm índices de mortes de mulheres negras que passam de 300% em relação a mulheres brancas. A maior taxa está entre as mulheres de 18 a 30 anos de idade. (FLACSO, 2015)
O estudo mostra ainda que, diferentemente dos homens, que morrem na maior parte das vezes em decorrência de arma de fogo, as mulheres são mais vítimas de assassinatos causados por força física e objeto cortante. Além disso, a agressão que vitimiza mulheres acontece dentro de casa e por pessoas da própria família. Mais uma diferença em relação aos homens, que são assassinados por desconhecidos na maioria das vezes. (WAISELFISZ, 2015)
Lamentável percebermos que esses dados refletem as diferenças compreendidas de maneira equivocada e que deveriam ser combatidas a todo instante, prioritariamente em ambientes escolares, em que a formação do indivíduo é, junto com a família, construída e sua identidade também definida e que, portanto, necessita de referências que lhe permitam constituírem-se como sujeitos. Costa (2006, p. 92) destaca que:
41 Em contraposição às construções identitárias homogeneizadoras que buscam aprisionar e localizar a cultura coloca-se a ideia da diferença, articulada, contextualmente nas lacunas de sentido entre as fronteiras culturais. A diferença é construída, no processo mesmo de sua manifestação, ela não é uma entidade ou expressão de um estoque cultural acumulado, é um fluxo de representações, articuladas ad hoc, nas entrelinhas das identidades externas totalizantes e essencialistas – a nação, a classe operária, os negros, os migrantes, etc.
Silva (2015), em sua pesquisa sobre o racismo silencioso no cotidiano escolar, resgata o que Bourdieu (1989) define como violência simbólica, o poder do símbolo que só é exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que estão sujeitos a esse tipo de situação. Temos constatado que a escola pode ser um dos palcos sociais em que variadas práticas de reprodução do racismo ocorrem em vista do silêncio quanto aos preconceitos velados.
Também Praxedes (2014) afirma que a escola contribui para a manutenção de preconceitos e para a exclusão de negros, gerando dificuldades para o processo de formação educacional e para construção de identidades desses indivíduos.
Para Hall (2005), a identidade é construída com o tempo e esse processo se dá através do inconsciente e não pela consciência do indivíduo ao nascer. Também por esse motivo, Ramos (2016) pensa que devemos inundar a criança com referências positivas sobre seu lugar no mundo, sendo esse o primeiro passo para aumentar sua autoestima. Para ele, sempre que uma criança se admira e admira as características físicas de determinado personagem, passa a se identificar com ele. Assim vai aprendendo, aos poucos, a gostar mais de si.
Mais uma vez, o Parecer CNE/CP nº 3/2004 nos alerta sobre a importância dessas referências, quando orienta:
Inclusão de personagens negros, assim como de outros grupos étnico-raciais, em cartazes e outras ilustrações sobre qualquer tema abordado na escola, a não ser quando tratar de manifestações culturais próprias, ainda que não exclusivas de determinado grupo étnico-racial.
A partir dessa orientação, incluir nos parece ser justamente o oposto de segregar. Quando pensamos em segregação, temos logo em mente regimes extremos, como o apartheid, que atingiu níveis impensáveis de violência, destruição e
42 assassinatos. São fatos que desejamos banir de qualquer possibilidade de retorno de algum movimento parecido e que, ao ensinarmos desde ainda crianças, a um maior número de pessoas a igualdade entre todos, alimentamos a esperança de afastamento de absurdos do tipo. Além disso, possibilitamos que essas pessoas cresçam um pouco mais libertas de racismo. Gomes (2006, p.179) assim o define:
O racismo é um comportamento, uma ação resultante da aversão, por vezes, do ódio, em relação a pessoas que possuem um pertencimento racial observável por meio de sinais, tais como cor de pele, tipo de cabelo, formato de olho etc. Ele é resultado da crença de que existem raças ou tipos humanos superiores e inferiores.
Muito recentemente, causou indignação a notícia de um rapaz que foi preso injustamente por ser identificado como o bandido que vitimou o jovem de 22 anos que se jogou na frente da mãe para defendê-la de um assalto em seu próprio estabelecimento comercial, na Zona Oeste do município do Rio de Janeiro. O crime desdobrou-se em injustiça, gerada, como ocorrido em outros incontáveis casos, pelo racismo. Nas sessões de identificação do assassino, o único negro do grupo de três suspeitos apresentado a testemunhas foi erradamente reconhecido como autor do disparo. Foi necessário que sua família comprovasse com imagens que ele estava em outro bairro na hora do assalto para que sua inocência fosse comprovada, após alguns dias na prisão. Não é só triste e vergonhoso que corriqueiramente investigações aconteçam nesses moldes, é urgente que se modifique essa concepção.
Com letra impactante e poesia em tom de protesto, Marcelo Yuka ilustra situações semelhantes a essa com sua composição para a banda O Rappa:
Discriminação racial
Tudo começou quando a gente conversava Naquela esquina ali
De frente àquela praça Veio os “zomens”
E nos pararam Documento, por favor, Então a gente apresentou
Mas eles não paravam Qualé negão? Qualé negão?
O que que tá pegando? (...)
É mole de ver Que em qualquer dura
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O tempo passa mais lento Pro negão
Quem segurava com força a chibata Agora usa farda
Engatilha a macaca E escolhe sempre o primeiro negro
Pra passar na revista (...)
Todo camburão tem um pouco de navio negreiro (...)
É mole de ver Que para o negro Mesmo a Aids possui hierarquia
Na África a doença corre solta E a imprensa mundial Dispensa poucas linhas Comparado, comparado Ao que faz com qualquer Figurinha do cinema Ou das colunas sociais (...)
O saudoso compositor/poeta Yuka retrata cenas reais e habituais para um jovem negro. Contudo, são cenas que, além de absurdas, deveriam causar profunda indignação em todo e qualquer cidadão: negros ou brancos e a “escandalização” destas situações deveria servir de “basta” para outras semelhantes. Mas, assim como o caso do jovem preso injustamente, elas não deixam de se repetir em nossa sociedade.
Lamentavelmente, nos vemos ainda muito distantes de reparar erros grotescos como estes. No entanto, como não pretendemos assistir de braços cruzados e de maneira tão apática a este tipo de violência, entendemos que buscar realizar trabalhos em que se possa discutir com crianças que ainda estão em processo de formação de identidade, o valor e a importância de sua cidadania e fomentar nelas, a luta pelos seus direitos e a incessante e tão sonhada busca da igualdade entre todas as etnias, seja talvez, uma forma de colaboração para esta desconstrução. Mesmo que ainda signifique uma ação ínfima, lenta e silenciosa, mas, desejamos que ela ajude a promover alguns sinais, neste “micro” contexto de sala de aula, de esperança e mudança.
Partindo das evidências apresentadas e cientes de que o trabalho com a literatura pode promover elementos identitários e críticos no processo de formação
44 das crianças, apresentaremos no próximo capítulo os caminhos de nossa investigação.
CAPÍTULO 3
PERCURSO METODOLÓGICO: TRAÇANDO CAMINHOS COM A