A LITERATURA INFANTIL DE MATRIZ AFRICANA: INFLUÊNCIAS NA CONSTRUÇÃO DAS IDENTIDADES NEGRAS
2.1 LITERATURA AFRO-BRASILEIRA: ALGUMAS PESQUISAS QUE NOS ANTECEDERAM
Buscando identificar pesquisas relacionadas ao tema da nossa, encontramos o trabalho de Rosemberg (2013), que condensa um quantitativo significativo de produções brasileiras sobre o racismo em livros didáticos. Tal pesquisa conclui como invisível nos livros, e tratada diferentemente, a criança negra e cita Candau (2003) quando coloca o ambiente escolar como o local de formas variadas de discriminação e preconceito. A autora reflete a história da literatura:
Parte da literatura infanto-juvenil étnica construída no final do século XX, sobretudo a partir dos anos 1980, apresentou-se como vigoroso apelo ao combate ao racismo, ou como potencial instrumento a ser utilizado no processo de conscientização e
34 construção da identidade étnica da criança negra. (CANDAU, 2003, apud ROSEMBERG, 2013, p.17)
O trabalho de Delbus (2009) visa encontrar em leituras literárias destinadas ao público infantil e juvenil personagens negras, costumes afro-brasileiros e identificação entre o leitor e a narrativa, através do mapeamento de casas editoriais, e define a sua importância na divulgação da literatura como recurso imprescindível para revelar as culturas africanas e afro-brasileiras e, assim, apontar valores ultrapassados para superação do racismo brasileiro.
Costa (2008) realiza pesquisa com o objetivo de investigar o processo escolar, utilizando-se da literatura como leque de oportunidades de promoção da igualdade nas relações, em conformidade com as alterações feitas na Lei 10.639/03. A autora define o problema que orienta a sua pesquisa, explicando que:
(...) no contexto educativo escolar, a literatura está oferecendo elementos para a promoção do reconhecimento da importância histórica da presença negra no Brasil, possibilitando a promoção da reeducação das relações étnico-raciais, de modo a se constituir um novo imaginário sobre o segmento populacional negro na sociedade brasileira. (p. 4)
Chagas (2014), ao analisar os dez anos da implementação/ressignificação das diretrizes curriculares nacionais para o ensino da história e cultura africana e afro- brasileira na rede municipal de ensino de Esteio/RS, investiga como, após uma década da promulgação da referida diretriz, tem acontecido a ressignificação nas práticas dos professores de história, geografia, língua portuguesa e artes no Ensino Fundamental. Ele também estuda a suspeita de que haja fortes resistências para o uso de produções mais comprometidas com um ensino de história e cultura africana e afro-brasileira em sala de aula.
A dissertação de Martinhago (2013) busca compreender as peculiaridades do acervo do PNBE (Programa Nacional Biblioteca na Escola) de 2013, analisando as diversas obras de literatura afro-brasileira nele contidas e, assim, aprofunda o conhecimento sobre a diversidade. A pesquisadora toca no tema da democracia racial, que acaba por ocultar o preconceito tão marcante em nossa cultura, esclarecendo ainda que: “O Brasil foi o último país a abolir a escravidão. Muitos proprietários de escravos não concordavam com a extinção da mão de obra escrava, pois diziam que a sociedade brasileira desmoronaria...” O autor constata que:
35 O mito da democracia racial isentava, de certo modo, o governo de se responsabilizar pela situação sofrida pelo negro... se não ascenderam socialmente não foi porque o governo os impediu, mas sim porque não souberam aproveitar as oportunidades oferecidas. (MARTINHAGO, 2013, p.52)
Além disso, a pesquisadora traz a ideia de que, quando a identidade, neste caso a identidade negra, exige uma mais acentuada visibilidade na sociedade, abrange aspectos históricos, sociais, políticos, além, obviamente, de questões culturais.
A tese de Freitas (2014), por sua vez, analisa os kits de literatura afro- brasileira da Prefeitura de Belo Horizonte, que são distribuídos a todas as escolas da rede municipal. Utiliza-se dos subsídios dos estudos culturais e pós-coloniais para identificar conceitos de raça e etnia e, dessa forma, sua pesquisa baseia-se nesses elementos para situar a literatura infantil e refletir as relações étnico-raciais na sociedade atual.
Também aborda a importância dos personagens nas tramas dessas narrativas e assim dá condições de existência aos enredos, corroborando a reflexão de Proença (2007, p.55) que relata:
serem apenas considerados literatura os textos que faziam parte de um círculo da escrita que envolvia homens, brancos, europeus, ricos... Aqueles que estavam à margem de algo, seja da sociedade, do mercado, do cânone, não faziam parte do discurso da e sobre literatura.
Ao falar das enunciações nas ilustrações e nos enredos das histórias de matriz africana que elegem alguns discursos e apagam outros, a pesquisadora traz Foucault (2006, p.93), quando reflete “que termos são reforçados e quais são enfraquecidos”.
Santos (2017) realiza pesquisa intitulada “Educação, Infâncias e literaturas: ouvindo meninas negras a partir de algumas leituras” e reflete, com base na observação de Cuti (2010), que a literatura afro-brasileira deve compor a literatura brasileira pertencente a todos/todas os brasileiros/brasileiras. A pesquisadora analisa que o racismo perpetuado ao longo do século se coloca com vieses diferentes, mas que solidificam a visão de inferioridade dos negros. Ela analisa e também recupera outra colocação de Cuti (2010):
A literatura, pois, precisa de forte antídoto contra o racismo nela entranhado. Os autores nacionais, principalmente os negro-
36 brasileiros, lançaram-se a esse empenho, não por ouvir dizer, mas por sentir, por terem experimentado a discriminação em seu aprendizado. Sob o manto do silêncio midiático, livros individuais, antologias de poemas, contos e ensaios e obras de referência vêm se somando para revelar um Brasil que se quer negro também no campo da produção literária.
Santos (2017) reflete que a literatura brasileira é composta por maneiras de representar o negro que colaboram para que esse grupo étnico se sinta inferior. Isto significa dizer que não há uma preocupação com os leitores dessas obras.
Sobre os desafios enfrentados na implementação da Lei nº 10.639/03, a pesquisadora defende a ideia de que avanços vêm acontecendo tanto no espaço escolar como no mercado editorial de produções literária. Assim sendo, compartilha do mesmo pensamento de Evaristo (2009, p.19):
Pode-se dizer que um sentimento positivo de etnicidade atravessa a textualidade afro-brasileira. Personagens são descritos sem a intenção de esconder uma identidade negra e muitas vezes são apresentados a partir de uma valorização da pele, dos traços físicos, das heranças culturais oriundas de povos africanos e da inserção/exclusão que os afrodescendentes sofrem na sociedade brasileira. Esses processos de construção de personagens e enredos destoam dos modos estereotipados ou da invisibilidade com que negros e mestiços são tratados pela literatura brasileira, em geral.
Esses autores sugerem que devemos cada vez mais enveredar pela temática da criança negra, nos debruçarmos e aprofundarmos questões acerca desta, até mesmo porque inúmeros são os seus desdobramentos. Além de que há um quantitativo significativo de subtemas sobre a identidade negra que precisam ser explorados, a fim de que muitos paradigmas eurocêntricos sejam desconstruídos, visões de mundo “embranquecidas” sejam superadas e imagens deturpadas de hierarquias regidas pela cor de pele sejam rompidas com muito mais veemência.
2.2 A LEI nº 10.639/03 E SUAS DIRETRIZES CURRICULARES PARA A