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Concepção de autor e autoria na perspectiva bakhtiniana

MEDIAÇÃO DOCENTE EM PRODUÇÃO COLETIVA DE TEXTOS: AFINAL, QUEM SÃO OS AUTORES?

2. Base teórica: autoria na produção coletiva de textos

2.1. Concepção de autor e autoria na perspectiva bakhtiniana

Na obra de Bakhtin (2000), o tema da autoria é tratado de modo difuso, mas profundo. Noções como enunciado, estilo e responsividade constituem a sua concepção de autoria. Quando trata da completude do enunciado, ele alerta que o autor elenca aquilo que precisa ou que foi escolhido para ser dito naquele momento.

De acordo com Bakhtin (2000), o autor e o interlocutor ocupam “dois mundos diferentes”, porém o autor é reconhecido pelo lugar que ocupa e onde apenas ele pode estar naquele momento, ou seja, “neste lugar, neste instante preciso, num conjunto de dadas circunstâncias – todos os outros se situam fora de mim” (idem, p. 43). Todavia, é necessário que o autor se coloque no lugar do outro (seu interlocutor) para que possa melhor entender seu mundo e, assim, produzir. Desse modo, ele afirma:

Devo identificar-me com o outro e ver o mundo através de seu sistema de valores, tal como ele o vê; devo colocar-me em seu lugar, e depois, de volta ao meu lugar, completar seu horizonte com tudo o que se descobre do lugar que ocupo fora dele. (BAKHTIN, 2000, p. 45).

Assim, a atividade estética começa quando, após nos termos colocado no lugar do outro, voltamos ao nosso lugar, ao nosso próprio “eu”, “quando damos forma e

acabamento ao material recolhido mediante nossa identificação com o outro” (BAKHTIN, 2000, p. 46). Dessa forma, o autor realiza alterações no texto com base na visão que estabelece do interlocutor. Tal princípio é corroborado por Schneuwly (1988), o qual afirma que a escrita ocorre a partir de uma base de orientação, constituída por representações acerca da situação de interação construídas pelo autor. Essa base de orientação é modificável durante a situação de escrita, na medida em que o contexto de produção pode ser ressignificado pelo produtor do texto.

Assim, em uma situação de produção individual de texto, o autor constrói representações e durante o processo pode modificá-las em decorrência das transformações internas que ocorrem quando reflete sobre o texto e sobre o contexto de escrita. Tais representações também podem ser alteradas como consequência de mudanças de intenções que podem acontecer durante o momento de escrita. Na produção coletiva, tais mudanças na base de orientação podem ocorrer em consequência das negociações resultantes dos confrontos entre diferentes modos de representar o contexto de interação e entre diferentes intuitos dos interlocutores.

Ao tratar do autor individual de um texto, Bakhtin (2000, p. 204) diz:

O autor ocupa uma posição responsável no acontecimento existencial; ele lida com componentes deste acontecimento, e por isso também sua obra é um componente do acontecimento.

Nessa perspectiva, o autor é responsável pelo seu dizer, produzindo uma visão sobre o outro com o qual dialoga. É, desse modo, agregador dos sentidos textuais, sendo assim:

A utilização da língua efetua-se em forma de enunciados (orais e escritos), concretos e únicos, que emanam dos integrantes duma ou doutra esfera da atividade humana. O enunciado reflete as condições específicas e as finalidades de cada uma dessas esferas, não só por seu conteúdo (temático) e por seu estilo verbal, ou seja, pela seleção operada nos recursos da língua – recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais –, mas também, e sobretudo, por sua construção composicional. Estes três elementos (conteúdo temático, estilo e construção composicional) fundem-se indissoluvelmente no todo do enunciado, e todos eles são marcados pela especificidade de uma esfera de comunicação. (BAKHTIN, 2000, p. 279).

O enunciado, portanto, é uma unidade de comunicação verbal, caracterizada pela ação responsiva ativa do indivíduo. No entanto, a pessoa, ao produzir respostas em situações únicas, adota os gêneros discursivos existentes na sociedade, os quais são ferramentas culturais para a produção de enunciados. Segundo Bakhtin (2000, p. 283):

O enunciado – oral e escrito, primário e secundário, em qualquer esfera da comunicação verbal – é individual, e por isso pode refletir a individualidade de quem fala (ou escreve).

Nessa direção, o estilo poderá refletir a individualidade do autor ao produzir seus discursos, sejam estes orais ou escritos. Bakhtin (2000, p. 284) segue afirmando, sobre a questão do estilo, que:

O estilo é indissociavelmente vinculado a unidades temáticas determinadas e, o que é particularmente importante, a unidades composicionais: tipo de estruturação e de conclusão de um todo, tipo de relação entre o locutor e os outros parceiros da comunicação verbal (relação com o ouvinte, ou com o leitor, com o interlocutor, com o discurso do outro, etc.). O estilo entra como elemento na unidade de gênero de um enunciado.

O estilo na autoria é visto a partir das inter-relações apresentadas pelo autor no momento da produção de seus discursos, ou seja, por meio das relações com o mundo que o cerca, o lugar de onde fala/escreve, os seus interlocutores e as suas intenções no dizer/escrever. Bakhtin (2000, p. 286), desta forma, afirma que:

Quando há estilo, há gênero. Quando passamos o estilo de um gênero para outro, não nos limitamos a modificar a ressonância deste estilo graças à sua inserção num gênero que não lhe é próprio, destruímos e renovamos o próprio gênero.

Apesar de afirmarmos que no texto há marcas, elementos, representações que caracterizam o estilo do autor, tais marcas são de algum modo também elementos da esfera social onde o autor opera. Desse modo, pode-se dizer que sempre há, entre locutor e interlocutor, atitudes de responsividade.

Ao produzirem uma atitude responsiva ativa, os sujeitos concordam ou discordam, de forma total ou parcial, com as ideias dos outros. A atitude responsiva está em elaboração constante durante todo o processo de produção do texto. Para

Bakhtin (2000, p. 291):

A compreensão responsiva nada mais é senão a fase inicial e preparatória para uma resposta (seja qual for a forma de sua realização). O locutor postula esta compreensão responsiva ativa: o que ele espera não é uma compreensão passiva que, por assim dizer, apenas duplicaria seu pensamento no espírito do outro, o que espera é uma resposta, uma concordância, uma adesão, uma objeção, uma execução, etc.

Nesse sentido, todo locutor é sempre um respondente, pois ele não é o primeiro a tratar sobre determinado tema nem a produzir texto de uma determinada forma. Ao dizer que todo texto é resposta a outros textos, Bakhtin sinaliza para a ideia de que a autoria se constrói no contato com outros textos, com base nos quais aprendemos a tratar sobre determinados temas, a utilizar determinados recursos e a combiná-los.

Apesar de concebermos que há um fluxo ininterrupto de enunciados, é possível também identificar rupturas e identidades nos textos produzidos. Para tratar de tal aspecto, Bakhtin elege, como um dos fatores de delimitação de um enunciado, a alternância de sujeitos produtores de textos. Segundo ele (2000, p. 294), a alternância dos sujeitos

traça fronteiras estritas entre os enunciados das diversas esferas da atividade e da existência humana, conforme as diferentes atribuições da língua e as condições e situações variadas da comunicação. Bakhtin (2000, p. 294) defende a ideia de que cada “locutor termina seu enunciado para passar a palavra ao outro ou para dar lugar à compreensão responsiva ativa do outro”. E completa seu pensamento mais adiante afirmando que, “nos limites de um enunciado, o locutor (ou escritor) formula perguntas, responde-as, opõe objeções que ele mesmo refuta, etc.” (p. 295).

Todas essas reflexões sobre autoria remetem à ideia de que o sujeito-autor insere-se em um processo contínuo de comunicação, gerando respostas aos outros textos com os quais lidou em sua trajetória de vida e antecipando possíveis respostas, construindo, assim, seu próprio estilo. No entanto, Bakhtin evidencia que todo texto

que remete ao conceito de estilo do gênero. Não há, no entanto, reflexões mais diretas sobre como esses dois aspectos – estilo individual e estilo do gênero – manifestam-se nos textos produzidos coletivamente. Não há também, de modo mais direto, reflexões sobre como a autoria é construída nas diferentes esferas sociais.

Para contribuir com esse tema, buscamos analisar situações de produção coletiva de textos em uma esfera social específica: a escola.