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CONCLUSÃO

No documento Colaboração premiada (páginas 78-90)

A colaboração premiada se apresenta na história há mais de dois mil anos. Mas, nos primórdios, sua aplicação estava ligada a traição e a métodos injustos de obtenção de prova. Seus antigos personagens foram tratados pela história como homens imorais, antiéticos, traidores, por dedurarem pessoas dignas de respeito, que tinham ideais humanitários.

Incialmente também foi relacionada à tortura, como método de conseguir uma colaboração involuntária. Era através da tortura e de ameaças que a Alemanha nazista, por exemplo, obrigava o acusado a confessar, revelar grupos de resistência e identificar opositores.

Algum tempo depois a colaboração premiada já foi sendo regrada, possibilitando resultado mais justos. Teve ápice na década de 1970 e 1980, na Itália, onde a colaboração premiada foi o estopim do maxiprocesso da máfia Cosa Nostra e da operação Mãos Limpas.

Foi então que na década de 1990 o Brasil começou a legislar sobre o tema com mais atenção. Mas só duas décadas depois que se sancionou uma lei com regramentos mais claros sobre o instituto (Lei nº 12.850/2013). A referida lei, além de redefinir o crime organizado, conferiu segurança jurídica para a utilização da colaboração premiada. Portanto, essa lei é usada como parâmetro para toda colaboração premiada.

Vencida a resistência que havia sobre o tema, a colaboração premiada se estabeleceu atualmente como um meio poderoso de obtenção de provas capaz de desmantelar organizações criminosas grandiosas. Observando os limites legais, os princípios constitucionais e os limites de um Estado democrático de direito, os agentes da persecução penal podem utilizar desse instrumento para efetivar o jus puniendi do Estado e reduzir a impunidade.

E, embora não haja um enquadramento pacífico sobre o que é uma organização criminosa, reconhece-se seu poderio. Sabe-se da dificuldade que há em se desmantelar esses grupos que se organizam, têm divisões de tarefas, podem agir de forma indireta, e buscam vantagens que vão além do dinheiro.

Mas o instituto não é apenas uma arma do Estado, é também um instrumento valioso de defesa. É um negócio jurídico processual com efeitos também materiais. Os advogados modernos, que se dedicam ao tema, sem preconceitos,

conseguem prêmios relevantes ao seu constituinte. Prêmios esses que não se limitam a diminuir a pena, mas podem redundar em não oferecimento da denúncia, perdão judicial ou progressão de regime sem que se obedeça às regras do Código Penal.

Mas, para isso, há que se verificar a voluntariedade do colaborador, independentemente de sua motivação. Não pode haver coação do Estado, no intuito de extrair provas. Entretanto, a voluntariedade não deve ser considerada um mito, de difícil verificação. A reclusão cautelar, por exemplo, não torna a colaboração involuntária. Havendo os pressupostos para a prisão cautelar, há que se determinar a prisão. Não há qualquer relação entre um instituto e outro. Reconhece-se que, estando preso, a pessoa pode estar sentimentalmente fragilizada por causa das consequências de seu ato, mas isso não é razão suficiente para considerar que ela não possui capacidade volitiva razoável para realizar o acordo de colaboração premiada.

Não se pode, a pretexto de defesa da voluntariedade do preso, proibi-lo de obter um benefício legal. Se o preso, instruído por seu advogado, voluntariamente decide colaborar com Justiça, firmando um acordo de colaboração premiada, não há que se falar em coação. Por ser um negócio jurídico personalíssimo, terceiros não podem impugnar o acordo. Apenas o colaborador poderia dizer se agiu involuntariamente, mas isso não tem acontecido.

Além da voluntariedade, a efetividade é outro pressuposto de validade da colaboração premiada. Aquele que decide colaborar deve estar ciente de que terá que realizar declarações de tudo aquilo que tiver conhecimento, sem reservas mentais. E não apenas declarações, mas também deve apresentar outros meios de provas, ou ao menos conceder um caminho certo para que essas provas sejam encontradas. Desse acordo de colaboração, deve-se esperar ao menos um dos resultados elencados nos incisos do art. 4º da Lei nº 12.850/2013.

Entretanto, assim como na confissão, a colaboração premiada carece de provas de corroboração. O juiz não pode fundamentar a sentença condenatória unicamente em declarações de colaboradores, nem que essas declarações deem confirmação mútua. O juiz deve julgar balizado em outros meios de provas independentes, como documentos.

É importante salientar que a colaboração premiada deve ser utilizada com muita prudência para que ela não se torne uma arma de denunciações mentirosas, que venha a incriminar inocentes. Deve-se atentar para a sua regularidade, legalidade

e constitucionalidade. Até mesmo porque uma colaboração premiada irregular pode futuramente ser anulada, desconstruindo todo esforço processual penal.

Todavia, a colaboração premiada tem se solidificado no sistema jurídico brasileiro, de tal forma que, atualmente, tem possibilitado a revelação de grandes organizações criminosas. É o que ocorre, por exemplo, na operação Lava Jato que revelou um grande esquema criminoso que envolveu famigerados políticos, grandes empresas e empresários em crimes de corrupção, lavagem de ativos, crimes contra o sistema financeiro internacional, tráfico transnacional de drogas, entre outros.

Foi através da colaboração premiada que se pôde esmiuçar como ocorria a corrupção sistêmica dentro da maior empresa estatal do Brasil, a Petrobras. Através das declarações do colaborador, pôde-se expor muita coisa que estava encoberta. Através da colaboração premiada, o Estado pôde reaver uma monta bilionária de dinheiro desviado.

Portanto, verifica-se que a colaboração premida é um instituto que ainda precisa ser aprimorado, mas já tem exibido resultados que demonstram sua eficácia como um meio de combate às organizações criminosas.

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