NATAN LOCH
COLABORAÇÃO PREMIADA
Palhoça 2016
NATAN LOCH
COLABORAÇÃO PREMIADA
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Direito da Universidade do Sul de Santa Catarina, como requisito parcial para a obtenção do título de Bacharel em Direito.
Orientadora: Prof.ª Cristiane Goulart Cherem, Ms.
Palhoça 2016
Aos meus amados pais, Remi e Maria, que moldaram meu caráter, com simplicidade e vida exemplar, e me ensinaram a temer ao SENHOR.
RESUMO
O presente trabalho trata da colaboração premiada como um negócio jurídico processual com efeitos materiais e um meio de obtenção de prova eficiente no combate às organizações criminosas, onde o colaborador voluntariamente faz declarações e apresenta provas que proporcionam um dos resultados esperados em lei, e em troca o colaborador recebe uma sanção premial. Para isso, utiliza-se o método de pensamento dedutivo e o procedimento monográfico, com técnica de pesquisa bibliográfica. Para que se possa compreender o instituto da colaboração premiada, faz-se a apresentação de seus antecedentes históricos e jurídicos, expondo sua bagagem de fatos infames. Também se analisa seu conceito, e a disposição deste conceito nas leis, sua natureza jurídica, seus pressupostos de validade, os prêmios advindos da colaboração, como esses prêmios são concedidos e a eficácia da colaboração premiada. O objetivo deste trabalho é analisar o instituto da colaboração premiada para compreender sua eficácia no combate ao crime organizado. Para isso, verifica-se a aplicação da colaboração premiada no sistema jurídico brasileiro, principalmente na Lava Jato. Entretanto, este trabalho não tem a pretensão de exaurir o tema, pois trata-se de um instituto com muitos detalhes, com demasiadas divergências.
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ... 7
2 FUNDAMENTOS DA COLABORAÇÃO PREMIADA ... 9
2.1 ANTECEDENTES HISTÓRICOS ... 9
2.2 ANTECEDENTES JURÍDICOS ... 12
2.3 CONCEITO ... 16
2.4 EVOLUÇÃO LEGISLATIVA ... 22
2.5 CONCEITO DE ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA ... 28
3 PRESSUPOSTOS ESPECÍFICOS DA COLABORAÇÃO PREMIADA ... 32
3.1 VOLUNTARIEDADE ... 32
3.1.1 Motivação ... 35
3.1.2 Liberdade ... 37
3.1.3 O silêncio, a autoincriminação e a liberdade de expressão ... 42
3.2 EFETIVIDADE ... 45
3.2.1 Delação premiada ... 46
3.2.2 Revelação da organização criminosa ... 48
3.2.3 Colaboração preventiva ... 49
3.2.4 Recuperação de capitais ... 50
3.2.5 Colaboração para libertação ... 51
4 APLICAÇÃO DA COLABORAÇÃO PREMIADA ... 52
4.1 NATUREZA JURÍDICA... 52 4.2 VALOR PROBATÓRIO ... 56 4.3 PRÊMIOS AO COLABORADOR ... 59 4.3.1 Perdão judicial ... 61 4.3.2 Redução da pena ... 64 4.3.3 Substituição da pena ... 65
4.3.4 Não oferecimento da denúncia ... 65
4.3.5 Benefício após a sentença ... 66
4.4 GRADUAÇÃO DA SANÇÃO PREMIAL ... 68
4.5 COLABORAÇÃO PREMIADA NO COMBATE AO CRIME ORGANIZADO ... 72
5 CONCLUSÃO ... 77
1 INTRODUÇÃO
A função social do direito penal é a repressão aos delitos, penalizando os infratores e prevenindo que novos crimes aconteçam, além de buscar a reparação dos danos causados pelo crime. Mas o direito penal só pode ser aplicado quando há provas suficientes para demonstrar a autoria, a materialidade e a culpabilidade de um delito tipificado.
Alguns crimes são mais difíceis de serem revelados. Como exemplo, organizações criminosas apresentam-se como instituições resistentes às persecuções penais, pois elas estão estabelecidas em uma estrutura sistemática, com previsão de hierarquia, divisão de tarefas, códigos de comunicação e outras características que dificultam a sua identificação.
Compreendendo que é importante que haja meios de investigação eficazes de revelarem os crimes, o presente trabalho de conclusão de curso tem como objeto de estudo o instituto da colaboração premiada no ordenamento jurídico brasileiro como um meio de obtenção de prova eficaz no desmantelamento do crime organizado. É importante entender o papel da colaboração premiada, que consegue decifrar e comprovar como a organização criminosa está estabelecida, quem são os agentes e como realizam os crimes. Pode-se, com isso, efetivar o jus puniendi do Estado para que esta organização seja desfeita.
O objetivo deste trabalho é analisar o instituto da colaboração premiada e verificar sua efetividade no combate ao crime organizado. Para isso, faz-se uma análise da colaboração premiada baseada especialmente na Lei nº 12.850/2013, que é a lei mais atual sobre o tema e que conferiu regramentos mais claros para sua aplicação.
No primeiro capítulo, o objetivo é apresentar os fundamentos da colaboração premiada através dos seus antecedestes históricos, dos antecedentes jurídicos, do conceito e da evolução legislativa. Também feita uma análise conceitual sobre a organização criminosa, para que se possa compreender seu enquadramento. No segundo capítulo, o objetivo é analisar os pressupostos específicos da colaboração premiada, que são a voluntariedade e a efetividade. Ao se falar sobre a voluntariedade, faz-se a análise da motivação, liberdade e do direito ao silêncio. Sobre a análise da efetividade, expõe-se sobre as espécies de colaboração (delação
premiada, revelação de organização criminosa, colaboração preventiva, recuperação de capitais e colaboração para libertação).
Por fim, no terceiro capítulo, busca-se analisar a natureza jurídica do instituto, seu valor probatório, os prêmios advindos da colaboração (perdão judicial, redução da pena, substituição da pena, não oferecimento da denúncia e prêmios após a sentença), a graduação da sanção premial, e finalmente a verificação da eficácia da colaboração premiada no combate ao crime organizado.
O método de abordagem tem pensamento dedutivo, partindo dos fundamentos da colaboração premiada para chegar na aplicação da colaboração premiada no combate às organizações criminosas, tendo a operação Lava Jato como referência. Já o método de abordagem tem natureza qualitativa, de procedimento monográfico. A técnica de pesquisa utilizada é a bibliográfica, com consulta a livros, artigos de internet, revistas especializadas, documento oficiais, jurisprudência, entre outros.
Portanto, devido à importância deste instituto e a relevância dele no Brasil atualmente, sendo que está diariamente nos noticiários, este trabalho contribui para a compreensão da colaboração premiada como um meio de obtenção de prova eficaz, regulado especialmente pela Lei nº 12.850/2013, demonstrando sua aplicabilidade, principalmente na operação Lava Jato.
Entretanto, reconhece-se que o tema demanda grande volume de informações e possui muitas divergências. Por isso, buscou-se refletir sobre as questões mais pragmáticas e relevantes desse instituto.
2 FUNDAMENTOS DA COLABORAÇÃO PREMIADA
Para a compreensão da colaboração premiada1, primeiro há que se
conhecer seus fundamentos, para que se possa entender como tal instituto se estabeleceu na sociedade, pois sabe-se que nada se constrói sem que haja seus fundamentos.
Portanto, para isso é essencial que se apresente os antecedentes históricos, que revelam a colaboração premiada antes dela ser legalmente regrada, os antecedentes jurídicos, que demonstram os resultados históricos do instituto legalizado; o conceito da colaboração premiada, para que se possa discernir do que se trata este importante instituto; a evolução legislativa no Brasil, que apresenta as normas referentes ao instituto em ordem cronológica; e, por fim, a análise conceitual sobre as organizações criminosas.
2.1 ANTECEDENTES HISTÓRICOS
Há relatos de vários casos de pessoas que marcaram a história com sua colaboração à Justiça. Entretanto, a sociedade não reconhecia a colaboração como um instrumento legal, pelo contrário, chamavam-na de traição. Lima traz à lembrança delatores icônicos, dos tempos mais remotos, como: Judas Iscariotes, Joaquim Silverio e Calabar.2
A emblemática delação premiada de Judas Iscariotes foi registrada na história há mais de dois mil anos. O personagem não foi chamado de colaborador, mas ficou mundialmente conhecido como um traidor. A Bíblia, em Mateus, capítulo 26, versículos 14, 15 e 16, apresentou o procedimento da delação:
Então, um dos doze, chamado Judas Iscariotes, indo ter com os principais sacerdotes, propôs: que me quereis dar, e eu vo-lo entregarei? E
1 Embora o termo “delação premiada” seja mais popular, é usado, neste trabalho, o termo
“colaboração premiada” para identificar o instituto atual, conforme nomeação dada pela Lei nº
12.850/2013. O termo “delação” é utilizado neste trabalho para identificar a ação que revela um crime ou um criminoso.
2 LIMA, Renato Brasileiro de. Legislação especial criminal comentada: volume único. 4. ed. rev.,
lhe trinta moedas de prata. E, desse momento em diante, buscava ele uma boa ocasião para o entregar.3
Vê-se que o colaborador, Judas Iscariotes, voluntariamente propôs-se a ir perante às autoridades para delatar o chefe do grupo criminoso, segundo as leis da época, e dar informações eficazes para que o chefe da organização fosse pego. Para firmar o acordo de colaboração, as autoridades ofereceram um prêmio: trinta moedas de prata.
Entende-se que Judas Iscariotes quis sair daquela organização e tinha interesse que o movimento fosse parado, mas ele não tinha interesse na morte do acusado.4 Quando percebeu que Jesus seria morto, Judas, arrependido, ainda tentou
desfazer o acordo devolvendo as moedas de prata, mas a retratação só teria valor, para as autoridades, antes da apreensão de Jesus.5
Também relacionada ao cristianismo, a igreja católica, na idade média, usava a delação como método de perseguição aos hereges e feiticeiros. O acusado que não confessasse durante o interrogatório ou que vacilasse durante as respostas deveria ir para a tortura. O grau da tortura era aplicado conforme a força dos indícios, a gravidade do crime e até mesmo a condição social do acusado. Assim, a igreja conseguia a confissão do acusado e a revelação das informações que queria. Entretanto, era repudiável a ação dos inquisidores que realizavam torturas a tal ponto que o acusado tinha seus membros fraturados, ou ficavam doentes para sempre, ou morriam durante o procedimento.6
Já no Brasil, no fim do século XVIII, houve uma carta de delação que se tornou o estopim para o fim da Inconfidência Mineira. O Coronel Joaquim Silvério dos Reis era um homem falido por causa dos altos impostos cobrados pela Coroa Portuguesa. Assim, como outros homens falidos, o Coronel foi seduzido a participar
3 MATEUS. Português. In: Bíblia sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. Disponível em:
<http://biblia.com.br/joaoferreiraalmeidarevistaatualizada/mateus/mt-capitulo-26/>. Acesso em: 8 set. 2016.
4 CHAMPLIN, Russell Norman. Enciclopédia de Bíblia, teologia e filosofia. 4. ed. São Paulo:
Candeia, 1997. v. 1. p. 621.
5 MATEUS. Português. In: Bíblia sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. Disponível em:
<http://biblia.com.br/joaoferreiraalmeidarevistaatualizada/mateus/mt-capitulo-26/>. Acesso em: 8 set. 2016.
6 EYMERICH, Nicolau. Manual dos inquisidores. Comentários de Francisco Peña. Tradução de Maria
da conspiração contra a Coroa Portuguesa, sob argumentos de que suas dívidas seriam perdoadas e que ele se tornaria “um dos grandes”.7
Datada em 11 de abril de 1789, a carta ao Governador da Capitania de Minas Gerais talvez seja o primeiro documento de delação premiada no Brasil. Nela, a conspiração foi revelada, e os conspiradores foram delatados. Dela, desencadeou-se várias denúncias e provas que formaram dois grandes inquéritos, e resultaram na morte de Joaquim José da Silva Xavier (Tiradentes), em 21 de abril de 1792; o exílio de outros conspiradores e, por fim, o fracasso da Inconfidência Mineira. O delator, com o fracasso da conspiração, recebeu prêmios pela fidelidade à Majestade, mas a população o considerou um traidor e passou a persegui-lo.8
Desta carta, pode-se destacar que o Coronel tinha compreensão que sua delação merecia um prêmio. Ele preferiu não pedir riquezas, mas simulou compaixão aos conspiradores, pedindo que a vida deles fosse poupada:
Ponho todos estes tão importantes particulares na presença de V. Excia. [sic] pela obrigação que tenho de fidelidade, não porque o meu instinto nem vontade sejam de ver a ruína de pessoa alguma, o que espero em Deus que, com o bom discurso de V. Excia. [sic], há de acautelar tudo e dar as providências sem perdição de vassalos. O prêmio que peço tão somente a V. Excia. [sic] é o rogar-lhe que, pelo amor de Deus, se não perca a ninguém.9 Já na Alemanha nazista, Adolf Hitler via a delação como meio de conseguir informações sobre aqueles que estavam sendo perseguidos ou sobre os “traidores” da pátria. A Gestapo (Polícia secreta do Estado) conseguia informações importantes para rastrear a oposição política através da tortura de comunistas e socialdemocratas. Muitas denúncias de “calúnia contra o regime” vinham até mesmo de amigos, alunos, colegas de trabalho e membros da família do acusado. Discussões, interesse político, interesse comercial, barulho do vizinho e outros conflitos privados davam motivo para um delator fazer uma denúncia, que poderia resultar em detenção, tortura,
7 BRASIL; MINAS GERAIS. Autos de devassa da inconfidência mineira. Brasília/Belo Horizonte:
Câmara dos Deputados/Governo do Estado de Minas Gerais, 1976. Disponível em:
<http://portaldainconfidencia.iof.mg.gov.br/leitura/web/v1?p#>. Acesso em: 2 set. 2016. v. 1. p. 93.
8 INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DE TIRADENTES. Joaquim Silvério escreve uma carta. Tiradentes, 2014. Disponível em:
<http://ihgt.blogspot.com.br/2014/03/joaquim-silverio-escreve-uma-carta.html>. Acesso em: 2 set. 2016.
9 BRASIL; MINAS GERAIS. Autos de devassa da inconfidência mineira. Brasília/Belo Horizonte:
Câmara dos Deputados/Governo do Estado de Minas Gerais, 1976. Disponível em:
aprisionamento e até morte do denunciado. O prêmio que recebiam era serem considerados leais ao Reich, o que proporcionava popularidade.10
Jean Karski, um emissário polonês que resistiu a Nazismo, narra, em seu livro, como atuavam as autoridades alemãs em busca da revelação de conspirações. Por amostra, cita-se o fim de um amigo que não colaborou para a Gestapo e não delatou seus parceiros, sendo considerado desleal ao Reich alemão:
No final de fevereiro de 1940, Borzęcki foi preso pela Gestapo. Não teve tempo de engolir seu veneno. Foi arrastado de prisão em prisão e sofreu as mais atrozes torturas. Foi espancado durante dias a fio. Quase todos os seus ossos foram sucessiva e cientificamente quebrados. Suas costas já não eram mais do que uma massa sangrenta, depois de incontáveis golpes de barra de ferro. Não denunciou ninguém, não traiu nenhum segredo. Foi fuzilado.11 Métodos desumanos de conseguir a delação também ocorreram no Brasil durante o Regime Militar. Além da tortura e ameaças, eram feitas promessas e oferecidas recompensas em troca de delações daqueles que realizavam atividades comunistas conspiratórias.12
Disso, pode-se compreender que a delação é um instituto com antecedentes históricos repudiáveis, e que está relacionado à traição, à tortura e aos regimes autoritários. Um indouto poderia dizer que o instituto é repulsivo e desnecessário, mas, com a compreensão do próximo subcapítulo, fica nítido a necessidade do Estado em usá-lo, com o devido respeito aos direitos humanos. 2.2 ANTECEDENTES JURÍDICOS
Com o avançar da história, o Estado foi percebendo que a delação era importante para a revelação de crimes, e que os delatores mereciam prêmios. Assim, os sistemas jurídicos passaram a prever a possibilidade de favorecer aquele que colaborasse para a resolução de crimes.
10 EVANS, Richard J. O terceiro reich no poder. Tradução de Lúcia Brito. 1. ed. São Paulo: Editora
Planeta do Brasil, 2011.
11 KARSKI, Jan. Estado secreto: memórias de um herói da resistência polonesa durante a Segunda
Guerra Mundial. Tradução Eliana Aguiar. 1. ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015. p. 91.
12 BRASIL. Presidência da República. Secretaria Especial dos Direitos Humanos. Direito à memória e à verdade: histórias de meninas e meninos marcados pela ditadura / Secretaria Especial dos
Direitos Humanos. Brasília: Secretaria Especial dos Direitos Humanos, 2009. Disponível em: <http://www.memoriasreveladas.arquivonacional.gov.br/media/livro_criancas_e_adolescentes.pdf>. Acesso em: 2 set. 2016. p. 26.
Rudolf Von Ihering, jurista alemão que tem grande influência no judiciário do mundo ocidental, ensina que a “paz é o fim que o direito tem em vista; a luta é o meio de que se serve para o conseguir”, e que enquanto o direito for ameaçado haverá luta.13 Disso, pode-se compreender que se deve utilizar todos os métodos necessários
para haja a preservação do direito. O jurista também previa a utilização do direito premial como uma solução diante da ineficiência do Estado em conter o crime organizado.14
Segundo Lima, a origem jurídica da colaboração premiada pode ser encontrada no sistema anglo-saxão, onde havia a figura da testemunha da coroa (crown witness). Depois foi amplamente utilizado pelos Estados Unidos (plea bargain), e na Itália (pattegiamento).15
Em 1775, já é encontrado na jurisprudência inglesa o favorecimento em troca de informações: o caso de Margaret Caroline Rudd, que se associou com Robert Perreau e Daniel Perreau num esquema de falsificação de bonds (títulos de crédito do Tesouro) para obter vantagem financeira.16
A imprensa da época foi induzida pelos irmãos Perreau a pensar que Margaret era a única culpada, e talvez este seja o primeiro caso em que a mídia é utilizada para manipular a opinião pública. Então, sentindo-se injustiçada, Margaret decidiu colaborar com a investigação fazendo a revelação, em detalhes, do esquema criminoso. Em troca, ela recebeu o perdão pelos crimes e proteção do Estado. Já Robert Perreau e Daniel Perreau foram enforcados no dia 17 de janeiro de 1776.17
Mais recente é a colaboração histórica de Tommaso Buscetta perante o juiz Giovanni Falcone, na Itália durante a década de 1980. Com sua colaboração foi
13 IHERING, Rudolf Von. A Luta pelo direito. 24. ed. Forense, 2011. Disponível em:
<https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/978-85-309-4196-3/>. Acesso em: 8 set. 2016. p. 1.
14 GREGHI, Fabiana. A delação premiada no combate ao crime organizado. Disponível em:
<http://lfg.jusbrasil.com.br/noticias/1512243/a-delacao-premiada-no-combate-ao-crime-organizado-fabiana-greghi>. Acesso em: 5 set. 2016.
15 LIMA, Renato Brasileiro de. Legislação especial criminal comentada: volume único. 4. ed. rev.,
atual. e ampl. Salvador: JusPODIVM, 2016. p. 519.
16 LEACH, Thomas. Cases in crown law. 4. ed. Londres: 1815. Disponível em:
<https://archive.org/details/casesincrownlaw01courgoog>. Acesso em: 8 set. 2016. vol. 1. p. 115-116.
17 ASCARI, Janice Agostinho Barreto. Mulher, imprensa, machismo e colaboração premiada.
Disponível em: <http://janiceascari.blogspot.com.br/2011/03/mulher-imprensa-machismo-e-colaboracao.html>. Acesso em: 8 set. 2016.
possível desbaratar a grandiosa associação mafiosa Cosa Nostra, que tinha base em Palermo, Sicília.18
Para Mendroni, Cosa Nostra era uma máfia que se assemelhava ao Estado, pois exercia domínio territorial e faziam papel de polícia protegendo aqueles que contribuíam financeiramente. Mas máfia ainda era muito mais do que um “Estado Paralelo”, pois ela estava infiltrada no próprio Estado oficial. Mas, em meados de 1970 e 1980, houve uma guerra interna por centralização de poder na máfia. A família Corleonese, que havia feito coalização com a Cosa Nostra, passou a matar outras famílias para tomar o poder. Dentre os mortos estavam dois filhos, um irmão, um neto e outros parentes do importante mafioso Tommaso Buscetta. Ele fugiu para o Brasil, mas foi capturado e extraditado para Itália.19
Na Itália, ele decidiu colaborar com a Justiça, e dela se obteve informações detalhadas sobre a organização criminosa, permitindo uma análise das suas estruturas e possibilitando a compreensão de formas de combate-la. Daí originou-se o maxiprocesso, um grande processo conduzido pelo juiz Giovanni Falcone, que resultou na condenação de vários mafiosos.20
Entretanto, eram conhecidas as consequências de sua delação, pois a iniciação à organização era um ritual que deixava isso claro aos candidatos, como explica Falcone, juiz do caso:
Concluída a explicação e confirmada a intenção do candidato a ingressar na organização, o representante convida os novos integrantes a escolherem um padrinho entre os ‘uomini d’onore’ presentes. Tem então, lugar, a cerimônia de juramento que consiste em indagar a cada um com que mão dispara com a arma para realizar uma pequena incisão no dedo indicador da mão indicada, para fazer sair uma gota de sangue e segurar uma imagem santa, normalmente da Santa Anunciata, dita patrona da Cosa Nostra, cuja data comemorativa é 25 de marco. A imagem de ferro é aquecida até com fogo e o iniciante deve segurá-la, ainda com o sangue vertendo e deve jurar solenemente não trair nunca as regras da Cosa Nostra, sob pena de, em caso contrário, queimar com a imagem. Enquanto isso o seu padrinho lhe adverte
18 FONSECA, C. B. G. et. al. A colaboração premiada compensa? Brasília: Núcleo de Estudos e
Pesquisas/CONLEG/Senado, 2015. Disponível em:
<https://www12.senado.leg.br/publicacoes/estudos-legislativos/tipos-de-estudos/textos-para-discussao/td181>. Acesso em: 12 set. 2016. p. 6.
19 MENDRONI, Marcelo Batlouni. Crime organizado: aspectos gerais e mecanismos legais. 5. ed.
São Paulo: Atlas, 2015. Disponível em:
<https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788522493388/>. Acesso em: 8 set. 2016. p. 450-451.
20 MAIEROVITCH, Walter Fanganiello. Os buscetta brasileiros. Disponível em:
<http://www.ibgf.org.br/index.php?data%5Bid_secao%5D=3&data%5Bid_materia%5D=574>. Acesso em: 8 set. 2016.
severamente de não trair a Cosa Nostra, onde ‘com sangue se entra e com sangue se sai’.21
Portanto, como prêmio, Tommaso Buscetta foi extraditado para os Estados Unidos, onde obteve a nacionalidade, nova identidade e proteção para ele e sua família.22
Pouco tempo depois, também na Itália, deflagrou-se a operação Mãos Limpas (operazione mani pulite), que serve de referência quanto ao combate à corrupção política e administrativa. Ela teve início com a prisão e a delação de Mário Chiesa, político vinculado ao Partido Socialista Italiano, que revelou um grande esquema de corrupção, que envolvia máfia, partidos políticos, políticos, Vaticano, Maçonaria, magistrados e empresários.23
Moro, ao fazer considerações sobre a operação, explicita os resultados dela:
A denominada “operação mani pulite” (mãos limpas) constitui um momento extraordinário na história contemporânea do Judiciário. Iniciou-se em meados de fevereiro de 1992, com a prisão de Mario Chiesa, que ocupava o cargo de diretor de instituição filantrópica de Milão (Pio Alberto Trivulzio). Dois anos após, 2.993 mandados de prisão haviam sido expedidos; 6.059 pessoas estavam sob investigação, incluindo 872 empresários, 1.978 administradores locais e 438 parlamentares, dos quais quatro haviam sido primeiros-ministros. A ação judiciária revelou que a vida política e administrativa de Milão, e da própria Itália, estava mergulhada na corrupção, com o pagamento de propina para concessão de todo contrato público, o que levou à utilização da expressão “Tangentopoli” ou “Bribesville” (o equivalente à “cidade da propina’) para designar a situação.24
21 FALCONE, Giovanni. Cose di cosa nostra. Milano: Biblioteca Universale Rizzoli, 1998. p. 97.98.
apud MENDRONI, Marcelo Batlouni. Crime organizado: aspectos gerais e mecanismos legais. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2015. Disponível em:
<https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788522493388/>. Acesso em: 8 set. 2016. p. 457-458.
22 O GLOBO. Preso em São Paulo, Tommaso Buscetta delatou mais de 300 mafiosos italianos. O Globo, 22 out. 2013. Disponível em:
<http://acervo.oglobo.globo.com/em-destaque/preso-em-sao-paulo-tommaso-buscetta-delatou-mais-de-300-mafiosos-italianos-10493312>. Acesso em: 8 set. 2016.
23 GUIMARÃES, Rodrigo Régnier Chemim. Déjà vu: diálogos possíveis entre a operação “mãos
limpas” italiana e a realidade brasileira. Disponível em: <http://www.mpf.mp.br/regiao3/sala-de-imprensa/docs/2016/artigo-rodrigochemim-maoslimpaserealidadebrasileira.pdf>. Acesso em: 8 set. 2016.
24 MORO, Sérgio Fernando. Considerações sobre a operação mani pulite. Brasília: Conselho da
Justiça Federal, 2004. Disponível em: <http://www.cjf.jus.br/revista/numero26/artigo09.pdf>. Acesso em 8 set. 2016.
Entretanto, na década de 1990, houve também uma reação trágica: a máfia italiana executou várias pessoas, incluindo os juízes responsáveis pelo combate à corrupção (Paolo Borsellino e Giovanni Falcone).25
Foi justamente na década de 1990 que a colaboração premiada foi introduzida no sistema jurídico brasileiro como um meio de combate à criminalidade organizada. Mas segundo Damásio de Jesus, a origem do instituto no Direito brasileiro é verificada desde a época que o Brasil era colônia de Portugal, nas Ordenações Filipinas (vigente entre 1603 e 1830). Já eram previstos benefícios aos criminosos que decidissem delatar, inclusive, crimes que nem tiveram participação. Mas o instituto acabou sendo esquecido, e somente na década de 1990 é que o Brasil passou a legislar sobre o tema novamente.26
Portanto, pode-se concluir que estes acontecimentos jurídicos influenciaram e direcionaram o entendimento do que é a colaboração premiada. Desses acontecimentos, pode-se perceber os resultados importantes que a colaboração pode trazer, e como pode dar eficiência à Justiça.
2.3 CONCEITO
Partindo-se da análise histórica da colaboração premiada, pode-se entender como foi sua origem e o que ela proporcionava. Portanto, urge esclarecer também qual é a conceituação dada pelos doutrinadores, para que se possa haver o discernimento do que é a colaboração premiada.
A legislação brasileira já previu vários termos para identificar a colaboração de investigados ou acusados, como explicita Essado:
Sob o ponto de vista da terminologia legal, vale dizer, aquela utilizada pelo legislador ao referir-se à atividade colaborativa do imputado, cumpre destacar as expressões usuais: denúncia, colaboração espontânea, confissão espontânea, colaboração efetiva e voluntária, revelação espontânea e revelação eficaz. E, neste aspecto, merece ser destacada a ausência de critérios lógicos e sistemáticos para referência a um mesmo instituto quando
25 GUIMARÃES, Rodrigo Régnier Chemim. Déjà vu: diálogos possíveis entre a operação “mãos
limpas” italiana e a realidade brasileira. Disponível em: <http://www.mpf.mp.br/regiao3/sala-de-imprensa/docs/2016/artigo-rodrigochemim-maoslimpaserealidadebrasileira.pdf>. Acesso em: 8 set. 2016.
26 JESUS, Damásio E. de. Estágio atual da "delação premiada" no direito penal brasileiro. Teresina: Revista Jus Navigandi, 2005. Disponível em: <https://jus.com.br/artigos/7551>. Acesso em: 13 set.
dos trabalhos legislativos no que diz respeito à redação normativa, o que pode dar ensejo à insegurança jurídica.27
Neste trabalho, faz-se necessário destacar apenas a distinção de “delação premiada” e de “colaboração premiada”, pois estas são as terminologias usadas atualmente. Para isso, utiliza-se da interpretação exegética das palavras “delação”, “colaboração” e “premiada”.
Por “delação”, entende-se, conforme definição dicionarizada, que é denunciar a reponsabilidade de alguém por crime, ou revelar um crime.28 Portanto,
haverá delação quando alguém identificar e responsabilizar uma pessoa por um crime, ou esclarecer um crime que estava obscuro.
O professor Bittar dá conceituação etimológica à delação, na seguinte forma:
Etimologicamente, delação advém do latim delatione, e significa a ação de delatar, denunciar, revelar etc. No entanto, a palavra delação, de modo isolado, pode ter dois significados nas ciências penais, restando necessária uma breve distinção de sentidos da palavra. Num primeiro momento, delação, na sua acepção de denúncia, deve ser entendida no sentido de delatio
criminis, ou seja, seria o conhecimento provocado, “por parte da autoridade
policial, de um fato aparentemente criminoso”. Neste sentido, o delator seria uma pessoa, via de regra, sem relação alguma com o fato criminoso. Já, em sua acepção de revelar, se poderia entender a delação como sendo a conduta do participante que efetua “a admissão da própria responsabilidade por um ou mais delitos, acompanhada da ajuda proporcionada aos investigadores para o conhecimento do mundo criminal a que pertencia”. É nesse segundo sentido que se encontra a figura dos colaboradores ou, no Direito italiano, dos arrependidos (pentiti). 29
Colaborando para o entendimento, Capez, ao definir delatio criminis, afirma que é a “comunicação de um crime feita pela vítima ou qualquer do povo”, sendo
27 ESSADO, Tiago Cintra. Delação premiada e idoneidade probatória. Revista brasileira de ciências criminais. n. 21, v. 101. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2013. Disponível em:
<http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/resultList/document?&src=rl&srguid=i0ad8181600000 157d58ab9580ce3d4e0&docguid=I60c35180961c11e2b253010000000000&hitguid=I60c35180961c1
1e2b253010000000000&spos=1&epos=1&td=8&context=19&crumb-action=append&crumb-label=Documento&isDocFG=false&isFromMultiSumm=&startChunk=1&endChunk=1>. Acesso em: 8 set. 2016.
28 INSTITUTO ANTÔNIO HOUAISS DE LEXICOGRAFIA. Dicionário eletrônico Houaiss da língua
portuguesa. Versão monousuário, 3.0. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009. 1 CD-ROM.
29 BITTAR, Walter Barbosa. Delação premiada: direito estrangeiro, doutrina e jurisprudência. 2. ed.
Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2011. p. 4-5. apud NUCCI, Guilherme de Souza. Organização
criminosa. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2015. Disponível em:
puramente uma comunicação ou acompanhada de postulação de instauração da persecução penal.30
Daí compreende-se que a “delação”, de forma ampla, é um termo usado quando alguém apresenta à autoridade informações sobre um crime ou um criminoso. Mas, na delação premiada, há a necessidade de confissão, do acusado ou investigado, de autoria perante a autoridade; caso contrário, trata-se testemunho.31
Nesse sentido, merece destaque o entendimento do Ministro Rodrigues que preconiza, no Superior Tribunal de Justiça (STJ): “O instituto da delação premiada consiste em ato do acusado que, admitindo a participação no delito, fornece às autoridades informações eficazes, capazes de contribuir para a resolução do crime.”
32
Já o termo “colaboração” é mais abrangente, e comporta ações que vão além da revelação de um crime ou da incriminação de outra pessoa. O dicionário define como “trabalho feito em comum com uma ou mais pessoas; cooperação, ajuda, auxílio”.33 Portanto, o colaborador é aquele que trabalha junto com a autoridade para
a satisfação da Justiça.
Também é importante esclarecer o que significa o termo “premiada” para que se possa inferir o conceito. Ao buscar a definição para “prêmio” encontra-se a seguinte: “aquilo que se concede como reconhecimento por um serviço prestado; compensação, gratificação, recompensa, soldada”.34 Portanto, numa interpretação
gramatical, conclui-se a colaboração deve ser recompensada, quando se reconhece seus resultados.
30 CAPEZ, Fernando. Curso de processo penal. 23. ed. São Paulo: Saraiva, 2015. Disponível em:
<https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788547201654/>. Acesso em: 13 set. 2016. p. 125.
31 LIMA, Renato Brasileiro de. Legislação especial criminal comentada: volume único. 4. ed. rev.,
atual. e ampl. Salvador: JusPODIVM, 2016. p. 519.
32 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Habeas corpus nº 90.962/SP. Relator: Ministro Haroldo
Rodrigues. Brasília, 22 de junho de 2011. Disponível em:
<https://ww2.stj.jus.br/websecstj/cgi/revista/REJ.cgi/ATC?seq=15457160&tipo=51&nreg=2007022173 09&SeqCgrmaSessao=&CodOrgaoJgdr=&dt=20110622&formato=PDF&salvar=false>. Acesso em: 30 out. 2016, grifo nosso.
33 INSTITUTO ANTÔNIO HOUAISS DE LEXICOGRAFIA. Dicionário eletrônico Houaiss da língua
portuguesa. Versão monousuário, 3.0. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009. 1 CD-ROM.
34 MICHAELIS. Michaelis moderno dicionário da língua portuguesa. Disponível em:
Portanto, após fazer a exegese das palavras que envolvem a instituição da colaboração premiada, compreendendo sentido léxico que envolve o instituto, pode-se, então, partir para a conceituação doutrinária.
Assim, Lima define a colaboração premiada como espécie do direito premial que pode ser conceituada como:
[..] técnica especial de investigação por meio da qual o coautor e/ou partícipe da infração penal, além de confessar seu envolvimento no fato delituoso, fornece aos órgãos responsáveis pela persecução penal informações objetivamente eficazes para a consecução de um dos objetivos previstos em lei, recebendo, em contrapartida, determinado prêmio legal.35
Sobre o direito premial, a professora espanhola Isabel de Paz define que é um conjunto de normas de diminuição de pena, com o objetivo de incentivar o arrependimento de criminosos, impedindo novas atividades delituosas, e é a colaboração com as autoridades da persecução penal, com a revelação de atos criminosos já praticados ou o desmantelamento da organização criminosa que o acusado fazia parte.36
O conceito posto no dicionário jurídico também define semelhantemente a colaboração premiada: “diz-se da colaboração ou denúncia voluntária feita pelo indiciado em crime praticado em concurso, com a finalidade de colaborar com a investigação e o processo criminal e de obtenção de benefício penal.”37
No mesmo sentido, Vladimir Aras conceitua a colaboração premiada:
[...] é instrumento de persecução penal destinado a facilitar a obtenção de provas do concurso de pessoas em fato criminoso, próprio ou alheio, e da materialidade de delitos graves, servindo também para localização do proveito ou do produto de crime ou para a preservação da integridade física de vítimas de certos delitos, ou ainda para a prevenção de infrações penais.38
35 LIMA, Renato Brasileiro de. Legislação especial criminal comentada: volume único. 4. ed. rev.,
atual. e ampl. Salvador: JusPODIVM, 2016. p. 520.
36 PAZ, Isabel Sánchez García de. El coimputado que colabora con la justicia penal. Revista Eletrónica de Ciência Penal y Criminologia, n. 7-5, 2005. Disponível em:
<http://criminet.ugr.es/recpc/07/recpc07-05.pdf>. Acesso em: 5 set. 2016.
37 LUZ, Valdemar P. da. Dicionário jurídico. Barueri/SP: Manole, 2014. Disponível em:
<https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788520448496/>. Acesso em: 15 set. 2016. p. 114.
38 ARAS, Vladimir. A técnica de colaboração premiada. Disponível em:
<https://blogdovladimir.wordpress.com/2015/01/07/a-tecnica-de-colaboracao-premiada/#sdfootnote2anc>. Acesso em: 6 set. 2016.
Entretanto há divergência doutrinária quanto a distinção da “delação premiada” e da “colaboração premiada”, pois, para alguns, trata-se da mesma coisa.
Lima contribui para a definição desse liame, fazendo distinção entre os termos:
A nosso ver, delação e colaboração premiada não são expressões sinônimas, sendo esta última dotada de mais larga abrangência. O imputado, no curso da persecutio criminis, pode assumir a culpa sem incriminar terceiros, fornecendo, por exemplo, informações acerca da localização do produto do crime, caso em que é tido como mero colaborador. Pode, de outro lado, assumir a culpa (confessar) e delatar outras pessoas – nessa hipótese é que se fala em delação premiada (ou chamamento ao corréu). [...] A colaboração premiada funciona, portanto, como o gênero, do qual a delação premiada seria espécie.39
De igual forma, para Masson e Marçal, a colaboração premiada é um instituto mais abrangente, pois, com o advento da Lei nº 12.850/2013, ela não está baseada apenas na delação de comparsas, mas prevê benefícios quando forem atingidos outros resultados.40
Contribuindo para a distinção dos termos, destaca-se o ensinamento de Gomes:
Não se pode confundir delação premiada com colaboração premiada. Esta é mais abrangente. O colaborador da Justiça pode assumir culpa e não incriminar outras pessoas (nesse caso, é só colaborador). Pode, de outro lado, assumir culpa (confessar) e delatar outras pessoas (nessa hipótese é que se fala em delação premiada.41
Já Vladimir Aras não se abstém de criticar alguns autores que definem o instituto como delação premiada por terem “ranço preconceituoso, para marcar o colaborador da Justiça com o ferro de ‘traidor’”, e também considera que a delação premiada, além de ter uma carga preconceituosa, ela não consegue expressar toda a extensão do instituto.42
39 LIMA, Renato Brasileiro de. Legislação especial criminal comentada: volume único. 4. ed. rev.,
atual. e ampl. Salvador: JusPODIVM, 2016. p. 519.
40 MASSON, Cleber; MARÇAL, Vinicius. Crime organizado. 2. ed. rev., atual. e ampl. São Paulo:
Método, 2016. Disponível em: <https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788530971595/>. Acesso em: 15 set. 2016. p. 114.
41 GOMES, Luiz Flávio. Corrupção política e delação premiada. Porto Alegre: Revista Magister de Direito Penal e Processual Penal. v. 2, n. 7, p. 108–109, ago./set., 2005. p. 108.
42 ARAS, Vladimir. A técnica de colaboração premiada. Disponível em:
<https://blogdovladimir.wordpress.com/2015/01/07/a-tecnica-de-colaboracao-premiada/#sdfootnote2anc>. Acesso em: 6 set. 2016.
Portanto, o termo “delação” ainda pode ter caráter pejorativo, já que sua função original, demonstrada nos antecedentes históricos, implica em traição. Nucci, ao fazer comentário sobre a delação premiada na Lei nº 8.072/90, que instituiu os crimes hediondos, afirma:
[...] houve por bem criar, no Brasil, a delação premiada, que significa a possibilidade de se reduzir a pena do criminoso que entregar o(s) comparsa(s). É o “dedurismo” oficializado, que, apesar de moralmente criticável, deve ser incentivado em face do aumento contínuo do crime organizado. É um mal necessário, pois trata-se da forma mais eficaz de se quebrar a espinha dorsal das quadrilhas, permitindo que um de seus membros possa se arrepender, entregando a atividade dos demais e proporcionando ao Estado resultados positivos no combate à criminalidade.43 O doutrinador Damásio de Jesus também trata a delação premiada como a incriminação de terceiro:
Delação é a incriminação de terceiro, realizada por um suspeito, investigado, indiciado ou réu, no bojo de seu interrogatório (ou em outro ato). "Delação premiada" configura aquela incentivada pelo legislador, que premia o delator, concedendo-lhe benefícios (redução de pena, perdão judicial, aplicação de regime penitenciário brando etc.).44
Entretanto, Cabette e Nahur consideram que houve uma alteração de nome sem alteração de natureza. Consideram que se trata duma tendência à crença a um nominalismo mágico, que nada interfere em sua natureza.45
Nesse sentido, Nucci também faz crítica à alteração do nome do instituto feito na Lei nº 12.850/2013:
Embora a lei utilize a expressão colaboração premiada, cuida-se, na verdade, da delação premiada. O instituto, tal como disposto em lei, não se destina a qualquer espécie de cooperação de investigado ou acusado, mas àquela na qual se descobrem dados desconhecidos quanto à autoria ou materialidade
43 NUCCI, Guilherme de Souza. Organização criminosa. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2015.
Disponível em: <https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/978-85-309-6501-3/>. Acesso em: 13 set. 2016.
44 JESUS, Damásio E. de. Estágio atual da "delação premiada" no direito penal brasileiro. Teresina: Revista Jus Navigandi, 2005. Disponível em: <https://jus.com.br/artigos/7551>. Acesso em: 13 set.
2016.
45 CABETTE, Eduardo Luiz Santos; NAHUR, Marcius Tadeu Maciel. Criminalidade organizada e globalização desorganizada: curso completo de acordo com a lei 12.850/13. Rio de Janeiro: Freitas
Bastos, 2014. Disponível em:
<http://bdjur.stj.jus.br/jspui/bitstream/2011/91626/criminalidade_organizada_globalizacao.pdf>. Acesso em: 13 set. 2016. p. 183.
da infração penal. Por isso, trata-se de autêntica delação, no perfeito sentido de acusar ou denunciar alguém – vulgarmente, o dedurismo.46
Portanto, diante do que está exposto, neste trabalho de conclusão de curso optou-se pelo termo “colaboração premiada”, pois, além de ser o termo utilizado na Lei nº 12.850/2013, entende-se que ele é mais abrangente. Por exemplo, a referida lei considera como colaboração “a localização de eventual vítima com a sua integridade física preservada”,47 sem que seja necessária a identificação dos demais
coautores e partícipes da organização criminosa, pois ela exige ao menos um dos resultados elencados nos incisos do seu 4º artigo.
2.4 EVOLUÇÃO LEGISLATIVA
Ao analisar a evolução do regramento da colaboração premiada através de leis, vê-se que ela aparece recentemente. As leis surgem para limitar o poder do Estado, para que as pessoas não sejam forçadas a colaborar com a Justiça. A delimitação da colaboração premiada é necessária para que não haja fascinação pelos resultados dela. Por essa razão, este subcapítulo trata da evolução legislativa, dispondo em ordem cronológica as leis que estabeleceram a colaboração premiada até chegar ao regramento atual. Mas é importante ressaltar que anteriormente as leis utilizaram vários termos para identificar o mesmo instituto.
Segundo Lima, não se pode negar que mesmo antes da década de 1990 já havia previsão de colaboração premiada, pois o Código Penal já estabelecia benefícios àqueles que colaborassem com a Justiça com a confissão espontânea, ou na forma das atenuantes genéricas, do arrependimento eficaz e do arrependimento posterior.48
Entretanto, a primeira lei que dispôs expressamente sobre colaboração premiada foi a Lei nº 8.072/90, que é a chamada Lei dos Crimes Hediondos. Ela prevê
46 NUCCI, Guilherme de Souza. Organização criminosa. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2015.
Disponível em: <https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/978-85-309-6501-3/>. Acesso em: 13 set. 2016.
47 BRASIL. Lei nº 12.850, de 2 de agosto de 2013. Define organização criminosa e dispõe sobre a
investigação criminal, os meios de obtenção da prova, infrações penais correlatas e o procedimento criminal. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2013/lei/l12850.htm> Acesso em: 26 out. 2016.
48 LIMA, Renato Brasileiro de. Legislação especial criminal comentada: volume único. 4. ed. rev.,
no art. 8º, parágrafo único, que “o participante e o associado que denunciar à autoridade o bando ou quadrilha, possibilitando seu desmantelamento, terá a pena reduzida de um a dois terços”.49
A Lei dos Crimes Hediondos também acrescentou o § 4º ao art. 159 do Código Penal, que tratava do benefício da delação de quadrilha ou bando em crime de extorsão mediante sequestro.50 Mas depois este parágrafo foi alterado pela Lei nº
9.269/96, que passou a exigir apenas concurso de pessoas para a possibilidade de benefício da colaboração premiada. Assim, no Código Penal está vigendo a seguinte redação: “se o crime é cometido em concurso, o concorrente que o denunciar à autoridade, facilitando a libertação do seqüestrado [sic], terá sua pena reduzida de um a dois terços.”51
Também houve a publicação da antiga Lei do Crime Organizado (Lei nº 9.034/95), que previa meios de combate às organizações criminosas. Mas ela foi totalmente revogada pela nova Lei das Organizações Criminosas (Lei nº 12.850/2013). No art. 6º, caput, da antiga lei, vigorava a seguinte redação: “nos crimes praticados em organização criminosa, a pena será reduzida de um a dois terços, quando a colaboração espontânea do agente levar ao esclarecimento de infrações penais e sua autoria.”52
Depois a Lei nº 9.080/95 incluiu a possibilidade de colaboração premiada na Lei nº 7.492/86 (define os crimes contra o sistema financeiro nacional) e na Lei nº 8.137/90 (define crimes contra a ordem tributária, econômica e contra as relações de consumo). Foi incluído nessas leis a seguinte redação: “nos crimes previstos nesta Lei, cometidos em quadrilha ou co-autoria, o co-autor ou partícipe que através de confissão espontânea revelar à autoridade policial ou judicial toda a trama delituosa terá a sua pena reduzida de um a dois terços.”53
49 BRASIL. Lei nº 8.072, de 25 de julho de 1990. Dispõe sobre os Crimes Hediondos. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8072.htm>. Acesso em: 13 set. 2016.
50 BRASIL. Lei nº 8.072, de 25 de julho de 1990. Dispõe sobre os Crimes Hediondos. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8072.htm>. Acesso em: 13 set. 2016.
51 BRASIL. Lei nº 9.269, de 2 de abril de 1996. Dá nova redação ao § 4° do art. 159 do Código Penal.
Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9269.htm>. Acesso em: 13 set. 2016.
52 BRASIL. Lei no 9.034, de 3 de maio de 1995. Dispõe sobre a utilização de meios operacionais para
a prevenção e repressão de ações praticadas por organizações criminosas. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9034.htm>. Acesso em: 13 set. 2016.
53 BRASIL. Lei nº 9.080, de 19 de julho de 1995. Acrescenta dispositivos às Leis nºs 7.492, de 16 de
junho de 1986, e 8.137, de 27 de dezembro de 1990. Disponível em:
A Lei de Lavagem de Capitais (Lei nº 9.613/98) também previu benefícios para aqueles que colaborassem com a Justiça. Sua redação foi editada, posteriormente, pela Lei nº 12.683/2012, e agora o art. 1º, § 5º passou a ter a seguinte redação:
A pena poderá ser reduzida de um a dois terços e ser cumprida em regime aberto ou semiaberto, facultando-se ao juiz deixar de aplicá-la ou substituí-la, a qualquer tempo, por pena restritiva de direitos, se o autor, coautor ou partícipe colaborar espontaneamente com as autoridades, prestando esclarecimentos que conduzam à apuração das infrações penais, à identificação dos autores, coautores e partícipes, ou à localização dos bens, direitos ou valores objeto do crime.54
Ao final da década de 1990, entrou em vigor Lei de Proteção a Vítimas e Testemunhas (Lei nº 9.807/99), que buscou uniformizar o tratamento que se dava a colaboração premiada. Além de prever a proteção aos colaboradores, ela estabeleceu possibilidade a colaboração premiada de forma ampla, ou seja, previu a possibilidade de concessão de benefícios para aqueles que tenham sido acusados de qualquer crime.55
Nos arts. 13 e 14, da Lei nº 9.807/99, ficou estabelecido o seguinte:
Art. 13. Poderá o juiz, de ofício ou a requerimento das partes, conceder o perdão judicial e a conseqüente extinção da punibilidade ao acusado que, sendo primário, tenha colaborado efetiva e voluntariamente com a investigação e o processo criminal, desde que dessa colaboração tenha resultado:
I - a identificação dos demais co-autores ou partícipes da ação criminosa; II - a localização da vítima com a sua integridade física preservada; III - a recuperação total ou parcial do produto do crime.
Parágrafo único. A concessão do perdão judicial levará em conta a personalidade do beneficiado e a natureza, circunstâncias, gravidade e repercussão social do fato criminoso.
Art. 14. O indiciado ou acusado que colaborar voluntariamente com a investigação policial e o processo criminal na identificação dos demais co-autores ou partícipes do crime, na localização da vítima com vida e na recuperação total ou parcial do produto do crime, no caso de condenação, terá pena reduzida de um a dois terços.56
54 BRASIL. Lei nº 9.613, de 3 de março de 1998. Dispõe sobre os crimes de "lavagem" ou ocultação
de bens, direitos e valores. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9613.htm>. Acesso em: 13 set. 2016.
55 LIMA, Renato Brasileiro de. Legislação especial criminal comentada: volume único. 4. ed. rev.,
atual. e ampl. Salvador: JusPODIVM, 2016. p. 528.
56 BRASIL. Lei nº 9.087, de 13 de julho de 1999. Estabelece normas para a organização e a
manutenção de programas especiais de proteção a vítimas e a testemunhas ameaçadas, institui o Programa Federal de Assistência a Vítimas e a Testemunhas Ameaçadas e dispõe sobre a proteção de acusados ou condenados que tenham voluntariamente prestado efetiva colaboração à
Já no século XXI, houve um esforço mundial de prevenção e combate à criminalidade organizada que resultou na Convenção de Palermo (Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional). Ela passou a ter vigor no Brasil com a promulgação do Decreto nº 5.015/2004. Nela há disposição de medidas para que os países incentivem a colaboração premiada, como se vê no artigo 26:
Cada Estado Parte tomará as medidas adequadas para encorajar as pessoas que participem ou tenham participado em grupos criminosos organizados: a) A fornecerem informações úteis às autoridades competentes para efeitos de investigação e produção de provas, nomeadamente
i) A identidade, natureza, composição, estrutura, localização ou atividades dos grupos criminosos organizados;
ii) As conexões, inclusive conexões internacionais, com outros grupos criminosos organizados;
iii) As infrações que os grupos criminosos organizados praticaram ou poderão vir a praticar;
b) A prestarem ajuda efetiva e concreta às autoridades competentes, susceptível de contribuir para privar os grupos criminosos organizados dos seus recursos ou do produto do crime.57
De igual modo, pouco depois, entrou em vigor no Brasil a Convenção de Mérida (Convenção das Nações Unidas Contra a Corrupção), promulgada pelo Decreto nº 5.687/2006, que também propõe o incentivo à colaboração premiada, com a “mitigação da pena”, a concessão de “imunidade judicial” e proteção dos colaboradores.58
Posteriormente, a Lei de Drogas (Lei nº 11.343/2006) instituiu a colaboração premiada quando houver concurso de pessoas nos crimes estabelecidos na referida lei, na seguinte redação do art. 41:
O indiciado ou acusado que colaborar voluntariamente com a investigação policial e o processo criminal na identificação dos demais co-autores ou
investigação policial e ao processo criminal. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9807.htm>. Acesso em: 13 set. 2016.
57 BRASIL. Decreto nº 5.015, de 12 de março de 2004. Promulga a Convenção das Nações Unidas
contra o Crime Organizado Transnacional. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2004/decreto/d5015.htm>. Acesso em: 13 set. 2016.
58 BRASIL. Decreto nº 5.687, 31 de janeiro de 2006. Promulga a Convenção das Nações Unidas
contra a Corrupção. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2004/decreto/d5015.htm>. Acesso em: 13 set. 2016.
partícipes do crime e na recuperação total ou parcial do produto do crime, no caso de condenação, terá pena reduzida de um terço a dois terços.59
Seguindo a ordem cronológica, vê-se a Lei Antitruste (Lei nº 12.529/2011) que prevê a possibilidade de acordo de leniência entre o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) e pessoas físicas ou jurídicas que forem autoras de infração à ordem econômica.
O art. 86 da Lei Antitruste estabelece:
O Cade, por intermédio da Superintendência-Geral, poderá celebrar acordo de leniência, com a extinção da ação punitiva da administração pública ou a redução de 1 (um) a 2/3 (dois terços) da penalidade aplicável, nos termos deste artigo, com pessoas físicas e jurídicas que forem autoras de infração à ordem econômica, desde que colaborem efetivamente com as investigações e o processo administrativo e que dessa colaboração resulte:
I - a identificação dos demais envolvidos na infração; e
II - a obtenção de informações e documentos que comprovem a infração noticiada ou sob investigação.
§ 1º O acordo de que trata o caput deste artigo somente poderá ser celebrado se preenchidos, cumulativamente, os seguintes requisitos:
I - a empresa seja a primeira a se qualificar com respeito à infração noticiada ou sob investigação;
II - a empresa cesse completamente seu envolvimento na infração noticiada ou sob investigação a partir da data de propositura do acordo;
III - a Superintendência-Geral não disponha de provas suficientes para assegurar a condenação da empresa ou pessoa física por ocasião da propositura do acordo; e
IV - a empresa confesse sua participação no ilícito e coopere plena e permanentemente com as investigações e o processo administrativo, comparecendo, sob suas expensas, sempre que solicitada, a todos os atos processuais, até seu encerramento.60
Já o art. 87, da mesma Lei, prevê benefícios com relação a crimes tipificados em outras leis, com previsão de extinção de punibilidade:
Nos crimes contra a ordem econômica, tipificados na Lei no 8.137, de 27 de dezembro de 1990, e nos demais crimes diretamente relacionados à prática de cartel, tais como os tipificados na Lei no 8.666, de 21 de junho de 1993, e os tipificados no art. 288 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 - Código Penal, a celebração de acordo de leniência, nos termos desta Lei, determina a suspensão do curso do prazo prescricional e impede o oferecimento da denúncia com relação ao agente beneficiário da leniência.
59 BRASIL. Lei nº 11.343, de 23 de agosto de 2006. Institui o Sistema Nacional de Políticas Públicas
sobre Drogas - Sisnad; prescreve medidas para prevenção do uso indevido, atenção e reinserção social de usuários e dependentes de drogas; estabelece normas para repressão à produção não autorizada e ao tráfico ilícito de drogas; define crimes e dá outras providências. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11343.htm>. Acesso em: 13 set. 2016.
60 BRASIL. Lei nº 12.529, de 30 de novembro de 2011. Lei Antitruste. Disponível em:
Parágrafo único. Cumprido o acordo de leniência pelo agente, extingue-se automaticamente a punibilidade dos crimes a que se refere o caput deste artigo.61
No mesmo sentido, a Lei Anticorrupção (Lei nº 12.846/2013) previu o acordo de leniência para pessoas jurídicas, podendo isentar a pessoa jurídica de sanções administrativas e reduzir em até 2/3 (dois terços) o valor da multa aplicável, sem prever benefícios no âmbito penal.62
Entretanto, vale ressaltar que o acordo de leniência é um instituto diferente da colaboração premiada, embora seja considerado semelhante, pois é a pessoa jurídica de direito público quem tem legitimidade para negociar, em conjunto com o Ministério Público, sem a necessidade de homologação judicial; prevê benefícios também na esfera administrativa; e pode ser realizado por pessoa jurídica. Mas é considerada uma espécie de colaboração premiada, porque ambas preveem benefícios para aqueles que colaborarem com a Justiça, oferecendo informações sobre o crime e os criminosos que participaram do crime.63
Por fim, passou a vigorar a nova Lei das Organizações Criminosas (Lei nº 12.850/2013), que estabeleceu regras mais claras e específicas sobre a colaboração premiada. Esta lei deu mais detalhes procedimentais sobre o instituto, sendo, portanto, a base das colaborações premiadas atuais.64
Ela estabelece a colaboração premiada no seu art. 4º:
O juiz poderá, a requerimento das partes, conceder o perdão judicial, reduzir em até 2/3 (dois terços) a pena privativa de liberdade ou substituí-la por restritiva de direitos daquele que tenha colaborado efetiva e voluntariamente com a investigação e com o processo criminal, desde que dessa colaboração advenha um ou mais dos seguintes resultados:
I - a identificação dos demais coautores e partícipes da organização criminosa e das infrações penais por eles praticadas;
II - a revelação da estrutura hierárquica e da divisão de tarefas da organização criminosa;
61 BRASIL. Lei nº 12.529, de 30 de novembro de 2011. Lei Antitruste. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2011/Lei/L12529.htm>. Acesso em: 13 set. 2016.
62 BRASIL. Lei nº 12.846, de 12 de março de 2004. Dispõe sobre a responsabilização administrativa
e civil de pessoas jurídicas pela prática de atos contra a administração pública, nacional ou
estrangeira, e dá outras providências. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2013/lei/l12846.htm>. Acesso em: 13 set. 2016.
63 ARAS, Vladimir. Acordos de colaboração premiada e acordos de leniência. Disponível em:
<https://blogdovladimir.wordpress.com/2015/05/12/acordos-de-colaboracao-premiada-e-acordos-de-leniencia/>. Acesso em: 6 set. 2016.
64 LIMA, Renato Brasileiro de. Legislação especial criminal comentada: volume único. 4. ed. rev.,
III - a prevenção de infrações penais decorrentes das atividades da organização criminosa;
IV - a recuperação total ou parcial do produto ou do proveito das infrações penais praticadas pela organização criminosa;
V - a localização de eventual vítima com a sua integridade física preservada.65 A propósito da aplicação das leis referidas, é imprescindível a transcrição do ensinamento do renomado professor Badaró:
De todos os regimes legais de delação premiada, o mais completo e detalhado é o da Lei das Organizações Criminosas (nº 12.850/13, arts. 4º a 6º) [...]. Sua aplicação, contudo, não será limitada à “colaboração processual” no âmbito da criminalidade organizada.
Terá incidência também, por analogia, a todo e qualquer caso de delação premiada. Isso porque não há nada de peculiar ou especial, em relação ao crime organizado, que justifique essa restrição de valoração da delação premiada, que não se encontre nos outros regimes especiais que a preveem. Não é, pois, um caso de lex especialis derrogat generali. O que inspira a indigitada regra é a necessidade de maior cuidado e preocupação com o risco de erro judiciário, quando a fonte de prova é um coimputado. E isso não é diferente se o agente colaborador participa de organização criminosa, de tráfico de drogas, de lavagem de dinheiro ou de crime contra o Sistema Financeiro nacional.66
Além disso, entende-se que deve ser aplicada a lei mais favorável ao réu, desde que presentes os requisitos legais.
2.5 CONCEITO DE ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA
Sabe-se que o crime organizado passou a ser pauta, com seriedade, do poder Legislativo brasileiro apenas na década de 1990. Dada a recentidade da preocupação do Estado sobre o combate às organizações criminosas, insta esclarecer sua conceituação.
Considera-se que primeira norma a tratar do crime organizado foi a Lei nº 9.034/95, que regulou os meios de combate às organizações criminosas, mas não tratou de defini-las e tipificá-las.67
65 BRASIL. Lei nº 12.850, de 2 de agosto de 2013. Define organização criminosa e dispõe sobre a
investigação criminal, os meios de obtenção da prova, infrações penais correlatas e o procedimento criminal. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2013/lei/l12850.htm> Acesso em: 26 out. 2016.
66 BADARÓ, Gustavo Henrique Righi Ivahy. O valor probatório da delação premiada: sobre o § 16 do
art. 4º da lei nº 12.850/13. Revista Jurídica Consulex, n. 443, fev./2015. p. 26-29.
67 MASSON, Cleber; MARÇAL, Vinicius. Crime organizado. 2. ed. rev., atual. e ampl. São Paulo:
Método, 2016. Disponível em: <https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788530971595/>. Acesso em: 15 set. 2016. p. 182.
Até a Lei nº 12.850/2013 entrar em vigência, havia uma insegurança jurídica sobre o tema. Embora houvesse referências as organizações criminosas, não havia uma tipificação legal como cominação de pena. Por esta razão, a conceituação dependia do entendimento de cada magistrado. Essa insegurança jurídica sobre o tema aparentemente seria desfeita quando se internalizou a Convenção de Palermo no Brasil, mas houve grande controvérsia jurisdicional. A Lei nº 12.694/2012 também se propôs a dar definição, mas se tendeu que seu conceito é limitado aos efeitos da própria lei.68
Por fim, entrou em vigência a Lei nº 12.850/2013, que tipificou os crimes referentes à organização criminosa, e deu o seguinte conceito, pela redação no §1º do art. 1º:
Considera-se organização criminosa a associação de 4 (quatro) ou mais pessoas estruturalmente ordenada e caracterizada pela divisão de tarefas, ainda que informalmente, com objetivo de obter, direta ou indiretamente, vantagem de qualquer natureza, mediante a prática de infrações penais cujas penas máximas sejam superiores a 4 (quatro) anos, ou que sejam de caráter transnacional.69
Para sua caracterização, compreende-se que deve haver, no mínimo, a associação de quatro pessoas (mesmo que seja menor de idade ou alguém coagido a integrá-la). Só não se considera que o agente infiltrado conte como participante, pois a agente se infiltra em uma organização criminosa que subsiste sem ele.70
A segunda característica é a estrutura ordenada e caracterizada pela divisão de tarefas, ainda que informalmente. Portanto, deve haver divisões de tarefas, conforme as capacidades de cada um, sem que seja necessário criarem regras claras sobre a atividade de cada um dos associados.71
68 BALTAZAR JUNIOR, José Paulo. Crimes federais. 10. ed. São Paulo: Saraiva, 2015. Disponível
em: <https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788502626188/>. Acesso em: 4 nov. 2016. p. 1279.
69 BRASIL. Lei nº 12.850, de 2 de agosto de 2013. Define organização criminosa e dispõe sobre a
investigação criminal, os meios de obtenção da prova, infrações penais correlatas e o procedimento criminal. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2013/lei/l12850.htm> Acesso em: 26 out. 2016.
70 GRECO FILHO, Vicente. Comentários à lei de organização criminosa: lei n. 12.850/13. 1. ed.
São Paulo: Saraiva, 2014. Disponível em:
<https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788502217805/>. Acesso em: 15 out. 2016. p. 21.
71 BALTAZAR JUNIOR, José Paulo. Crimes federais. 10. ed. São Paulo: Saraiva, 2015. Disponível
em: <https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788502626188/>. Acesso em: 4 nov. 2016. p. 1250.
Sobre a estrutura ordenada, Masson e Marçal entendem que não é necessário que seja uma estrutura rigorosamente definida, como uma estrutura empresarial, mas basta que haja um mínimo de ordem.
Em posicionamento oposto, Nucci faz consideração:
[...] exige-se um conjunto de pessoas estabelecido de maneira organizada, significando alguma forma de hierarquia (superiores e subordinados). Não se concebe uma organização criminosa se inexistir um escalonamento, permitindo ascensão no âmbito interno, com chefia e chefiados.72
Sobre a obtenção direita ou indireta, o professor Mendroni ensina que podem ser “suas atividades (diretas ou indiretas), como as pessoas – integrantes da Organização Criminosa (direta) ou terceiras pessoas, como testas de ferro (também chamados de “Laranjas”), parceiros, simpatizantes, contratados etc. (indireta)”.73
Entende-se também que “vantagem de qualquer natureza” é um termo muito amplo, não se limitando apenas à vantagem financeira. Pode ser, inclusive, vantagem política.74
Outra característica são que as infrações praticadas devem ter cominação máxima superior a quatro anos. Essas infrações devem ser analisadas separadamente. Não se pode somar as penas para chegar ao patamar exigido pela lei. Entretanto, para as infrações transnacionais essa regra não é aplicada.75
Todavia, urge esclarecer que a conceituação dada à organização criminosa possui grande divergência doutrinária e jurisprudencial. Infelizmente, este trabalho não daria conta de expor todo conteúdo a respeito dessa conceituação sem que abrisse mão de falar sobre tema original, já que a colaboração premiada demanda um estudo minucioso.
72 NUCCI, Guilherme de Souza. Organização criminosa. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2015.
Disponível em: <https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/978-85-309-6501-3/>. Acesso em: 13 set. 2016.
73 MENDRONI, Marcelo Batlouni. Comentários à lei de combate ao crime organizado: lei nº
12.850/13. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2015. Disponível em:
<https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788597001501/>. Acesso em: 8 out. 2016. p. 18.
74 GRECO FILHO, Vicente. Comentários à lei de organização criminosa: lei n. 12.850/13. 1. ed.
São Paulo: Saraiva, 2014. Disponível em:
<https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788502217805/>. Acesso em: 15 out. 2016. p. 21.
75 MASSON, Cleber; MARÇAL, Vinicius. Crime organizado. 2. ed. rev., atual. e ampl. São Paulo:
Método, 2016. Disponível em: <https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788530971595/>. Acesso em: 15 set. 2016. p. 182.