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Conclusão do Discurso de Constantínio – «Aprovadas e postas em

No documento História autêntica do Planeta Marte (páginas 81-83)

O grande Congresso e Revolução Social de Marte

7. Conclusão do Discurso de Constantínio – «Aprovadas e postas em

prática que fossem as quatro teses que tive a honra de apresentar, as condi- ções da vida humana devem melhorar notavelmente. Com a seleção cons- tante dos pais procriadores, a raça única resultante, de ano para ano, se tornará mais saudável e robusta, chegando por último a desconhecer-se a palavra doença. Havendo superabundância de alimentos, vestuários e calça- dos, é de supor que não mais haja o menor pretexto para guerras, revolu- ções, revoltas, greves e constantes roubalheiras e desordens. Sendo todos os homens entre si iguais (física, moral e intelectualmente), e bem assim todas as mulheres, todos e todas rigorosamente perfeitos e saudáveis, sem aberrações sensuais e nervosismos exaltados, e todos e todas contraindo o matrimónio assim que atingirem a idade da puberdade, é de esperar que de vez termine o estado caótico da presente sociedade irrequieta e decadente. Nunca mais o amor e a sensualidade seriam os causadores incansáveis de doenças, crimes, adultérios, divórcios, etc., etc.; antes pelo contrário cons- tituiriam uma espécie de sublime ambrósia dos deuses imortais e causa deleitosa e permanente de doce ventura e suave afeto de todos os viventes humanos dos dois sexos, sem nunca os cansar e aborrecer, eternamente contentes e firmes aos seus primeiros impulsos amorosos. Em suma, a vida familiar e a vida social em Marte devem melhorar notavelmente a todos os respeitos, deixando a palavra felicidade de ser uma mentira e pura ficção.

Mas para que a ambicionada felicidade, sempre até hoje arredia, esqui- ter à beira do fundo abismo! A sua ardente sensibilidade amorosa e ner-

vosismo sensual, não permitindo modelação nos excessos solitários nem a escolha de horas menos prejudiciais, arrastam as pobres vítimas da péssima organização social, em corrida vertiginosa, e por vezes galopan- te, para a clorose, a anemia, a paralisia local ou total, para a tuberculose, e por último para a morte com ímpia coorte de torturantes sofrimentos!

Do que fica exposto se conclui que, para conseguir-se que os entes dos dois sexos, assim que atingem a puberdade, possam viver contentes, felizes e gozar uma regular saúde, devem todos contrair o matrimónio. Mas, se assim suceder, como seria possível pôr em prática a minha quar- ta tese, sem a menor restrição nos casamentos?

Muito simplesmente… Bastava para isso que, na idade mais convenien- te, todos os entes do sexo feminino fossem conscienciosamente inspe- cionados, sendo-lhes esterilizados os ovários quando a sua constituição fosse de inferior qualidade, deixando de ser operados os entes do mesmo sexo com boa constituição, até ser preenchido o número que se julgasse indispensável para a continuação da raça humana com um quorum que tivesse sido adotado como o máximo. Ora, a população de Marte, antes da guerra, orçava por quatrocentos milhões, número altamente excessivo. Depois da guerra, devido a esta e devido também à fome, peste e outras doenças, ficou reduzida a população apenas a duzentos milhões. Supo- nhamos que estes duzentos milhões seja o número que desafogadamente corresponda às posses produtivas do planeta. Suponhamos mais: que o tempo médio da vida humana em Marte regule por cem anos e que a mé- dia dos filhos de cada casal seja de quatro. Bastava pois que, em cada ano, houvesse meio milhão de casamentos escolhidos e procriadores para que, no fim de cem anos, o número dos habitantes continuasse a ser de duzen- tos milhões, pouco mais ou menos, tendo em atenção a que alguns casais pudessem ter mais de quatro filhos e a que destes morresse o número cor- respondente ao aumento, antes de atingirem os cem anos. Pretendendo-se ao mesmo tempo o cruzamento das duas raças, como é indispensável a fim de haver uma única, é de toda a evidência, em pura equidade, que o milhão de nubentes deve ser constituído por duzentas e cinquenta mil

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práticos de execução como os que muito rapidamente alvitro, não será nunca com a opressão e o despotismo, dum lado, e com ódios, rancores, más vontades, greves, revoltas e a torpe mandriice, do outro lado, que esse desideratum será obtido. Se aquelas sublimes aspirações se não con- seguirem por meio da execução de atos sensatos, conducentes à execução cabal e completa das quatro teses fundamentais que apresento, então, Povos de Marte, perdei de todo a esperança de um dia as conseguirdes; e riscai dos códigos das nações mais liberais as três hipócritas palavras liberdade, fraternidade e igualdade, visto nunca ser possível cumpri-las!

Sim, Povos de Marte, para que os três sublimes princípios fundamen- tais, que estas três palavras representam, possam ter execução a valer, é indispensável que todos os membros da sociedade sejam entre si iguais, tanto quanto possível, não só fisicamente mas também psíquica, moral e intelectualmente, sendo, por conseguinte, indispensável também que se- jam aprovadas e devidamente executadas as quatro teses que proponho!

Como era possível que houvesse plena liberdade, existindo espalhada por todo o planeta uma chusma de epiléticos, de doidos maus, de vilões e bandidos, roubando e matando nas encruzilhadas das ruas e estradas e bem assim nas encruzilhadas, mil vezes mais fatídicas, da política vil e torpe que se apoia nas desordens, indisciplina social e permanentes distúr- bios, greves, revoltas e morticínios? Para que possa haver uma completa e salutar liberdade, condição indispensável de todo o progresso, satisfação e bem-estar individual e social, é necessário que deixem de haver todas as tremendas doenças físicas e morais que transformam o homem, o ser mais

sublime da natureza, em um monstro abaixo de todos os outros animais! Quem há com algum bom senso em todo o planeta Marte que julgue admissível e justo que o homem honrado e prestante, o cidadão patriota e benemérito considere como seu irmão e tenha sincero amor fraterno ao

ambicioso insofrido, ao perturbador social, ao bandido, ao assassino e ao mandrião devasso, brutal e cheio de vícios? Todo o bom patriota, e homem honrado a valer, jamais poderá nem deverá ter amizade fraterna por quem pense e proceda por modo tão diametralmente oposto ao seu ínfimo, puro e generoso sentir!

va e fugitiva, seja duradoura, estável e completa, sem receio de futuras perturbações e totais eclipses, e para que, paralelamente, se tornem em realidade a valer, tangível e evidente, os preconizados, mas inconsisten- tes, princípios da liberdade, fraternidade e igualdade, muito, muito mais, há ainda para fazer. Entre várias outras medidas, que seria pleonasmo estar agora a mencionar, lembro as seguintes que, naturalmente e sem esforço, se apresentam à minha ideia, cansada e exausta pelo tão extenso e mal-ali- nhavado discurso com que tenho abusado da vossa atenção e amabilidade. A primeira deveria consistir em os filhos pertencerem ao pai e à mãe unicamente o tempo que for julgado indispensável para sua amamenta- ção, devendo, no fim desse tempo, seguir para grandes internatos, onde passam a viver em comum por conta da Sociedade até à idade da puber- dade. A segunda consistiria em tudo ser do Estado e de todos e nada ser de ninguém, devendo as casas de habitação dos casais estéreis ser iguais entre si e igualmente mobiladas, sendo um pouco maiores e mais bem mobiladas as casas destinadas aos casais procriadores. A terceira pode- ria constar em as cozinhas e bem assim as refeições serem em comum. A quarta enobrecer-se-ia estatuindo a obrigação de todos trabalharem, desde os vinte anos aos oitenta, pelo menos, um determinado número de horas em função das necessidades gerais, devendo os trabalhos mais rudes e pesados ser executados por todos, com exceção única dos que tenham a seu cargo serviços permanentes inadiáveis, etc., etc.

Eis aqui estão, senhor presidente e senhores congressistas, os tópi- cos principais e fundamentais, justificativos e explicativos das minhas quatro teses!... Estarei iludido?... Estarei em erro?... Será esta minha as- piração um mero sonho enganador da minha pobre imaginação, da mi- nha tristonha e gemedora alma, soluçando aflita sobre as horripilantes misérias da mesquinha Humanidade?... Só uma rigorosa e conscienciosa experiência poderá dar cabal e completa resposta no futuro. Mas, ilus- tres senhores, convençam-se de que, se não se conseguir uma paz dura- doura em Marte, uma geral e benéfica harmonia, um bem-estar perma- nente e uma apetecível e completa felicidade com a aprovação das quatro bases fundamentais ou teses que proponho, juntamente com os meios

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XI

Votação das Quatro Teses de Constantínio

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