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Continente, ilhas, mares, lagos e neves eternas

No documento História autêntica do Planeta Marte (páginas 51-53)

1. Continente e ilhas – Conforme se viu no capítulo anterior, em segui-

da e muito posteriormente à formação da massa líquida incandescente é que se formou a crusta sólida, que somente começou a ter uma certa estabilidade, assim que adquiriu conveniente espessura. A partir desse momento, embora vagamente, já se antevia a configuração geral futura do continente e ilhas; mas só depois que os vapores de água da atmosfera se condensaram e se precipitaram em cataratas sobre o solo, formando rios, lagos e mares, é que a forma do continente e das ilhas se definiu a

valer. Entretanto, muitas alterações ainda tiveram lugar até chegarem ao estado atual, afundando-se ilhas que nunca mais foram vistas e elevan-

do-se outras do meio da vastidão das águas. ver-se a flora e a fauna, os detritos de vegetais e animais foram também

transportados, daí resultando a variedade de fósseis que se encontram nas rochas sedimentares.

Quando a flora já havia tomado um desenvolvimento notável por toda a parte, sucedeu em muitos pontos da superfície de Marte que, em razão das grandes convulsões interiores, muitas matas virgens, vastís- simas e densas, foram precipitadas, com os terrenos onde vegetavam, em grandes profundidades, ficando cobertas de água e, mais tarde, dos detritos do solo. Devido à grande pressão das águas e terrenos, às infil- trações e bem assim à elevada temperatura do interior do planeta, a essas matas é atribuída a proveniência dos importantes jazigos de carvão de pedra e de petróleo. Apesar de terem sido abundantíssimos, a sua ex- tração aumentou por tal modo de ano para ano que, quando teve lugar a grande guerra de há cem mil anos de Marte, já estavam quase esgo- tados. Essa circunstância, e a sofreguidão com que em todas as nações se olhavam os jazigos preciosos que ameaçavam esvair-se, concorreram bastante para precipitar a guerra.

Conforme disse, quando se depositaram as rochas sedimentares, eram todas horizontais, correspondendo as diversas camadas sobrepos- tas às épocas sucessivas da sua formação. Mas, como algumas destas ro- chas se formaram, estando ainda parte da massa interior do planeta no estado líquido e incandescente, daqui resultou que muitas delas foram deslocadas das fundas bacias onde foram depositadas, sendo levantadas a grande altura, ou sozinhas ou juntamente com as rochas plutónicas, aparecendo, sós por sós, a formar montes e planaltos, ou por cima das rochas plutónicas que, num e noutro ponto, erguiam e erguem ao espaço os seus blocos arrogantes. Por isso as rochas sedimentares raríssimas vezes se encontram com a sua estratificação rigorosamente horizontal, mas quase sempre inclinada e, por vezes, com exagerada inclinação.

Além das rochas plutónicas, vulcânicas e sedimentares, ainda se en- contram em Marte muitas rochas cristalinas de muito grande beleza e brilho, parecidas com as que na Terra têm o nome de “metamórficas”. Supõem os geólogos marcianos que estas rochas são provenientes das

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quenta metros, vindo os terrenos sempre em declive até toparem com o mar, entremeados, entretanto, aqui e acolá, por alguns planaltos, peque- nos montes, outeiros e as duas crateras extintas já referidas.

2. Mares e lagos – Como era de supor, a superfície dos mares e lagos foi

aumentando com o arrefecimento de Marte, pelo aumento da condensa- ção do vapor de água que se encontrava espalhado na atmosfera, e bem assim pela grande porção de terrenos e detritos orgânicos arrastados pelos rios para os mesmos mares e lagos, e que, depositando-se no seu leito, elevavam o nível daqueles, que passavam a invadir as terras baixas limítrofes. Mas, se aumentava a extensão dos mares e lagos, diminuía, por outro lado, a sua profundidade. Assim, o máximo valor desta, que até hoje tem sido encontrado, é de mil e trinta metros, no paralelo aus- tral de 55⁰ e longitude de 330⁰. Especialmente os mares, lagos e canais do hemisfério norte são, todos eles, de muito pequena profundidade.

Quando começaram a cair as chuvas sobre o continente e ilhas, a água, ao mesmo tempo que arrastava consigo alguns terrenos, dissolvia vários sais que existiam naqueles, predominando o cloreto de sódio e alguns sulfatos. Por isso é que as águas dos mares e lagos são mais ou menos salgadas. Atualmente, em que todos os lagos estão em comunica- ção com o mar por meio de canais, a percentagem de sais em todos eles é sensivelmente a mesma. As marés solares de Marte são pequenas, por duas razões: a primeira pelo facto de o Sol estar muito longe, e a segunda pelo motivo de, antes mesmo de se construírem os vastíssimos canais, o grande continente boreal não apresentar extensos promontórios ou pro- longamentos pelo mar dentro. Por isso a maré solar, seguindo de oriente para ocidente, e não encontrando grande oposição ao seu movimento, nunca toma proporções de alguma importância. Enquanto às marés, causadas pelos dois satélites, são insignificantes, apesar da proximidade destes, pelo motivo da pequenez de um e do outro. As marés solares que, antes de se construir a importante rede de canais, eram pequenas, depois dela construída, mais pequenas se tornaram.

Antes dos antepassados dos atuais marcianos terem dado início à construção de grandes canais e das bacias a que estes convergem, a super- fície sólida da crusta do planeta regulava quase por dois terços da parte líquida. Atualmente, devido à grande superfície dos canais e à elevação do nível dos mares causada pelos terrenos que, arrastados pelos rios, se foram acumulando no leito daqueles, a superfície total dos continentes e ilhas, [ainda] maior do que a dos mares e lagos, contudo a diferença entre o solo e o mar não é sensivelmente grande. Pode dizer-se que, antes da construção dos grandes canais, havia um único continente grande, ocu- pando quase todo o hemisfério norte, não atingindo o equador em al- guns pontos, mas ultrapassando-o noutros; e havia muito grandes ilhas e também algumas pequenas, espalhadas pela vastidão do mar que vinha desde o polo Sul até entestar com o grande continente boreal.

Nos tempos primitivos de Marte, depois de estarem fixadas as formas gerais do grande continente boreal e ilhas, sobre toda a sua superfície sólida elevavam-se alguns montes e cordilheiras, especialmente naque- le imenso continente, e bem assim bastantes vulcões, muitos deles em quase constante atividade. Entretanto, a massa líquida incandescente do interior do planeta ia arrefecendo e, paralelamente, ia diminuindo o nú- mero de vulcões em atividade, até se apagarem todos. Atualmente, não só não há um único vulcão em atividade, mas das crateras dos vulcões extintos, como disse no capítulo anterior, existem percetíveis apenas duas, e isto devido à solicitude dos marcianos em conservar aquele mo- numento da primitiva fase da consolidação da crusta de Marte. Enquan-

to à massa líquida incandescente do seu interior, se alguma existe ainda, deve ser insignificante, segundo a opinião dos geólogos marcianos.

A constante erosão das rochas rijas e terrenos leves, causada pelas chuvas, neves, ventos e ainda pelas reações químicas auxiliadas pelos gases da atmosfera, durante dezenas e centenas de milhar [sic] de anos, deu lugar a que as montanhas, crateras extintas e planaltos fossem cons- tantemente baixando, não havendo em todo o hemisfério sul um único monte com elevação superior a duzentos metros, apenas se encontrando no polo norte um maciço de montes com a elevação de oitocentos e cin-

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