O presente estudo nos permitiu concluir a partir dos objetivos propostos que os estudos epidemiológicos sobre a Obesidade Mórbida e a Cirurgia Bariátrica trazem um alerta aos profissionais de saúde que lidam com este tipo de população.
O estudo estatístico do perfil sócio demográfico foi importante para realizar a estatística em psicologia da saúde, contribuindo para o estudo da epidemiologia na obesidade, e conhecer o perfil do paciente com obesidade da clinica individualizada, que são pacientes que apresentam nível intelectual médio e superior, provenientes de vários lugares do Brasil com hábitos e crenças alimentares diversas, mas que já fizeram uma triagem prévia com profissionais de saúde e já tem indicação cirúrgica.
Quanto à percepção das características de personalidade, ficou claro que o questionário apresenta viés, não podendo ser usado para diagnóstico clínico, porem o preenchimento do questionário facilita o rapport, permitindo ao paciente a reflexão quanto aos seus sentimentos e comportamentos alimentares como também facilita a escuta psicológica.
Dentre várias falas pudemos observar um pedido de socorro quando a paciente Marcia diz durante a entrevista psicológica: “Ninguém se incomoda como o que eu sofro”. Até este momento ninguém havia perguntado a ela do que realmente sofria. No caso 2, Maria em um de seus discursos relatou durante a aplicação do questionário “Achava que os médicos não estavam dando conta do meu caso”. A paciente apresentava dificuldade de adesão aos tratamentos e projetava nos profissionais seu fracasso e insatisfação com os resultados da primeira cirurgia, esquecendo-se dos potes de sorvete que ingeria quase que diariamente. Frente ao insucesso dos tratamentos o mundo psíquico usa do deslocamento do conflito para órgãos do corpo atribuindo ao mundo externo a origem da problemática. A dificuldade na simbolização dos estímulos físicos e /ou emocionais que se apresentam à consciência ficam impedidos de elaboração sofrendo a interferência da distorção da percepção da imagem corporal marcando o corpo físico.
Reafirmou-se que a escuta psicológica psicanalítica é um meio facilitador e um procedimento precioso para o trabalho em hospitais, centros clínicos de excelência os quais apresentam grande volume de pacientes a ser atendidos.
Através de inúmeros questionários aplicados e observação na clínica das evidências pudemos elaborar programas de atendimentos individuais, de grupo e de melhor qualidade,
atendendo as exigências destes pacientes. Percebeu-se através das respostas e discurso apresentado na aplicação do questionário que os pacientes com obesidade percebem que o “outro” o vê, como relaxado, preguiçoso, facilitando seu isolamento social e tristeza.
Há um pensamento mágico a ser trabalhado durante a aplicação do questionário e entrevista semidirigida sobre as crenças idealizadas frente à cirurgia e o emagrecimento e assim convocar o paciente a ocupar o lugar do sujeito implicado em seu processo pré e pós- operatório. Outro aspecto importante que veio á tona na aplicação do questionário foi a preocupação com a estética, ser gordo ou ser magro que na sociedade atual aparece veiculado e imposto pela mídia como padrões de beleza e na maioria das vezes, sem relação clara com a saúde e doença. O paciente com obesidade sofre profundamente sob estas influências da sociedade contemporânea revelando nas consultas sentimentos de tristeza, raiva, medo dos próprios impulsos fomentando sentimentos de culpa e inadequação social.
O questionário estudado mostrou as contradições entre os grupos de respostas e a entrevista psicológica individual. Essas contradições se apresentam por motivos diversos como o medo da não aprovação do convênio médico para realizar a cirurgia, por dificuldades em discernir o que representa determinado sentimento ou emoção, por ansiedade pelo contexto no qual esta inserido (pré-cirurgia).
As direções da auto-percepção podem ser mais bem investigadas lançando-se mão do teste projetivo de uso exclusivo do psicólogo, nos casos em que a aplicação do questionário e a entrevista semidirigida não contribuíram satisfatoriamente para elaborar uma hipótese diagnostica é realizada a aplicação dos testes projetivos
O investimento no período pré-cirúrgico tem o intuito de facilitar a adesão do paciente ao tipo de tratamento proposto em longo prazo com necessidade de acompanhamento psicológico do paciente no pós-operatório.
Por outro lado, o método clínico nos permitiu aprofundar a compreensão da psicodinâmica destes pacientes e transitar entre suas fantasias, medos e desejos, trazendo à luz da consciência os conflitos que traduzidos pelo psicólogo possibilita a re-significação dos conteúdos latentes. Na sessão psicanalítica, fenômenos intersubjetivos acontecem e podem redirecionar as necessidades emocionais e impressões da infância relativa ao alimento; nem sempre a primeira experiência com a alimentação foi registrada como suficiente, ou seja, ora gratificante, ora frustrante. Após a cirurgia os pacientes mostram que há re-edição dessas primeiras vivências alimentares, o tipo de vínculo com o alimento e muitas vezes concretamente se apresentando às consultas com recipientes significativos.
A avaliação psicológica mostrou que o uso combinado da entrevista semidirigida e das técnicas projetivas fornecem pistas para compreensão do diagnóstico psicodinâmico e da estrutura psíquica, do sintoma e defesas da obesidade se encaminhando para novo estilo de vida.
A intervenção psicológica após a cirurgia nos dois casos clínicos ajudou as pacientes refazerem a imagem corporal que tinha tido rápida alteração com o emagrecimento, levantando questões de identidade que estavam inconscientes e favoreceu a consciência da necessidade de adesão ao tratamento psicológico.
Concluindo este trabalho a leitura psicanalítica dos comportamentos manifestos e latentes, dos pacientes com obesidade e frente a subjetividade, tanto na obtenção das repostas ao questionário de avaliação e intervenção psicológica no segmento pós-operatório, nos deixou claro, que o psicólogo clínico deve estar atento à escuta do que não foi dito, do significado e significantes das inquietações e sofrimento psíquico. Esse é o campo de subjetividade onde ocorre a atuação do psicólogo.
Esse campo oferece uma importante oportunidade de obtenção de dados podendo ir além daqueles colhidos na situação diagnóstica através dos testes projetivos. Utilizamos o TRO, instrumento exclusivo de atuação e de escuta do psicólogo, importantes no campo da subjetividade. Embora tenhamos utilizado o referido instrumento para fins deste trabalho, a literatura nos coloca que testes projetivos não são instrumentos utilizados como rotina de avaliação o que dificulta a compreensão e comparação da psicodinâmica de diferentes grupos de pacientes.
Com base nos resultados da presente pesquisa propõe-se a elaboração de uma cartilha dirigida aos profissionais que compõe a equipe multidisciplinar (médico, nutricionista, fisioterapeuta, medico cirurgião, entre outros) com a finalidade de esclarecer os movimentos psíquicos inconscientes, tipo de patologia que possa vir prejudicar a adesão do paciente em todos segmentos do tratamento cirúrgico e possíveis encaminhamentos para a área de saúde mental (medida preventiva). Aos pacientes uma outra cartilha com base teórica e cunho científico com conteúdo traduzido para a linguagem do senso comum com alguns tópicos que esclareçam a importância da intervenção psicológica.
Diante das dificuldades apresentadas pelos pacientes e verificadas neste estudo entre o distanciamento da razão, emoção e simbolização, cabe ao profissional da área de saúde mental elaborar estratégias e meios concretos, visuais, táteis, por meio de recursos áudio visuais,
oficinas de vivencias para sensibilizar e acessar o mundo mental destes pacientes com obesidade e transtornos alimentares.
Propõe-se ainda a elaboração de um questionário para mensurar a capacidade de retenção de informações recebidas da equipe multidisciplinar durante o curso de pré- operatório. O questionário será elaborado com questões referentes aos itens mais importantes abordados na aula de pré –operatório e aplicado em três etapas a seguir: a primeira será aplicada após o curso pré-operatório, a segunda após um mês de cirurgia e a terceira após seis meses de pós-operatório. Desta forma além de verificar a retenção das informações será também avaliado a eficácia da metodologia do curso pré-operatório.