Do presente estudo, podemos concluir que a apresentação clínica do Síndrome de Wallenberg inclui principalmente a vertigem e as cefaleias, duas entidades que, apesar de bastante comuns, poucas vezes são relacionadas com um evento isquémico ou, quando o são, os meios de imagem usados para chegar ao seu diagnóstico são pouco fiáveis, como por exemplo, a TC. Apesar disto, foi verificada a existência de diversas lacunas na informação, presente no relatório da urgência, relativa aos sinais e sintomas dos pacientes no serviço de urgência. Tal constatação, pode dever-se tanto à ausência da recolha da história clínica e da realização dos exames físico e neurológico no serviço de urgência, assim como à falta do respetivo registo no relatório do episódio urgente.
No que diz respeito ao tempo que os pacientes com SW demoraram a ser diagnosticados, neste estudo concluiu-se que, quando comparados tanto com pacientes com outros POCI’s como com TACI’s e PACI’s, estes, para além de demorarem mais tempo, recorrem, pela mesma sintomatologia, com uma frequência superior ao serviço de urgência. Isto pode dever-se ao facto de a vertigem ser o principal sintoma do SW; é um sintoma bastante subjetivo e que, na maioria das vezes, é associado a patologias mais benignas, como por exemplo, as de origem periférica. Como possível consequência, estes pacientes poderão ser medicados para uma patologia erradamente diagnosticada, o que poderá levar à permanência dos sintomas e ao regresso ao serviço de urgência com a sintomatologia inicial.
Dentro dos POCI’s, os pacientes que têm como topografia de lesão a artéria Basilar são os que têm níveis mais elevados de dependência para as atividades da vida diária à alta, assim como taxas de mortalidade no internamento e no primeiro ano após a alta mais elevadas. Apesar disto, no presente estudo, 50% dos pacientes com SW ficaram dependentes de outrem e 10% faleceram durante o primeiro ano após a alta.
O SW, quando diagnosticado de forma tardia, pode provocar uma morbilidade e mortalidade considerável, apesar do seu bom prognóstico quando comparado com outros síndromes cerebrovasculares. Deste modo, torna-se importante a divulgação em meio clínico da existência desta entidade clínica e das suas particularidades, assim como, a consciencialização dos profissionais de saúde para a recolha de uma história clínica e exame físico cuidados de todos os pacientes, particularmente, em contexto de urgência.
Quando suspeitamos de AVC’s da fossa posterior, o exame imagiológico de eleição é a RMN, exame este que nem sempre está disponível em serviço de urgência, o que pode ser a razão para a pouca utilização deste exame quando comparado com a TC (tal como verificado neste estudo). No entanto, podem ser utilizados exames à cabeceira do doente para a realização do diagnóstico diferencial, tomando particular importância a recolha da história clínica e a realização de um exame neurológico sumário.
39 Torna-se relevante salientar que, uma possível solução para diminuir o intervalo de tempo desde o AVC até ao internamento, poderia passar pela aplicação da Escala do NIH no serviço de urgência a todos os pacientes com suspeita de AVC e cuja apresentação clínica inclua a vertigem.
Para finalizar, importa relembrar a necessidade de novos estudos, de preferência prospetivos, com uma amostra mais representativa da população, para conseguir confirmar com um rigor científico superior as associações encontradas no presente estudo.
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